Sunday, February 25, 2007

Convicções

As convicções são portentosas. Matreiras em adestrar a experiência aos seus caprichos, em moldá-la contra a razão. Por que então são tão irresistivelmente sedutoras? Minha adesão, por exemplo, ao mundo do trabalho é uma dessas loucuras em que o ser semelha perder o que ganha pelo fato de eximir-se do próprio território, estabelecendo relações ambivalentes e cambiantes com o território dos outros. Meu território é o da infância. Como Lévi-Strauss, tornei-me professor para não sair da escola. Ao final e ao cabo, sou um malandro orgulhoso e pago caríssimo por isso. Ao tentar fugir das humilhações ocasionais lançadas sobre o mundo da vida, desenvolvi a destreza impoluta de navegar na transversalidade do espaço conspurcado das corporações, espaço estrutural, funcional e corrompido pela perversidade do mediano. Meridianos perversos e risadas histriônicas. Ambos negadores do riso. E nessas mixórdias de caráter fragmentado, implodido em mil pedacinhos desencontrados, não me encontro e nem me procuro, pois não sou besta de nascença, só de parecença quando vem ao caso e ao raso do poço de onde almejo emergir. O que busco? Um tipo de economia de guerra às avessas: um tipo de plano auto-organizador onde a abundância orienta a procura, o valor do valor é movimento de conhecimento e o extraordinário é o principal vínculo de orientação para o fim em cuja afirmação enleva-se a gratuidade do devir.

Saturday, February 17, 2007

Manhã de sábado de carnaval

Naquela tarde de outubro, ao debruçar-me sobre o parapeito da trincheira, arma em punho, o espírito a atraiçoar-me, pude vislumbrar o deserto e nele não havia cor vivaz que o valesse. Faltava-lhe nitidez, era tudo verde-musgo de um escuro que feria a intenção de olhá-lo. Ato contínuo, apregueava meus olhos a não mais poder a fim de evitá-lo, recusá-lo e dissuadi-lo, não o queria em mim, não o permitia ser em mim a mais completa condição de abandono. Ao contrário, buscava acender para meu uso pessoal essas chamas de heroísmo e idiotice a que me aferrava por sobreviência da alma, buscava permanecer no desespero, aceso à ironia da situação, atento à vida mínima ao meu redor. Desesperado, a calmaria dos sentidos tornava-se minha única guarida contra a depressão e o desmembramente dos órgãos. Meu estratagem contra a exaustão. Olhos cerrados protegiam seu brilho, ou o que dele restava. Apenas o odor de pólvora naquele campo de ossadas e corpos insepultos guiava-me nesse direcionamento como os passarinhos que na praia saltitam de uma sombra a outra projetadas pelos guarda-sóis.

Para escapar da náusea dos corpos chamuscados, forçava-me à lembrança olfativa dos tempos de criança quando costumava em absoluto sigilo e segredo deliciar-me com a baforada quente dos boeiros da minha cidade natal. Todavia, lá estava eu, naquele espaço sem lugares, e ele era o ponto mais baixo, era o páramo afundado em tristeza e desesperança.

Nem percebi, quando Hen me passou o copo amassado. Praticamente, bochechei o café ralo, servia-me para lavar os fragmentos de atum enlatado já duplamente incrustado em meus dentes. Meu rosto estaria tão encruado quanto o de Hen? Ao fitá-lo não pude divisar reconhecimento, era um rosto de piscadelas involuntárias, inerme e virginizado de espírito, não percebi que Hen, sem palavras, instava-me a ter com ele no canto mais sujo daquele buraco de lama, não era bem um chamado, mas palavra-de-ordem rota e muda. Cansado como se o cansaço não mais me abandonasse, encolhi os ombros e dirigi-me com cuidado até ele. A um palmo dele e não o sentia, Hen tinha deixado de ser uma composição, o vivente o abandonava, estava frio, sem vitalidade, emplastrado de rejeição a si mesmo. Não sei ao certo como compreendi que ele necessitava de uma massagem nas mãos. Elas estavam obviamente petrificadas. Cada dedo precisava ser tocado com leveza para não ser despedaçado. Hen tinha perdido a habilidade do gatilho. Tinha-se tornado meu protegido e, ao mesmo tempo, meu escudo. Essa situação era-lhe a própria presença da consciência. Era o único farrapo que lhe restava dela. Uma trojevada de artilharia nos jogou de lado e anunciou o avanço da infantaria esquálida e faminta do exército inimigo. Estavam todos muito perigosos, enfim. Nós e eles. Os desaparecidos do mundo. Hen não esboçou nem mesmo olhos vidrados antes de morrer. Foi engolido pela terra, lançado para a cratera sob nossos pés, um buraco do tamanho da nossa importância. E eu? Fragmentei-me em minhas modulações, pois só a escrita imprecisa afungenta a mesmice desse teto de convalescença. Teto estrelado, radiante e lúdico, modulado pelo efeito da morfina. Uma dose diária.

Tuesday, February 13, 2007

em sonho

era madrugada de quarta-feira. qualquer tentativa de permanecer acordada, parecia-lhe fadada à rabugice. sua maior dúvida era um ato de convencimento, mas ninguém convence ninguém, muito menos a si mesma, principalmente quando as idéias parecem despropositadas, sem trama; e a manhã era madrugada pernoitada, ora se sentia por isso uma pecadora, outra vez, impossibilitada, pois falhar com a trama é terrivelmente inconsistente, quase proibitivo. dizer para si mesma tudo o que sentia naquele momento seria o maior e melhor engodo; infeliz, constatava, não haver tempo para isso, a verdade urgia.

Saturday, February 10, 2007

O mundo está preenchido no pleno?

Eu intento, para além do tipo, pensar em viver o desejo abstraindo-lhe a definição de quem busca faltas próprias e inelutáveis. Estruturas inenarráveis simplesmente me impingem desconfiança, porque, palavra plena de pulmões e arteiro, ignoro quem não se torna carne, sangue e proeminência sem sair do solado dos pés. Pragmático, no mundo de aruanda, estou na peleja do pensar e viver o desejo privando-o daquilo que lhe falta.

Mais forte do que meu eu?

Se duas pessoas se comunicam, encontram-se enredadas no mais frágil dos fenômenos humanos. A comunicação quase sempre ressoa tão dispensável ao ponto de ter-se criado, ao longo do tempo, a ferramenta débil da consciência individual para servir-lhe de suporte. Desse modo, acontece comigo - a não mais poder-, ser reputado reservado e inconclusivo, e falsamente tomado pela referência da distância justamente no instante em que mais embaçado estão minhas lentes. Por que então quando estou mais próximo de quem me fura o olho com o punhal da desesperança, de quem pressurosamente me enaltece a fim de me matar de morte matada e para quem reservo meu destempero verbal como um modo de fazer reverberar o eco do eu te amo às avessas, é o como em que se eu estivesse mais longe?

Monday, February 05, 2007

Implosão

Ouvir o silêncio da coluna atmosférica em meio aquático.

Em que oriente, posso te encontrar, minha querida?

"Ela estava ali o tempo todo, você não viu.
Que diferença faria a cor da roupa ou dos olhos? Que importa se chorassem sangue ou lágrimas de tolo, como o ouro sem o fosco valioso, não polido, não extraído, tão puro e ignorante?
Ela estava lá toda noite, você não sentiu.
Que importam as mentiras e equívocos, a paixão e o amor de poesia, jornal na padaria. E quanto àquele dia? Alguma alegoria do não, já perdida e nenhuma alegria.
Ela estava ali o tempo todo e só por hoje não quer estar em lugar algum.
Ela não está mais aqui, nem está aí. Ela não quer mais estar.
Aonde terá ido alguém tão perdida em si? Isso importa?
E ela estava o tempo todo ali...
O que importa é que ela esteve o tempo todo ali
só que ninguém viu" (Papoula da Índia).

Minha querida amiga e poeta de desfiladeiro, nosso tempo é indelével. Só em sonho busco a tua mão, muito obrigado pelo texto, eu o adorei. Estás em Nova York? Compra um livrinho básico para seu amigo? Estou correndo atrás de uma pérola, mando-te mais detalhes por e-mail, por enquanto vou me virando pela terrinha, mas em breve vou chegar para conversar contigo e com Loïc. Ele aceitou ser meu padrinho no departamento de antropologia. Sem ele, seria muito difícil a inserção. Meus beijos almejam teu perfume ainda uma vez nessa vida!!! Tomei a liberdade de publicar teu texto aqui, como um pingente precioso. Paz e bem, abraço nas crianças!

Sunday, February 04, 2007

badulaques

sem estrépito, recolhi meus badulaques, fui à roça, e descobri que eu estava dois anos mais novo. a oferenda à mãe de todos renovara minhas atitudes a não mais poder. mas quem vai trabalhar no meu lugar na segunda-feira? estou livre, meus dias livram-se a si mesmos, abandona-me a ilusão, preciso de vinho e do beijo. os sentidos estão em festança! o bolso vai começar a se ressentir em contrapartida. mas é o preço que o valha.

O que me move?

"Ce n'est point un livre d'histoire. Le choix qu'on y trouvera n'a pas eu de règle plus importante que mon goût, mon plaisir, une émotion, le rire, la surprise, un certain effroi ou quelque autre sentiment, dont j'aurais du mal peut-être à justifier l'intensité maintenant qu'est passé le premier moment de la découverte" (Foucault, la vie des hommes infâmes, 237, v.III).

Rocambole

talvez, eu devesse buscar na mixórdia de textos literários, semi-literários, burocráticos, policiais e registros da justiça criminal as fontes da discussão sobre as narrativas dos homens infâmes (Foucault). Haveria de me perder na escritura inapreensível e na atitude simiesca das rotinas policiais, judiciárias e criminais? quem sabe possa achar literatura a partir de documentos tão medianos de apreciação e feitura? assim vou virar um pesquisador rocambolesco. Salve-me se puderes Monsieur du Terrail!

"Nos tomos mofados de toda grande biblioteca encontram-se sepultados artigos escritos por indivíduos obscuros ou desconhecidos sobre temas aparentemente sem importância, mas saturados de dados, idéias, caprichos, inclinações, portentos de tal calibre que só podem ser comparados, por seu efeito, a certas drogas raras" (Henry Miller, Plexus, 67).

Humanos

"De fato, as únicas questões realmente sérias são aquelas que até uma criança pode formular. Apenas as questões mais inocentes são realmente sérias. Elas são as questões sem resposta. Uma questão sem resposta é uma barreira intransponível. Em outras palavras, são as as questões sem resposta que definem as limitações das possibilidades humanas, que descrevem as fronteiras da existência humana" (Milan Kundera).