mais uma noite de insônia. seria a insônia uma qualidade da noite? será possível eu ter me enganado durante tanto tempo sobre isso? há dez anos, eu estaria dançando em algum lugar. então é isso? estou ficando velho. por isso que esse sentimento de acúmulo de vivências impregnou-se em mim. eu deitado na rede, na sala de casa, e as luzes do prédio alheio invadindo minha sala, projetando-se sem minha permissão sobre as paredes que, agora percebo, nunca me pertenceram por uma razão muito simples, a casa é minha mas as paredes não são minhas, são alugadas. por esses dias, precisarei ir ao dentista. meus dentes pela manhã balançam na boca e, à tarde, quando já os sinto suficentemente endurecidos para uma refeição mais ousada de picanha com salada de batata, eles se ressentem de não terem sido avisados. estou com saudade do meu dentista. ele é um cara muito legal. engraçado e prestativo, faz da situação imobilizante da cadeira de dentista uma cena de filme antigo, desses em que as imagens giram na nossa cabeça, como se o mundo fosse delirante. de qualquer modo, é melhor do que ficar acompanhando a intromissão de mãos e ferramentas, brocando dentro da boca aberta, escancarada, atemporal.
houve tempos em que minha subjetividade se percebia meio mandona, dona do mundo, no centro de tudo. nem sei mais se perdi alguma coisa em perder essa experiência para todo o sempre. algum leitor pode me objetar. mas esse cara não está escrevendo em primeira pessoa? mas é aí que está. é a facilidade do escrever em primeira pessoa que hoje me denega. é o que sinto. meu eu não está mais aqui. está em outro lugar. e não faço mais a menor idéia de onde seja esse outro lugar. talvez tenhamos que pedir ao poder público e aos estabelecimentos privados com responsabilidade social para criarem departamentos de eus achados e perdidos. pelo menos seria divertido correr o risco de entrar no shopping para comprar uma camiseta e sair com um eu completamente estranho e sinistro, falando por nossa boca como se fôssemos um títere de sujeito. o eu lá, todo intromisso, macaqueando em nosso corpo pelas ruas da cidade. íamos dar trabalho à polícia, aos médicos e todos os senhores de anéis que se esmeram em cuidar de nós.
eu não devia ter comido tanta picanha. o bolo de carne está parado dentro de mim, espreitando pela chance de se movimentar. as menininas adotaram o procedimento medicalizante da anorexia. um dia desses uma equipe de alunos e alunas fizeram um trabalho sobre isso para uma de minhas aulas. foi horripilante saber que os menininhos também cederam a isso. a anorexia agora é andrógina. não que eu seja um desses moralistas débeis mentais que ficam alardeando pelos quatro cantos o fim de deus por causa da androginia. tenho lá minhas babaquices, não muitas, é claro, ainda me resta um sentido próprio de amor ao outro, mas o que me assusta é onde a androginia está sendo aplicada. talvez fosse mais interessante termos mais arte andrógina com menos bulimia. mas acho que estou precisando ir pegar uma coca-cola zero, antes de continuar, para não descambar para um texto chulo de jornaleco, tipo desses que saem na folha lá do povo que acredita mandar na gente.
pronto, estou de volta, peguei o copão de plástico amarelo e enxi de pedras de gelo com coca cola zero. será que eles pagam algum bônus, se a gente cita o produto num texto assim da blogsfera? sei lá, está tudo tão mudado que é bem capaz de eu receber um telefonema amanhã da mega-empresa sobre isso. vixe, outro problema, esse hífen aí atrás ainda existe? não, não vou me preocupar com isso agora. são três horas da manhã e meu sono está passeando longe lá fora. mas pensando bem vou verificar ali de novo se eu desliguei mesmo o celular. não só por causa da coca cola. estou de saco cheio de celular. virou uma espécie de consultório ambulante. e como eu tenho apenas um ouvido bom, o outro é bichado, ninguém consegue falar direito comigo ao vivo se eu estiver falando ao celular. é uma coisa ou outra, sou mono. ainda bem que eu não digitei mona, pois aí o povo podia maldar. pesquisei aqui no google, mona is a free operating system com code free. legal, olha aí eu fazendo outro merchandizing pra galera do capital. enfim, o capital se subjetivou, como dizem os professores de hoje em dia lá nos estados unidos. o capital por lá se subjetivou de tal modo que perdeu inclusive a morada. foi expulso de casa. antes, a figura por excelência do capital subjetivado, era o desemprego, agora é o desemprego homeless. só falta o capital subjetivar o desejo da falta, pois o desejo da culpa já virou moeda corrente da fluidez das novas relações capitalistas.
pense numa insônia braba, fui nos estados unidos e voltei ainda com ela nos braços. mas venhamos e convenhamos, não se fazem mais churros como antigamente. apesar de que no google temos mais de 1.900.000 referências para as receitas de churros. enfim, estamos comendo os códigos. esse lance dos churros foi mais uma lembrança reprimida da infância. ou seja, outra vez me lembrando que estou ficando velho. acho que preciso ligar amanhã para minha mãe. conversar com ela sobre a velhice. mas terei de ser bem sorrateiro para ela não ficar com raiva e passar duas semanas se escondendo de mim. principalmente agora que ela praticamente virou budista tibetana, eu ir falar de velhice, não ia pegar bem. mas se eu falar da minha avó, a conversa rende 93 anos. já estou me sentindo mais novo, só de pensar. mas assim também já é manipulação demais das idéias.
acho que vou parar por aqui compartilhando a notícia boa de que o barulho das teclas acabou acordando minha mulher. ela perguntou o que havia, eu disse que estava com insônia. ela então me chamou para conversar. a voz era macia e acolhedora. vou nesssa, meu tempo de vida é promissor por esses instantes e amanhã não sei se vou caminhar na praia ou tomar uma cerveja comendo um pargo frito. que vida distante essa nossa.