Saturday, March 08, 2014
Não tenho pedigree
Todo santo dia, eu me pergunto o que poderei fazer para minimizar o papel avassalador que a mediocridade ocupa na determinação do que eu faço, digo, escrevo e sou. Sempre tive horror que o núcleo medíocre de mim mesmo me tomasse por completo, fizesse de mim o completo idiota que não sou, sou apenas meio idiota. O medo de ser um idiota rematado sempre foi meu pior e inconfessável receio na vida. Tenho mais medo de ser mais medíocre do que já sou do que de me tornar pobre, louco ou criminoso. E é a afetação desse medo que me perturba o juízo. Tenho o passado condenado de quem não passa de mais um entre milhares de filhos das camadas médias inferiores. E o conteúdo e a forma da minha revolta são determinados por essa estreiteza do meu pertencimento de classe. Eu leio livros como quem quer se livrar de um destino social de funcionário público subalterno, como se isso fosse apagar a subalternidade da minha condição. É uma fantasia pessoal minha, sem a qual tudo desmorona, saber que pela relação um tanto pedante e superficial com o campo do saber eu possa me sentir menos destinado a ser um branco pobre de periferia, sem brilho na selva social. Eu canso de mim mesmo. Canso do meu pedantismo de intelectual, querendo se afirmar onde não representa nenhuma tradição, onde não se carrega nenhuma herança. Um dia desses um amigo de adolescência fez uma confissão numa mesa de bar que me arrasou: cara, fica todo mundo impressionado que hoje você seja professor da universidade, sabe, Léo! Porque você era o mais burro da turma. Em 1989, a gente querendo discutir a Perestroica e você não sabia nem onde era a Rússia direito. Era uma anta. Hoje virou o bichão. Ouvi calado essa admoestação do amigo. Se ele a disse é pela razão de ter alguma verdade que seja. A verdade que seja no caso é que é verdade sim que sou um recém-chegado na vida intelectual. Não tenho pedigree. Minha ancestralidade é toda analfabeta ou semi-analfabeta, o que não quer dizer sem sabedoria, é claro.
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