Wednesday, August 21, 2013

Qual o critério?

Em qual critério de verdade alguém se baseia para exercer o controle sobre a fala do outro? Há justificativa com validade universal para alguém ter o direito de controlar a fala do outro? Qual o critério? Qual a fundamentação da validade universal do critério? Como escreveu Miller, "o que é válido é apenas porção (...) percebida por todos os homens em comum" (p.25).

A crença é uma fatalidade!

A crença é uma fatalidade. A descrença é um desconstrução dessa fatalidade, é um opor-se à ideia do medo do desconhecido imposto pelo destino. Talvez, a humanização precise se livrar da figura do homem que é uma figura pálida que desvanece no ser da linguagem para ressurgir enquanto relação com a pura animalidade do humano.

O temor nada cria

O temor nada cria. O temor aniquila a vontade. Não há nada pior do que o temor. O corpo ameaçado pelo temor. É a incorporação do aguilhão da palavra de morte. A incorporação da ameaça é um ato que atua como condição para uma atitude de fé. Esta atua como uma terapia para a alma aguilhoada pelo ferrão de um palavra de ordem. Na relação entre caos e ordem, emerge a singularidade, a universalidade do singular, que é a única universalidade, uma vez só há a priori histórico.

A aula

A objetivação do pensamento pela escrita é uma forma de desintoxicação mental. Escrever para não morrer, como já disseram vários e várias mundo afora. Escrever é a única terapia que me apraz. Por isso eu escrevo. Mas há também a sala de aula, o efeito terapêutico da sala de aula é uma maravilha, é um teatro, é catártico pelo estranhamento do estranho. Estou feliz só de imaginar que vou voltar para a sala de aula, o único lugar onde a fala fala sobre si mesma, dobrando-se para fazer emergir objetos de pensamento, como figuras holográficas flutuando no ar, o pensar é holográfico, por isso nós, professores, usamos as mãos, nos levantamos da cadeira, olhamos para o éter, pois não há vazio, há objetos imaginados, figurações flutuando e se constituindo pela força da mente, pela força intelectual, pela sutileza de construções imagéticas do pensamento, tudo o que se efetua na fala em sala de aula, pois quem fala deseja, como dizia o psiquiatra. A aula dá tesão e estimula a cognição na sua virtualidade no fluxo das coisas, que é a forma real da realidade, enquanto devir, a aula incita e excita na simultaneidade do sentir-se em co-presença de coisas de pensamento.

Por que alguém escreve? (segundo Barthes).

Gozo, fruição, prazer, usufruto, posse. O prazer pelo que é de sentido "precário, revogável, reversível", o prazer pelo discurso incompleto (cf. Barthes). Atuar nas margens de indecisão, pois não há classificações seguras. "Se leio com prazer essa frase, essa história ou essa palavra, é porque foram escritas no prazer" (Barthes). Que haja jogo da vida, que haja "imprevisão do desfrute", possibilidade de um desejo, o que interessa na pessoa do outro não é a pessoa, "é o espaço". "A tagarelice de um texto é apenas essa espuma de linguagem que se forma sob o efeito de uma simples necessidade de escritura. Não estamos aqui na perversão, mas na procura" (Barthes). "A neurose é um último recurso: não em relação à 'saúde', mas em relação ao 'impossível' de que fala Bataille ('A neurose é a apreensão timorata de um fundo impossível' etc.); mas esse último recurso é o único que permite escrever (e ler). Chega-se então a este paradoxo: os textos, como os de Bataille - ou de outros - que são escritos contra a neurose, do seio da loucura, têm em si, se querem ser lidos, esse pouco de neurose necessário para a sedução de seus leitores: esses textos terríveis são apesar de tudo textos coquetes" (Barthes).

O discurso amoroso

"o discurso amoroso é hoje de uma extrema solidão. Tal discurso talvez seja falado por milhares de sujeitos (quem pode saber?), mas não é sustentado por ninguém; é completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado não apenas do poder, mas também de seus mecanismos (ciência, saberes, artes). Quando um discurso é assim lançado por sua própria força na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta além de ser o lugar, por exíguo que seja, de uma afirmação" (Barthes).

É isso

"De palavra em palavra, esgoto-me dizendo de modos outros o mesmo de minha Imagem, impropriamente o próprio de meu desejo" (Barthes).

A amizade como covardia

Em alguns casos, a recorrente mundanidade que faz alguém estar em todos os lugares, em todas as baladas, em todas as mesas de bar, é um forte sinal de privação, de desespero, pela falta de amor. Talvez seja nesse sentido que Marcel Proust considerava a amizade um tipo de covardia. Querer estar entre amigos, buscando o grupo de amigos, pode ser o sintoma de intensa privação do amor, do mesmo modo que fugir dos amigos, evitar o grupo de amigos, pode ser sintoma de frustração ou de melancolia. Ninguém suporta a vida mundana sem invocar a ausência do objeto amado e quase sempre de modo imaginário, pois o objeto presente de amor não satisfaz.

Sobre o blog acadêmico Campos em fuga

Brasil, Estados Unidos, Rússia, Alemanha, França, Portugal, Ucrânia, Espanha, Holanda e Austrália são os países onde tenho amigos que estão gostando de acompanhar o blog acadêmico que venho mantendo, chamado Campos em fuga. Criei o blog em fevereiro deste ano (fevereiro de 2013) e com mais de 1.500 visualizações (umas 400 me parecem visualizações de máquinas, não tenho certeza, mas 1.100 visualizações foram feitas diretamente a partir do Facebook e do Twitter). Além de me regozijar, afinal, não tem como não deixar de ser uma alegria que outras pessoas leiam o que a gente escreve, não vou fingir que isso não importa, importa demais, é claro, é uma satisfação, mas a observação é em outro sentido. Até que ponto essas novas formas de escrever, novas formas de produzir conhecimento, nas redes sociais virtuais, nos blogs, vai um dia ser plenamente reconhecido como produção acadêmica ou não? Uma questão a se pensar. Quando eu vejo por exemplo vários colegas fazendo algo parecido, e até colegas mais experientes, já consolidados no mundo acadêmico, diferentemente de quem apenas inicia, como eu, fico cada vez mais inquieto. Dificilmente, a publicação de artigos em revistas acadêmicas revisadas por pares deixará de ser o veículo central, pois isso está no coração da coisa, é como se adquire prestígio, mas e as outras formas de produção, como ficarão no futuro próximo? Continuarão sendo ainda vistas de modo preconceituoso como coisas de quem não tem o que fazer? Será? Quem viver, verá!

Por que alguém escreve? (uma citação linda de Henry Miller).

"O homem escreve para livrar-se do veneno que acumula devido à falsidade do seu modo de vida. Está tentando recapturar sua inocência, mas ainda assim tudo que consegue fazer (escrevendo) é inocular o mundo com o vírus de sua desilusão. Ninguém escreveria uma palavra sequer se tivesse a coragem de viver aquilo em que acredita." Henry Miller.

Saturday, August 10, 2013

Menino, vai estudar!

A mãe me mandou estudar, "vai estudar, menino!", aí eu internalizei a autoridade dela, num processo de identificação, onde os livros são objetos escolhidos para serem investidos e desinvestidos, compulsivamente, para que a influência de novas identificações, marcadas pelo delírio do "vai estudar, menino!", possam ocorrer. E na compulsão, vou devorando um livro de cada vez, um por dia, e aí eu acordo todo dia, tomo banha e vou estudar, cantarolando "mamãe, eu quero. mamãe, eu quero. mamãe, eu quero mamar". E nessa impossibilidade, transformo a angústia real em angústia neurótica, e para evitar que essa dimensão neurótica da angústia de me se apodere, aniquilando-me, passo à intoxicação pela cerveja, para evitar consolidar a angústia neurótica. E com muito literatura nos couros, como se estivesse apanhando de novo do cinturão do meu pai e da chinela da minha mãe, eu volto novamente aos estudos, a forma como destruo os livros, é a forma de um psicótico na revolta contra a ordem social dada, tomando cafezinho entre uma pausa e outra. Mas deixemos de charlatanismo, mamãe disse que tenho que ser um bom menino, liga toda semana para cobrar, então, queimar as pestanas e ruela do dedo enfiado no pápis (ops, lápis), pois é preciso estudar, viver não é preciso! (para os desavisados, eu não entendo nada de psicanálise, estou só fazendo lorota no intervalo pra voltar aos livros).

Tuesday, August 06, 2013

Expressionismo

há uma condição que é absolutamente incapaz de dizer-se a si mesma, um condição que não possui as prerrogativas da onisciência e da onipotência, uma condição que não pode fazer um relato completo de si por estar imersa no mais intricado labirinto, entre sombras e alguns clarões que as atravessam, como numa ponte que não liga nenhum lugar a lugar nenhum, uma ponte atópica, de um castelo atópico, sem utopias, apenas nos deslocamentos que apontam para a fuga do lugar absoluto do corpo que é o único lugar absoluto, pois destinado à finitude radical, à ruína, ao aniquilamento completo e total, uma condição que só se defronta com o absoluto e com a totalidade do ser quando não há mais ser, uma fluência no puro devir em direção à morte, ao gozo final.