Thursday, September 10, 2015
A relação com a imprensa
Tem se tornado cada vez mais comum a produção de agências de notícias e comunicação telefonar, dizendo: Nas últimas duas semanas, já tentei falar com 6 profissionais antes de você, nenhum poderá vir no evento que começa daqui a 27 minutos, o senhor é nosso convidado especial, chega em quanto tempo? Legal, né? Fico me sentindo super valorizado como profissional. rsrs Pessoal, vcs precisam aprender a explorar economicamente nossa vaidade! Os vaidosos ficamos bestas e facinhos. Fica a dica, produção. (o fato é real, o texto é uma brincadeira).
Sunday, September 06, 2015
Da recusa
Acho engraçado notar que para muitas pessoas recusar a autoridade é algo que envolve um tremendo sentimento de culpa. Pois, de minha parte, eu me divirto na recusa da autoridade, é uma atividade de riso, a recusa. Do mesmo jeito que não sinto nenhuma culpa em recusar a autoridade, não sinto nenhuma necessidade de vida eterna, fico é feliz com a certeza de que a vida possui um final, que a morte é um alívio ao sofrimento de um corpo que envelhece. Não tenho necessidade de Deus. Apenas de arte, ciência e amor. Tudo entre mortais. O desejo de imortalidade, projetado em Deus, é uma arrogância humana. Adoro a finitude! É o que possibilita um desejo secular.
Devir-criança com as crianças
Quando vejo meus amigos e minhas amigas com suas crianças, no seu devir-criança com suas crianças, ao vivo e em fotografias por aqui, eu me ponho todo sentimental, de verdade, fico emocionado, pois sei que a mensagem invisível que nos liga é: se há crianças, há esperança, pois há transformação. Por isso, desejamos as crianças do mundo inteiro vivas, sorridentes, brincalhonas, sabidas, serelepes, para que o mundo se transforme para melhor, para ter sabor, saber e alegria. As crianças são a salvação. Esqueçam suas igrejas, seus cargos, seus partidos, seus estados, seus bens de capital, esqueçam tudo e escutem as crianças, vamos aprender com as crianças qual o caminho, nós, adultos, temos que voltar a ser crianças, se quisermos desfazer esse nó cego que demos no mundo.
Um dia de sábado!
Sábado de boas! Lendo, escrevendo, ouvindo Belchior, Ednardo e Fagner. Feliz com as conquistas dos amigos, alunos, orientandos, virando colegas, existe alegria maior que acompanhar um orientando seu se tornar um colega seu? É uma maravilha! Oxalá, meu pai. Essas novas gerações estão vindo com tudo, isso me deixa muito otimista. Todo educador é otimista, né? Seria uma contradição performativa ser um educador pessimista. Quem quiser ser pessimista, seja um bode velho, um professor, um hierarquizador, mas vai indo que eu não vou. O bom é surfar na transversalidade dos espaços, né, Pablo? Sigamos nos multiplicando, pois conhecer é multiplicar, como fala o prof. Eduardo.
Manias de sebo
Estou na livraria. Num sebo. O olho bate diretamente sobre a lombada de uma obra muito rara. Disfarço. Sem imediatismo. Mudo a atenção do olhar para outro livro e demonstro muito interesse no livro que não tenho nenhum interesse. Pergunto o preço. Fico decepcionado. É muito caro. Peço desconto no livro que não vou levar. Não fico satisfeito com o desconto. Faço um cara de frustração. Faço que vou embora. Como quem não quer nada, pego um livro bem baratinho e o outro que eu realmente desejo. Levo para o livreiro, como quem diz, vou levar esses aqui para não ficar tão frustrado por não poder comprar o outro. Isso apenas usando comunicação não verbal. Quando ele fala o preço do livro que eu realmente quero, falo: esse também é caro, assim? Estou sem sorte. Aí ele me dá um desconto super generoso, pois quer agradar o cliente para retornar e comprar o livro que olhei antes. Acabo levando o livro que eu muito desejava por um preço super camarada. Manias de sebo.
A morte e os corpos capitalizados
Os corpos estão adicionados ao cansaço desde muito tempo estertorando até mesmo frente à morte! As coisas estão transformando em capitalização até mesmo a morte!
Síria
Meu avô materno contava para minha mãe como o avô dele chegou da Síria para morar nos sertões do Ceará. Era comerciante de quinquilharias nos altos das serras e nos planaltos. Esse sangue sírio me faz tremer nas bases, um tremor que não sei explicar de onde vem e para onde vai. Me deu vontade de voltar para Damasco. Uma coisa estranha. Uma loucura.
Meia-noite
Quando dá meia-noite, eu fico eriçado! Penso muito com o corpo, tateio conexões com o amanhã. E depois de tudo, tomo uma cachaça para desopilar.
Minoritários e em fuga.
Somos poucos mas somos muitos. Uns poucos multiplicados na fragmentação, não dá em nada, mas é o que somos sem estados de ser, nesse devir-minoritário, cuja mensagem é impossível, tal qual o real, e não combina com esses lugares do amanhecer. A condição humana é a fuga, uma fuga insana, pois o insano é o fundamento do humano. E a gente vai seguindo, buscando o excesso de sentido, a negação da falta.
A genealogia do sertão
Meu avô paterno era pernambucano, dos sertões de Pernambuco, entre Floresta e Belém do São Francisco. Ele veio para Jardim, no sul do Ceará, na fronteira, depois desceu para Missão Velha e em Missão Nova, distrito de Missão Velha, nasceu meu pai. Meu avô se chamava Manoel Cassiano de Sá e meu pai se chama Filadelfo de Sá. Eu me chamo Leonardo de Sá. Com eles, eu aprendi: a selar uma montaria, a cortar cana no eito, a fazer uma queimada corretamente, a fazer a roça, limpar, plantar, cuidar, colher, armazenar, que a medida das coisas são em braças e alqueires e em léguas, a correr dentro do mato, a mijar na ferida quando não se tem solução melhor, a cuidar das próprias perebas, a tirar um bicho de pé com uma agulha, a subir em árvores, a passar da copa de um pé de laranjeira para outra copa sem cair, a correr na vaquejada, a dançar forró, a tomar cachaça, a usar corretamente uma peixeira para trabalhar ou se proteger, a usar armas de fogo, a atirar, a caçar, a tratar a caça, a dar bom dia para todo cidadão, a ser gentil com as pessoas amigas e com forasteiros também, a observar se há tocaia nas curvas, a perceber quando a montaria está avisando que há cobra ou algum perigo na estrada escura pelo comportamento do animal, a matar um bode e esfolá-lo, a negociar na feira, a ser honesto, trabalhador, honrar a família e não ser frouxo, não temer nenhum bicho vivente, pois, se é vivente, pode morrer também, pois cada qual tem sua hora e não é preciso temer a hora de morrer. Além de estudar muito, ler, escrever, gostar de poesia, chamar as pessoas amigas de poetas e filosofar. São algumas coisas que aprendi com meu avô Manoel Cassiano de Sá, que Deus o tenha, e meu pai, Filadelfo Sá, que continua me ensinando muitas outras coisas, graças a Deus. (Isto não é um texto ficcional, é um autorretrato etnográfico). Os tempos mudaram muito. Aos 12 anos de idade, lembro que ganhei um punhal com um cabo estilizado, punhal comprado no mercado de Juazeiro do Norte, eu andava com ele no cós da calça, morto de orgulhoso, tinha virado homem, e aí tinha que começar a beber, fumar e transar também, entende? E saber montar besta de vaquejada, pois correr numa besta de vaquejada não é para qualquer um. Desejar ganhar um mangalarga marchador era um sonho! Meu primo, que Deus o tenha, me emprestava o dele para eu cavalgar de vez em quando. É um cavalo altíssimo e forte, uma potência. Um galope incrível. Mas a besta de vaquejada é mais ágil, corre com o vento. A maior emoção de todas é singrar uma estrada vicinal a mais de mil, agarrado na crina do animal. É como voar baixo. Aos 13 ganhei uma espingarda, uma socadeira, super bem feita numa das centenas de fabriquetas de armeiros do sertão, e aos 14 ganhei outra espingarda, uma automática, de repetição. Aprendi a atirar de revólver, de pistola e também de doze. Era assim que os meninos eram socializados nos sertões do Ceará, até pouquíssimo tempo atrás, será que deixaram de sê-lo? Será? Ao mesmo tempo, ensinavam para a gente que tinha que ser doutor. Tinha que estudar muito para ser doutor. Era assim. Não estou julgando, apenas relatando como era, relatando as origens. A gente lia: Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Machado de Assis, José de Alencar, Antonio Bezerra, Oliveira Paiva, Jáder de Carvalho, Leonardo Mota, Capistrano de Abreu, além de Homero, Hesíodo, Platão, Aristóteles, Plutarco, Virgílio, Petrônio, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Dante, Petrarca e Cervantes, entre outros, era o que se lia nos sertões do Ceará, quando era rapazola. Era o que a gente tinha que ler para virar homem. Sobre cabarés, não vou falar nada! Para se fazer antropologia, é preciso fazer a reflexão sobre qual a concepção de pessoa na qual o antropólogo foi endoculturado. Não me tornei pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência à toa.
A cobra mais humana que a gente
Cobra é mais humana do que gente. A cobra, quando sente a presença da gente, sai fora, para deixar o caminho livre, cobra de boa, ela só dá o bote quando se assusta, quando é pega desprevenida, tipo a gente quase pisando na siesta dela. Cobra é um bicho muito humano. Humano não é que nem cobra, é pior, é muito pior.
Interno contra a internação
Fui interno de uma instituição que exigia que na entrada, a caminho das celas coletivas, a gente levantasse as pernas das calças para atestar que estávamos usando meias brancas, totalmente brancas, sem nenhum detalhe, nem marca. Quem estivesse sem as meias brancas regulamentares, era barrado e direcionado para uma sala de triagem para encaminhamento de uma punição. Na minha revolta solitária, eu ia com uma meia branca de listras, era barrado, mas tinha um par de meias brancas, de tipo regulamentar, na mochila, eu as pegava e as vestia pelo avesso. O bedel dizia: está pelo avesso. Eu respondia: não há nada no regulamento sobre isso. E entrava.
O robô
Muito frequentemente, muito recorrentemente, sou barrado nesses testes para identificar se somos nós mesmos ou um robô. É uma experiência angustiante que implode com minha identidade pessoal. Me deixa frenético, dando looping. De 10 vezes, em 8 tentativas a máquina me reprova, identificando-me como máquina virtual. Por que será?
Briga de faca
Nos bares onde ando, desde rapazote, bares atolados de homens tristonhos, uns mansos, outros de temperamento violento, para, de repente, morrer um, de morte matada, é bem facinho. Já vi muita briga de faca, tenho horror a brigas de faca, saio correndo sem nenhum receio de ser alcunhado de frouxo. Prefiro bala do que faca. Já levei alguns tiros, dei alguns outros, mas, que eu me lembre, ninguém morreu. Esse sertão impossível que me habita e não sai de mim, não sai. Nem sei mais o que fazer com meu desmantelo. A aflição é do vivente, afinal. Há tempos não ando aos galopes, depois que inventaram essas malditas duas rodas motorizadas.
Morrer de sertão
Se ainda fosse capaz de esticar pelo cão da memória, com a habilidade esquecida com que outrora manipulava o cão da arma, da arma que ganhei de meu pai, comprada no mercado de Juazeiro do Norte, parece um tempo não mais de gentes, parece ter virado sonho esse passado tão recente, mas, mesmo assim, se ainda fosse capaz de puxar pelo fio de um dedo de prosa, palavra molhada, no alpendre da casa da vovó, primos e tios batendo nos joelhos uns dos outros, rindo-se à toa da pouca valia dos títulos, falando de bicho vivente para bicho vivente, ainda poderia secar um pranto que não é mais meu, uma dor vazia desde que a enterrei na cova funda que cavamos para colocar uns sobre os outros os cadáveres de uma linhagem sertaneja, mas mataram as bichinhas tudo, as de arribação, pra mói de comer e também por tanta maldade contida no peito. Os desgraçados, nós, nós desgraçados. Hei de morrer de sertão.
Pegando parelha
Há muito tempo, quando a gente ainda andava em armas, um punhal na cinta e um revólver no coldre, caminhando pela cidade, estava numa parelha, meu primo num mangalarga marchador, um animal enorme, o homem sobre o cavalo, ficavam da altura das copas das árvores, era conversar, a partir do chão, olhando para riba, e eu numa égua pé-duro de vaquejada, chocalho na sela, precisava nem de esporas, a bichinha voava ao som do guizo, era o apito, e essa certa vez dessa parelha, a gente pegando parelha, ela desembestou comigo em riba, larguei as mãos dos cabrestos, a égua me chamou para me agarrar nas crinas dela, avisou com uma bufada de lado, com um olhão enorme de assombro, olho no olho, dizendo para eu me preparar, foi a corrida mais maravilhosa que fiz em toda a minha vida, a gente voava, a égua e eu, um corpo colado no outro, nas curvas, me pregava no pescoção dela, surfando, não vi nem sinal de mangalarga marchador por trás da poeira de piçarra; quando então passei com o vento na frente do alpendre da casa da vovó. Quando sonho com a boa morte, sonho nesse galope, fecho os olhos e abro os braços e desapareço nesse galope infinito, desfazendo-me da agonia do bicho vivente, nessa danação sem fim e sem sentido, nessa aporrinhação que é viver domesticado.
Entre armas e livros
Na minha casa, meu pai tinha um revólver para viajar, para pegar a estrada, era o costume, no tempo em que não se usava cinto de segurança, ninguém nem sabia para que servia o cinto, um tempo tosco, rude. Ocorre que minha mãe tinha cinco armas e era uma exímia atiradora. Gostava de ir com ela para o stand de tiro, até de escopeta, ela atirava. Ela não gosta nem de lembrar, vai ralhar comigo por estar escrevendo essa história, virou budista. Era tanta arma. Quanta ignorância era a vida nesse tempo, um tempo passado de tão ontem. Entre os livros e as armas, pois havia muitos livros na minha casa, fiquei com os livros. A vida pacífica é a vida do cidadão de bem. Na minha casa, não temos mais armas. Depusemos as armas, estamos numa nova era, aquilo tudo, aquela guerra toda, deixou de ser, virou faísca de memória, graças a Deus. A gente se desarmou, e a vida ficou mais pressurosa na alegria da conversa, do parlamento na civilidade, os sertões viraram palavras, nomes que não pespegam mais, apenas soletram, cultivam os sons nos corpos, o que há de espraiado no espaço imemorial, desfeito de orgulho besta, enredados na espiritualidade da vida serena, tranquila, sorridente.
Abismos, me abismo.
Uma profundidade infinita. Uma abissal num desfiladeiro de seis mil metros ao sem fim. Uma queda para o alto. Uma escuridão medonha. O corpo se faz abissopelágico no mais obscuro assombro. E mesmo assim, não morre. Contorna o paredão plutônico e escala desde o mais profundo sem ar, pedra e mão, mão e pedra, até atingir a superfície, onde os pulmões se abrem novamente pela primeira vez.
Saturday, September 05, 2015
Morte na Praça da Sé
Gostaria de lamentar, mas também elogiar o morador de rua sem nome, sem nada, que se atracou com o assaltante e morreu no lugar da vítima na Praça da Sé, salvando a menina que estava sob a mira do maluco. Cabra macho! Que descanse em paz. Morreu como homem. Se eu estiver dizendo alguma besteira muito grande, podem dizer, é que fui educado nos sertões. Mas tento não ser dogmático. Estou apenas expressando um sentimento íntimo, não estou defendendo nada. O nome dele era Francisco Erasmo Rodrigues de Lima e ele tinha 61 anos. O melhor é que nada disso tivesse acontecido. Só espero que ele não tenha sido morto por tiros da PM, mas parece que não foi, foi o próprio assaltante quem atirou.
Saturday, August 22, 2015
Estudando às cinco da matina
Cinco horas da matina. Acabei de acordar para estudar, um costume antigo. Lá pelas sete e trinta, volto a dormir um pouco, tipo meia hora, no máximo, o resultado é bom, não é Platão, mas é bom, dá para os gastos. E, enquanto isso, fico pensando nessa gente toda se movimentando para fazer a transformação social. Então, fico orgulhoso por demais! Pois, ninguém está ligado em dinheiro e sucesso e poder, apenas no amor.
Wednesday, August 19, 2015
O nascimento de anarca.
É preciso que um indivíduo esteja profundamente arruinado, destroçado, perturbado, aniquilado, mergulhado na balbúrdia de suas paixões e gozos mais contraditórios, prestes a partir-se, a se desintegrar, para que desenvolva um desejo de ordem, de uma ordem que se impõe de fora, um desejo de ordem sustentado pela dor de uma profunda culpa, de um terrível desejo inconsciente proibido de matar para amar e amar para matar. Deus é o suicídio adiado, o suicídio postergado, o suicídio suspenso, o suicídio na cruz, um desejo torturado, como de um perverso não domesticado, pior do que o mais perverso dos ladrões, esses agentes da ordem, que faz de Deus um falo, a fim de violar o útero da mãezinha. Anarca não obedece e não crê. Anarca é o cão, tem o cão nos couros e achando bom o cheiro de fumo e de cachaça.
Saturday, July 25, 2015
Estudar é transgredir
Estudar é uma forma de transgressão! Quando o supereu manda todo mundo gozar ilimitadamente no desejo de poder, no desejo de dinheiro e no desejo de sucesso, e no desejo de obter dinheiro, sucesso e poder de modo mágico, imediato, sem vocação, sem ethos sacrificial, apenas no gozo infinito sem mediações, sem esforço, sem trabalho, quando a maioria é incitada a tomar geral, estudar torna-se a maior das transgressões. Ficar nas férias, estudando, como forma de rebelião contra o sistema de dominação. Estudar é um prazer! Estudar é um trabalho! É um lugar entre o prazer e o trabalho. Faço apologia dos estudos sim. Se quiserem me prender, me processar, me xingar, vão em frente. Sei que é contra a lei do desejo da maioria, mas a lei do desejo da maioria não me interessa. Não confiem em ninguém que fale mal dos livros. Não confie em ninguém que diga que os livros são coisas da "elite", não são, os livros são nossas terras comuns, são signos delas.
A velha nova classe média
Gente, fiz uma descoberta sociológica. Uma descoberta de autoanálise. Faço parte da nova classe média da década de 1980 e meus pais fizeram parte da nova classe média de 1960. É muita nova classe média incompleta, só na fantasia, né?
Parabélum
Quem não leu ainda Parabélum, de Gilmar de Carvalho, não sabe o que está perdendo. A primeira vez que eu o li foi numa edição clandestina raríssima que circulava de mão em mão na universidade lá pelos idos de 1993.
Biologia humana
A plasticidade da biologia humana é surpreendente, uma capacidade que pode ser alargada, até certo ponto, a barreira é a morte.
Friday, June 12, 2015
Os sentidos do público, o senso do público.
Situação 1: O estudante envia email, solicitando um horário de atendimento com o professor, um estudante de outro curso da universidade que não é o curso onde o professor atua, o que é muito relevante para o professor, afinal, poder contribuir para a formação do educando é a missão. O professor então responde ao email, faz o agendamento, pactua dia, hora e lugar, prepara-se, levando as informações requeridas para oferecer ao aluno(a), comparece no dia e horário marcado, pontualmente, e o aluno(a) que solicitou o atendimento não aparece, o professor fica as duas horas que haviam sido reservadas para o atendimento, lendo, estudando, corrigindo provas, respondendo outros emails. Uma situação muito comum.
Situação 2: Uma equipe de estudantes faz solicitação para o professor comparecer numa atividade acadêmica de formação, o professor aceita o convite, a equipe de pré-produção da atividade diz que irá entrar em contato para confirmar os detalhes da atividade, o professor fica aguardando o contato, não agenda nenhuma banca, nem um outro atendimento, deixa o dia e horário reservado, como lhe foi solicitado, a equipe de estudantes desaparece, não entra mais em contato com o professor, e a tarde inteira que o professor tinha reservado para colaborar com a atividade de formação é transformada em revisão de trabalhos, correção de provas, leituras de teses, dissertações e monografias.
Situação 3: Um estudante solicita fazer uma entrevista com o professor para um produto acadêmico da instituição que faz parte do seu processo de formação, o professor faz o agendamento, combina lugar, horário e dia, e fica esperando uma hora e o estudante não comparece para realizar a atividade e nem entra mais em contato. O professor fica uma hora lendo, enquanto espera.
Poderia relatar várias outras situações, e as situações relatadas acima são recorrentes, todavia, gostaria de chamar a atenção para uma questão. Os sentidos do público estão aí sendo confrontados. O público como terra de ninguém. Será que esquecem que a universidade pública é um investimento coletivo? Será que esquecem que a hora/atividade do professor varia entre 65 reais e 400 reais, a depender do nível de complexidade do atendimento? Será que as pessoas acham que o gratuito sai de graça? Que o gratuito não possui custos? Além de outras questões sobre as quais não irei me alongar.
Friday, May 15, 2015
O medo que dá
Existem os que sentem medo de não serem amados, os que sentem medo de amar, os que sentem medo de sofrer por causa do amor, os que sentem medo de perder a capacidade de amar, os que sentem medo da velhice sem amor, os que sentem medo de um amor sem velhice compartilhada, os que sentem medo da morte, os que sentem medo diante do vazio, os que sentem medo de modo habitual e atávico, os que sentem medo de ser livre, os que sentem medo das prisões, os que sentem medo da descoberta, os que sentem medo de que o amor seja um mero acaso, os que sentem medo da nudez, os que sentem medo da chuva, os que sentem medo da aridez, os que sentem medo do amanhã, do hoje e do ontem, os que sentem medo de tocar feridas próprias e alheias, os que sentem medo de agonizar estertorando numa cama de hospital, os que sentem medo de vacilar nas escolhas entre o certo e o errado, os que sentem medo de respirar micróbios, os que sentem medo de gozar, os que sentem medo de não parar jamais de gozar, os que sentem medo do desejo desejante dos outros, os que sentem medo de desejar o que odeiam, os que sentem medo de nunca mais sentir a presença de Deus, os que sentem medo do inferno, os que tem medo de ficar cego, os que tem medo de perder a razão, os que tem medo de dialogar com a loucura, os que tem medo de voar nos sentidos da paixão. O medo mata e salva a vida ao mesmo tempo sob aspectos diferentes. O medo me dá medo.
Thursday, May 14, 2015
Estratégia de poder
Se você deseja muito ocupar uma determinada posição, não vá direto ao ponto. O segredo é esse, não ir direto ao ponto é fundamental. Ademais, é importante demonstrar querer ocupar outra posição, que é disputada por outros, e essa interveniência vai deixar esses outros nervosos, de modo que, quando você se oferecer, como solução, para ocupar a posição que você realmente deseja, os indivíduos que ficaram com receio de mais um competidor disputando suas posições irão te apoiar para ocupar o lugar que você realmente quer. E, então, você atinge o objetivo, como se estivesse se voluntariando, se sacrificando em nome do coletivo. É a estratégia de poder mais certeira que há.
Wednesday, May 13, 2015
Alunos assustados
Recentemente, relatei para alguns de meus alunos como é a vida de filhos de classe média assalariada, que não são rentistas, ou seja, que não são de classe média alta, no que tange à trajetória escolar exigida para se tornarem "alguém na vida", "doutores". Alguns dos meus alunos ficaram assustadíssimos com o relato. Como os filhos da nação que têm a duras penas, sem nenhuma liquidez, "estudo, saúde, alimentação" (classe média assalariada) e nenhum patrimônio de apoio precisavam estudar 10 horas por dia durante longos anos, muitas décadas. Consegui involuntariamente assustar o pessoal. Nem todos, é claro.
Monday, May 11, 2015
Histeria
Somos movidos pela impotência, travando com a histeria em tempos supostamente pós-histéricos.
Brincar com fogo
O lugar de onde tento falar é o da fantasia. Não da fantasia como ilusão, mas da fantasia como imaginação criadora. É a desincorporação dos papeis que é a condição para qualquer mudança. Sair do papel. Desintegrar-se sem se fragmentar irremediavelmente. É brincar com fogo, é correr o risco, é se colocar em perigo, é levar a sério a ideia de que as imagens das palavras não são mera representação, não são apenas símbolos, são também modelações dos próprios eventos da vida. A fronteira entre acontecimento reais e imaginários é cortada pela força criadora de novos contextos que se libera no dizer novamente o que já foi dito.
Absurdo
E o sentimento do mais absurdo desamparo continua a fazer suas vítimas perpetradoras de uma crueldade que apenas se imputa aos outros. E o círculo infernal da adoração fatal do lugar absoluto continua a manter seus rebanhos em estado de inépcia para o pensamento. E os adoradores da morte continuam alimentando a paranoia do Estado e de seus grupos de perversos executivos.
Brutalidade de homens da elite
Eles não notam mais quando são estúpidos, grosseiros, brutais e intelectualmente embotados. São homens agressivos, com falas que parecem golpes desferidos no ar, e, também, são muito inseguros, no fundo, sentem-se humilhados, retraídos, sendo pisados, esmagados, ofendidos por outros homens agressivos que mandam neles. Desamparados, desesperados e agressores.
Rousseau apud Sennet
"As pessoas se encontram comigo cheias de amizade; mostram-me mil civilidades; prestam-me serviços de toda sorte. Mas é exatamente disso que me queixo. Como é que se fica imediatamente amigo de alguém que nunca se viu antes? O verdadeiro interesse humano, a sincera e nobre efusão de uma alma honesta - estes falam uma linguagem muito diferente das insinceras demonstrações de polidez (e as falsas aparências) que os costumes do grande mundo exigem" (Jean-Jacques Rousseau).
Fim à atividade meio!
Nada mais ridículo quando numa organização a atividade meio possui a pretensão de ser mais importante do que a atividade fim. Tipo: estou lendo uma tese para uma banca de doutorado, mas a atividade meio considera isso irrelevante, algo que pode ser interrompido sem problemas, pois o importante é ir lá dizer bom dia para o doutor e assinar os papeis para o doutor continuar sua carreira até Brasília. Vão pra merda!
O segredo da segunda-feira.
A cada 10 telefonemas, 9 partem da mais pura ansiedade ou da tentativa de transferir problemas e responsabilidades, jogar para o outro o que era de sua alçada. Não vale a pena atender telefonemas. E aquele pessoal que repete o email, reencaminha o mesmo email várias vezes, o importante é nunca mais responder. Pessoal com problemas emocionais. E aquele pessoal que usa redes sociais virtuais como Serviço de Atendimento ao Consumidor, também não responder, é claro. E quando alguém cobrar algo de você, tenha uma lista com tudo aquilo que a pessoa está devendo. A segunda-feira rende melhor.
Quer manter as pessoas inconvenientes afastadas nos ambientes de trabalho, estudo e pesquisa? Basta exigir que trabalhem, estudem, pesquisem e assumam compromissos num padrão muito acima do que elas esperam, ou seja, do relax total que elas esperam, é só frustrar essa expectativa de relax total. Por exemplo, alguém pede para ser seu orientando, basta marcar um encontro para daqui a 15 dias para discutir uma obra importante, um livro de 250 páginas (que eu leio num dia), alguns artigos de peso, ou seja, que exigem dedicação, atenção e pensamento. De 10, 9 não aparecem no encontro e nem mais entram em contato, é uma alívio. Mostre que trabalha com quem trabalha em ritmo forte e você ficará na santa paz de Deus, ninguém chega perto. Segredo da segunda-feira.
A luta contra a intimidade
A comunicação entre os indivíduos quanto mais impessoal mais sincera é. A comunicação íntima entre os indivíduos é uma artificialidade hipócrita. Tempos em que a expressão da personalidade é odiosa e as convenções são desejáveis.
As perguntas da Anarca
É possível falar de vida interior para além do intestino grosso? É possível ser calvinista no candomblé ou candomblecista no calvinismo? É possível ser anarquista servidor do Estado? É possível ser crente pensador? É possível ser ganancioso solidário? É possível desejar dinheiro? É possível matar em nome do amor? É possível fazer da retórica intensiva da pessoalidade uma luta contra a intimidade na política? É possível praticar maldades, ser perverso, roubar e louvar a Deus? É possível amar todo mundo? É possível enlouquecer para ter razão? É possível viver sem desafetos? É possível acreditar na bondade humana? É possível organizar a confusão? É possível desejar a morte? É possível ouvir Chopin, comer pizza requentada e ler Hermann Broch domingo à noite? É possível desejar merda para amigos que não sejam de verdade? É possível parar de escrever e continuar simplesmente vivendo? É possível alegria sem amor? É possível fingir só de sacanagem?
Anarca acordou
Enquanto a gente fala de liberdade, as figuras sombrias, e são muitas, continuam falando de "meu marido", "minha sogra", "esta é minha futura esposa". Como alguém apresenta outrem como sendo "minha futura esposa"? Que merda é essa? É o fim da picada. Esse pessoal vive em que mundo, hein?! É decepcionante esse desejo de ordem, esse desejo de integração, essa histeria.
Brutalidade de elite
Um intelectual de classe média alta me confessou em tom de decepção que os membros individuais dos círculos sociais das camadas médias altas e altas com quem ele possui convívio sociocultural estão cada vez mais insensíveis e expressando sentimentos e pensamento de brutalidade contra os outros, principalmente, contra os pobres, os fracassados e os perdedores. Ele me contou que qualquer pensamento que ele expresse com valores de justiça social, democracia e igualdade, na versão mais moderada que existe, está sendo tratado como algo a ser completamente descartado do horizonte desses indivíduos que são empresários, médicos, advogados, executivos, dentre outros, com quem ele convive. Ele me disse também que foi hostilizado por jovens da burguesia por ter falado que era necessário pensar num país mais justo. Os jovens escarneceram dele. Chamaram-no de nomes desqualificadores. O intelectual está pessimista, pois as elites estão atualmente unidas na incivilidade, na mentalidade autoritária e no individualismo mais rasteiro que há, individualismo possessivo do mais dinheiro e do "eu controlo a minha família". Pequenos tiranos endinheirados, falando línguas estrangeiras, ávidos por poder, dinheiro e sucesso e que sentem ódio de fracassados, ou seja, da maioria de nós. Muita atenção é pouca. Estamos nos confrontando com ralés, hordas, bandos que viraram "elites".
O racismo é lá na África do Sul?
E os brancos egóticos, esparramados em suas vidas miseráveis, cercados de luxo, de fartura e nenhum sentido, apenas o tédio ou a adoração da morte, continuam se autoelogiando, expressando o lixo de suas personalidades tacanhas, truncadas, imbecilizantes, e os brancos de shopping center, e os brancos de alta escolaridade, e os brancos lívidos de tanta tristeza e falta e falta e falta, comemoram suas pequenas felicidades totalmente indiferentes à miséria que se abate contra a maioria, beneficiam-se da riqueza privada concentrada, comem nas mesas dos senhores, as migalhas, principalmente, se mantêm subservientes e fazendo da pornografia de vidas vazias a sua principal forma de expressão. Brancos senhoriais e racistas, travestidos de pessoas de bem, de pessoas legais. Não há pessoas de bem e legais em meio a um sistema de opressão tão brutal, não há.
Dia das mães
As mulheres negras, moradoras de favelas, com baixíssima escolaridade ou nenhuma, diaristas, catadoras de material reciclável e mães solteiras, cujos filhos são regularmente massacrados, engolidos pelo sistema de crueldades, continuam há séculos na mesma posição de subordinação, humilhação e exclusão. E enquanto for assim, Anarca considera uma imoralidade qualquer comemoração, qualquer manifestação pública de carinho e de amor no dia das mães. Só haverá comemoração, quando nenhuma mãe a menos. Pessoas brancas com mães brancas que vivem na fartura deveriam fazer jejum de palavra, imagem e comida no dia de hoje. Caso contrário, afirmam-se como a classe senhorial e racista que de modo brutal faz o sistema da opressão se perpetuar. E ainda depois acusam os brancos da África do Sul de serem os partidários do regime do apartheid. Dia das mães de racistas coniventes com a dominação brutal, estou fora.
Sofredor
Todo ser é sofredor. O sofrimento é o princípio universal do meramente existente. Não há sujeito sem sofrimento. A dor é a parteira da vida. As tentativas são muitas e escoam juntas para o vale das lágrimas onde a fé se torna inócua e dispensável, uma pálida figura sem substância no rumo ao nada.
Peremptório
A felicidade é pornográfica. O tédio é democrático. O desejo é ambivalente. O lar é perigoso, a rua é acolhedora. A morte é recente, a vida é futura. O inferno é renitente, o céu improvável. A armadura é móvel, o caráter corrompido. A fantasia é frágil, a realidade é cortante. O amor é finitude, o ódio é desejo. A paixão é senhora, a razão é serva. O fim do lazer é a decadência.
O circo humano
A companhia de outros seres é um fardo, a obrigação de reciprocar é um peso, mas, no mais profundo desamparo, o rebanho se aconchega; um focinho no rabo do outro e vice-versa: o circo humano.
Pessoas felizes
Pessoas felizes não são pessoas, são aparatos. Pessoas felizes já estão mortas. Apenas o tetricamente absurdo é capaz de reativar a criatividade dos humanos. Quando não há estados de alma, apenas fluxos indefinidos.
Mais fácil
Será que é mais fácil usar narcóticos como igreja, Lexotan e televisão? Será que é mais fácil ir ao shopping center e gritar com empregadas domésticas? Será que é mais fácil celebrar a falta de doçura, compensando-a com gordura saturada? Será que é mais fácil parar de pensar?
Doces canibais
E quando éramos doces canibais? Tempos idos, remotos, que não voltam mais, quando ninguém sorria antes de esquartejar o inimigo. E não somos mais doces canibais? São tantas as flores e as deferências e a comida sobre a mesa, esfriando.
Entre cuecas e calcinhas
São tantas cuecas para lavar. Algumas não mais em condições de uso. São tantas calcinhas para lavar. Algumas não mais em condições de uso. E o domingo à noite vai seguindo com intensos tiroteios, alguns corpos já estão sendo recolhidos, amanhã sai no jornal a depender do prestígio social ou criminal do morto.
Náuseas
É preciso ignorar as náuseas quando se tosse, uma tosse nervosa, compulsiva, uma tosse de ansiedade. Amanhã é apenas mais um dia vazio, numa história sem fim, sem sentido e sem meta. Não haverá sol talvez. Mas não haverá deus, certamente.
Corpos despachados
Os corpos já estão sendo despachados. Vão passar alguns dias, talvez semanas, antes de serem enviados em fragmentos para o cemitério como indigentes, não para qualquer cemitério, mas para o único fora do mapa, com cova rasa e presuntos misturados, fica sim na cidade, na cidade perdida.
Domingo à noite
As pessoas choram, na solidão, no desamparo que apunhala o peito, a boca resseca, as lágrimas secam, apenas a perplexidade em forma de falta de ar, e em busca de outro corpo abraçam a si mesmas, sentindo a pontada de cada osso, de cada cabeçada contra a parede, e não há sentido, o mundo está irremediavelmente perdido, apenas rostos inexpressivos, atônitos, de um lado para o outro, sem saber para onde vão e se poderão voltar. A semana inicia-se no terror do abandono, no sem norte do desespero e as pessoas choram e mordem os travesseiros e fazem chás e comem bolos e tomam remédios e despencam exaustas na vida sem sonho.
Narcos
O que fará as pessoas dormir? O que fará as pessoas acordar? Remédio para dormir, remédio para acordar? Ou não precisam de remédios pois vivem em estado de felicidade? Vão viver em nome do já morto? Da molécula partida?
Saturday, May 09, 2015
Em maio de 2013
Ontem a pessoa estava relatando que estava morrendo de dor, hoje a pessoa está relatando que está efusiva de alegria. Amanhã, será dor? E depois, será alegria? Prefiro ser sempre a dor permanente da individuação e a alegria absurda da errância. Essas oscilações entre satisfação e insatisfação são jogos de mercado que não me atraem. O mercado das almas e as almas do mercado se estatelam na falta. E da falta, eu quero é distância. Vivo na plenitude dos fluxos. Na plenitude da morte iminente.
Homofobia e fascismo andam de mãos juntas. 4 de dezembro de 2012.
Alguém pode apoiar publicamente que um indivíduo aborde uma pessoa na rua, dizendo: "Está olhando o que seu viado? Segue seu rumo sua bicha". E depois dessa abordagem, quando o outro não aceita que "não consigo me conformar de que minha obrigação quanto gay é ouvir ofensas e seguir meu caminho" e após cometer tentativa de homicídio, o agressor justifica o crime, dizendo: "Apanhou de besta porque se tivesse seguido o caminho dele, não teria apanhado." Enfim, quando isso se passa e quando há pessoas que em público defendem esse tipo de atitude e mentalidade, estimulando práticas de violência homofóbica, o que podemos dizer dos incitadores? Daqueles e daquelas que se excitam incitando a tais práticas de aniquilamento dos outros? Só há um nome: fascistas.
Carta de Antônio para Anarca
Anarca Da Silva, quase não tenho mais forças, meus dedos cortados, meus pulsos íntegros ainda riem de mim, as folhas de papel são traiçoeiras, não merecem nenhuma confiança, por isso o papel é facilmente queimado, e o cheiro de papel queimado, principalmente daquela bíblia cujas páginas de papel de seda foi por você volatizada, e foi duramente estropiada para satisfazer teu desejo de morte. E o odor da morte que sinto em meu peito quando me torturas com palavras vãs, irresponsáveis, machucando-me como se ainda fosse possível me derrotar. Continuo a escovar os poucos dentes que sobram com dentifrícios de formol, foi o legado que teus beijos deixaram em minha boca. Não me provoque mais. Não tenho mais alma. O espírito tornou-se uma quinquilharia numa bodega malcheirosa. Já sofro sem mais nada sentir. Apenas minha intermitente cegueira me faz ir sobrevivendo entre os livros que você não me roubou. Siga em paz na tua caricatura indecente e pornográfica de uma ordem que te alucina, pois de paz, não entendo mais nada. Saudações libertárias, Antônio.
Carta de Anarca para Antônio
Querido Antônio Elias, hoje acordei a pensar sobre como, depois de tantos anos, ainda tilintam ao sabor do vento as palavras que você jamais professa, e nesse vazio de palavras, de sua significação bloqueada, propositalmente implodida, quem sabe, esteja o futuro de mim mesma, um terrível fim, sem comiseração, sem atalhos, em direção à fogueira, onde hei de queimar, feito bruxa condenada à eterna falta de amor. Você me ensinou que a vida não é alegre. Roubou minha alegria, como quem chuta a canela de um adversário malquisto em meio à multidão. Nunca vou lhe perdoar por ter deixado de ser uma parte do que pude jamais ter. Mas não lhe quero mal. Seja feliz nessa tua desinfeliz vida de acrobata de biblioteca. E sempre mais uma vez, adeus. Com estupor, Anarca.
O segredo
Meu segredo aqui é que nunca falo de mim, jamais, nenhuma vírgula, nenhum ponto. Afinal, escrever numa merda que por unanimidade não é feita para escrever é se esquecer. No quadro das trocas comerciais, validar atos de consumo e comunicá-los é a maior pornografia, é a maior desonestidade. Sou recatada, uma vadia recatada. Tento não mostrar que curto tais e tais empresas e mercadorias, essa função das pessoa de bem.
Um mundo melhor
Se as pessoas parassem de acreditar em Deus, no Dinheiro, no Estado, na Família, o que seria do mundo? Resposta: um lugar muito melhor de se viver, mais livre, justo e humano. Think about it! (Momento proselitista da Anarca).
Anarca e o saber analítico.
Anarca é um sintoma da dissolução na crença no princípio do absoluto e no princípio da hierarquia. Mas o sintoma não aprisionanarca. O sintoma é também a esculhambação da cadeia de significantes, a explosão da ordem moral, em direção ao nada. Mas no nada também não aprisionanarca. O nada é o mergulho para cima. Para a vida sem interior, sem subjetividade, do discurso sem palavras de um saber analítico.
Friday, May 08, 2015
Sacrifício
O sacrifício humano. O sangue humano derramado em nome de Deus. Os humanos perderam a unidade na fé. Nenhuma hecatombe é capaz de restaurá-la. Nem infinitas libações. Irremediavelmente cortado, o mundo esvaiu todo seu sentido. Não há mais a inocência do sacrifício humano. Apenas a covardia, a traição e a fuga. Deus, tende piedade de nós.
Sunday, April 12, 2015
A atividade do pensamento gera desordem.
Quantos eventos sociais você deixou de ir na vida porque preferiu ficar o dia inteiro ou a noite inteira estudando? Aqui no meu FB, dos 101 amigos, tenho certeza de que uns 30 passaram a vida inteira fazendo isso de modo sistemático. É o pessoal da minha turma. Fonte de orgulho, pois estudar é uma das tarefas mais complexas. Exige abrir mão de muita festinha, baladinha, o que não quer dizer que não sejamos grandes festeiros e baladeiros. Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. A galera do estudo quando entra na boêmia, tem é Zé pra sair. Mas em geral o pessoal entra depois de ter cumprido alguma tarefa de estudo muito importante. Tipo: terminado de ler as obras completas de Machado de Assis. Essa farra, quando eu tinha 19 anos, foi uma das mais intensas. Uma farra machadiana. Passei uns três dias seguidos entre o Cais Bar, os botecos 24 horas do Centro e as barracas da Praia do Futuro. Lavei no mar as palavras que saltavam da minha cachola. Fiquei atônito apenas por ter aprendido a palavra atônito. Fiquei ensimesmado porque tinha aprendido o que era o si mesmo como figura subjetiva literária. A cada obras completas era um porre. As farras tinham nomes dos homenageados: Graciliano Ramos, José Lins do Rego, João Rosa. Há motivo para festinhas e baladinhas melhor do que esse? É assim que as coisas se tornam reais. Pelo uso da força inerente à imaginação literária. É o que torna o amor possível. É o tempero do tira-gosto. É o sabor de uma cerveja. E como hoje é domingo, não é dia de farra, continuemos nos estudos, longe das festinhas, baladinhas e demais eventos sociais que festejam a ordem. Meu interesse é na desordem. Naquilo que gera desordem: a atividade do pensamento.
Saturday, April 11, 2015
Produtividade na universidade.
Na UFC, temos 32.853 alunos matriculados em cursos de graduação e pós-graduação. Somos 1.984 docentes do quadro efetivo. 16,55 alunos por cada professor é a demanda média de atendimento e de geração de benefício educacional. Em média, precisamos ter capacidade de trabalho para realizar benefícios educacionais para quase 17 usuários por dia, seja o atendimento de modo individual (orientação, atendimento etc) ou coletivo (sala de aula, laboratórios de pesquisa, grupos de estudo etc). Neste semestre, a minha média individual é de 23,71 estudantes em atendimento por dia. A cada semana, estou em contato permanente com 166 estudantes. Ou seja, um atendimento que é uma complexa relação pedagógica com 166 pessoas ao longo de um semestre. As 40 horas, dedicação exclusiva, são presenciais na instituição. É o que determina o contrato de trabalho. Todavia, para produzir ciência, fazer pesquisa, publicar artigos, livros, e fazer extensão, preciso fazer mais 32 horas de trabalho. Ao todo, são 72 horas semanais de trabalho. Minha situação não é isolada. É típica. Quem não está nessa situação de sobretrabalho é exceção ou minoria numérica.
Oxente
Meu avô paterno e minha avó materna e as irmãs e os irmãos mais velhos do meu pai falavam preferencialmente "oxente". Meu pai, que é mais novo, fala "oxe". Para mim, oxente e oxe são interjeições de fundamento. São interjeições que fundam minhas relações de parentesco. Quando escuto eu mesmo falando (e como raramente falo em público, no trabalho), é como se houvesse uma multidão na minha fala.
Wednesday, April 08, 2015
Aprendizagens e construção da autonomia
Quando eu era bolsista de iniciação científica, eu colava no meu orientador, para onde ele ia eu ia junto. Meu orientador era o César Barreira. Foi assim que aprendi um monte de coisa. Ele não dava um passo sem minha sombra, eu o "perseguia". Ele ia fazer uma entrevista de campo, eu me voluntariava para ir junto. Também me voluntariava para fazer as transcrições e aprendi que o trabalho não era mecânico, havia questões epistemológicas e metodológicas numa transcrição. Recortava jornais e fiz a mesma descoberta. Havia uma crítica da fonte e um método no trato com os jornais, uma sociologia da imprensa que tornava possível recortar jornais. Ele ia atualizar o Lattes dele, eu me oferecia para ajudar, assim aprendi a usar a plataforma e hoje não preciso de nenhum bolsista para fazer Lattes para mim, e como ninguém pede para me ajudar para aprender as dicas, fico esperando que um dia isso aconteça. Ele ia dar uma palestra, eu ia junto. Foi assim que na primeira pesquisa do LEV, tornei-me coautor do livro que resultou da pesquisa. Descobri que em cada atividade que eu me engajava com ele, havia um problema de método, de técnica e de teoria inserido no contexto de encaminhamento e resolução da tarefa. Entendi que havia uma remuneração indireta, não-financeira, baseada em transferência de capital acadêmico nessa proximidade. Hoje sou colega dele na universidade. 21 anos de parceria. A construção da autonomia exige muita dedicação e humildade em aprender com quem é mais experiente. Quem acha que já nasceu com "autonomia", vai direto para o buraco do esquecimento. Existe bolsista de iniciação científica da graduação que se acredita já professor titular da universidade. Olhem, olhem. De salto alto, quem não aprendeu ainda a andar, vive torcendo o pé e levando tombo. A fantasia da autonomia como uma dádiva dos céus não corresponde à realidade dos fatos. Trabalhar coletivamente é preciso. Fica a dica. Excluindo a inevitável violência simbólica da dica, porque vinda do professor, não deixa de ser uma dica na amizade.
Sunday, March 29, 2015
Arrogância acadêmica
Colegas de outras áreas podem ser tão arrogantes quanto o possível. Depois que falei para um colega que na Sociologia tínhamos combinado cada professor de publicar um A1 para tentar elevar a nota de 5 para 6, entre outras ações, o colega da outra área me disse: "na nossa área num é tão fácil publicar A1, o nível é muito elevado". Fiquei olhando pra cara dele e ele nem se tocou que estava expressando um terrível preconceito, supondo ser de uma área mais "rigorosamente científica". É osso.
Wednesday, March 18, 2015
Práticas políticas
Nunca fui ao novo shopping da cidade. Há mais de um ano não vou no shopping mais antigo da cidade. Não tenho TV em casa, há uma década. Nunca mais comprei nenhum produto Barillia, que eu adorava, depois da declaração homofóbica do presidente italiano da empresa, levo a sério o boicote. Em regra, não compro mais cachaça ypioca, depois que processaram dois camaradas para intimidá-los. Não falo mais no dia a dia, não dou bom dia, nem boa tarde e nem boa noite para mais de uma centena de pessoas que conhecia e que passaram a trabalhar abertamente e desavergonhadamente para governos oligárquicos antipopulares elitistas, sem que estivessem pressionados por nenhuma privação material, miséria, que justificasse aceitar ser capacho de oligarca, pessoas em busca de sucesso, dinheiro e poder, pessoas com fantasias de poder, sucesso e dinheiro. Mais de cem relações rompidas por isso, rompidas mesmo, sem aquela mentira social de dar sorrisos e tapinhas nas costas quando se encontra por aí, viro a cara. Recusei propostas de colaborar com elites de filhos da puta, mesmo quando me ofereceram dinheiro bastante que todos nós precisamos sempre pra sair da buraqueira. Não possuo automóvel, há 7 anos, uso uma motocicleta super econômica e nunca pego congestionamento, caminhadas e o transporte público, às vezes, pego um táxi. Minha companheira possui um carro utilitário para trabalhar, por vezes, raramente, uso esse carro. Junto com minha companheira, fazemos serviços domésticos em casa (faxina, cozinha, banheiros etc.) Quando contratamos, pagando bem, um trabalhador diarista dia de sábado, uma vez ou outra, trabalhamos juntos com a pessoa contratada, de igual para igual, para o serviço ficar completo e com aproveitamento ótimo. Isso não são práticas? Sim, isso são práticas. Não estou dizendo que elas sejam boas ou ruins. Estou apenas lembrando que é no detalhe que se define o sentido de uma prática. Práticas cotidianas é que definem o sentido de nossos pertencimentos políticos. O resto é fachada.
Sunday, March 01, 2015
Pensamento de madrugada.
As entidades que nos chamam de querido com voz carinhosa de "é a mamãe venha cá", reforçando suas funções de poder, não aceitam em hipótese alguma que recusemos atuar em funções de subordinação de poder que reforcem suas identidades funcionais de autoridades funcionais, e excluem cabalmente, com apoio de outras funções de delírio na subordinação, quem se recusa a atuar segundo a funcionalidade de coisidade das funções do ser para o outro. E as entidades nos chamam de querido, veja bem. Nos chamam de querido, sorriem para nós, mentem e riem enquanto mentem sem que achem nisso nenhuma perversão cruel. São tão evidentes na tramoia que nem mesmo a rapacidade do que há de pior no ser lhes quer por perto.
Wednesday, February 04, 2015
Sobre as ideias
"A ficção por mais nobre que seja não passa de um fetiche; o mais sublime modo de pensar, se for fictício, é um vício" (Martin Buber).
Sunday, October 26, 2014
O que não se pode pensar
Você conhece uma criança, uma menina. Ela é inteligente, curiosa, com sensibilidade artística, científica e cultural aguçada, com talento para teatro, música e ciência. Depois de uns tempos sem vê-la, a menina aparece falando espontaneamente temas fundamentalistas cristãos, carregando uma bíblia infantil que ganhou dos adultos, falando coisas estapafúrdias do preconceito religioso, típicas de fanáticos religiosos, também falando temas ultraconservadores da política brasileira, enfim, uma menina completamente podada nas suas capacidades intelectuais, artísticas, científicas, culturais e intelectuais. Me deu vontade de chorar. Até o português que a menina falava antes era melhor articulado, tomando-se como referência a norma culta que é exigida pelo sistema de dominação para se ocupar posições de maior acúmulo de capital simbólico. Ou seja, até a fala do português da menina já está ficando diferenciada da fala que se exige do menino treinado para ser adulto competente e bem posicionado, enquanto a menina é treinada para ser doméstica, sem profissão, sem estudo, sem posição pública, sem liderança. Fico muito triste de ver adultos conservadores, machistas, fanáticos religiosos, podando o futuro de meninas, impedindo-as que se tornem cientistas, artistas, independentes, mulheres adultas livres, pensantes, reflexivas e que possam, se assim desejarem e decidirem, criar coletivamente novas meninas para serem livres, pensantes, reflexivas, cientistas, artistas, independentes como mulheres adultas. A família tradicional brasileira é um lugar de produção da desigualdade de gênero, de dominação masculina, de heteronormatividade, de exclusão das mulheres da vida pública e criativa. Fico muito triste quando presencio uma criança, principalmente, uma menina, sendo massacrada pela burrice e perversidade conservadora sem que a menina possa ter consciência disso, é uma covardia muito grande. Por isso, a política no Brasil é uma disputa que passa sim pelo modelo de família. O modelo de família conservador, tradicional, é uma armadilha onde a beleza e a liberdade do humano e a vida igualitária são cassadas. Não permitamos que nossas crianças sejam oprimidas e massacradas, isso é de nossa inteira responsabilidade.
Saturday, August 16, 2014
Lembrança dos 11 anos
Ela me ligou, ao meio-dia, dizendo: "estou indo para a liberdade, encontrar meu namorado". É isso.
Friday, August 08, 2014
Presente de verdade
Uma pessoa quando fosse dar um presente para outra deveria dar um presente de qualidade, esse lance de dizer que a intenção é que vale é a maior mentira.
Estudar na universidade? Como assim?
Está cada vez mais difícil estudar na universidade, a universidade está sendo usada de muitas maneiras, mas os estudos andam perdendo é feio. Super difícil encontrar pessoas estudando. Mas, afinal, estudo não tem nada a ver com universidade, né? Quem quer estudar que vá para as sedes dos partidos políticos, para o shopping center ou então para as igrejas, esses locais destinados especialmente aos estudos.
E não tem amor
Tem gente que tem aliança, cama, talheres, taças, toalhas, dispêndio, mas não tem amor.
Produtividade do saber
Nelson Cavaquinho, uma das maiores produtividades do saber no Brasil, validado pelo Cnpq e pela Capes. Morreu rico.
Thursday, August 07, 2014
A história do nosso corpo
Existem detalhes que dizem muito sobre nossa origem social. Houve um tempo não muito distante em que eu ainda apertava a descarga e ficava segurando até o fim, até que me explicaram que não era mais assim o mecanismo, bastava apertar uma vez e soltar. Até um dia desses, eu usava água da torneira fervida para fazer o café, até que me explicaram que era melhor usar água mineral, pois o café fica mais leve e saboroso. Mas continuo firmemente desde criança comendo sem deixar um caroço de arroz ou de feijão no prato. Na economia de guerra da minha infância, isso era o maior crime que se podia cometer: estragar comida, e também desperdiçar água potável. Quando termina uma banca, eu saio recolhendo as garrafinhas d'água mineral que o pessoal deixa pela metade, ponho tudo na mochila, e fico com estoque de água potável para beber. Esses anos 70 e 80 que não saem dos meus couros, que fazem o meu corpo.
Monday, July 28, 2014
Duchamp e Cage jogam xadrez eletrônico
A problematização da arte não pode voltar a ser pré-Duchamp. O lugar de poder que se escolhe para colocar o objeto "de arte" é mais decisivo do que a obra. Se a gente quisesse ou pudesse prestar um pouco mais de atenção a algo que não seja o campo do poder das oligarquias governamentais, teríamos problematizado a problematização que Marcel Duchamp e John Cage fizeram quando estavam jogando o xadrez eletrônico, né? Mas a gente quer mesmo é ir para onde o campo do poder consagra, infelizmente. E, felizmente, nem todos. Mas os bicos continuam calados, exceto quando vão se divertir com os assessores de governo. Não há nada pior do que o elogio protocolar. Em vez de se fazer crítica política, se faz o sentido fantasmático da autoridade. Hegemonia é fazer com que os opositores falem a linguagem do espaço institucional de modo espontâneo e natural. Eu prefiro ficar no Facebook do que habitar o templo dos assessores do governo. Eu prefiro ficar nesta merda do Facebook do que ir para qualquer merda governamentalizada, que faz a merda cheirar mais mal do que normalmente cheiraria, principalmente, em tempos de eleições, onde qualquer evento nos templos dos assessores do governo é pior do que a Igreja Universal do Reino de Deus. Mas desta, pode-se falar mal à vontade, né? Não é cosmopolita nem astral.
Thursday, July 24, 2014
Shopping center e vida coletiva
No dia 2 de abril de 1982, todos (socialmente poucos) corremos entusiasmados e excitados para a inauguração do primeiro grande shopping center do Ceará, na cidade de Fortaleza. As roupas novas que tínhamos ganhado em janeiro, após as vendas de natal, quando os preços caiam, foram decisivas para termos um acesso relativamente decente ao shopping. As crianças e os adolescentes, quase todos não negros e não negras, das escolas particulares, lotaram o shopping. As atrações eram muitas e nos causavam um verdadeiro frisson. O cinema e o fliperama, principalmente. Entre 1982 e 1988, ir para o shopping center comer pizza, paquerar, namorar no estacionamento ou simplesmente ficar correndo de um lado para o outro naquela efusão de luzes e cores maravilhosas com montes de mercadorias que faziam do seu simples vislumbre um acesso ao fora, havia nisso algo que remetia imaginariamente ao fora, ao Rio de Janeiro, à São Paulo, nem falávamos de Nova York ou de Miami, não cabia essa imagem no espaço do possível, exceto para um ou dois coleguinhas muito ricos de uma turma de 40, que iam passar férias no exterior, e nós, a maioria, não tínhamos nem ideia do que isso significava, nosso sonho era o Rio, era São Paulo. O shopping center nos deslumbrava. Foi uma experiência marcante. Só depois de seis anos de uso intensivo desse espaço de socialidade e lazer é que, com a idade da crítica e da contestação, abandonei em parte esse deslumbre, mas precisei me apropriar de novos vocabulários políticos e culturais para fazer a crítica do templo das mercadorias, como o chamava um amigo meu.
Wednesday, July 23, 2014
Eu desconfio
A diferença é que hoje eu desconfio de quando eu sonhava acordado sem saber de nada que me afligisse desconfiando acordado de não dormir jamais sem saber o que é rememoração ou invenção pura. E a diferença é uma coisa de pobre, né? Como somos pobres, apenas nos restou a lan house como se fosse uma fun house, é muito triste, fico feliz pelas maravilhas que as pessoas são capazes de fazer para elas próprias, como se tivessem nascido com merda na cachola, uma coisa linda.
Sobre a autoridade
Eu me desautorizo a falar em nome de mim mesmo. No desterro da palavra dita eu enfermo dissoluto, em fuga, lá aonde a desdita me livra da herança. Contra os detentores da autoridade, repouso minha confusão no achado de uma ordem inaudita, impossível, irrefreável como um soluço, e sigo só, desamparado, sem Deus.
Sunday, July 13, 2014
Sobre o amor
A mais terrível das privações é a privação de amor. Ser privado de amar e de ser amado, não há condição mais tenebrosa e destruidora de vida do que esta. Não é o dinheiro, nem a falta dele, o que está no fundamento da guerra, mas sim o medo do abandono, a queda no desespero de um abismo sem fim, onde o ser deixa de ser o que é, desvanece no esquecimento implacável do mais inopinável desamparo. Mata-se e morre-se por amor; em geral, por falta dele. O amor, uma palavra substituta para o vazio. Apenas o sujeito esvaziado é capaz de amar. Não é recomendável amar sem antes ter ido ao banheiro. Afinal, entre choros e lágrimas, a vida é antes de tudo tubular. E das lágrimas nasce o choro de um riso histriônico, e do riso brota o que há de diabólico no ato de amar, a destruição do objeto, a fim de reencontrá-lo no sempre perdido de sua topologia, o lugar da ausência é a origem do desejo, a origem do mal.
Friday, July 11, 2014
Nos hospitais públicos da vida
Estava sem plano de saúde. Ter arrancado com os dentes a pelinha do indicador da mão esquerda não foi uma boa ideia. A ponta do dedo virou uma bola enorme e latejante. Uma dor de dias, daquelas de nos fazer lembrar bem ou mal de uma alma em nós, como quando a agulha do tatuador corta a pele numa camada um pouco mais além da conta. Viver no Rio de Janeiro sem plano de saúde era o fim da picada. Acreditava ainda na imortalidade, certamente. Coisa de jovem ainda marcado pelo destemor. Chegou o dia em que a dor cessou, uma bola enorme de pus tomou o lugar do meu dedo. No dia seguinte, às seis da matina, tomei banho, escovei os dentes, fumei um cigarro, aliás, dois, um copo d'água, e fui para a fila de um hospital público municipal. Foi o início do pesadelo. A fila para o atendimento ambulatorial estava dobrando o quarteirão. Eu com meu dedo tomei lugar em pé entre uma e outra dor. A senhora olhou para mim perplexa e me perguntou na cara o que eu estava fazendo ali. Eu era o único branco na fila. Não precisou que eu lhe respondesse, apenas mostrei o dedo. Fiquei de sete da manhã até quase uma hora da tarde na fila dos desvalidos. Não tinha tomado café da manhã, nem nada. Não tinha sido uma boa ideia. Quando chegou minha vez, entrei pela porta do consultório ao chamado da enfermeira. Era uma salinha exígua, do tamanho de um banheiro generoso. O médico, um velho de barba branca de uns cento e cinquenta quilos, escrevia algo numa receita para alguém ainda em atendimento. Ele fumava horrores na salinha fechada com ar-condicionado quase a pifar. O consultório médico estava afundado numa frigideira de olho quente. O médico não olhava para ninguém. Ante o relato que a enfermeira fez sobre meu dedo, que ela já havia examinado com a atenção necessária de quem já sabe do que se trata e do que se é preciso fazer, ela mesma indicou ao médico que era necessário sarjar. O médico deu um resmungo à guisa de um vá em frente. Não havia onde sentar, a enfermeira teve de sarjar meu dedo em pé, ela e eu, um de frente para o outro, enquanto eu segurava o aparador que ia acolhendo a porcaria saindo do dedo. Uma tontura fez minha cabeça girar. Despenquei de frente com o rosto contra o chão. Um pouco antes de retornar a si, a inconsciência ainda restante, enquanto abria os olhos, me deu uma das sensações de paz interior mais significativas da minha existência, como se tivesse tomado morfina na veia. Mas durou pouco, tive que ser levantado por um segurança de dois metros de altura, que me pegou como se eu fosse um saco de batata e me jogou numa cadeira de rodas. O médico continuava olhando para o bloco de receitas, era uma estátua de pedra, sequer lançou um olhar para o estrondo do meu corpo caindo no colchão de cimento. A enfermeira que ordenou ao segurança que me levasse para a emergência. Tinha que cuidar de um supercílio com beiços e de várias escoriações, pequenos cortes de quem foi atropelado e caiu no asfalto quente. Com o rosto ensanguentado, sendo empurrado numa cadeira de rodas, fui um espetáculo de horror para algumas faces ainda na fila, dirigindo-se para o abatedouro. Era uma entrada que não admitia saída sem autorização médica. Duas horas da tarde e eu ainda sem ter tomado café da manhã, sem ter pego uma merenda, nem água e nem cigarro. O segurança avisou que precisava da cadeira de rodas, ordenou que eu levantasse e sentasse em algum canto. Mas não havia nenhum canto para sentar, emergência lotada, o jeito foi ficar escorado numa parede. Ocorre que quando senti uma nova tontura pensei comigo mesmo que levar uma nova queda de cara no chão não ia ser nada agradável. Já tinha um supercílio aberto, sangrando, eu precisava me deitar em algum lugar. No chão do corredor não podia ser, pois as macas passavam por ali a todo instante. Havia uma porta dupla que quando foi entreaberta deixou-me num lance entrever a ponta de uma maca. Com minhas últimas forças avancei sobre a sala e adentrei no recinto. A maca realmente estava lá, desocupada, e despenquei sobre ela aliviado. Dormi profundamente. Abro os olhos e o teto do hospital era o único lugar onde manchas escuras não besuntavam a pintura das paredes, como a que eu estava escorado antes de me deitar naquela maca salvadora. Quando olho para um lado, há um cadáver estraçalhado, olhos vidrados e braços rijos lançados ao ar. Do outro lado, outro cadáver, um corpo sujo e muito machucado. Levantei-me da maca de supetão, e me dirigi para fora da sala que tinha sido minha miragem salvadora. Só então me dei conta de que a maca onde eu me deitara estava completamente encharcada de sangue, por isso ela estava desocupada. Ao aparecer no corredor da emergência, com um dedo para cima, o que tinha sido sarjado, com o supercílio direito aberto, escoriações no rosto por causa da queda de cara no chão e agora com a roupa, calça jeans e camiseta banhadas em sangue, pude perceber pelo olhar dos presentes que a cena não era agradável. Um residente então olhou para mim, perplexo, e me perguntou o que tinha acontecido comigo. Expliquei rapidamente o percurso que fizera até chegar àquela situação. Ele me perguntou o que eu fazia no Rio, eu disse que estava fazendo doutorado na UFRJ. O espanto dele aumentou. Ele me disse a mesma coisa que a senhora negra havia me dito às sete horas da manhã na fila de espera, o que você está fazendo aqui, por que você não foi lá no hospital da universidade e outras dicas tardias. Ele colou meu supercílio com um tipo de adesivo, não deu pontos, disse para eu sair dali, ir para casa tomar um banho e me dirigir para o hospital da UFRJ, que ele ia telefonar avisando que eu estava a caminho. Ainda tive que caminhar para casa, uns dez quarteirões, vagando ensanguentado aos olhares assustados das pessoas nas ruas, que desviavam com cuidado para não esbarrarem comigo. Desde então tenho uma outra percepção sobre os humanos que caminham em situação monstruosa pelas ruas da cidade. Além de que pude perceber na pele como os pobres, as pessoas negras, são tratados como um nada, como absolutamente nada, com o investimento dos governos que nós elegemos. Isso foi em 2001.
Friday, May 02, 2014
Pelo amor à luz elétrica!
Existem pessoas que precisam de Deus. Indivíduos cujas vidas seriam esmagadas, trucidadas, repentinamente, esvaziadas, ficariam como um pneu murcho, sem para nada servir, caso não tivesse Deus obrando, operando, monitorando suas mentes. Não sei se tenho pena ou admiração de pessoas dependentes de Deus, o vício em Deus pode nascer de uma tentativa desesperada de negação de vícios inomináveis, que despertam culpas terríveis, que fazem sofrer, vícios sujos, e então é preciso se lavar com Deus, se limpar com Deus, como se Deus fosse um tipo de detergente super eficiente, que pudesse manter as coisas limpas na mente. Pessoas que não conseguem negociar com dois ou três vícios, que estão fadados a nos acompanhar, afirmando nosso campo de decisão, fazem de Deus um vício de Absoluto, uma forma enviesada de habitar secretamente todos os vícios, daí a eterna vigilância e auto flagelação dos crentes, o que também é punição do outro, flagelação do outro que habita em si, do outro que desperta o desejo de suas próprias perversões, do seu próprio vínculo com o demoníaco. É o medo da própria mente em ação, de uma mente assaz misturada, impura, experimental, que faz de certas buscas pelo espírito divino em si mesmo uma maneira de curar uma doença: doenças do espírito, quem sabe. Pois, ao contrário, das pessoas que precisam de Deus como do ar que se respira, prefiro pessoas que mergulham nas sombras, agruras e delícias da própria mente, deliciando-se com o fato de ela ser uma peneira fluída, flexível, que deixa tudo vazar e por todos os lados. Pegar a mente, colocá-la sobre uma mesa para analisá-la, como se fosse um troço qualquer, um objeto desprovido de desígnio, encarar nesse jogo de verdade o espaço vazio que é o ponto nevrálgico de toda a criação artística. O criador é o caos operando na forma de uma mente em dissolução: o princípio criador, o que não pode ser alienado a outrem, muito menos a Outrem. É na relação com a morte que reside o desafio de uma literatura que examina o cadáver da própria mente, a necrose de qualquer vontade de transcendência, o mergulho no vazio absoluto da mente, no abismo sem fim e sem sentido da existência. Como Antonin Artaud, citado lá em riba, na capa deste meu livro de face, na capa desta minha fachada irresoluta, infiel de mim mesmo, escorregadio, fragmentado, esquizóide, paranoico da noite sem chão, neurótico da falta de civilidade, perverso na minha guerra contra o que é confortável para os de mente fraca, viciados em Absoluto, estou aqui sempre para tentar acabar com o juízo de Deus. Em nome de quê? Pelo amor à luz elétrica! Um salve de oxalá, nesta sexta-feira de maio, para os espíritos livres!
Tuesday, March 18, 2014
sim, morrem...
As pessoas morrem. Eu conversei com uma pessoa, mas ela morreu, aí eu não conversei nunca mais. Eu não vou para meu próprio enterro. Vou faltá-lo. Pregar uma peça no agente funerário. Eu não conheço nenhum agente funerário, do mesmo modo que não conheço nenhum agente literário. O único agente que eu conhecia, mas morreu, era o agente de polícia.
Sunday, March 09, 2014
Em 24 de agosto de 2012, eu descrevi que tive um pesadelo.
Eu tive um pesadelo de ontem para hoje. Vou narrá-lo para vocês. Foi assim: eu caminhava pelos jardins da Reitoria da UFC, indo em direção ao bloco das Ciências Sociais, onde trabalho. Várias pessoas, vindas de todos os lugares ao mesmo tempo, como num passe de mágica, começam a me assediar, fazem mil perguntas, pedem informações, solicitam que lhes indique referências de obras, livros, artigos, fazem perguntas, exigem explicações, há uma barafunda de falas que começam a se transformar em gritos, os rostos se tornam raivosos, olhos esbugalhados, só então percebo, pela primeira vez, que são faces conhecidas, são meus alunos e minhas alunas, pessoas queridas, pessoas que eu respeito profundamente, mas no alto do meu desespero, começo a ficar tonto, zonzo, pois a multidão de vozes dissonantes falam ao mesmo tempo o meu nome "Léo, Léo, Léo...", olhares esgazeados e famintos, na fuga, num ato de desespero, eu também começo a gritar, esbaforido e desfeito da atitude que o decoro exige de um professor da Universidade, e nesse ponto, eu me viro de repente e digo: -- Sr. Professor Dr. Leonardo Sá! Grito em desespero, como fez Antonin Artaud quando estava internado no hospício e o psiquiatra insistia em chamá-lo pelo primeiro nome, o nome de infância, o nome da mãe: Antonin. Em tom de voz duro, eu começava a olhar um por um nos olhos de meus queridos alunos, dizendo-lhes: -- Tratem-me de Sr. Professor! Havia um delírio, um transe paranoico, um esgar que quase travava minha voz. E a partir deste momento eu chamava a todos de Senhor e Senhora. Senhor Estudante, Senhora Estudante, Senhor Colega Professor, e o delírio ia inundando minha mente quase ao ponto de fazê-la explodir. De súbito, acordei resfolegante. Foi apenas um pesadelo de que a Universidade houvesse se tornado um lugar de terror, de medo, de celebração da reprodução das mais arraigadas e violentas hierarquias da vida social. Ainda bem que foi apenas um pesadelo. Logo estarei ouvindo da voz de educandos/as o sonoro "Léo" ou o carinhoso "professor" com que me brindam na vida cotidiana da nossas ricas e profícuas trocas acadêmicas e humanas. E ninguém precisará me chamar de Senhor, nem de Herr Professor, ok? Somos apenas les pauvres enfants de la patrie, um novo e discreto precariado, abandonados a própria sorte, quem sabe... Saudações libertárias
Beijar na boca de fantasmas
Vocês já beijaram na boca de uma pessoa que já morreu? Ou melhor dizendo, para que não se confunda com necrofilia: vocês já beijaram na boca de uma pessoa e essa pessoa morreu de modo que vocês lembram de ter beijado na boca de uma pessoa, mas a pessoa já não existe mais, virou cadáver, explodiu depois de alguns dias dentro do caixão lá no cemitério, a sete palmos? O beijo dado não é mais recebido na imaginação de um ser vivo, mas apenas de um fantasma. É isso o que podemos chamar de um fantasma? Um beijo que perdeu o seu suporte vital na memória de um ente vivo? Então, o beijo não é mais compartilhado pela memória secreta do beijo, uma vez que apenas um dos beijantes está vivo para contar a história, não haveria ninguém para confirmá-la, não haveria nenhum vestígio de memória do beijo dado no suporte corporal da outra alma. O beijo então realmente existiu? A imagem do beijo dado ao ter perdido seu objeto é uma imagem válida da existência do beijo dado ou a evidência de que existem fantasmas?
Ele morreu.
Eu tinha um amigo que me dava carona. A gente bebia cerveja junto e ria das besteiras da selva social. Ele morreu. Nunca mais peguei carona com ele. Aliás, o desinfeliz morreu num acidente de automóvel, poderia ter me levado junto o desgraçado. Será que os mortos podem ainda rir das brincadeiras que fazemos com eles depois de mortos? Um morto é capaz de rir?
Como um filme de minha vida
Quando eu era menino, me ensinaram a matar passarinhos com a baladeira, principalmente, rolinhas, a depená-las, assá-las e comê-las. Os meninos dos sertões matavam a fome assim. Até hoje eu sei matar uma rolinha de baladeira para comer. Conhecimento útil. E as rolinhas são tão bonitinhas, não são? São fofas. E deliciosas. Quando eu era menino, um tio avô meu me ensinou como matar um bode, eu tinha 12 anos, foi o primeiro bode que eu matei, sangrei, aparei o sangue na bacia. Ele revirou os olhos enquanto estrebuchava-se diante da morte e de seu matador: o matador era eu. Depois me ensinaram a tratar, tirar o couro na ponta da faca, eu tirei bem direitinho, botar o couro para secar, esticado com uns pedaços de pau, limpar o bicho, salgar e fazer o churrasco. Quando eu servi o churrasco, os homens da minha família estavam orgulhosos de mim. Eu tinha aprendido o que todo homem da minha família sabia fazer. Isso foi nos sertões. Eu sou do sertão. Quando eu era menino, eu só podia caçar usando baladeira, matava as rolinhas para comer. Mas um dia, com 13 anos, depois que tinha aprendido a usar a faca amolada para matar um bode, os meus tios paternos e meus primos mais velhos me chamaram para a primeira caçada com os homens. Passamos três dias nas matas dos sertões. Eles me ensinaram a atirar de revólver, de espingarda doze, de socadeira eu já sabia, e me ensinaram a fazer uma tocaia, a se esconder na mata, a se comunicar sem usar palavras, a sentir o cheiro vindo com os animais, a procurar água salobra, e quais frutas selvagens podem ser comidas e quais não podem. Me ensinaram também que as cobras tem medo de gente, por isso fogem, elas só atacam quando a gente pisa nelas, a culpa da picada da cobra é do humano e não da cobra, aprendi também que os cavalos sentem as tocaias de bicho bicho ou de bicho gente. Aprendi a atirar correndo a cavalo, antes eu tinha aprendido a correr a cavalo sem nada, só no osso, usando as crinas como rédeas, é preciso falar na orelha do bicho, é preciso ter relação cognitiva com o animal para dar certo. Aprendi também a arrear os animais e como negociar a compra e a venda de armas de procedência para evitar armas ilegais, armas que já tiraram a vida de homens justos. Era assim no meu tempo de menino, virando rapaz, nos sertões. Pois eu sou do sertão. Eu ganhei de presente do meu pai minha primeira peixeira estilizada com cabo de madrepérola e capa de couro com 13 anos. Com 14 eu ganhei minha primeira espingarda. Ela ficava guardada debaixo da minha cama. Sim, eu sou dos sertões. Não é ficção. Nunca vou esquecer a primeira vez que tentaram me matar. Eu estava no clube com a moça. Fomos para o estacionamento do clube para namorar. Um homem chegou vindo das sombras e começou a gritar. Era o irmão mais velho da moça. A moça disse para eu sair dali. Ela e o irmão ficaram brigando aos gritos. Voltei para o clube. Estava lotado. O homem veio vindo na minha direção. Armado. Um dos meus primos mais velhos notou e se atracou com o homem no meio do salão, numa luta corporal, sem deixá-lo sacar a arma. Meu primo estava desarmado mas sabia lutar com um homem armado para não deixar o homem sacar a arma. Outra vez não deu certo e ele levou um tiro, mas isso foi outra história. Outro primo meu falou no meu ouvido para eu ir embora e rápido. Quando eu estava saindo do clube, o homem que tinha conseguido se desvencilhar da briga com meu primo, gritou pelo meu nome, eu parei e olhei para trás. Ele puxou uma pistola e apontou para mim. Saí correndo pelas ruas. Ele começou a atirar, as balas passaram zunindo pelo meu corpo, nenhuma pegou, foram vários tiros, fiquei sabendo que ele estava bêbado e tinha cheirado muita cocaína, não estava com a pontaria cem por cento, dizem que foi minha sorte. Pulei num canavial, fiquei a noite toda sendo caçado pelo homem, eu estava desarmado. Um amigo da minha família foi quem me salvou, depois eu conto como foi. Lá no sertão, o meu pai é conhecido como galego. E eu como o filho do galego. Quando eu tinha 12, 13 e 14 anos, meus escritores prediletos eram Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, mas o meu xodó era José Lins do Rego. O obra do José Lins é a que mais proximidade tem com o tipo de vida que aprendi junto a família do meu pai. Regionalismo na veia. Modernismo regionalista na veia.
Ao seu inteiro dispor
-- Professor, eu entrei lá no site do jeito que o senhor falou, usando a palavra-chave que o senhor indicou e não encontrei nada.
--- Pois eu encontrei 2.789 referências com a mesma busca.
--- Que bom, professor! O senhor tem muita experiência, né? Legal ter pessoas experientes nos ajudando. Pois faça uma lista de referências e me envie por e-mail, ok? Estarei aguardando, e coloque nas normas da ABNT. Marca de vermelho o que talvez eu precise olhar, de azul o que eu tenho de ler e de marrom o que não preciso nem checar, viu!
--- Sim, senhor, querido orientando! A seu dispor.
8 de outubro de 2013
A partir de hoje, não leio mais o jornal O Povo, pois estão exigindo um cadastro para ter acesso à versão digital. Fiz a mesma coisa com outros jornais que passaram a exigir cadastro. Já somos cadastrados demais. Cadastrados pela polícia, pela receita federal, pelo exército, pelo Obama, e ainda ter que ser cadastrado pelos jornais? É o fim de uma relação. Fui leitor do jornal durante muito tempo. É uma pena, pois jornal depender de leitores cadastrados é o mesmo que depender de assinantes. Para medidas antipáticas, respostas antipáticas.
Tornar-se homem
Lá na minha família, no sertão, para virar homem tinha que aprender a beber, a fumar, a trepar, a dançar forró, a ter palavra de honra, a ser honesto, a saber atirar, montar a cavalo, não ter medo do escuro, mas ter cuidado com andar no escuro para evitar malfeitores, não roubar, não pegar nada que não é seu, a ter raiva de ladrão, a respeitar a quem se dá respeito, a evitar a vida desmantelada demais e a estudar muito. Fazer o quê, né?
Patético e sem esperança
Há algo de profundamente patético na minha existência, um patético que não consigo divisar através das muralhas de sonhos e fantasias que compõem minhas próprias banalidades. Mas é no delírio errante da longa viagem para o declínio que hei de criar marra para, ao menos, escrever a história da minha desesperança!
Leonardo de Nada
E lá onde não deveria ousar ir, é para onde me dirijo, com a impetuosidade dos inocentes e a cegueira dos iludidos. Mas não poderia deixar de ousar manter a ousadia de driblar os determinismos sociológicos que me aprisionam no lugar do nada. Lembrei que uma vez minha irmã foi numa loja comprar algo, uma loja metida a besta, e a vendedora perguntou o nome dela, ela disse: Mônica. Aí a vendedora perguntou de volta: Mônica de quê? Ao que ela simplesmente emendou, dizendo tudo o que estou querendo dizer há décadas: Mônica de Nada. Mônica de Nada, apenas isso. Leonardo de Nada.
Saturday, March 08, 2014
eu tomo literatura
Existe uma diferença entre uma vida merencória e uma vida de combate contra a melancolia. Faço da minha revolta pessoal o antídoto para essa patifaria que é viver na selva social. Prefiro chutar a canela de uns e outros do que tomar remédio tarja preta. E eu não tomo, eu tomo literatura.
Não tenho pedigree
Todo santo dia, eu me pergunto o que poderei fazer para minimizar o papel avassalador que a mediocridade ocupa na determinação do que eu faço, digo, escrevo e sou. Sempre tive horror que o núcleo medíocre de mim mesmo me tomasse por completo, fizesse de mim o completo idiota que não sou, sou apenas meio idiota. O medo de ser um idiota rematado sempre foi meu pior e inconfessável receio na vida. Tenho mais medo de ser mais medíocre do que já sou do que de me tornar pobre, louco ou criminoso. E é a afetação desse medo que me perturba o juízo. Tenho o passado condenado de quem não passa de mais um entre milhares de filhos das camadas médias inferiores. E o conteúdo e a forma da minha revolta são determinados por essa estreiteza do meu pertencimento de classe. Eu leio livros como quem quer se livrar de um destino social de funcionário público subalterno, como se isso fosse apagar a subalternidade da minha condição. É uma fantasia pessoal minha, sem a qual tudo desmorona, saber que pela relação um tanto pedante e superficial com o campo do saber eu possa me sentir menos destinado a ser um branco pobre de periferia, sem brilho na selva social. Eu canso de mim mesmo. Canso do meu pedantismo de intelectual, querendo se afirmar onde não representa nenhuma tradição, onde não se carrega nenhuma herança. Um dia desses um amigo de adolescência fez uma confissão numa mesa de bar que me arrasou: cara, fica todo mundo impressionado que hoje você seja professor da universidade, sabe, Léo! Porque você era o mais burro da turma. Em 1989, a gente querendo discutir a Perestroica e você não sabia nem onde era a Rússia direito. Era uma anta. Hoje virou o bichão. Ouvi calado essa admoestação do amigo. Se ele a disse é pela razão de ter alguma verdade que seja. A verdade que seja no caso é que é verdade sim que sou um recém-chegado na vida intelectual. Não tenho pedigree. Minha ancestralidade é toda analfabeta ou semi-analfabeta, o que não quer dizer sem sabedoria, é claro.
O lucro dos canalhas
Quem mais lucra simbolicamente com a crença segunda a qual "todos" são canalhas é o canalha mor. Se todos acreditam que todos são canalhas, essa crença naturaliza a condição e a atuação do canalha, como se fosse natural, normal, de acordo como é. Não é verdade que todos sejam ladrões, querendo desviar dinheiro público. Não é verdade mesmo! Há um monopólio cerrado dessa prática, são minorias poderosas e muito bem organizadas. Fiquemos atentos ao que os representantes do povo dizem. Muito atentos!
Nem que eu fure meus olhos!
A última coisa que eu quero na vida, e não estou dizendo que sou capaz de escapar dessa coisa que abomino, como o grande herói, é fazer parte daquela maioria que parece "gente satisfeita consigo mesma", como dizia Edgar Allan Poe. Posso não escapar, afinal ninguém escapa, mas brigar para escapar já é alguma coisa diante de quem não luta, não recusa, não grita, não esperneia por estar sendo posto na prisão sem muros da selva social. Nem que eu fure os meus olhos e fique louco, cego e surdo, deixarei de fazer o boicote autodestrutivo consciente de não pertencer à classe de indivíduos dessa "gente satisfeita consigo mesma". A crença na satisfação consigo próprio, além de arrogante, é a expressão de si como mercadoria, pois tudo o que diz respeito ao plano da satisfação ou da não satisfação implica a condição alienante do não-sujeito enquanto consumidor de mercadorias: uma mercadoria consumidora de outras mercadorias. Sejamos incompletos, ou seja, sejamos plenos. A incompletude e plenitude são a salvação da alma pela espiritualidade. Ninguém precisa de igreja para isso. Igreja é a negação da espiritualidade, está em função da mercantilização da crença na moral para a realização de vinganças e invejas.
Na cama com a analista
A única vez que eu tentei fazer análise na minha vida, acabei indo para a cama com a psicanalista: ela era tão linda! Ficava lá toda arrumada, cheirosa, elegante, inteligente, que boca, que olhar, e lá querendo me escutar, foi irresistível. Fatalmente, improvável. Eu estava livre e desimpedido (ou seja, terrivelmente só, abandonado, completamente abandonado e sem amor). Convidei-a para jantar e ela aceitou. Só teve um problema, ela era casada e não me disse, também não disse para o marido dela. Enfim. Adeus, Lacan!
Dando voltas (17 de novembro de 2013)
Fizesse sol ou chuva, muito ou pouco frio, um homem estava sempre a dar voltas, caminhando em torno das muralhas da cidade. Ele não respondia a nenhum aceno, a nenhum cumprimento. Andava completamente absorto em si mesmo. Um louco? Um desocupado? Alguém exercitando o corpo? Não, o homem "simplesmente" estava caminhando em torno da cidade, passando mentalmente a estrutura de uma sinfonia para atingir sua forma perfeita, ficava corrigindo mentalmente a estrutura sinfônica, e após ter mentalmente o modelo perfeito da sinfonia, ele a colocava no papel, começava a escrevê-la no papel apenas de enorme esforço mental. O homem era Beethoven. (Walter Benjamin reconta esta história que ele leu no Grande Dicionário Universal, de Larousse). A conclusão a que Benjamin quer nos levar é que nem sempre quem parece não estar ocupado está desocupado e que muitas vezes quem parece estar muito ocupado não está ocupado coisíssima nenhuma. As coisas são relativas.
Segunda-feira pela manhã no trabalho (18 de novembro de 2013)
Vou contar um segredo: há pessoas que fazem uma mise en scène toda segunda de manhã e toda sexta-feira. Segunda pela manhã aparecem bem cedinho na repartição seja pública ou privada (trabalhei nove anos em empresas privadas e é para muitos o puro universo da enrolação), como se estivessem a abrir a empresa e na hora do almoço, somem. Voltam então na sexta, final de expediente, para fechar a empresa. Essas duas imagens criam uma fama poderosa. As pessoas começam a dizer: olha como fulano é trabalhador. Toda segunda é o primeiro a chegar e toda sexta é o último a sair. Mas é encenação, entende? Por outro lado, há quem trabalhe muito e por não fazer marketing pessoal e encenação disso passa por ausente. Fica a dica.
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