Friday, September 30, 2016
Nossa carência
"Por vezes, a carência que habita {noss}o sentimento de pobreza cultural periférica é o componente básico decisivo para que outras periferias possam performar o lugar do centro, essa fantasia de grupo. Centro e periferia não existem; portanto, são armas letais contra a atividade do pensamento." (SÁ, 2016).
Economia da pena
Talvez se possa afirmar que a imposição lúdica da educação como prestação de serviço é fortemente legitimada, pois gera uma estranha convergência. De um lado, permite reduzir custos, poupando aos públicos beneficiários uma economia de "penosas mediações dos processos cognitivos" (Sônia Salzstein). De outro, os públicos que vivem em condições de permanente precariedade são remunerados com novos acessos que compensam a impossibilidade de papeis de produtores tais como pensados na perspectiva da modernidade. Une-se o útil ao agradável. Põe-se o educador a serviço dos bons negócios em tempos de neoliberalismo.
Thursday, September 29, 2016
Uma aula que irá se repetir
Hoje, a aula de Estratégias discursivas de poder, para mestrado e doutorado em Sociologia, vai ser para discutir o impacto de Wittgenstein e Austin nos modos de pensar da Sociologia e da Antropologia. Reler Investigações filosóficas, How to do things with words e descobrir que não haveria Foucault, nem Bourdieu, sem essas referências. Aliás, Foucault é praticamente austiniano, pois Austin é nietzschiano também.
Fazedores de chuva
Há na aldeia os fazedores de chuva e os fazedores de texto. Faço parte deste último segmento de linhagem. Prefiro ler textos a escrevê-los. Fazer o texto é um sacrifício. É mesmo que tirar leite de pedra. Como invejo os que escrevem como Rachel de Queiroz, os que de uma sentada escrevem um texto perfeito e sem erros como fazia a prima de Pedro Nava. Graciliano era seu antípoda.
O sentido do Brasil
Gente, o álbum Depoimento do Poeta, de Nelson Cavaquinho, lançado em 1970, resolve o sentido do Brasil.
Durante Anpocs 2015
Em eventos apenas de antropologia, há muita mais representatividade das diversas regiões do país na composição de mesas, grupos de trabalho, seminários e outras atividades. Isso pode ser empiricamente constatado. Qual o sentido disso? Aí são outros quinhentos. Mas na Anpocs deste ano, enquanto escutava colegas, fui fazendo uma pequena matematicamente das mesas. Os resultados eram tipicamente: SP, RJ, BA; ou SP, RJ, Porto Alegre; ou SP, Rio, Brasília; ou SP, RJ, MG. Tudo fechado. Tudo endógeno demais. As lutas faccionais infinitesimais de Rio e Sampa parecem engolir cada vez mais para dentro, engolir o seu próprio corpo esfacelado para dentro. O lance está muito autofágico. Alguém mais pessimista pode me responder dizendo que sempre foi assim. Não creio. Há uma fragmentação muito forte das pós no Rio e Sampa, fragmentação interna, o que resulta em competição muito mais acirrada. UnB, UFRGS, UFMG, entre outras, são aliados estratégicos para remar nessa imensidão de competidores desesperados para pontuar na roda viva do campo acadêmico das ciências sociais em um momento onde as grandes referências (nomes nacionalmente agregadores) estão saindo de cena sem garantir o sucesso dos herdeiros, pois apenas a sucessão não garante o sucesso. E nem a sucessão tem ocorrido em alguns casos. E o contexto de escassez de recursos é o mecanismo sociológico que acirra a economia do autor. Trabalhando duro aqui em Minas. Ô terrinha boa!
Mundo do trabalho II
Sou a favor de manter a dedicação a ações profissionais que recebem baixíssimo reconhecimento institucional, geram pouco valor percebido do ponto de vista da política de status, contudo, produzem alto valor educacional para educandos. Dito de outro modo, gosto de "perder tempo". Por exemplo? Escutar as pessoas.
Uma noite perdida
Já, hoje, na aula da noite, Subjetividade e sociedade, para a graduação, vamos discutir a apropriação lacaniana da sociologia de Durkheim, fazendo uma comparação com o modo de apropriação da psicanálise pelas ciências sociais a partir de um texto instigante de Erich Fromm sobre o assunto. A pergunta que não que calar é a seguinte: seria possível produzir conhecimento socioantropológico desconsiderando as dimensões inconscientes da ação social? Bourdieu e Giddens, como bons freudianos que são, respondem claramente que não. Sem Freud, não se faz socioanálise.
Mundo do trabalho
É muito desagradável quando estamos cumprindo uma agenda de trabalho que é a nossa com parceiros e parceiras, buscando com afinco garantir o resultado de qualidade esperado e surgem pessoas do nada, querendo impor suas agendas de trabalho, onde não fomos feitos sequer parceiros, para tentar suspender nosso trabalho e nos instrumentalizar para algo que vão obter ganhos, e a gente vai ser usada apenas como joguete para isso. Por isso, minha decisão profissional é só trabalhar onde há pactuação e parceria do início ao fim. Interromper a nossa missão, para ser usado unilateralmente pelos outros em suas políticas de lucro próprio, jamais! Concentração naquilo que importa é o bem mais precioso nos tempos atuais. Já ouviram falar em alianças laterais? Lado a lado? Ajuda mútua? Cooperação? São termos de uma política de trabalho que não admite capitalizar em cima dos outros, instrumentalizando-os e nem deseja também atropelar os outros. Não atropelar e exigir não ser atropelado. O mundo pode ser melhor.
Revisar uma tese
Estilos variados de revisar uma tese. Um deles é o seguinte: baixo três artigos que ainda não li conectados diretamente à tese, vou revisando e lendo os artigos, de modo que poderei já instigar novas leituras para o orientando. Vou fazendo anotações página a página. Fico mudando de perspectiva. Ora me ponho no lugar de quem está escrevendo a tese, ora no lugar de um membro avaliador da banca, ora no lugar do orientador, ora no lugar de um colega criticando outro e por aí vai. É tão divertido revisar uma tese! Aprende-se muito. Oriento para me orientar. Autoformação.
Sertões
Horas e horas a percorrer os sertões e os sertões não saem de mim. Léguas e léguas a palmilhar meu vazio e o vazio não me descabe.
O sentido
O sentido da existência é a falta de sentido. Pode-se diante disso fazer a naturalização dos valores de uma ordem social existente, apresentando seus princípios como universais, fora do tempo, e, portanto, negando imaginariamente o espaço vazio, que é o espaço da loucura, da morte e do crime, ou então, criar novos valores, pensar de outro modo, na busca de uma nova sensibilidade que supere o niilismo.
Um branquela
Não é a primeira vez na minha vida que chego em algum lugar do Brasil e sou o único branco no lugar. Aí a galera se pergunta: o que aquele branquela está fazendo aqui? Vão me perguntar e eu respondo que estou ali pois sou filho de Oxalá, Iansã e Yemanjá, e aí as pessoas me chamam para conversar. As ruas são escuras, posso passar de otário, mas vou lá para dizer que não sou otário, pois otário é o guarda.
Sentado num bar
Sentado num bar, conversando com um morador de rua, numas ruas estreitas perto da praça da República, três travestis saindo de uma mesa, passam por mim e uma delas faz uma brincadeira, pegando no meu cabelo amarrado sobre a cabeça, dizendo: olha como é lindo o pitó dele! A gargalhada foi geral. Depois fui trocar umas ideias com uns operários da construção civil, quatro rapazes, todos do Ceará, e, como sempre, longas conversas com os garçons cearenses. E ainda troquei uma ideia com uns policiais militares. Uns vendedores ambulantes. E com um motoboy entregador de pizza. Já posso voltar para Fortaleza, diário de campo de Sampa completo por hora.
Schopenhauer e Nietzsche
Aconteceu comigo de ter lido Nietzsche antes de ter lido Schopenhauer. Fui então negligenciando este último, baseando-me nas críticas de seu ex-discípulo. Mas eis que me deparo com textos de Thomas Mann, tratando justamente disso e propondo uma retomada de Schopenhauer à luz do que o próprio Nietzsche escreveu nos seus últimos dias de lucidez sobre o mestre de sua juventude. Agora que entendi por que Bourdieu parece obcecado por Schopenhauer. O mundo como vontade e representação é um livro para lá de instigante. E também serve como arma.
Citar amigos
O uso de referências e de citações nos artigos está colado em demasia à situação de dependência relacionada às redes de poder em disputa no campo universitário e acadêmico. Precisamos tentar evitar a força dessa homologia entre estrutura das citações e referências e estrutura do mando e de gestão de recursos. Vamos ameaçar o sistema com a aleatoriedade, de um lado, buscando artigos mundo afora sem situá-los previamente, sem filtrá-los por critérios extra-acadêmicos e, de outro, ousando embaralhar as produções dos grupos rivais, que fazem esforço enorme para apagar a existência da produção alheia. Não vamos capitular. Não vamos ceder ao jogo fácil de usar citação e referência como moeda nos jogos de poder. Distraídos, venceremos, como dizia o poeta.
Sonho estranho
Tive um sonho estranho. Sonhei que uma pessoa me contava que tinha presenciado há alguns anos outra pessoa denunciar para autoridades públicas de cúpula que alguns agentes de Estado, o sonho se passava na China, de vez em quando sobrevoava a muralha da China num tapete vermelho de Aladim, vindo da Síria, onde nasceram meus antepassados, e aí a pessoa contava pra mim que o outro tinha dito numa reunião informal os nomes de agentes do Estado que vendiam armas de fogo para brigas entre gangues nos bairros de Hong Kong e que as autoridades resolveram não levar adiante a denúncia e muito tempo depois, quando as armas vendidas geraram mortes, ninguém sabia o porquê, e então matadores do Estado foram exterminar os clientes dos outros agentes do Estado que tinham vendido armas para as guerras entre as gangues. Muita gente inocente morria, pois na China, os chineses são muitos parecidos como reza a lenda. Acordei de um pulo, desse pesadelo, olhei para a natureza e vi que a minha vida era pura harmonia, rodeada de coisas boas, aí comprei uma passagem e fui para Paris, mas aí acordei de novo de um sobressalto, pois percebi que ainda não tinha acordado, que o pesadelo continuava. Preciso relatar esses meus sonhos para meu psicanalista. A gente delira demais quando está sonhando. É o trabalho do desejo.
Friday, September 16, 2016
Seguir experimentando...
Nos bastidores e nos abismos, o desassossego faz parte da condição errática dos que experimentam; e apenas seguem experimentando.
Tuesday, September 06, 2016
Sala de aula
Voltar para sala de aula é uma grande alegria! A gente passa as férias sentindo falta. Sala de aula é uma zona de autonomia temporária. Um lugar de fala livre, solta, onde se questiona até a ilusão da fala livre e solta.
Desamparados
Desamparados e permanentemente aguilhoados pelas formas de desrespeito que nos afligem intimamente, porque nos insultam, nos humilham, não cessamos de lançar apelos melodramáticos, o mais das vezes, para capturar a dedicação emotiva dos outros. E essa tentativa de captura do desejo do outro é o que há de mais arriscado para si e para o outro. É o sem fundo, a um passo do vazio, do puro espaço vazio.
Amor e amizade
O amor como uma forma de desilusão mútua e a amizade como uma forma de estar só e não na solidão da presença inelutável do outro.
Monday, September 05, 2016
Meritocracia
O sistema da meritocracia é uma forma de estimular a competição entre os perdedores, a fim de fazê-los cooperar com a produção e reprodução das desigualdades de oportunidades. Apenas as vítimas deixam-se seduzir pelo mérito de ser uma vítima diferenciada, que merece alguma consideração excepcional por parte dos dominantes, porque colabora com eles de boa vontade.
Friday, August 12, 2016
Piano noturno
Tinha um piano no Compasso, bar ao lado do Cais Bar, e dia de domingo à noite, lá pela meia-noite, alguns amigos que tocavam piano maravilhosamente bem iam saindo das mesas para dar uma canja, enquanto a gente discutia filosofia, literatura, artes e o sentido dos belos olhos das pessoas. Houve um tempo, sim, houve um tempo em que se tocava piano às segundas de madrugada de frente para o mar, e esse tempo é o tempo do meu corpo.
Da cerveja à pedra
A cerveja já não presta, é a maior mentira, e ainda a bicha está no preço de uma refeição, uma única unidade no preço de uma refeição, aí é de lascar, é por isso que a galera da pedra é vanguarda, a vanguarda do fim.
Tuesday, July 19, 2016
Rato de sebo
Como rato de sebos e livrarias, virtuais ou presenciais, frequentemente compro aquele livro de 250 reais por 30 reais ou aquele de 80 reais por 5 reais. Quando o desejo é ardente, não há crise que segure o bibliófilo.
Deep Purple 1976
E o Deep Purple tocando Georgia on My Mind, num show ao vivo, em 1976, como música incidental dentro de uma versão poderosa de Smoke on the Water! E eu escutando isso pela primeira vez. Pense no arrepio!
O desejo dos cultos
O que fazer quando membros altamente escolarizados, doutores e doutoras, das elites sociais, políticas, culturais e econômicas, passam a defender que a tarefa do Estado é exterminar, é fazer a vingança contra quem eles e elas consideram indesejáveis? O que fazer quando a noção de direito, de lei, de justiça, é abandonada pela classe dominante a favor de um Estado de morte? O que fazer?
O crime do estado
O problema não é o Crime agindo contra o Estado. Isso é um mito do Estado, esse mito segundo o qual o Crime é algo fora do Estado. Não existe crime fora do Estado, é o Estado que produz o crime. O problema maior é agentes do Estado tocando o Crime, tocando o terror contra o Direito, a Lei, a Justiça e a Democracia. Isso sim é o problema. É importante lembrar que não existe crime organizado fora do Estado, por definição, crime organizado só se faz com Estado.
Fortaleza, cidade proibida.
A gente mora num faroeste. Fortaleza mergulhada no caos. Sertões do Ceará viraram terra de ninguém. Mortes matadas por todos os lados. Assassinatos em cada esquina da cidade. Guerra de rua entre policiais e bandidos. Torturas, espancamentos. Prisões quebradas, arrombadas. Fugas em massa. Situação fora do controle dos nossos sonhos. Muitos sonhos de angústia a se espalhar. E o Crime do Ceará já anunciou que vai fazer mais prefeitos e vereadores nas próximas eleições. Os estabelecidos nesse ramo, com carreira criminal mais longa e consolidada, estão se batendo de frente num encarniçada luta pelo poder contra a voracidade dos recém-chegados. Muito sangue, muita morte, muita corrupção. Salve-se quem puder. O barco está afundando. Acredite no que quiser. Não há âncora, nem luz no fim do túnel. Crime do alto e crime de baixo em momento de ajuste violento. E a gente no meio disso tudo, vivendo em situações de altíssimo risco. Vir trabalhar e voltar do trabalho é risco de morte. Faixa de Gaza. Iraque. África do Sul. Colômbia. Venezuela. Seja bem-vindo a Fortaleza.
Monday, July 18, 2016
Temas de estudo
Os temas centrais da minha aurora de estudos são a loucura, o crime, a doença e a morte. Sinto que passarei mais do que uma vida inteira a pesquisar sobre tais temas. Talvez seja um sinal de pós-compulsão quanto a eles.
Algum orgulho de si
Um grande desafio é sentir orgulho de si sem alimentar formas de autoindulgência.
Vetar autores é o fim da picada
Acho uma coisa inacreditável, quando alguém simplesmente veta a leitura de um autor. Diz que o autor tal não deve ou merece ser lido. Tenho descoberto tanto autor massa ao desobedecer a esse tipo de veto.
Aprendendo a lidar
E essa busca compulsiva por figuras imaginárias protetoras? Muita atenção é pouca. O desejo de dependência pode ser muito danoso à liberdade já tão frágil e combalida do próprio desejo desejante no seu trabalho de conquista de autonomia relativa. E esses indivíduos que fazem demandas amorosas excessivas aos outros, mas não se dispõem a nada oferecer, que são exigentes com seus próprios direitos de ser amado e para lá de relapsos com a condição desejante dos outros, negando amor ostensivamente a esses de quem tudo cobram?
Monday, July 11, 2016
A espera
A respiração parecia jamais querer voltar, a tosse era seca, sem fumaça, mas seca. Os dedos estavam trêmulos. O mais sacal era esperar à beira da piscina que cheirava fortemente a cloro. Nada para beber.
Passagem
Catava latas e tinha o cuidado de separá-las entre as de ferro e as de alumínio, pois assim corria o tempo. E havia, no ponto de ônibus, uma kombi velha, vendiam podrão a dois reais e cerva em lata a um real.
Pavor em ser invisível
As pessoas estavam apavoradas. Era o medo de desaparecer. O infinito pavor de serem esquecidas.
Arredio
Tinha adquirido o costume de boicotar todo e qualquer tipo de festa, era um tipo solitário e arredio. O que o esperava era própolis e um copo de água natural para ser tomada aos goles. Não depois do própolis.As unhas mal-feitas, roídas, cortavam partes da cartilagem quando as mãos se movimentavam entre as orelhas.
Detalhe biográfico da tese
Quando era um menino de 10 anos, a roda de meninos imbecis se reunia no pátio da escola para questionar quem ia ser Ney Matogrosso, reproduzindo falas de homens adultos escutadas nas famílias, usando Ney como ponto de referência para decidir quem ia continuar sendo um tremendo babaca. Ney sempre foi muito poderoso! 9 anos depois quando descobri Secos e Molhados, isso mudou minha vida. Mudou minha relação com as experiências de gênero. Sem Ney Matogrosso, não teria havido essa mudança; que não foi lá essas coisas, mas foi. Fiquei um pouco menos babaca. I guess.
Monday, June 13, 2016
Precariado
Tenho um dúvida. As chances objetivas de pessoas jovens oriundas das classes dominadas de ocupar posições sociais que não sejam precárias, incertas e instáveis diminuíram? O problema é que metodologicamente não há como checar isso sem levar em consideração a relação entre as expectativas e as chances objetivas de realização dessas expectativas. A crise, para ser sentida como crise, funciona como crise da crença, crise de confiança, como rebaixamento de expectativas elevadas, inflacionadas, em relação a suas condições reais. Ocorre que as expectativas fazem parte dessas condições reais, então, não há como investigar as condições objetivas, desconsiderando os processos de objetivação da objetividade.
Habitar
Moro numa casa onde os muros são parciais. Há um trecho imenso sem muros e alguns muros antigos e outros mais recentes construídos na tentativa de minimizar a situação porosa de uma habitação sem muros. Mas na minha casa há portas e janelas. E elas não ficam sempre abertas. São abertas e fechadas várias vezes ao dia, num jogo infinito de uma casa quase sem muros. Subo no telhado, espio os arredores da casa. A casa vazia é um perigo. As armas da casa são meus olhos. E posso até furá-los nos espinhos que abundam na mata que rodeia a minha casa. Mas pela mata passo como flecha; nem que fure meus olhos. E assim vamos passando desta para uma melhor, ou não. Onde eu moro se chama sertão, meu corpo. Corpo aberto, corpo fechado. Sujeito marcado no limite de sua impossibilidade.
Monday, May 23, 2016
Onde habito?
Moro numa casa onde os muros são parciais. Há um trecho imenso sem muros e alguns muros antigos e outros mais recentes construídos na tentativa de minimizar a situação porosa de uma habitação sem muros. Mas na minha casa há portas e janelas. E elas não ficam sempre abertas. São abertas e fechadas várias vezes ao dia, num jogo infinito de uma casa quase sem muros. Subo no telhado, espio os arredores da casa. A casa vazia é um perigo. As armas da casa são meus olhos. E posso até furá-los nos espinhos que abundam na mata que rodeia a minha casa. Mas pela mata passo como flecha; nem que fure meus olhos. E assim vamos passando desta para uma melhor, ou não. Onde eu moro se chama sertão, meu corpo. Corpo aberto, corpo fechado. Sujeito marcado no limite de sua impossibilidade.
Thursday, March 10, 2016
1950: a década que mudou o Brasil.
Meus pais passaram 20 anos (1960-1980) para ascender a posições de classe média urbana assalariada sem patrimônio, nem ativos financeiros. 20 anos de investimento em capital educacional. Meu pai vindo de uma família de pequenos agricultores. Minha mãe de uma família proletária urbana. Minha avó paterna era dona de casa e agricultora sem estudos. Minha avó materna foi empregada doméstica, era dona de casa e agricultora sem estudos. Meu avô paterno era capataz, trabalhando para grandes proprietários rurais e no tempo vago na própria roça. Meu avô materno era técnico de contabilidade, proletário urbano. Confesso que considero falacioso demais dizer que se pode virar classe média num passe de mágica pelo acesso direto e simples a bens de consumo descartáveis. Essa é a maior mentira contada pelos governos da Nova República, principalmente, da Dilma, que insistiu demais no marketing da "nova classe média". Não é à toa que a depressão está avançando no país em larga escala. Sonhos alimentados e despedaçados por todo os lados, infelizmente. Os governos vendem fantasias de grupo e agora colhem tempestades. Essa é a base sociológica da ascensão do que chamam de "nova direita". Desta, estou bem longe, contrariando as estatísticas. Apenas uma hipótese de leitura que compartilho com vocês.
Wednesday, January 13, 2016
Mentalidade no crime
Algo que me assombra e que estou tentando transformar em objeto de conhecimento: as mentalidades nos mundos do crime são incrivelmente conservadoras e convergentes com os quadros mentais dominantes, só que em negativo, uma negação que não nega, uma negação que afirma o dominante. Descoberta terrível. O Estado é o crime e ao produzir o crime, produz a mentalidade criminosa com seu corolário. Há uma oposição complementar entre a mentalidade dominante que possui eficácia em neutralizar-se como categoria do crime e a mentalidade dominada que se faz dominante pela projeção imaginária, à margem da lei neutralizadora, à margem da mediação que neutraliza o potencial ofensivo da ação criminosa desconhecida como tal, que, por estar à margem, ocupa o centro da engrenagem toda.
Tuesday, January 12, 2016
A realidade do trabalho
Para certos tipos de trabalho, trabalhar menos de 12 horas por dia é uma merda. Não dá certo. Limita. E também não dá para enquadrar com esquemas quadrados de bater ponto, faz é limitar a produtividade. Por exemplo, segunda e terça, ontem e hoje, trabalhei no campus de 8 da matina às 8 da noite. Quando estava de saída, agorinha, ainda não saí, chega pelo correio um livro fascinante que esperava há dois meses. Resultado? Estou saindo correndo daqui do trampo para chegar em casa e virar a noite lendo, né? É claro! Significa que vou dormir amanhã de manhã e só venho trabalhar à tarde e à noite. Aí alguém passa na minha sala amanhã de manhã e comenta: nem veio trabalhar! Estupidez, né? Cada trabalho possui seu estilo, seu modo de ser. O nosso é assim. Menos de 60 horas por semana é raro. Muito raro. Nos últimos 15 anos não lembro de ter trabalhado menos do que isso por semana.
Saturday, January 02, 2016
Já muito velho
E um dos narradores é um homem já muito velho. Corpo corrompido. Vida truncada, o que não o impede de adoçar com mel a ponta de uma chupeta que o mantém entretido. Mas é apenas um dos muitos narradores.
No início, era o crime, a loucura e a morte. Tudo começava na prisão. Tudo terminava na profunda cova. Não sem antes atravessar o mar Cáspio do desejo. Não havia sequer podido estabelecer a distinção entre o sufocante e o refrescante. A prisão era o que lhe antecedia. Ela o fundava como se riscasse um piso de mármore depositado em estado quase bruto na profundeza de uma enseada. Ele podia entrar e sair dela sem pedir autorização a ninguém. Tudo começava nessa prisão. Havia baratas por todo lado. Algumas reputadas à morte. Outras, nem tanto. O comércio era farto. Sem limites morais, o mercado das megeras. Não se nasce livre, teria escrito o filósofo na sua agonia contra o próprio filósofo. Não estava destinado a escrever. Era-lhe vedado. Sobrava-lhe a atitude esnobe do bom leitor.
Em seus primeiros dias, a duração da pequena pessoa resvalava de uma fratura óssea. Era a mão que apalpava o osso quebrado, a dor continuada de um parto infinito, transmudado numa dívida impagável. Apenas o sacrifício aplacava tamanho sofrimento.
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