Friday, May 02, 2014

Pelo amor à luz elétrica!

Existem pessoas que precisam de Deus. Indivíduos cujas vidas seriam esmagadas, trucidadas, repentinamente, esvaziadas, ficariam como um pneu murcho, sem para nada servir, caso não tivesse Deus obrando, operando, monitorando suas mentes. Não sei se tenho pena ou admiração de pessoas dependentes de Deus, o vício em Deus pode nascer de uma tentativa desesperada de negação de vícios inomináveis, que despertam culpas terríveis, que fazem sofrer, vícios sujos, e então é preciso se lavar com Deus, se limpar com Deus, como se Deus fosse um tipo de detergente super eficiente, que pudesse manter as coisas limpas na mente. Pessoas que não conseguem negociar com dois ou três vícios, que estão fadados a nos acompanhar, afirmando nosso campo de decisão, fazem de Deus um vício de Absoluto, uma forma enviesada de habitar secretamente todos os vícios, daí a eterna vigilância e auto flagelação dos crentes, o que também é punição do outro, flagelação do outro que habita em si, do outro que desperta o desejo de suas próprias perversões, do seu próprio vínculo com o demoníaco. É o medo da própria mente em ação, de uma mente assaz misturada, impura, experimental, que faz de certas buscas pelo espírito divino em si mesmo uma maneira de curar uma doença: doenças do espírito, quem sabe. Pois, ao contrário, das pessoas que precisam de Deus como do ar que se respira, prefiro pessoas que mergulham nas sombras, agruras e delícias da própria mente, deliciando-se com o fato de ela ser uma peneira fluída, flexível, que deixa tudo vazar e por todos os lados. Pegar a mente, colocá-la sobre uma mesa para analisá-la, como se fosse um troço qualquer, um objeto desprovido de desígnio, encarar nesse jogo de verdade o espaço vazio que é o ponto nevrálgico de toda a criação artística. O criador é o caos operando na forma de uma mente em dissolução: o princípio criador, o que não pode ser alienado a outrem, muito menos a Outrem. É na relação com a morte que reside o desafio de uma literatura que examina o cadáver da própria mente, a necrose de qualquer vontade de transcendência, o mergulho no vazio absoluto da mente, no abismo sem fim e sem sentido da existência. Como Antonin Artaud, citado lá em riba, na capa deste meu livro de face, na capa desta minha fachada irresoluta, infiel de mim mesmo, escorregadio, fragmentado, esquizóide, paranoico da noite sem chão, neurótico da falta de civilidade, perverso na minha guerra contra o que é confortável para os de mente fraca, viciados em Absoluto, estou aqui sempre para tentar acabar com o juízo de Deus. Em nome de quê? Pelo amor à luz elétrica! Um salve de oxalá, nesta sexta-feira de maio, para os espíritos livres!