Tuesday, September 22, 2015
dificuldade em normatizar
Tenho um defeito horrível, costumo responder ao que não me foi perguntado. Cala-te boca! Que coisa mais descontrolada é o sujeito se por a falar algo para alguém quando não foi sequer interpelado. Preciso me emendar, espelho, espelho meu. Estou precisando de um estágio em algum monastério onde se faça votos de silêncio. Serve na universidade, será? Estou aqui sentado, bem comportadinho, desde 8 da manhã, é quase 8 da noite, finalizando um artigo para publicação. Se não pudesse falar nenhuma merdinha no FB, aí seria Regime Disciplinar Diferenciado, uma desumanidade, né? Mas vamos normatizar, vamos normatizar o texto acadêmico, pense que acho mais fácil escrever o artigo do que normatizá-lo. Cada doido com sua dificuldade.
Saturday, September 12, 2015
Lembranças do dia 11
No dia 11 de setembro de 2001, estava às 7 horas da matina, caminhando pela Voluntários da Pátria, no Rio, em direção ao metrô. Morava ali na rua da Passagem. E ao passar pelo boteco onde à noite, na volta do trabalho, costumava tomar uma gelada, vejo uma pequena multidão amontoada defronte ao aparelho de TV. Espichei o pescoço e depois do que vi, aquelas infinitas imagens dos aviões atingindo em cheio o WTC, perplexo, fui trabalhar assim mesmo, mas chegando lá, ninguém estava trabalhando, todo mundo estava paralisado e de boca aberta, olhando uns para os outros em busca de algum lampejo de compreensão, talvez, em busca do aval de que a percepção coletiva do delírio real era algo verossímil, algo digno de atenção. O mais esdrúxulo foi que em meio a tudo isso, um colega norte-americano, que trabalhava com a gente, teve um ataque de histeria e começou a pular e a gritar ao mesmo tempo, misturando inglês com palavrões em português, dizendo: "yankees, tomaram no cu, fuck the yankees!". Ele era um radical de esquerda, exilado, perseguido pela CIA. Comemorava o ataque contra seu próprio país. Foi tão estranho. Mas tornou o quadro geral de perplexidade e silêncio numa cena surrealista. Tomara que ele não fique com raiva de mim ao ler esta postagem. É só um relato. Enfim, o mundo nunca mais foi o mesmo. Mas, afinal, nunca tinha sido o mesmo mesmo, né? Tant pire!
Beber muito faz bem para a saúde.
Pessoal, não consigo parar de beber, bebo de 2 a 3 litros, todo santo dia. E foi minha mãe quem me colocou nesse caminho. Foi um dos melhores conselhos de mãe para eu levar uma vida saudável.
Sobre a ironia
Quando minha filha tinha de 7 para 10 anos, eu ficava fazendo, de surpresa, várias ironias. No início, ela ficava com uma cara atônita, de quem não tinha entendido nada ou tentando entender de modo literal algo que não foi feito para ser literal. Depois desses exercícios, eu lhe dizia: isso é uma ironia! Um dia ela me pregou uma peça, fez uma ironia muito fina e eu não entendi, então, ela me disse: pai, isso é uma ironia! Fiquei aliviado. Minha filha tinha aprendido a ironizar. Hoje ela ironiza muito melhor do que eu. Graças a Deus, se Ele existisse!
Friday, September 11, 2015
Um tema delicado
Quando eu era estudante de ciências sociais, meu orientador convidada a gente para ir atuar no trabalho de campo dele, como assistentes de pesquisa. Eu aceitava na hora, sem titubear. Foi assim que aprendi com alguém muito experiente como fazer uso, na prática, de técnicas de investigação, adquirindo habilidades e competências que garantiram as bases da minha formação profissional até hoje. Ele me ensinou a fazer grupos focais e grupos de discussão. Ao longo da minha trajetória profissional, já recebi vários convites para consultorias de pesquisa onde o uso dessas habilidades foi decisivo para ser convidado para um trabalho remunerado. Se meu orientador não estivesse numa universidade pública, ele teria que ter cobrado 2.500 de mim, no mínimo, para me ensinar com exclusividade e em tempo real de uso a técnica citada. Moral da história: você, estudante, quando convidado para participar de uma ação de pesquisa no ambiente de aprendizagem da universidade, poderia pensar menos como se fosse um "profissional já formado com alta cotação de mercado" e entender que há remuneração que não seja pelo uso do dinheiro, por favor. Quem não perceber que há remuneração na transmissão de capital humano nessas trocas, é melhor ir participar do Big Brother. Na universidade pública, somos remunerados para obter uma formação e isso demanda um alto investimento público. Nada é de graça. Bora parar com essa história de achar que acompanhar o professor numa atividade de pesquisa dele é ser explorado pelo professor. Nem sempre se trata de exploração, trata-se de formação, de transmissão de capital científico.
Thursday, September 10, 2015
Procrastinador
Rapaz, não existe um sujeito mais procrastinador do que eu, mas não existe é de jeito nenhum. Estou para encontrar. Estou aqui finalizando a revisão de um artigo que eu escrevi em 2001, há 14 anos, que esqueci de enviar para publicação à época. Felizmente, o artigo não envelheceu, é um ensaio teórico, usando referências que vão sempre ser úteis, tive apenas que revisar suplementando com literatura dos últimos anos. Tem doido pra tudo. O que uma greve não faz no juízo de alguém!
Pelas ruas, andanças.
Estava com fome, aqui no Bairro, e fiquei querendo ir lá no bar. Peguei o ônibus, desci na Escola, fui pela praça da Gentilândia e desci pela rua. Só que na hora que se desce, a gente começa a ser filmado. A galera vem atrás mesmo. Aí, é acelerar o passo pra chegar logo. Ao chegar no bar, o dono me diz que está fechando pois está tendo uma onda de assalto naquele momento, que está fora do controle, e que deram o toque pra fechar, peço para ele pedir um táxi para mim e volto. A resistência é a resistência.
Fazer sentido.
Sem TV, há dez anos, sem automóvel particular, há 5 anos, sem celular, há 1 ano, estarei em breve, sem internet. A vida começa a fazer sentido.
Entre estoicismo e hedonismo.
Existem duas alternativas. A estoica que diz: ao final do dia, lembre-se que poderia ser o último e então isso suscita a avaliação, o exame de consciência. A hedonista que diz: ao final do dia, lembre-se do que foi o mais intensivo e melhor para iluminar o dia seguinte. Façam suas escolhas!
A relação com a imprensa
Tem se tornado cada vez mais comum a produção de agências de notícias e comunicação telefonar, dizendo: Nas últimas duas semanas, já tentei falar com 6 profissionais antes de você, nenhum poderá vir no evento que começa daqui a 27 minutos, o senhor é nosso convidado especial, chega em quanto tempo? Legal, né? Fico me sentindo super valorizado como profissional. rsrs Pessoal, vcs precisam aprender a explorar economicamente nossa vaidade! Os vaidosos ficamos bestas e facinhos. Fica a dica, produção. (o fato é real, o texto é uma brincadeira).
Sunday, September 06, 2015
Da recusa
Acho engraçado notar que para muitas pessoas recusar a autoridade é algo que envolve um tremendo sentimento de culpa. Pois, de minha parte, eu me divirto na recusa da autoridade, é uma atividade de riso, a recusa. Do mesmo jeito que não sinto nenhuma culpa em recusar a autoridade, não sinto nenhuma necessidade de vida eterna, fico é feliz com a certeza de que a vida possui um final, que a morte é um alívio ao sofrimento de um corpo que envelhece. Não tenho necessidade de Deus. Apenas de arte, ciência e amor. Tudo entre mortais. O desejo de imortalidade, projetado em Deus, é uma arrogância humana. Adoro a finitude! É o que possibilita um desejo secular.
Devir-criança com as crianças
Quando vejo meus amigos e minhas amigas com suas crianças, no seu devir-criança com suas crianças, ao vivo e em fotografias por aqui, eu me ponho todo sentimental, de verdade, fico emocionado, pois sei que a mensagem invisível que nos liga é: se há crianças, há esperança, pois há transformação. Por isso, desejamos as crianças do mundo inteiro vivas, sorridentes, brincalhonas, sabidas, serelepes, para que o mundo se transforme para melhor, para ter sabor, saber e alegria. As crianças são a salvação. Esqueçam suas igrejas, seus cargos, seus partidos, seus estados, seus bens de capital, esqueçam tudo e escutem as crianças, vamos aprender com as crianças qual o caminho, nós, adultos, temos que voltar a ser crianças, se quisermos desfazer esse nó cego que demos no mundo.
Um dia de sábado!
Sábado de boas! Lendo, escrevendo, ouvindo Belchior, Ednardo e Fagner. Feliz com as conquistas dos amigos, alunos, orientandos, virando colegas, existe alegria maior que acompanhar um orientando seu se tornar um colega seu? É uma maravilha! Oxalá, meu pai. Essas novas gerações estão vindo com tudo, isso me deixa muito otimista. Todo educador é otimista, né? Seria uma contradição performativa ser um educador pessimista. Quem quiser ser pessimista, seja um bode velho, um professor, um hierarquizador, mas vai indo que eu não vou. O bom é surfar na transversalidade dos espaços, né, Pablo? Sigamos nos multiplicando, pois conhecer é multiplicar, como fala o prof. Eduardo.
Manias de sebo
Estou na livraria. Num sebo. O olho bate diretamente sobre a lombada de uma obra muito rara. Disfarço. Sem imediatismo. Mudo a atenção do olhar para outro livro e demonstro muito interesse no livro que não tenho nenhum interesse. Pergunto o preço. Fico decepcionado. É muito caro. Peço desconto no livro que não vou levar. Não fico satisfeito com o desconto. Faço um cara de frustração. Faço que vou embora. Como quem não quer nada, pego um livro bem baratinho e o outro que eu realmente desejo. Levo para o livreiro, como quem diz, vou levar esses aqui para não ficar tão frustrado por não poder comprar o outro. Isso apenas usando comunicação não verbal. Quando ele fala o preço do livro que eu realmente quero, falo: esse também é caro, assim? Estou sem sorte. Aí ele me dá um desconto super generoso, pois quer agradar o cliente para retornar e comprar o livro que olhei antes. Acabo levando o livro que eu muito desejava por um preço super camarada. Manias de sebo.
A morte e os corpos capitalizados
Os corpos estão adicionados ao cansaço desde muito tempo estertorando até mesmo frente à morte! As coisas estão transformando em capitalização até mesmo a morte!
Síria
Meu avô materno contava para minha mãe como o avô dele chegou da Síria para morar nos sertões do Ceará. Era comerciante de quinquilharias nos altos das serras e nos planaltos. Esse sangue sírio me faz tremer nas bases, um tremor que não sei explicar de onde vem e para onde vai. Me deu vontade de voltar para Damasco. Uma coisa estranha. Uma loucura.
Meia-noite
Quando dá meia-noite, eu fico eriçado! Penso muito com o corpo, tateio conexões com o amanhã. E depois de tudo, tomo uma cachaça para desopilar.
Minoritários e em fuga.
Somos poucos mas somos muitos. Uns poucos multiplicados na fragmentação, não dá em nada, mas é o que somos sem estados de ser, nesse devir-minoritário, cuja mensagem é impossível, tal qual o real, e não combina com esses lugares do amanhecer. A condição humana é a fuga, uma fuga insana, pois o insano é o fundamento do humano. E a gente vai seguindo, buscando o excesso de sentido, a negação da falta.
A genealogia do sertão
Meu avô paterno era pernambucano, dos sertões de Pernambuco, entre Floresta e Belém do São Francisco. Ele veio para Jardim, no sul do Ceará, na fronteira, depois desceu para Missão Velha e em Missão Nova, distrito de Missão Velha, nasceu meu pai. Meu avô se chamava Manoel Cassiano de Sá e meu pai se chama Filadelfo de Sá. Eu me chamo Leonardo de Sá. Com eles, eu aprendi: a selar uma montaria, a cortar cana no eito, a fazer uma queimada corretamente, a fazer a roça, limpar, plantar, cuidar, colher, armazenar, que a medida das coisas são em braças e alqueires e em léguas, a correr dentro do mato, a mijar na ferida quando não se tem solução melhor, a cuidar das próprias perebas, a tirar um bicho de pé com uma agulha, a subir em árvores, a passar da copa de um pé de laranjeira para outra copa sem cair, a correr na vaquejada, a dançar forró, a tomar cachaça, a usar corretamente uma peixeira para trabalhar ou se proteger, a usar armas de fogo, a atirar, a caçar, a tratar a caça, a dar bom dia para todo cidadão, a ser gentil com as pessoas amigas e com forasteiros também, a observar se há tocaia nas curvas, a perceber quando a montaria está avisando que há cobra ou algum perigo na estrada escura pelo comportamento do animal, a matar um bode e esfolá-lo, a negociar na feira, a ser honesto, trabalhador, honrar a família e não ser frouxo, não temer nenhum bicho vivente, pois, se é vivente, pode morrer também, pois cada qual tem sua hora e não é preciso temer a hora de morrer. Além de estudar muito, ler, escrever, gostar de poesia, chamar as pessoas amigas de poetas e filosofar. São algumas coisas que aprendi com meu avô Manoel Cassiano de Sá, que Deus o tenha, e meu pai, Filadelfo Sá, que continua me ensinando muitas outras coisas, graças a Deus. (Isto não é um texto ficcional, é um autorretrato etnográfico). Os tempos mudaram muito. Aos 12 anos de idade, lembro que ganhei um punhal com um cabo estilizado, punhal comprado no mercado de Juazeiro do Norte, eu andava com ele no cós da calça, morto de orgulhoso, tinha virado homem, e aí tinha que começar a beber, fumar e transar também, entende? E saber montar besta de vaquejada, pois correr numa besta de vaquejada não é para qualquer um. Desejar ganhar um mangalarga marchador era um sonho! Meu primo, que Deus o tenha, me emprestava o dele para eu cavalgar de vez em quando. É um cavalo altíssimo e forte, uma potência. Um galope incrível. Mas a besta de vaquejada é mais ágil, corre com o vento. A maior emoção de todas é singrar uma estrada vicinal a mais de mil, agarrado na crina do animal. É como voar baixo. Aos 13 ganhei uma espingarda, uma socadeira, super bem feita numa das centenas de fabriquetas de armeiros do sertão, e aos 14 ganhei outra espingarda, uma automática, de repetição. Aprendi a atirar de revólver, de pistola e também de doze. Era assim que os meninos eram socializados nos sertões do Ceará, até pouquíssimo tempo atrás, será que deixaram de sê-lo? Será? Ao mesmo tempo, ensinavam para a gente que tinha que ser doutor. Tinha que estudar muito para ser doutor. Era assim. Não estou julgando, apenas relatando como era, relatando as origens. A gente lia: Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Machado de Assis, José de Alencar, Antonio Bezerra, Oliveira Paiva, Jáder de Carvalho, Leonardo Mota, Capistrano de Abreu, além de Homero, Hesíodo, Platão, Aristóteles, Plutarco, Virgílio, Petrônio, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Dante, Petrarca e Cervantes, entre outros, era o que se lia nos sertões do Ceará, quando era rapazola. Era o que a gente tinha que ler para virar homem. Sobre cabarés, não vou falar nada! Para se fazer antropologia, é preciso fazer a reflexão sobre qual a concepção de pessoa na qual o antropólogo foi endoculturado. Não me tornei pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência à toa.
A cobra mais humana que a gente
Cobra é mais humana do que gente. A cobra, quando sente a presença da gente, sai fora, para deixar o caminho livre, cobra de boa, ela só dá o bote quando se assusta, quando é pega desprevenida, tipo a gente quase pisando na siesta dela. Cobra é um bicho muito humano. Humano não é que nem cobra, é pior, é muito pior.
Interno contra a internação
Fui interno de uma instituição que exigia que na entrada, a caminho das celas coletivas, a gente levantasse as pernas das calças para atestar que estávamos usando meias brancas, totalmente brancas, sem nenhum detalhe, nem marca. Quem estivesse sem as meias brancas regulamentares, era barrado e direcionado para uma sala de triagem para encaminhamento de uma punição. Na minha revolta solitária, eu ia com uma meia branca de listras, era barrado, mas tinha um par de meias brancas, de tipo regulamentar, na mochila, eu as pegava e as vestia pelo avesso. O bedel dizia: está pelo avesso. Eu respondia: não há nada no regulamento sobre isso. E entrava.
O robô
Muito frequentemente, muito recorrentemente, sou barrado nesses testes para identificar se somos nós mesmos ou um robô. É uma experiência angustiante que implode com minha identidade pessoal. Me deixa frenético, dando looping. De 10 vezes, em 8 tentativas a máquina me reprova, identificando-me como máquina virtual. Por que será?
Briga de faca
Nos bares onde ando, desde rapazote, bares atolados de homens tristonhos, uns mansos, outros de temperamento violento, para, de repente, morrer um, de morte matada, é bem facinho. Já vi muita briga de faca, tenho horror a brigas de faca, saio correndo sem nenhum receio de ser alcunhado de frouxo. Prefiro bala do que faca. Já levei alguns tiros, dei alguns outros, mas, que eu me lembre, ninguém morreu. Esse sertão impossível que me habita e não sai de mim, não sai. Nem sei mais o que fazer com meu desmantelo. A aflição é do vivente, afinal. Há tempos não ando aos galopes, depois que inventaram essas malditas duas rodas motorizadas.
Morrer de sertão
Se ainda fosse capaz de esticar pelo cão da memória, com a habilidade esquecida com que outrora manipulava o cão da arma, da arma que ganhei de meu pai, comprada no mercado de Juazeiro do Norte, parece um tempo não mais de gentes, parece ter virado sonho esse passado tão recente, mas, mesmo assim, se ainda fosse capaz de puxar pelo fio de um dedo de prosa, palavra molhada, no alpendre da casa da vovó, primos e tios batendo nos joelhos uns dos outros, rindo-se à toa da pouca valia dos títulos, falando de bicho vivente para bicho vivente, ainda poderia secar um pranto que não é mais meu, uma dor vazia desde que a enterrei na cova funda que cavamos para colocar uns sobre os outros os cadáveres de uma linhagem sertaneja, mas mataram as bichinhas tudo, as de arribação, pra mói de comer e também por tanta maldade contida no peito. Os desgraçados, nós, nós desgraçados. Hei de morrer de sertão.
Pegando parelha
Há muito tempo, quando a gente ainda andava em armas, um punhal na cinta e um revólver no coldre, caminhando pela cidade, estava numa parelha, meu primo num mangalarga marchador, um animal enorme, o homem sobre o cavalo, ficavam da altura das copas das árvores, era conversar, a partir do chão, olhando para riba, e eu numa égua pé-duro de vaquejada, chocalho na sela, precisava nem de esporas, a bichinha voava ao som do guizo, era o apito, e essa certa vez dessa parelha, a gente pegando parelha, ela desembestou comigo em riba, larguei as mãos dos cabrestos, a égua me chamou para me agarrar nas crinas dela, avisou com uma bufada de lado, com um olhão enorme de assombro, olho no olho, dizendo para eu me preparar, foi a corrida mais maravilhosa que fiz em toda a minha vida, a gente voava, a égua e eu, um corpo colado no outro, nas curvas, me pregava no pescoção dela, surfando, não vi nem sinal de mangalarga marchador por trás da poeira de piçarra; quando então passei com o vento na frente do alpendre da casa da vovó. Quando sonho com a boa morte, sonho nesse galope, fecho os olhos e abro os braços e desapareço nesse galope infinito, desfazendo-me da agonia do bicho vivente, nessa danação sem fim e sem sentido, nessa aporrinhação que é viver domesticado.
Entre armas e livros
Na minha casa, meu pai tinha um revólver para viajar, para pegar a estrada, era o costume, no tempo em que não se usava cinto de segurança, ninguém nem sabia para que servia o cinto, um tempo tosco, rude. Ocorre que minha mãe tinha cinco armas e era uma exímia atiradora. Gostava de ir com ela para o stand de tiro, até de escopeta, ela atirava. Ela não gosta nem de lembrar, vai ralhar comigo por estar escrevendo essa história, virou budista. Era tanta arma. Quanta ignorância era a vida nesse tempo, um tempo passado de tão ontem. Entre os livros e as armas, pois havia muitos livros na minha casa, fiquei com os livros. A vida pacífica é a vida do cidadão de bem. Na minha casa, não temos mais armas. Depusemos as armas, estamos numa nova era, aquilo tudo, aquela guerra toda, deixou de ser, virou faísca de memória, graças a Deus. A gente se desarmou, e a vida ficou mais pressurosa na alegria da conversa, do parlamento na civilidade, os sertões viraram palavras, nomes que não pespegam mais, apenas soletram, cultivam os sons nos corpos, o que há de espraiado no espaço imemorial, desfeito de orgulho besta, enredados na espiritualidade da vida serena, tranquila, sorridente.
Abismos, me abismo.
Uma profundidade infinita. Uma abissal num desfiladeiro de seis mil metros ao sem fim. Uma queda para o alto. Uma escuridão medonha. O corpo se faz abissopelágico no mais obscuro assombro. E mesmo assim, não morre. Contorna o paredão plutônico e escala desde o mais profundo sem ar, pedra e mão, mão e pedra, até atingir a superfície, onde os pulmões se abrem novamente pela primeira vez.
Saturday, September 05, 2015
Morte na Praça da Sé
Gostaria de lamentar, mas também elogiar o morador de rua sem nome, sem nada, que se atracou com o assaltante e morreu no lugar da vítima na Praça da Sé, salvando a menina que estava sob a mira do maluco. Cabra macho! Que descanse em paz. Morreu como homem. Se eu estiver dizendo alguma besteira muito grande, podem dizer, é que fui educado nos sertões. Mas tento não ser dogmático. Estou apenas expressando um sentimento íntimo, não estou defendendo nada. O nome dele era Francisco Erasmo Rodrigues de Lima e ele tinha 61 anos. O melhor é que nada disso tivesse acontecido. Só espero que ele não tenha sido morto por tiros da PM, mas parece que não foi, foi o próprio assaltante quem atirou.
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