Sunday, September 06, 2015

A genealogia do sertão

Meu avô paterno era pernambucano, dos sertões de Pernambuco, entre Floresta e Belém do São Francisco. Ele veio para Jardim, no sul do Ceará, na fronteira, depois desceu para Missão Velha e em Missão Nova, distrito de Missão Velha, nasceu meu pai. Meu avô se chamava Manoel Cassiano de Sá e meu pai se chama Filadelfo de Sá. Eu me chamo Leonardo de Sá. Com eles, eu aprendi: a selar uma montaria, a cortar cana no eito, a fazer uma queimada corretamente, a fazer a roça, limpar, plantar, cuidar, colher, armazenar, que a medida das coisas são em braças e alqueires e em léguas, a correr dentro do mato, a mijar na ferida quando não se tem solução melhor, a cuidar das próprias perebas, a tirar um bicho de pé com uma agulha, a subir em árvores, a passar da copa de um pé de laranjeira para outra copa sem cair, a correr na vaquejada, a dançar forró, a tomar cachaça, a usar corretamente uma peixeira para trabalhar ou se proteger, a usar armas de fogo, a atirar, a caçar, a tratar a caça, a dar bom dia para todo cidadão, a ser gentil com as pessoas amigas e com forasteiros também, a observar se há tocaia nas curvas, a perceber quando a montaria está avisando que há cobra ou algum perigo na estrada escura pelo comportamento do animal, a matar um bode e esfolá-lo, a negociar na feira, a ser honesto, trabalhador, honrar a família e não ser frouxo, não temer nenhum bicho vivente, pois, se é vivente, pode morrer também, pois cada qual tem sua hora e não é preciso temer a hora de morrer. Além de estudar muito, ler, escrever, gostar de poesia, chamar as pessoas amigas de poetas e filosofar. São algumas coisas que aprendi com meu avô Manoel Cassiano de Sá, que Deus o tenha, e meu pai, Filadelfo Sá, que continua me ensinando muitas outras coisas, graças a Deus. (Isto não é um texto ficcional, é um autorretrato etnográfico). Os tempos mudaram muito. Aos 12 anos de idade, lembro que ganhei um punhal com um cabo estilizado, punhal comprado no mercado de Juazeiro do Norte, eu andava com ele no cós da calça, morto de orgulhoso, tinha virado homem, e aí tinha que começar a beber, fumar e transar também, entende? E saber montar besta de vaquejada, pois correr numa besta de vaquejada não é para qualquer um. Desejar ganhar um mangalarga marchador era um sonho! Meu primo, que Deus o tenha, me emprestava o dele para eu cavalgar de vez em quando. É um cavalo altíssimo e forte, uma potência. Um galope incrível. Mas a besta de vaquejada é mais ágil, corre com o vento. A maior emoção de todas é singrar uma estrada vicinal a mais de mil, agarrado na crina do animal. É como voar baixo. Aos 13 ganhei uma espingarda, uma socadeira, super bem feita numa das centenas de fabriquetas de armeiros do sertão, e aos 14 ganhei outra espingarda, uma automática, de repetição. Aprendi a atirar de revólver, de pistola e também de doze. Era assim que os meninos eram socializados nos sertões do Ceará, até pouquíssimo tempo atrás, será que deixaram de sê-lo? Será? Ao mesmo tempo, ensinavam para a gente que tinha que ser doutor. Tinha que estudar muito para ser doutor. Era assim. Não estou julgando, apenas relatando como era, relatando as origens. A gente lia: Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Machado de Assis, José de Alencar, Antonio Bezerra, Oliveira Paiva, Jáder de Carvalho, Leonardo Mota, Capistrano de Abreu, além de Homero, Hesíodo, Platão, Aristóteles, Plutarco, Virgílio, Petrônio, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Dante, Petrarca e Cervantes, entre outros, era o que se lia nos sertões do Ceará, quando era rapazola. Era o que a gente tinha que ler para virar homem. Sobre cabarés, não vou falar nada! Para se fazer antropologia, é preciso fazer a reflexão sobre qual a concepção de pessoa na qual o antropólogo foi endoculturado. Não me tornei pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência à toa.

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