Tuesday, March 18, 2014
sim, morrem...
As pessoas morrem. Eu conversei com uma pessoa, mas ela morreu, aí eu não conversei nunca mais. Eu não vou para meu próprio enterro. Vou faltá-lo. Pregar uma peça no agente funerário. Eu não conheço nenhum agente funerário, do mesmo modo que não conheço nenhum agente literário. O único agente que eu conhecia, mas morreu, era o agente de polícia.
Sunday, March 09, 2014
Em 24 de agosto de 2012, eu descrevi que tive um pesadelo.
Eu tive um pesadelo de ontem para hoje. Vou narrá-lo para vocês. Foi assim: eu caminhava pelos jardins da Reitoria da UFC, indo em direção ao bloco das Ciências Sociais, onde trabalho. Várias pessoas, vindas de todos os lugares ao mesmo tempo, como num passe de mágica, começam a me assediar, fazem mil perguntas, pedem informações, solicitam que lhes indique referências de obras, livros, artigos, fazem perguntas, exigem explicações, há uma barafunda de falas que começam a se transformar em gritos, os rostos se tornam raivosos, olhos esbugalhados, só então percebo, pela primeira vez, que são faces conhecidas, são meus alunos e minhas alunas, pessoas queridas, pessoas que eu respeito profundamente, mas no alto do meu desespero, começo a ficar tonto, zonzo, pois a multidão de vozes dissonantes falam ao mesmo tempo o meu nome "Léo, Léo, Léo...", olhares esgazeados e famintos, na fuga, num ato de desespero, eu também começo a gritar, esbaforido e desfeito da atitude que o decoro exige de um professor da Universidade, e nesse ponto, eu me viro de repente e digo: -- Sr. Professor Dr. Leonardo Sá! Grito em desespero, como fez Antonin Artaud quando estava internado no hospício e o psiquiatra insistia em chamá-lo pelo primeiro nome, o nome de infância, o nome da mãe: Antonin. Em tom de voz duro, eu começava a olhar um por um nos olhos de meus queridos alunos, dizendo-lhes: -- Tratem-me de Sr. Professor! Havia um delírio, um transe paranoico, um esgar que quase travava minha voz. E a partir deste momento eu chamava a todos de Senhor e Senhora. Senhor Estudante, Senhora Estudante, Senhor Colega Professor, e o delírio ia inundando minha mente quase ao ponto de fazê-la explodir. De súbito, acordei resfolegante. Foi apenas um pesadelo de que a Universidade houvesse se tornado um lugar de terror, de medo, de celebração da reprodução das mais arraigadas e violentas hierarquias da vida social. Ainda bem que foi apenas um pesadelo. Logo estarei ouvindo da voz de educandos/as o sonoro "Léo" ou o carinhoso "professor" com que me brindam na vida cotidiana da nossas ricas e profícuas trocas acadêmicas e humanas. E ninguém precisará me chamar de Senhor, nem de Herr Professor, ok? Somos apenas les pauvres enfants de la patrie, um novo e discreto precariado, abandonados a própria sorte, quem sabe... Saudações libertárias
Beijar na boca de fantasmas
Vocês já beijaram na boca de uma pessoa que já morreu? Ou melhor dizendo, para que não se confunda com necrofilia: vocês já beijaram na boca de uma pessoa e essa pessoa morreu de modo que vocês lembram de ter beijado na boca de uma pessoa, mas a pessoa já não existe mais, virou cadáver, explodiu depois de alguns dias dentro do caixão lá no cemitério, a sete palmos? O beijo dado não é mais recebido na imaginação de um ser vivo, mas apenas de um fantasma. É isso o que podemos chamar de um fantasma? Um beijo que perdeu o seu suporte vital na memória de um ente vivo? Então, o beijo não é mais compartilhado pela memória secreta do beijo, uma vez que apenas um dos beijantes está vivo para contar a história, não haveria ninguém para confirmá-la, não haveria nenhum vestígio de memória do beijo dado no suporte corporal da outra alma. O beijo então realmente existiu? A imagem do beijo dado ao ter perdido seu objeto é uma imagem válida da existência do beijo dado ou a evidência de que existem fantasmas?
Ele morreu.
Eu tinha um amigo que me dava carona. A gente bebia cerveja junto e ria das besteiras da selva social. Ele morreu. Nunca mais peguei carona com ele. Aliás, o desinfeliz morreu num acidente de automóvel, poderia ter me levado junto o desgraçado. Será que os mortos podem ainda rir das brincadeiras que fazemos com eles depois de mortos? Um morto é capaz de rir?
Como um filme de minha vida
Quando eu era menino, me ensinaram a matar passarinhos com a baladeira, principalmente, rolinhas, a depená-las, assá-las e comê-las. Os meninos dos sertões matavam a fome assim. Até hoje eu sei matar uma rolinha de baladeira para comer. Conhecimento útil. E as rolinhas são tão bonitinhas, não são? São fofas. E deliciosas. Quando eu era menino, um tio avô meu me ensinou como matar um bode, eu tinha 12 anos, foi o primeiro bode que eu matei, sangrei, aparei o sangue na bacia. Ele revirou os olhos enquanto estrebuchava-se diante da morte e de seu matador: o matador era eu. Depois me ensinaram a tratar, tirar o couro na ponta da faca, eu tirei bem direitinho, botar o couro para secar, esticado com uns pedaços de pau, limpar o bicho, salgar e fazer o churrasco. Quando eu servi o churrasco, os homens da minha família estavam orgulhosos de mim. Eu tinha aprendido o que todo homem da minha família sabia fazer. Isso foi nos sertões. Eu sou do sertão. Quando eu era menino, eu só podia caçar usando baladeira, matava as rolinhas para comer. Mas um dia, com 13 anos, depois que tinha aprendido a usar a faca amolada para matar um bode, os meus tios paternos e meus primos mais velhos me chamaram para a primeira caçada com os homens. Passamos três dias nas matas dos sertões. Eles me ensinaram a atirar de revólver, de espingarda doze, de socadeira eu já sabia, e me ensinaram a fazer uma tocaia, a se esconder na mata, a se comunicar sem usar palavras, a sentir o cheiro vindo com os animais, a procurar água salobra, e quais frutas selvagens podem ser comidas e quais não podem. Me ensinaram também que as cobras tem medo de gente, por isso fogem, elas só atacam quando a gente pisa nelas, a culpa da picada da cobra é do humano e não da cobra, aprendi também que os cavalos sentem as tocaias de bicho bicho ou de bicho gente. Aprendi a atirar correndo a cavalo, antes eu tinha aprendido a correr a cavalo sem nada, só no osso, usando as crinas como rédeas, é preciso falar na orelha do bicho, é preciso ter relação cognitiva com o animal para dar certo. Aprendi também a arrear os animais e como negociar a compra e a venda de armas de procedência para evitar armas ilegais, armas que já tiraram a vida de homens justos. Era assim no meu tempo de menino, virando rapaz, nos sertões. Pois eu sou do sertão. Eu ganhei de presente do meu pai minha primeira peixeira estilizada com cabo de madrepérola e capa de couro com 13 anos. Com 14 eu ganhei minha primeira espingarda. Ela ficava guardada debaixo da minha cama. Sim, eu sou dos sertões. Não é ficção. Nunca vou esquecer a primeira vez que tentaram me matar. Eu estava no clube com a moça. Fomos para o estacionamento do clube para namorar. Um homem chegou vindo das sombras e começou a gritar. Era o irmão mais velho da moça. A moça disse para eu sair dali. Ela e o irmão ficaram brigando aos gritos. Voltei para o clube. Estava lotado. O homem veio vindo na minha direção. Armado. Um dos meus primos mais velhos notou e se atracou com o homem no meio do salão, numa luta corporal, sem deixá-lo sacar a arma. Meu primo estava desarmado mas sabia lutar com um homem armado para não deixar o homem sacar a arma. Outra vez não deu certo e ele levou um tiro, mas isso foi outra história. Outro primo meu falou no meu ouvido para eu ir embora e rápido. Quando eu estava saindo do clube, o homem que tinha conseguido se desvencilhar da briga com meu primo, gritou pelo meu nome, eu parei e olhei para trás. Ele puxou uma pistola e apontou para mim. Saí correndo pelas ruas. Ele começou a atirar, as balas passaram zunindo pelo meu corpo, nenhuma pegou, foram vários tiros, fiquei sabendo que ele estava bêbado e tinha cheirado muita cocaína, não estava com a pontaria cem por cento, dizem que foi minha sorte. Pulei num canavial, fiquei a noite toda sendo caçado pelo homem, eu estava desarmado. Um amigo da minha família foi quem me salvou, depois eu conto como foi. Lá no sertão, o meu pai é conhecido como galego. E eu como o filho do galego. Quando eu tinha 12, 13 e 14 anos, meus escritores prediletos eram Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, mas o meu xodó era José Lins do Rego. O obra do José Lins é a que mais proximidade tem com o tipo de vida que aprendi junto a família do meu pai. Regionalismo na veia. Modernismo regionalista na veia.
Ao seu inteiro dispor
-- Professor, eu entrei lá no site do jeito que o senhor falou, usando a palavra-chave que o senhor indicou e não encontrei nada.
--- Pois eu encontrei 2.789 referências com a mesma busca.
--- Que bom, professor! O senhor tem muita experiência, né? Legal ter pessoas experientes nos ajudando. Pois faça uma lista de referências e me envie por e-mail, ok? Estarei aguardando, e coloque nas normas da ABNT. Marca de vermelho o que talvez eu precise olhar, de azul o que eu tenho de ler e de marrom o que não preciso nem checar, viu!
--- Sim, senhor, querido orientando! A seu dispor.
8 de outubro de 2013
A partir de hoje, não leio mais o jornal O Povo, pois estão exigindo um cadastro para ter acesso à versão digital. Fiz a mesma coisa com outros jornais que passaram a exigir cadastro. Já somos cadastrados demais. Cadastrados pela polícia, pela receita federal, pelo exército, pelo Obama, e ainda ter que ser cadastrado pelos jornais? É o fim de uma relação. Fui leitor do jornal durante muito tempo. É uma pena, pois jornal depender de leitores cadastrados é o mesmo que depender de assinantes. Para medidas antipáticas, respostas antipáticas.
Tornar-se homem
Lá na minha família, no sertão, para virar homem tinha que aprender a beber, a fumar, a trepar, a dançar forró, a ter palavra de honra, a ser honesto, a saber atirar, montar a cavalo, não ter medo do escuro, mas ter cuidado com andar no escuro para evitar malfeitores, não roubar, não pegar nada que não é seu, a ter raiva de ladrão, a respeitar a quem se dá respeito, a evitar a vida desmantelada demais e a estudar muito. Fazer o quê, né?
Patético e sem esperança
Há algo de profundamente patético na minha existência, um patético que não consigo divisar através das muralhas de sonhos e fantasias que compõem minhas próprias banalidades. Mas é no delírio errante da longa viagem para o declínio que hei de criar marra para, ao menos, escrever a história da minha desesperança!
Leonardo de Nada
E lá onde não deveria ousar ir, é para onde me dirijo, com a impetuosidade dos inocentes e a cegueira dos iludidos. Mas não poderia deixar de ousar manter a ousadia de driblar os determinismos sociológicos que me aprisionam no lugar do nada. Lembrei que uma vez minha irmã foi numa loja comprar algo, uma loja metida a besta, e a vendedora perguntou o nome dela, ela disse: Mônica. Aí a vendedora perguntou de volta: Mônica de quê? Ao que ela simplesmente emendou, dizendo tudo o que estou querendo dizer há décadas: Mônica de Nada. Mônica de Nada, apenas isso. Leonardo de Nada.
Saturday, March 08, 2014
eu tomo literatura
Existe uma diferença entre uma vida merencória e uma vida de combate contra a melancolia. Faço da minha revolta pessoal o antídoto para essa patifaria que é viver na selva social. Prefiro chutar a canela de uns e outros do que tomar remédio tarja preta. E eu não tomo, eu tomo literatura.
Não tenho pedigree
Todo santo dia, eu me pergunto o que poderei fazer para minimizar o papel avassalador que a mediocridade ocupa na determinação do que eu faço, digo, escrevo e sou. Sempre tive horror que o núcleo medíocre de mim mesmo me tomasse por completo, fizesse de mim o completo idiota que não sou, sou apenas meio idiota. O medo de ser um idiota rematado sempre foi meu pior e inconfessável receio na vida. Tenho mais medo de ser mais medíocre do que já sou do que de me tornar pobre, louco ou criminoso. E é a afetação desse medo que me perturba o juízo. Tenho o passado condenado de quem não passa de mais um entre milhares de filhos das camadas médias inferiores. E o conteúdo e a forma da minha revolta são determinados por essa estreiteza do meu pertencimento de classe. Eu leio livros como quem quer se livrar de um destino social de funcionário público subalterno, como se isso fosse apagar a subalternidade da minha condição. É uma fantasia pessoal minha, sem a qual tudo desmorona, saber que pela relação um tanto pedante e superficial com o campo do saber eu possa me sentir menos destinado a ser um branco pobre de periferia, sem brilho na selva social. Eu canso de mim mesmo. Canso do meu pedantismo de intelectual, querendo se afirmar onde não representa nenhuma tradição, onde não se carrega nenhuma herança. Um dia desses um amigo de adolescência fez uma confissão numa mesa de bar que me arrasou: cara, fica todo mundo impressionado que hoje você seja professor da universidade, sabe, Léo! Porque você era o mais burro da turma. Em 1989, a gente querendo discutir a Perestroica e você não sabia nem onde era a Rússia direito. Era uma anta. Hoje virou o bichão. Ouvi calado essa admoestação do amigo. Se ele a disse é pela razão de ter alguma verdade que seja. A verdade que seja no caso é que é verdade sim que sou um recém-chegado na vida intelectual. Não tenho pedigree. Minha ancestralidade é toda analfabeta ou semi-analfabeta, o que não quer dizer sem sabedoria, é claro.
O lucro dos canalhas
Quem mais lucra simbolicamente com a crença segunda a qual "todos" são canalhas é o canalha mor. Se todos acreditam que todos são canalhas, essa crença naturaliza a condição e a atuação do canalha, como se fosse natural, normal, de acordo como é. Não é verdade que todos sejam ladrões, querendo desviar dinheiro público. Não é verdade mesmo! Há um monopólio cerrado dessa prática, são minorias poderosas e muito bem organizadas. Fiquemos atentos ao que os representantes do povo dizem. Muito atentos!
Nem que eu fure meus olhos!
A última coisa que eu quero na vida, e não estou dizendo que sou capaz de escapar dessa coisa que abomino, como o grande herói, é fazer parte daquela maioria que parece "gente satisfeita consigo mesma", como dizia Edgar Allan Poe. Posso não escapar, afinal ninguém escapa, mas brigar para escapar já é alguma coisa diante de quem não luta, não recusa, não grita, não esperneia por estar sendo posto na prisão sem muros da selva social. Nem que eu fure os meus olhos e fique louco, cego e surdo, deixarei de fazer o boicote autodestrutivo consciente de não pertencer à classe de indivíduos dessa "gente satisfeita consigo mesma". A crença na satisfação consigo próprio, além de arrogante, é a expressão de si como mercadoria, pois tudo o que diz respeito ao plano da satisfação ou da não satisfação implica a condição alienante do não-sujeito enquanto consumidor de mercadorias: uma mercadoria consumidora de outras mercadorias. Sejamos incompletos, ou seja, sejamos plenos. A incompletude e plenitude são a salvação da alma pela espiritualidade. Ninguém precisa de igreja para isso. Igreja é a negação da espiritualidade, está em função da mercantilização da crença na moral para a realização de vinganças e invejas.
Na cama com a analista
A única vez que eu tentei fazer análise na minha vida, acabei indo para a cama com a psicanalista: ela era tão linda! Ficava lá toda arrumada, cheirosa, elegante, inteligente, que boca, que olhar, e lá querendo me escutar, foi irresistível. Fatalmente, improvável. Eu estava livre e desimpedido (ou seja, terrivelmente só, abandonado, completamente abandonado e sem amor). Convidei-a para jantar e ela aceitou. Só teve um problema, ela era casada e não me disse, também não disse para o marido dela. Enfim. Adeus, Lacan!
Dando voltas (17 de novembro de 2013)
Fizesse sol ou chuva, muito ou pouco frio, um homem estava sempre a dar voltas, caminhando em torno das muralhas da cidade. Ele não respondia a nenhum aceno, a nenhum cumprimento. Andava completamente absorto em si mesmo. Um louco? Um desocupado? Alguém exercitando o corpo? Não, o homem "simplesmente" estava caminhando em torno da cidade, passando mentalmente a estrutura de uma sinfonia para atingir sua forma perfeita, ficava corrigindo mentalmente a estrutura sinfônica, e após ter mentalmente o modelo perfeito da sinfonia, ele a colocava no papel, começava a escrevê-la no papel apenas de enorme esforço mental. O homem era Beethoven. (Walter Benjamin reconta esta história que ele leu no Grande Dicionário Universal, de Larousse). A conclusão a que Benjamin quer nos levar é que nem sempre quem parece não estar ocupado está desocupado e que muitas vezes quem parece estar muito ocupado não está ocupado coisíssima nenhuma. As coisas são relativas.
Segunda-feira pela manhã no trabalho (18 de novembro de 2013)
Vou contar um segredo: há pessoas que fazem uma mise en scène toda segunda de manhã e toda sexta-feira. Segunda pela manhã aparecem bem cedinho na repartição seja pública ou privada (trabalhei nove anos em empresas privadas e é para muitos o puro universo da enrolação), como se estivessem a abrir a empresa e na hora do almoço, somem. Voltam então na sexta, final de expediente, para fechar a empresa. Essas duas imagens criam uma fama poderosa. As pessoas começam a dizer: olha como fulano é trabalhador. Toda segunda é o primeiro a chegar e toda sexta é o último a sair. Mas é encenação, entende? Por outro lado, há quem trabalhe muito e por não fazer marketing pessoal e encenação disso passa por ausente. Fica a dica.
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