Sunday, April 22, 2018

Criar as crianças

Ter e criar os meninos é a missão mais complexa de todas. Educar os filhos é muito absorvente. Exige uma responsabilidade enorme, tempo de dedicação, escuta, muita conversa, aprender junto, rotinas e muitas rotinas, algumas quebras de rotina para celebrar a vida, muito amor na imaginação não basta, tem de ter coragem de sair do papo de um amor que não se efetiva na prática para um amor que está ali no dia a dia, pensando nelas e fazendo primeiro para elas, as crianças. As crianças têm de ter a prioridade na prática. Não adianta papo furado de afetos e amores, quando isso deixa as crianças na mão. Amor é o que protege e educa permanentemente. Dia após dia. Semana após semana. É uma loucura. Exige um espírito de sacrifício sem tamanho por parte do adulto responsável. Muito cansativo. Amor sem assumir as obrigações cuidadoras e educadoras tem meu desprezo. O amor de pai é o amor baseado numa força que não sei de onde vem. Uma força de permanência.

Engole tudo...

O núcleo forte da realidade é a própria confusão. Aquilo que não para quieto, que escapa e vaza por todos os lados. Diante da realidade , as expectativas são frustradas. Tornam-se frágeis e inatingíveis. O real é puro fluxo que tudo engole. Inclusive, crenças e desejos.

Saturday, April 14, 2018

Por ser branco

Por ser branco, é frequente que brancos abertamente e intencionalmente racistas venham espontaneamente fazer confissões no dia a dia para mim, sem nem saberem quem eu sou e que tento não aderir subjetivamente a essas estruturas, que recuso o racismo que me/nos habita, eles me procuram apenas pela preposição preconceitual de que também devo ser um racista como eles, o que de algum modo me implica no racismo deles, pois me reconhecem, apesar de eu não me reconhecer como eles me reconhecem. Ao longo dos anos, como pesquisador, tenho coletado esse material. Já fiz um relato dele para integrantes do movimento negro da Bahia. O material apenas confirmava empiricamente o que elas e eles já sabiam. Mais recentemente, eleitores brancos de Bolsonaro têm dito cada coisa para mim no dia a dia que fiquei estarrecido, está difícil segurar as pontas de pesquisador e ficar apenas na escuta, mas estou fazendo isso, e mantendo o diário de campo sobre o assunto. O racismo de Estado é o problema central que não se quer discutir. Gênero, raça e classe. As leituras americanas (de colegas dos EUA) ajudam, mas as do BR podem ser independentes, dialogar, e serem até mais contundentes. Existe Estado mais racista do que o brasileiro? Sim, deve existir. Mas este não fica atrás de nenhum outro.

Bombardeios ignóbeis

EUA, Inglaterra e França a bombardear a Síria. Depois, ninguém sabe, ninguém viu. Inglaterra e França ficam explodindo bomba na cidade alheia, depois se fazem de vítimas quando a bomba explode na deles. Eu não defendo bomba de um nem de outro. Nem contra um, nem contra outro. Apenas, lembrando a contradição.

Meu corpo beatnik

Existe uma relação íntima que passa pela corporalidade, pela distância expressiva do corpo diante da "normalidade" social. Tenho muito mais proximidade com a geração Beat da década de 1950, por exemplo. É contemporâneo para mim não ceder ao regime de vestuário de de status corporal dominantes em situações que exigem formalidade. E não é fácil fazer isso. Gera consequências várias.

Nova classe média: a armadilha histórica.

Do mesmo modo que os membros da oligarquia protegem os filhos uns dos outros, num sistema de transferência hereditária de altas posições, os membros das classes médias recorrem à proteção das oligarquias, colocando-se em posição de subalternidade perante elas, a fim de reforçar mecanismos que impeçam processos de ascensão de novas classes médias, que, por sua vez, possam entrar em processos de luta concorrencial com os já estabelecidos, rebaixando o preço dos diplomas e credenciais da condição subalterna. O desejo de ampliação da classe média num momento de declínio da classe média no plano global, puxado pelos EUA, disparou processos políticos de restrição às condições de acesso às classes médias, notadamente, o acesso a bens informacionais. De modo cínico, as classes médias estabelecidas há mais tempo, ameaçadas pelo declínio geral, estão usando contra o desejo de classe média dos segmentos da classe trabalhadora o recurso do "prenda-me se for capaz", "siga-me se for capaz". O sistema da meritocracia não é apenas uma ideologia, é também um dispositivo de hierarquização das condições subalternas intermediárias face à estrutura oligárquica do mando. As classes trabalhadoras, pelo menos aqueles segmentos que puderam sonhar com desejos de classe média, caíram numa armadilha. Só descobriram agora que o processo era de integração perversa no sistema de meritocracia. E a maioria ainda nem descobriu, continua pensando como classe média enquanto é massacrado justamente por isso. O choque de ordem do liberalismo do capitalismo de Estado contra o liberalismo social do capitalismo de Estado é a ordem do dia. Quem vai ser empregado de quem? Esta é a questão. Faço parte de uma categoria de famílias que no BR ascendeu para a classe média urbana letrada entre 1960 e 1980 (pai e mãe como estudantes universitários etc); se consolidou como classe média urbana letrada entre 1980 e 1990 (filhos estudantes universitários). Hoje, vivo melhor do que meus avós (que eram camponeses com exceção do meu avô materno que era das classes médias urbanas baixas) e pior do que meus pais. Foram quase 50 anos de processo de inserção para isso. Para estar na precariedade semelhante ao que estava pai e mãe na metade da trajetória (em 1980). Já escrevi várias vezes sobre isso. Foi de uma irresponsabilidade política sem tamanho esse lance de decretar "novas classes médias". Não há como fazer isso por decreto presidencial. São processos históricos altamente instáveis. E com o declínio geral das classes médias globais, puxadas pela perda de qualidade de vida da classe média norte-americana, o mito da classe média dá as mãos com o mito do mercado livre e cria o maior engodo que governos de "esquerda" (da França de 1980 ao Brasil de 2010) puderam promover. Governos que foram máquinas ideológicas do capital. Máquinas de gestão "social" de RH para o processo de flexibilização neoliberal.

Minha baixíssima espiritualidade grita e chafurda no desespero

Estão se tornando mais frequentes as postagens de amigos que seguem a linha "Deus em minha vida". Tenho nada contra Deus, estou apenas percebendo o avanço do sentimento de vazio. Deus é Tudo. Desejar Tudo é uma função da criatura em sua vacuidade. Em sua ânsia de superar o desespero. A crise é política, espiritual e material ao mesmo tempo. Na minha linha, tento me manter numa relação duradoura com o desespero. Não me acho superior nisso. Ao contrário, tenho consciência aguda da minha baixíssima espiritualidade.

Thursday, April 12, 2018

Crise da solidariedade no BR

A situação no BR degringolou. As incertezas que eram muitas se tornaram horríveis. A crise é uma crise da solidariedade. Quando existe, é uma solidariedade parcial.

Pensamentos do dia

Existe nada pior do que alguém querer te dar um presente que você não quer receber. Talvez, apenas, seja pior, querer dar o presente e ser recusado no ato da troca. Um amigo que não faz a menor ideia da complexidade da tua situação de vida é um estranho perfeito. Mas é sempre bom mantê-lo à distância, na ficção da amizade perfeita. Tentar diminuir ao máximo demandas desejantes dirigidas aos outros menos relevantes para concentrar a energia nos outros mais relevantes. Um problema ético seríssimo. Expressar sentimentos no contramovimento do pensamento. O sentimento sem pensamento é uma roubada. Sentimentos, emoções e afetos sem pensamento contra o existente são funções de ordem e dominação. Não os deixem controlar sua agenda e muito menos sua imaginação. Pensamento independente é uma conquista coletiva. Não é um eu sozinho e isolado atuando. A autoajuda sem ajuda mútua é uma balela. É uma manipulação grosseira do individualismo possessivo. Aqueles que buscam poder, dinheiro e sucesso abrem mão de novas experiências.

Embarreirar a vida alheia

Quando duas pessoas se aproximam espontaneamente por razões profissionais ou políticas, há os especialistas em estorvar a aproximação, interferindo com seus preconceitos e interesses, a fim de evitar o enfraquecimento de alguma posição de poder que ficaria ameaçada pela aproximação inusitada entre pessoas que juntas poderiam fazer coisas novas e diferentes.

Os velozes e sem conteúdo

Ceder à velocidade como eixo de atuação profissional é mais fácil, seguir correntes. Vejo como rapidamente muitos indivíduos cederem a isso. Velozes, apenas velozes. Como automóveis possantes em vias de 40km por hora. Zero espírito de artífice. O artífice é aquele que busca fazer o melhor que puder. Exige tempo, dedicação, muito exercício e calma.

Práticas autoritárias do cotidiano na universidade

Receber e-mails da instituição onde se trabalha com caráter abertamente ameaçador do tipo "faça, pois podemos puni-lo assim e assado e complicar sua vida e muito", em vez de e-mails de motivação para adesão subjetiva à tarefa coletiva do trabalhar juntos, é sinal de quê? Sinal de que o desejo de autoritarismo converge com a impaciência daqueles que exercem o desejo de mando face a problemas políticos de coordenação de esforços conjuntos. Se até as universidades cederam no cotidiano ao caminho fácil do "faça ou seja punido", imaginem em outras organizações, que não lidam com "educação" como missão principal. E os indivíduos que enviam e-mails sem corpo de texto, com algo em anexo, subentendendo uma transferência automática de responsabilidade, um e-mail que manda fazer algo sem usar uma palavra escrita para solicitar ou pedir ou justificar ou exortar, seja o que for. Simplesmente, o e-mail vazio, sem palavras, sem pronomes de tratamento, sem nomes, sem texto, só o e-mail com um anexo. É um sintoma grave da loucura nas organizações. Espaço de vazios. De impossibilidade de nomear o processo de transferência da responsabilidade. Sei lá mais o quê. Vazio que multiplica vazio. Nem respondo e-mail desse tipo. Aí param de me enviar por uns tempos. Depois voltam a enviar de novo. São os automatismos, as compulsões, as forças do "produtivismo". É o smartphone com desejo de mando automático, sem negociação de papéis. Sem política, sem aquilo que "atrapalha", sem subjetividade, sem recusa ativa.