Monday, January 28, 2019
Ódio à distância
Apenas quando te encontro num abraço entre seres sensíveis, anulam-se as antipatias que sinto por ti. Descubro que, longe de ti, tua imagem é meu mero e mesmo fantasma, aquela que me atormenta.
Monday, January 21, 2019
Os entusiastas bolsonaristas do capitalismo
Está ficando cansativo ter de lidar com indivíduos que defendem o capitalismo com unhas e dentes mas que possuem baixíssima capacidade concorrencial, quase nenhuma, baixíssimo acúmulo de capital informacional, não atuam subjetivamente na forma-empresa, não fazem investimentos de rentabilidade crescente em praticamente nada e sequer entendem o que seja a lógica de mercado. Enfim, vivem na merda, felizes pois estão superando o "socialismo" no Brasil. Cansa muito esse pessoal. E são muitos. São milhões. Santa paciência. Como lidar com esses autoexcluídos felizes e boçais que não representam porra nenhuma no regime do capital? Esqueci de dizer que esse pessoal não tem plano privado de saúde, não tem acesso a escolas privadas, não tem seguro de vida privado, não possuem praticamente nada dos títulos de capital do capitalismo. São excluídos mesmos. Mas não param de falar que estão felizes em superar o socialismo no Brasil, que agora é capitalismo para valer.
Saturday, January 19, 2019
Os sorrisos
Nessa vida cheia de sofrimentos, talvez, um dos piores seja o de ter de se sentir obrigado a expressar felicidade, beleza, sucesso, poder e riqueza para a apreciação e o julgamento dos outros, mesmo quando o sentimento íntimo é de que tudo desmorona. As mascaradas com seus sorrisos que, nas entrelinhas, pedem socorro, nos levam cada vez mais para o fundo do poço sem que saibamos disso, um fundo do poço de onde os amigos mais calorosos, os mais amigos, não irão jamais nos tirar, pois é tóxico se aproximar de quem está no fundo do poço, simples assim. A amizade, como dizia Beckett, a propósito de Proust, é uma grande covardia. Somente os covardes procuram a companhia dos amigos, como muletas. Nada de sorrisos, nada de estados de felicidade expressos pelos sorrisos do adeus, da falta de comiseração. Prefiro viver afundado na falta de misericórdia e no desespero humano mitigado pela arte do abandono de si. O resto é o teatro do mundo, o que soçobra de modo jovial. Como detesto tudo o que é jovial e espontâneo. Somente o velho, o decrépito, o sem sentido, deveria ter direito a existir. O velho e sua morte iminente. O declínio do sorriso é a aurora. Meu teatro é feito de caretas, de máscaras ruinosas, de faces derretidas, sem substância e sem essência. Desbragadamente afirmadas na alegria, essa negação de toda felicidade humana.
Thursday, January 17, 2019
Pensando alto
Se houvesse engenheiros, químicos e físicos nas facções, hein? Mas as facções com seus ataques, entre outras coisas, mostram como são formadas por indivíduos de baixíssimo capital informacional. Esse mundo do crime precisa se modernizar. Precisa estudar para aprender a explodir uma ponte com cálculo, como os especialistas do Estado e das empresas privadas sabem fazer. Se assim fosse, aí iam dar um trabalho danado. Tenho cada ideia, né? Desculpem-me. Não quero ferir sentimentos de A ou B. Foi só uma coisa que me veio à cabeça.
Wednesday, January 16, 2019
Arma de tolo
A facilidade de acesso às armas mascara o movimento de gerar dificuldade de acesso à educação de qualidade. A arma é um cortina de fumaça para elitizar o acesso à educação, restringindo o desejo de escola, compensando-o com o de arma. Só que a escola é mais rentável. Por exemplo, no CE, o salário médio de quem cursou nível superior é de 4 mil e 300 reais. É mais negócio investir no estudo no que na arma. Mas se muita gente investe no estudo, há um efeito de desvalorização dos diplomas, que afeta também negativamente os salários médios de quem estudou. O encanto pela arma por parte da população de baixa renda ou da classe média baixa é excelente para quem está investindo tudo nos estudos, diminui bastante a concorrência. Forte expectativa com arma, baixa expectativa com estudo. Para quem fica no estudo, gera aumento relativo do lucro do diploma pela restrição ou corte da expectativa daqueles que não estarão mais com o foco no estudo, mas na arma. Dirigir os filhos para as armas ajuda a quem os dirige para os estudos. Aumenta as chances destes últimos de monopolizarem as oportunidades de realização. Mais armas, menos estudo, mais violência no lugares de concentração de armas. As elites em geral preferem comprar serviços de segurança privados. Só alguns se dedicam diretamente à aquisição de armas. As elites fazem aquisições de planos de saúde, de serviços de telefonia e internet, de escolas privadas, de pacotes de viagens de estudos para seus filhos no exterior, de cursos de línguas estrangeiras, de escolas de esporte, enfim, investem naquilo que realmente dá lucro. Arma dá lucro só para quem a vende. Ademais, ter arma em casa é virar alvo. Não há como ter arma em casa e levar uma vida tranquila, espontânea. Tem de virar um soldado, tem de dedicar muito tempo e atenção à arma. Ou seja, tempo de não estudo. Os já excluídos tendem a abraçar o reforço da sua tendência de maior exclusão. A arma é um fator de desigualdade. Quem tem arma em casa, com raras exceções, tem menos segurança ontológica, mas tem uma sensação compensatória para mascarar a privação de base. Ouro de tolo. Ocorre que lucros à parte, todo mundo perde numa sociedade toda armada. Mas as perdas são distribuídas desigualmente, assim como os lucros. Se o homem morador da periferia não poderá circular em bairros ricos com sua arma, pois ele não possui o porte, apenas a posse em sua residência ou comércio, isso significa que o homem pobre da periferia armado não poderá ameaçar pessoas nos bairros ricos, pois a posse é ilegal. Se houver quem morra ou quem mate, será no bairro de moradia desse homem pobre armado. No bairro dos ricos, há empresas privadas de segurança armada cuidando dos condomínios, além dos policiais fazendo bico, e das patrulhas constantes para não permitir circulação de homens armados das periferias nos bairros "nobres". A facilitação da posse demarca territorialmente o lugar dos efeitos de violência letal armada, em tese. Outra hipótese: as invasões policiais nas periferias poderão "naturalmente" ser mais "enérgicas", mais violentas, pois está "naturalmente" justificado que cada residência é potencialmente proprietária de armas, como fato normal e geral. Se as casas das periferias são potencialmente e legalmente proprietárias de armas, não há razão para entradas cuidadosas. A entrada da polícia na periferia ou na casa da periferia será de modo generalizado justificado como enérgica. Regulariza um monte de problema que já existe. O governo do Bolsonaro é muito inteligente.
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