Thursday, November 30, 2017
Crianças e idosos massacrados
Mas o que é ter problema na vida diante das pessoas que perderam entes queridos de modo violento? Mas o que é ter problema diante de quem está com entes queridos muito doentes? Morte e doença são avassaladoras. Nada mais complexo do que isso. As crianças e as pessoas idosas sendo massacradas. Isso é insustentável. A solidariedade está muito escassa. Essa é a crise principal.
Sobre a economia de guerra
De 2008 para 2012, quando a ostentação atingia o limite do céu, aqui em casa fizemos uma reunião de família para discutir a crise que se avizinhava, quando ninguém falava de crise. É esse o segredo. Não entrar no jogo. Ficar sóbrio. Não se embebedar de fantasias. A gente entrou no bunker quando estava todo mundo viajando. Aprendi isso com meus pais na década de 1980.
Tuesday, November 28, 2017
Condição de dominado: um círculo vicioso
Tentam imitar os dominantes, legitimando os critérios dominantes de avaliação, e quando são avaliados por tais critérios se sentem humilhados. A condição de dominado é um círculo vicioso entre vergonha e humilhação. Romper isso é sentido como uma tarefa quase impossível.
Detalhes invisíveis
Acordar todo dia às 5 da matina para filho chegar na escola às 7 horas em ponto. Empiricamente falando, neste ano de 2017, falhei um dia apenas. Exatamente, um dia. Chegamos às 7h10. Um vacilo meu. O nome disso é ascetismo secular. Não é brinquedo. É o lado invisível das coisas.
A reclamação paralisante
Não faz sentido você acompanhar jovens com doutorado alegando que estão desempregados por falta de oportunidade. Não faz sentido mesmo, principalmente, quando as oportunidades vão surgindo e os reclamantes nunca se inscrevem, nunca buscam as oportunidades, e continuam reclamando. Fico observando isso. Vamos reclamar e agir ao mesmo tempo. Reclamar e ficar paralisado é um problema sério.
Distâncias intergeracionais
Percebo que a distância entre minha experiência pessoal na vida social brasileira e de minhas e meus alunxs hoje é enorme. Há muitos pontos de contato que possibilitam a comunicação, mas há alguns pontos que são um fosso. Para quem foi adolescente e jovem na década de 1980 e já adulto em 1990, as coisas são muito diferentes. Eram tempos muito duros. Esse pessoal que hoje nos assusta (extrema-direita) ocupava todas as posições e em todo lugar. Vivíamos acuados. Eles estão apenas querendo voltar a ser como era naquela época. Vivíamos sendo massacrados por toda parte. Éramos os "vagabundos", os "baderneiros", os "maconheiros" etc. Era pancadão. Não digo que hoje seja mais fácil, mas houve mudanças para melhor por causa das lutas coletivas por direitos. O ambiente ficou menos irrespirável. Sei lá se estou certo. Posso estar alimentando aquelas coisas intergeracionais.
Fazer amigo não é fácil
Não gosto de tratar todo mundo como se fosse amigo. Amigo é algo tão raro e precioso, não merece banalização. O que não quer dizer que esteja fechado para novos amigos. Mas, em geral, não estão ligados aos circuitos de sucesso, dinheiro e poder. Onde há exaltação disso, não vejo chances de fazer amigos. Amizade nasce naquela situação onde a igualdade, o olho no olho, o lado a lado, é a base de tudo. Confundir amizade com "aliados", "rede de trabalho" e distribuição de simpatia para acúmulo de capital político ou outras formas de prestígio social é sem futuro. Um erro crasso.
Racismo atinge primeiro as crianças
Quando um homem e uma mulher brancos, ricos, poderosos, com muitos recursos para se defender, adotam uma menina negra, uma criança linda e adorável, fico pensando o que deve se passar de terrível com uma menina ou menino negros que vivem em situação de favelamento com suas mães negras solteiras superexploradas em atividades que reforçam posições de subalternidade, humilhação e exclusão de direitos. Se a linda Titi está sofrendo ataques estúpidos dos racistas, imaginem o que sofrem as outras crianças invisíveis ou invisibilizadas pelo racismo de Estado no BR.
Monday, November 20, 2017
Sobre a urgência
Me dá um cansaço tão grande trabalhar com pessoal compulsivo para quem TUDO É URGENTE. Um saco. Na vida, apenas a vida é urgente. O resto, a gente desenrola. Cada urgência com seu vazio. Quando alguém diz que algo é urgente, inicialmente, me dá uma raiva daquelas. Vem na minha cabeça os filhos doentes, as pessoas próximas morrendo, a falta de sentido da existência, coisas assim. Aí, vou ver que a merda da urgência do outro não passa disso, de uma urgência de merda. Uma urgenciazinha fajuta, melodramática, baseada em carência, sem solo real. Pois, urgência real é o filho na UTI ou sendo morto pela PM. Urgência para coisas que não são urgentes é uma filha da putice. Demandar urgência deveria ser um recurso de socorro extremo. Mas o urgente virou uma coisa banalizada. Qualquer ansiedadezinha de merda vira demanda de urgência. Urgente é a morte, pessoal. Urgente é a vida sendo ceifada, destruída. O resto é o resto. Urgente é evitar as condições de morte do desejo humano, da liberdade, da igualdade, e nada mais. Não vamos etiquetar de urgente as banalidades da vida vazia. Urgente é o amor, a solidariedade, o bem-viver para todas as pessoas sem exceção. Urgente é o reino da abundância de alegria e do júbilo no excesso de sentido.
Desabafos da vida
E quando aproveitam que você está com filho pequeno para lhe acusar de baixa produtividade e tomar suas posições? Se isso acontece com homens pais, imaginem com as mulheres que são mães, que a cobrança é elevada à enésima potência. Cansado também de supermachos, que são pais ausentes e vivem de desejo de poder. E, muitas vezes, nem sempre são tão produtivos quanto se pintam. Vivem de inflacionar a própria imagem. Organizações dominadas pela hipercompeticao de supermachos são uma merda.
Wednesday, November 08, 2017
Tudo ou nada?
O mergulho total em qualquer coisa é uma besteira enorme. Nada é total. Tudo é nada. Esse lance de querer totalizar a experiência é tão problemático quanto querer fragmentá-la. Entre paranoia e esquizofrenia, prefiro o caminho que se inscreve diretamente no real quando se foge das antinomias e das alternativas infernais. Tudo ou nada? Essa questão precisa ser superada, mas não por uma forma de meio-termo fajuto, que aposta as fichas numa postura de docilidade adaptativa ao que aí está. O mais difícil é lidar com o vazio sem por isso se basear num desejo do vazio. É como lidar com o pleno, sem desejar o absoluto. O problema não é o vazio, é cair nele ou desejá-lo. No primeiro caso, é perder a relação com a loucura. No segundo, é neutralizar quaisquer potências da existência. Outro problema é lidar com o tudo. Se confundir com o tudo é um ato de pura arrogância. Manter uma relação com o tudo pode ser uma proteção, mas beira o desejo de onipotência desse tudo. Certa inveja da onipotência do tudo, de sua suposta onipotência se faz uma onipotência delirante de quem sente medo mas não quer mais.
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