Friday, July 11, 2014

Nos hospitais públicos da vida

Estava sem plano de saúde. Ter arrancado com os dentes a pelinha do indicador da mão esquerda não foi uma boa ideia. A ponta do dedo virou uma bola enorme e latejante. Uma dor de dias, daquelas de nos fazer lembrar bem ou mal de uma alma em nós, como quando a agulha do tatuador corta a pele numa camada um pouco mais além da conta. Viver no Rio de Janeiro sem plano de saúde era o fim da picada. Acreditava ainda na imortalidade, certamente. Coisa de jovem ainda marcado pelo destemor. Chegou o dia em que a dor cessou, uma bola enorme de pus tomou o lugar do meu dedo. No dia seguinte, às seis da matina, tomei banho, escovei os dentes, fumei um cigarro, aliás, dois, um copo d'água, e fui para a fila de um hospital público municipal. Foi o início do pesadelo. A fila para o atendimento ambulatorial estava dobrando o quarteirão. Eu com meu dedo tomei lugar em pé entre uma e outra dor. A senhora olhou para mim perplexa e me perguntou na cara o que eu estava fazendo ali. Eu era o único branco na fila. Não precisou que eu lhe respondesse, apenas mostrei o dedo. Fiquei de sete da manhã até quase uma hora da tarde na fila dos desvalidos. Não tinha tomado café da manhã, nem nada. Não tinha sido uma boa ideia. Quando chegou minha vez, entrei pela porta do consultório ao chamado da enfermeira. Era uma salinha exígua, do tamanho de um banheiro generoso. O médico, um velho de barba branca de uns cento e cinquenta quilos, escrevia algo numa receita para alguém ainda em atendimento. Ele fumava horrores na salinha fechada com ar-condicionado quase a pifar. O consultório médico estava afundado numa frigideira de olho quente. O médico não olhava para ninguém. Ante o relato que a enfermeira fez sobre meu dedo, que ela já havia examinado com a atenção necessária de quem já sabe do que se trata e do que se é preciso fazer, ela mesma indicou ao médico que era necessário sarjar. O médico deu um resmungo à guisa de um vá em frente. Não havia onde sentar, a enfermeira teve de sarjar meu dedo em pé, ela e eu, um de frente para o outro, enquanto eu segurava o aparador que ia acolhendo a porcaria saindo do dedo. Uma tontura fez minha cabeça girar. Despenquei de frente com o rosto contra o chão. Um pouco antes de retornar a si, a inconsciência ainda restante, enquanto abria os olhos, me deu uma das sensações de paz interior mais significativas da minha existência, como se tivesse tomado morfina na veia. Mas durou pouco, tive que ser levantado por um segurança de dois metros de altura, que me pegou como se eu fosse um saco de batata e me jogou numa cadeira de rodas. O médico continuava olhando para o bloco de receitas, era uma estátua de pedra, sequer lançou um olhar para o estrondo do meu corpo caindo no colchão de cimento. A enfermeira que ordenou ao segurança que me levasse para a emergência. Tinha que cuidar de um supercílio com beiços e de várias escoriações, pequenos cortes de quem foi atropelado e caiu no asfalto quente. Com o rosto ensanguentado, sendo empurrado numa cadeira de rodas, fui um espetáculo de horror para algumas faces ainda na fila, dirigindo-se para o abatedouro. Era uma entrada que não admitia saída sem autorização médica. Duas horas da tarde e eu ainda sem ter tomado café da manhã, sem ter pego uma merenda, nem água e nem cigarro. O segurança avisou que precisava da cadeira de rodas, ordenou que eu levantasse e sentasse em algum canto. Mas não havia nenhum canto para sentar, emergência lotada, o jeito foi ficar escorado numa parede. Ocorre que quando senti uma nova tontura pensei comigo mesmo que levar uma nova queda de cara no chão não ia ser nada agradável. Já tinha um supercílio aberto, sangrando, eu precisava me deitar em algum lugar. No chão do corredor não podia ser, pois as macas passavam por ali a todo instante. Havia uma porta dupla que quando foi entreaberta deixou-me num lance entrever a ponta de uma maca. Com minhas últimas forças avancei sobre a sala e adentrei no recinto. A maca realmente estava lá, desocupada, e despenquei sobre ela aliviado. Dormi profundamente. Abro os olhos e o teto do hospital era o único lugar onde manchas escuras não besuntavam a pintura das paredes, como a que eu estava escorado antes de me deitar naquela maca salvadora. Quando olho para um lado, há um cadáver estraçalhado, olhos vidrados e braços rijos lançados ao ar. Do outro lado, outro cadáver, um corpo sujo e muito machucado. Levantei-me da maca de supetão, e me dirigi para fora da sala que tinha sido minha miragem salvadora. Só então me dei conta de que a maca onde eu me deitara estava completamente encharcada de sangue, por isso ela estava desocupada. Ao aparecer no corredor da emergência, com um dedo para cima, o que tinha sido sarjado, com o supercílio direito aberto, escoriações no rosto por causa da queda de cara no chão e agora com a roupa, calça jeans e camiseta banhadas em sangue, pude perceber pelo olhar dos presentes que a cena não era agradável. Um residente então olhou para mim, perplexo, e me perguntou o que tinha acontecido comigo. Expliquei rapidamente o percurso que fizera até chegar àquela situação. Ele me perguntou o que eu fazia no Rio, eu disse que estava fazendo doutorado na UFRJ. O espanto dele aumentou. Ele me disse a mesma coisa que a senhora negra havia me dito às sete horas da manhã na fila de espera, o que você está fazendo aqui, por que você não foi lá no hospital da universidade e outras dicas tardias. Ele colou meu supercílio com um tipo de adesivo, não deu pontos, disse para eu sair dali, ir para casa tomar um banho e me dirigir para o hospital da UFRJ, que ele ia telefonar avisando que eu estava a caminho. Ainda tive que caminhar para casa, uns dez quarteirões, vagando ensanguentado aos olhares assustados das pessoas nas ruas, que desviavam com cuidado para não esbarrarem comigo. Desde então tenho uma outra percepção sobre os humanos que caminham em situação monstruosa pelas ruas da cidade. Além de que pude perceber na pele como os pobres, as pessoas negras, são tratados como um nada, como absolutamente nada, com o investimento dos governos que nós elegemos. Isso foi em 2001.

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