Tuesday, June 06, 2006

Lotta Blanche

Era sábado. Onze horas da manhã. Não pensava em si mesma desde ontem à noite. Ainda bem tinha lavado a louça e recolhido as pontas antes de adormecer na velha poltrona de veludo, infestada de ácaros e festa. As baganas fediam à cerveja. "Minha nossa!", balbuciou as primeiras palavras do dia, a cabeça parecia querer saltar-lhe dois metros adiante. Fernandez não estava mais lá. Ninguém, aliás, "ainda bem", mirava a própria mão trêmula, sem sangue, enquanto estalava a língua. Lembrou-se de que era sempre bom se certificar com segurança, vasculhando os quatro cantos do pequeno apartamento de 68 metros quadrados. A memória ia pulando...dois quartos, um para os livros e a escrivaninha, o outro para o colchão no chão e os penduricalhos. "Ainda bem não ficou ninguém perdido!" Quantas vezes iria repetir "ainda bem" naquele dia? Tascou um mordida no próprio lábio, não foi um ato consciente, era o estalo da alma a fim de acordar mais rápido do que sua dona. "Que louca!", exclamou num gritinho, fingindo afetação, e a escova já fazendo seu serviço, e ela pensando em voltar a se reconhecer, já era tempo. Quando ia começar a filosofar, reparou que a língua estava simplesmente horrível. Ela estava um lixo como uma língua de duas carteiras de Malboro vermelho com cachaça. Ela a escovou até sangrar. Sem pena, sem dó, com praticidade.

Não foi de propósito que ela se mordera, afinal. O olho, reparando bem, estava meio torto, meio banguela, como certa vez apontara Liza com seu jeito covarde...Artur a mataria se ela repetisse de novo que vivia em um pequeno apartamento. O dele era minúsculo e blá, blá, blá. Ouviu a voz dele como se estivesse a menos de um palmo dela e não naquela terra de ninguém onde ele foi morar há exatos sete anos, justamente com a doida da Liza. Sentia falta dele, talvez, mas por que estava a pensar no desgraçado do Artur. "Só por que ele é lindo, intelilgente e trepa bem?" A essa altura, já podia ouvir a voz com menos sofreguidão do que nos tempos em que vivera apinhada nas coisas dele. Um monte de livro e... "Merda!", de súbito reparou no canto ao lado do vaso sanitário, alguém tinha "esquecido", tido a brilhante idéia, desfaçatez mesmo, de mijar no chão, imaginou o filho da puta doido e burro do Herandez fazendo isso, nunca mais o chamaria, isso era certo, não o suportava mais! Enfim, estava revoltada e era melhor volver-se para a ironia, se é que queria superar aquela fase de pasta na boca e começar a conversar consigo.

Sozinha e mestruada, Lotta Blanche passou a balbuciar repetidas vezes diante do espelho "5 de julho de 1998, 5 de julho de 1998, 5 de julho de 1998...", um modo de asseguar-se das notícias da sua existência - sua voz ainda rouca, muito cigarro na madrugada de santo, repetia uma quarta, quinta e décima vez, enquanto, aos goles, bebia um copo de água natural. Passou perto da janela. O sol estava lindo. E "pense na bagunça", olhava ao redor, "a casa estava totalmente blow up". Retomaria imediatamente sua vida de quartel, afinal hoje era sábado. Com um movimento de cabeça, um meneio daqueles de sacudir a massa encefálica obtusa e inflamada pelo álcool de ontem, dirigiu-se a cozinha. Uma cozinha americana muito brega, herança de Artur.

Estava toda ritual já. Os cascos de cerveja sobre a pia eram testemunha da ressaca. Sem falar na ressaca moral. "Não!", lançou feito um grunhido como se reprovasse a si mesma por estar se reprovando. Não estava entendendo mais nada. Era melhor começar o ritual logo. Assim, esquecia do principal, ou seja, da trama da noite passada. E qual era ela? "Boa pergunta!", repousando o braço no canto da pia do banheiro. Era hora de número dois, banho e ganhar o mundo para um missô de desjejum na padaria da esquina. Era sempre a mesma coisa. Daí a pouco já estaria desejando novamente uma cerveja estupidamente gelada, pensava nisso com uma sensação de alívio. As veias das têmporas pareciam gostar da lembrança da cerveja gelada. "Pronto", disse dando descarga, dirigindo-se à ducha fria, a mais fria de todas, "já sei onde vou almoçar hoje!". A decisão contrariava a condição do corpo. Nada correspondia ao que era. Estava um caco. Será que era incapaz de conjugar pensamento e sentimento? Além de alcoólatra, só faltava descobrir-se esquizofrênica. "Aí era o fim, deus me livre!", rodando a chave na porta e trancando-se para o seu mundo no lado de fora do apartamento. Era hora de caminhar, de andar, desvairada e amalucada. Bater perna depois do missô, é claro! Acabou tomando uma cerveja gelada também. Estalou a língua e disse "bye, bye" para o moço do balcão da padaria. O nome dele era Raimundo e ela não sabia absolutamente nada sobre ele. Nem lhe fora apresentado, era tudo apenas pelo crachá. Raimundo. Era o cara atrás do balcão. "Vixe! Já estava viajando!", só podia ser o efeito retardado da cerveja, desencadeado pela geladíssima do momento. "Pronto!", agora ia mesmo esticar canela. Lépida, dobrou à esquerda sem nenhuma marca de remorso. Apesar do olho torto, "estava indo", pensou pela última vez antes de mergulhar no mais completo abandono de si. Subtraída até mesmo do próprio caráter.

Acordar segunda-feira para trabalhar era para Lotta Blanche um motivo de alegria - tomar uma ducha fria, quase gelada, vestir-se ao som dos movimentos de pernas e braços, dar bom dia para seu Nathan, o porteiro, tomar um suco de laranja, comer um misto-quente na chapa, na mesma padaria do missô, tendo um outro crachá pela frente, tudo isso num ritmo sóbrio e decidido -, era verdadeiramente para ela um motivo de alegria. Sua respiração parava a um minuto de entrar na cabine, onde passaria sua manhã inteira coletando sangue para análise clínica. O laboratório de coleta era o máximo, apaixonante. Organizar as agulhas descartáveis. Empilhar o material de trabalho e dar uma rápida olhadinha, de esgueira, para a fila de espera, até aparecer o primeiro braço. Era nada mais nada menos do que um acontencimento e, ainda melhor, um acontecimento a intervalos de cinco em cinco minutos, que era o tempo de um braço substituir um outro para a agulha.