Sunday, September 06, 2015

Pegando parelha

Há muito tempo, quando a gente ainda andava em armas, um punhal na cinta e um revólver no coldre, caminhando pela cidade, estava numa parelha, meu primo num mangalarga marchador, um animal enorme, o homem sobre o cavalo, ficavam da altura das copas das árvores, era conversar, a partir do chão, olhando para riba, e eu numa égua pé-duro de vaquejada, chocalho na sela, precisava nem de esporas, a bichinha voava ao som do guizo, era o apito, e essa certa vez dessa parelha, a gente pegando parelha, ela desembestou comigo em riba, larguei as mãos dos cabrestos, a égua me chamou para me agarrar nas crinas dela, avisou com uma bufada de lado, com um olhão enorme de assombro, olho no olho, dizendo para eu me preparar, foi a corrida mais maravilhosa que fiz em toda a minha vida, a gente voava, a égua e eu, um corpo colado no outro, nas curvas, me pregava no pescoção dela, surfando, não vi nem sinal de mangalarga marchador por trás da poeira de piçarra; quando então passei com o vento na frente do alpendre da casa da vovó. Quando sonho com a boa morte, sonho nesse galope, fecho os olhos e abro os braços e desapareço nesse galope infinito, desfazendo-me da agonia do bicho vivente, nessa danação sem fim e sem sentido, nessa aporrinhação que é viver domesticado.

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