Saturday, May 09, 2015

Carta de Antônio para Anarca

Anarca Da Silva, quase não tenho mais forças, meus dedos cortados, meus pulsos íntegros ainda riem de mim, as folhas de papel são traiçoeiras, não merecem nenhuma confiança, por isso o papel é facilmente queimado, e o cheiro de papel queimado, principalmente daquela bíblia cujas páginas de papel de seda foi por você volatizada, e foi duramente estropiada para satisfazer teu desejo de morte. E o odor da morte que sinto em meu peito quando me torturas com palavras vãs, irresponsáveis, machucando-me como se ainda fosse possível me derrotar. Continuo a escovar os poucos dentes que sobram com dentifrícios de formol, foi o legado que teus beijos deixaram em minha boca. Não me provoque mais. Não tenho mais alma. O espírito tornou-se uma quinquilharia numa bodega malcheirosa. Já sofro sem mais nada sentir. Apenas minha intermitente cegueira me faz ir sobrevivendo entre os livros que você não me roubou. Siga em paz na tua caricatura indecente e pornográfica de uma ordem que te alucina, pois de paz, não entendo mais nada. Saudações libertárias, Antônio.

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