Thursday, March 08, 2018
As brechas ainda existem...
Fazer concessões e realizar sacrifícios para construir laços duradouros com outras pessoas viraram atitudes extremamente raras e anacrônicas. Mas até certo ponto isso é verdade. Pode-se dizer que tanto nas classes populares como nas classes dominantes, há estratégias de fazer da família o lugar de construção dessa dimensão duradoura que se tornou quase uma impossibilidade para a maioria de produtores negados e consumidores falhos. Ou seja, há um tendência de aumento das desigualdades. De dez vezes, pulou para mais de 50 vezes, em pouquíssimo tempo. As brechas ainda existem, mas são muito escassas. Antes não eram apenas brechas, eram posições mais sistemáticas, igualmente, raras, mas eram sistemáticas.
Sunday, March 04, 2018
O fim do território e da cidadania
Classes dirigentes e governos não têm nenhum interesse em se responsabilizar sobre espaços das periferias. A lógica da guerra contra a periferia é adotada num modelo similar à lógica da guerra do entrar, destruir e sair. A periferia virou para os agentes públicos do Estado e seus governantes uma zona de guerra. De guerra móvel. De uma guerra que não visa assumir o compromisso pela tomada de um território e nele construir um campo de administração pública. Isso está fora de questão. Então, a guerra tende a piorar, a ficar mais cruel, e, infelizmente, permanente na sua fluidez e falta de compromisso real. A periferia está relegada a ser cronicamente um espaço de abandono social e de guerra rápida cotidiana sem pretensão de obter responsabilidade pública pelo "território". Por isso, as leituras que se centram na questão do território estão defasadas. Não compreendem a nova lógica extraterritorial da guerra movida contra os pobres. Infelizmente, a busca por pressionar governos por políticas públicas tem gerado apenas um aquecimento do mercado de assessores e consultores de governos que não assumem a responsabilidade com essa busca. A demanda pela política pública virou mercado de assessorias e consultorias, mas não ação política coletiva contra as contradições sistêmicas e suas políticas públicas que não passam de terapias da pobreza, quando não o extermínio de pessoas classificadas como indesejáveis do ponto de vista dos próprios vizinhos, que as terapias da pobreza acabam por legitimar.
Reflexão de um domingo pela manhã na ausência da família
Devo ter vergonha ou orgulho de estar preenchendo o Lattes num domingo pela manhã? Devo ter vergonha ou orgulho de ouvir música erudita ao passo que meu corpo degenera, envelhecendo no empobrecimento da vida atual? Devo ter vergonha ou orgulho de não mais ter o sonho de viver num crescendo, mas de me curvar em direção ao sono? As fontes de vergonha social são muitas, variadas e atravessam toda a estrutura dos mercados de baixo acúmulo de capital. Já as fontes de orgulho, elas se tornam cada vez mais raras, pois a falta de compromisso e o lugar ausente se tornaram a regra daqueles que ocupam as posições de alto acúmulo de capital. Vergonha de todos. Orgulho de ninguém. Quem não vive atolado num universo de ansiedades e medos? Quem anda por aí na certeza de si? Os incautos, talvez. Os engajados, certamente. Não prestar atenção na geleia geral e se engajar por conta disso naquilo que há é a atitude básica do desejo de nada. O desejo do consumidor em tempos de dissolução geral da renda e do patrimônio da maioria. Desejos de autonomia relativa, liberdade de escolha, de construção da individualidade, de assumir a responsabilidade pelas consequências da própria ação, de rejeitar a intervenção das instâncias de controle social e suas formas autocráticas e totalitárias de dominação. Desejo de emancipação humana. Enfim. Viramos todos uns dinossauros. O castelo de cartas caiu . Estamos fodidos e mal-pagos. A chuva de meteoros está aí, batendo à porta.
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