Sunday, February 17, 2013
Uma sensação de inadequação
Quando acordo, sinto uma sensação de inadequação. Recém-chegado e estranho, luto contra os marcos, contra a fama e a opinião, viver na paradoxa, na contestação de si, é a maneira mais estúpida de fazer funcionar a estruturação de uma personalidade, afinal, estrutura-se no vazio o sentido sem significação, e tudo vaza, tudo vaza por todos os lados, a pessoa e os objetos. E o pensamento torna-se um lugar possível, graças ao bom e enganador criador.
Friday, February 08, 2013
Na cama com Barthes.
Afeito ao meu gozo, abdico ao hedonismo aderente da sua cultura. Infesto de teu prazer, rasgo meu ego por nojo à tua fantasia. Deploro-me. Descarnavalizo-me (por pura perversão). Me sento, me deito, me largo e leio o prazer incerto do texto, rolando saciado e distante e improvável e matreiro e choroso e detestando cada vez mais ser escravo dos adjetivos.
O babaca absoluto.
Que você ou eu sejamos babacas, sobre isso, há, graças ao Bom Deus, controvérsias acesas, uns nos acham muito, outros nos acham pouco e ainda por cima para que não entremos em infame desespero há os que não nos acham babacas de jeito nenhum e nos chamam de interessantes, inteligentes e bonitinhos, aí a massagem é total. Enfim, há quem nos considere babacas e também quem não nos considere. Tudo na mais perfeita normalidade dialética das coisas. Nós mesmos somos uma vez ou outra perdida na vida capazes de nos assombrarmos com algum grau de babaquice que atingimos em determinada situação ou contexto e nos sentirmos profundamente envergonhados apenas à lembrança disso, com exceção dos babacas perversos e adeptos do mal-caratismo, mas aí a gente teria de mudar de assunto. No fundo, quando o tema é a babaquice, a alheia é sempre mais retumbante. Somos babacas relativos, afinal. Ocorre, meu amigo e minha amiga, que há babacas arrematados. Completos babacas. Babacas capazes de gerar um consenso em torno de sua própria babaquice, unindo militantes partidários de esquerda das mais diversas origens e tendências (e olhe que nas militâncias de esquerda, há babacas saindo pelo ladrão, o Zé que o diga, e sobre as militâncias babacas de direita, seria um gasto de saliva lançar alguma consideração: já têm um Zé também). O problema é que após a raiva que o babaca total nos provoca, acabamos por sentir certa pena, forma-se em nós um gotejo de compaixão, e antes que nos descubramos babacas, justamente, por estarmos tendo pena do mais babaca dos babacas, o ódio ao babaca absoluto apodera-se de nós novamente, e com sangue no olho! Voltamos a xingá-lo e a vituperá-lo em silêncio, como reza a hipocrisia que é a base da vida social civilizada (essa coisa cada vez mais rara). E só perdoamos, no nosso íntimo, a babaquice geral àquele babaca tosco de tão resoluto é por que afinal somos parte de uma mesma humanidade, criaturas diante de um mesmo Deus, e não podemos negar a evidência de que o babaca absoluto é em algum grau um nosso parente, um próximo, por que não: um irmão. Daí nasce o sentimento cristão que nos faz acolher na mesa de bar, no Twitter, na rodinha de conversa, nos corredores do Tribunal de Justiça, nos Partidos das frentes de esquerda, nas Igrejas, nas Universidades e por aí vai, o pior dos babacas. Mesmo quando estamos certos de que iremos nos arrepender profundamente pelo acolhimento que fazemos ao babaca-mor, não teríamos como não lançarmos esse ato de amor que o enleve à condição de homo sapiens sapiens, mesmo sendo um babaca absoluto.
Monday, February 04, 2013
Acordei numa condição miserável
Acordei na mais profunda miséria. Nunca foi diferente. Não houve mudança repentina de condição. A condição sempre foi a mesma, a fuga. Estabelecido no mais profundo vazio de sentido, e pouco simpático às soluções escapistas, a fuga, naquilo que ela tem de radicalmente anti-escapista, foi o único bem de salvação pessoal disposto ao meu alcance. Estando a mão, a fuga é quase uma aberração, uma vez que a aberração num sentido pleno é o escapismo. Quem dera, como meu vizinho, dispor de coisas dadas. Um penteado da moda (quando ele era jovem), um carro do ano (japonês) e um beijo de segunda-feira da esposa, cheirosa e asseada com os perfumes adocicados trazidos da última viagem que o casal fez para Nova York, esse paraíso das compras, a "nossa São Paulo", dizia ela, riso histriônico, com a máscara de felicidade maquilada entre as rugas, enquanto embarcavam no Aeroporto Internacional de Fortaleza. Enfim, se ao menos eu tivesse acesso à metafísica de sentido do vizinho: carreira de sucesso, carteira recheada e muitos enfeites emprestando-lhe uma máscara jovial, bem-sucedida, responsável e surpreendentemente estável. Sim, ele grita com a emprega e berra com o porteiro, além de só fazer sexo aos domingos, ouvindo Roberto Carlos nas alturas com a estação de rádio mal-sintonizada e tosse muito quando está tomando banho e vota nos candidatos socialistas que formam o time dos executivos que governam o Ceará, mas não é essa a questão, todo mundo é humano, afinal. O que eu invejo no meu vizinho é a estabilidade com que as formas coletivas de percepção o premiam com a imagem do bom filho, do bom cidadão, do bom marido e do (quase) bom condômino (pois, ele anda devendo algumas taxas extras, principalmente, a do controle individual do portão automático, e, como ainda não o adquiriu, ele despeja a estrondosa buzina de seu carro japonês três vezes ao dia nos ouvidos da rua inteira, em geral, é nesse momento que ele também grita com o porteiro, mas deixemos de fofocas). O certo é que hoje acordei na mais profunda inanição, sentindo-me precário, esvaziado e excluído da possibilidade de consumir Metafísicas e narcóticos. Que fatal-idade é essa a minha? Por que estou obrigado a produzir meu próprio sentido com o suor do meu rosto? Tão mais fácil seria se eu tivesse acesso ao corriqueiro sentido, consumido com regularidade publicitária, pelos meus vizinhos sofisticados, e não fosse preciso, a marteladas, antes mesmo de tomar um digno café da manhã, ter de me confessar para o mundo: estou só! Que nosso senhor Jesus me proteja da danação eterna dessa desamparada condição.
Sunday, February 03, 2013
A condição é a fuga
a condição é a fuga. e as fusões são uma condição para fugas prazerosas. fusão de linguagens, experimentalismos com o corpo dos outros. abandono do próprio corpo em busca de um outro corpo. desafios de pensamento são vitais como o ar que se respira.
O corpo-fechado por si.
Não ter devoção para com próprio corpo é condição da liberdade de se tornar um outro corpo. Narcisismo é uma forma de corpo-fechado por si.
No deserto com Paulo Mendes Campos.
Ao ler Paulo Mendes Campos, eu me sinto menos só nesse deserto que nos assola, a alma penada dele me encanta, não me assusta.
apenas um bruto apenas um bruto
Um bruto. Apenas. Desfiro letras a golpes de peixeira. Cicatrizes toscas, dedos indigestos, aos olhos, finos, elegantes. Apenas. Um bruto.
Desnudamento em público
Amigos/as, preciso confessar algo para vocês, já que o FB virou essa grande galeria de desnudamento em público. Ontem à noite, depois de ter trabalhado o dia todo, de 7h às 19h, como todo mundo que é da base, que não é de cúpula, que, por sua vez, vivem do nosso trabalho, mas isso é outro assunto, resolvi sentar para pensar um pouco. Acontece que de relance olhei para o lado de uma prateleira e vi uma garrafa de cachaça, isso mesmo, car@s amig@s, de água ardente: a minha mão tremeu! Não sabia se era a cachaça que olhava para mim ou se eu para ela, lembrei da ideia do Bruno Latour de quase-objeto. Ou era a cachaça que era um quase-sujeito? Enfim, coloquei uma dose. Cherei-a várias vezes antes de tragá-la. Depois que eu o fiz, bateu um sentimento no meu coração, e era isso que eu queria piedosamente lhes contar, um sentimento que por assim dizer me deixou estupefato. Foi um espanto, sabe? Algo que não acontece com frequência. Parecia uma comunicação divina, vinda dos altos, para me alertar sobre a catástrofe que se apoderou do mundo, e de mim no mundo. Pois bem, ao sorvê-la, aos goles, molhando a palavra, bateu-me um sentimento de alegria tão intensa que eu nem precisei tomar outra dose. Fui dormir tranquilo, com paz de espírito, e, mesmo sabendo dos males que a cachaça promove, destruindo tantas vidas mundo afora, hoje resolvi fazer o elogio da minha dose de cachaça noturna, que não tem nada a ver com a cachaça soturna das vidas despedaçadas e esvaziadas que se esvaziam em garrafas de cachaça por que não tem mais imginação e liberdade, nem mediação na busca do prazer e da alegria de viver. Que os deuses salvem a nossa cachaça benfazeja de cada dia e nos protejam do esvaziamento existencial que o embrutecimento dessa vida mesquinha e medíocre das maiorias. É uma delícia ser uma minoria e explorar as virtualidades minoritárias do bem-viver! Molhar a palavra é um modo de realizar a ressureição de nós mesmos. Essa é a minha ode à liberdade, a cachaça é só um detalhe delicioso para a degustação da alma e o relaxamento do espírito. Saudações libertáras!
Farofa psicodélica
Sabe que eu percebi que as pessoas gostam de farofa, como eu! Eu adoro farofa, então, fico sempre querendo que a farofa seja uma delícia, uma farofa relevante, expressiva, um estalo de língua de cachaça após fazer descer a farofa. Será que existe uma farofa nesse sentido amplo em que as prisões de horizontes nos levam a querer escapar de nós mesmos, em nome de uma desdita e não-dita liberdade de fazer a própria farofa? Sinceramente, não sei! Não tenho respostas, nem reações. Tenho inquietações e incitações. Então, para vocês que têm respostas dadas ao tempero correto da farofa, desejo: ciência, arte e reflexão, esses modos inacabados, imperfeitos, aproximativos e necessariamente superáveis de conceber qualquer prática humana. Sejam felizes. E nos unamos para que não mais pelos de rato estejam presentes nas farinhas brasileiras com que fazemos nossa farofa, para o bem ou para o melhor.
Ter vergonha de estudar? Por que estudar se tornou coisa de otário?
Faço parte de uma geração de pessoas que iniciou a vida escolar na década de 1970 (ensino fundamental), passando na década de 1980 pelo ensino médio e no início da década de 1990 pelo nível superior. Com seis, sete anos de idade começávamos a ouvir a ladainha interminável e cotidiana de nossos pais a respeito do lugar decisivo dos estudos na vida, era uma ladainha às vezes insistentemente chata, às vezes dramática com falas maternas sobre perda de futuro para quem não estuda, enfim, havia uma verdadeira obsessão de nossos pais com a tarefa dos estudos. Minha mãe me obrigava com 10 anos de idade a ler dois livros por semana. Depois que ganhei gosto e autonomia, não precisei que ela mandasse mais, apesar de que ela continuava cobrando no mínimo três horas de estudos todo santo dia, além das leituras que eram consideradas "por fora". Na escola, quando fiz parte das minhas primeiras militâncias estudantis, a diretoria do grêmio só tinha "fera", só tinha caxias nos estudos ou então pessoas com paixão pela leitura, no mínimo. Éramos militantes do "quadro de honra". Os melhores filhos da pequena burguesia ou de uma classe média de pequenos funcionários públicos, como eu fui. Entre nós, havia também filhos da classe média alta, também muito estudiosos, e todo mundo muito animado com as possibilidades de construir uma sociedade democrática no Brasil, as divergências ideológicas, partidárias, políticas, não tiram de nós esse pano de fundo unificador. Estudar era o desafio da gente. Estudar muito, bem e com afinco. Era quase uma mística. O modelo da pessoa estudiosa era admirado coletivamente, era respeitado, cultuado até, havia certo elitismo nisso, como não poderia deixar de ser, mas havia também um forte sentimento de que para superar o Brasil do pistolão, nós teríamos que fazer o Brasil do mérito funcionar, com todas as fantasias coletivas que aí se interpõem, isso não deixava de alimentar uma forte corrente de moças e rapazes rebeldes, críticos, reflexivos, alternativos, esquerdistas e, fortemente, dedicados e dedicadas aos estudos.
Não me envergonho dessa memória, apesar de não fazer uma apologia cega do que há de pretensioso nisso, mas, por favor, gostaríamos de voltar a não ter vergonha no nosso país de ensinar modelos de vida estudiosa para nossas crianças. Hoje, é como se a gente precisasse pedir licença para falar em estudo. Temos que pisar em ovos, pois todas as acusações se voltam contra o valor da educação e do ensino como valores de base. Alguém sabe por quê? O que aconteceu que paramos de almejar ser uma nação que se destaca pela produção de conhecimento, pelo estudo, pela inteligência? Por que tantas pessoas hoje ficam ressentidas com os "intelectuais", tem raiva da "arrogância" de quem estuda? Sem querer afirmar verdades absolutas, compartilho essas inquietações com vocês.
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