Sunday, September 06, 2015
Morrer de sertão
Se ainda fosse capaz de esticar pelo cão da memória, com a habilidade esquecida com que outrora manipulava o cão da arma, da arma que ganhei de meu pai, comprada no mercado de Juazeiro do Norte, parece um tempo não mais de gentes, parece ter virado sonho esse passado tão recente, mas, mesmo assim, se ainda fosse capaz de puxar pelo fio de um dedo de prosa, palavra molhada, no alpendre da casa da vovó, primos e tios batendo nos joelhos uns dos outros, rindo-se à toa da pouca valia dos títulos, falando de bicho vivente para bicho vivente, ainda poderia secar um pranto que não é mais meu, uma dor vazia desde que a enterrei na cova funda que cavamos para colocar uns sobre os outros os cadáveres de uma linhagem sertaneja, mas mataram as bichinhas tudo, as de arribação, pra mói de comer e também por tanta maldade contida no peito. Os desgraçados, nós, nós desgraçados. Hei de morrer de sertão.
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