Sunday, April 30, 2017
Sociologia no ensino médio
Enquanto querem retirar a sociologia do ensino médio, a grande mídia (Folha, O Globo, El País etc.) publica praticamente todos os dias textos de sociólogos sobre o que se passa mundo afora, solicitando dicas analíticas e interpretativas para os seus públicos leitores. Há algo de muito errado com esse tal de Escola Sem Partido e esses projetos que tiram a obrigatoriedade da sociologia no ensino médio, não? Até a grande mídia não descarta a sociologia como parte de seu mainstream. Estranho e em dois sentidos.
Saturday, April 29, 2017
Capacidade de pensar
A cada dia, sinto que minha capacidade de pensar está ameaçada. A recusa de adotar os clichês como uma economia do pensamento não garante que se esteja a salvaguardo de se cair no espaço vazio, no espaço incapacitante da loucura. Para isso não acontecer, é preciso manter a relação com a loucura como prioridade no processo de manutenção da capacidade agentiva de exercer o pensamento, pois pensar é atuar contra a ordem, é negar a força inercial da classificação, é atuar contra a crença e contra o desejo, pensar é arriscado demais. Pensar gera esvaziamento, gera um embrutecimento dos sentidos, talvez seja por isso que se torne cada vez mais importante pensar no regime do sensível. Mas tenho lá minhas dúvidas, pois os regimes do sensível estão de tal modo capturados pela atitude de não-pensamento que as coisas parecem esvanecer, refiro-me às coisas do pensamento, as coisas do real nos interpelam, mas apenas como coisas do pensamento podemos com elas pelejar. Onde estarei quando não mais conseguir pensar? Isto me amedronta, pois desconfio que já estou lá, que não é em aqui nenhum. Mas lá nos confins da experiência lúcida.
Thursday, April 20, 2017
Crime de quem?
Acham que podem apoiar um Estado fora da lei e não colher tempestades? Quem produz o crime é o Estado, principalmente, quando atua contra a Lei. Quando agentes da lei são estimulados a agir fora da lei, isso gera mais crime. Se três quartos da classe dirigente estão no crime, como o crime será controlado? Um Estado fora da lei não é capaz de controlar o que está fora da lei. O embrutecimento das condições já embrutecidas geram mais guerra.
Dos tempos antigos
Em tempos de paixão consumptiva, quando o consumo de sensações se esgota no próprio ato de desejar, morre com a expectativa, confesso que tenho uma alergia pessoal a esse mundo de eventos com palestras de gente sabida e estudiosa, falando para públicos que são sabidos mas não estudam quase nada, os sabidos de ouvir falar. Ir para palestras como um ato de fantasia social tem sido algo muito comum na universidade. Quatro anos sem ler um livro e 50 palestras na cachola. E de enganação em enganação, o gozo ilimitado como imperativo do supereu vai fazendo a festa, esse ato de crueldade. Menos palestras e fotografias em eventos, mais leitura na biblioteca em silêncio sem ninguém ver para aplaudir, por favor. Sou do tempo antigo. Do tempo arcaico. Do tempo em que a ética do desejo precisava ser pensada na relação com a ética do sacrifício. Pois, abrir mão do sacrifício é minar as possibilidades de um trabalho do desejo. O desejo como trabalho é fundamental para evitar ser refém do gozo ilimitado como imperativo do supereu. Os tempos arcaicos são os que atuam investindo em relações sociais. Que pensam a base das relações como sendo assumir obrigações recíprocas. Por que, afinal, deveríamos nos tornar todos ao mesmo tempo e agora aquilo que os tempos do curto prazo e do desejo à deriva sem relação com o espaço vazio, que é o que garante a sobrevivência contra a subalternidade, querem nos impor?
Os inocentes na luta pelo poder.
Tenho percebido ao longo do tempo que pessoas que lutam ferrenhamente para exercer o poder de mando costumam usar justificativas que mascaram sua sede imensa de poder, dizendo que estão se sacrificando em nome da coletividade, que estão buscando contribuir para o bem de todos, que estão naquele lugar de exercício do mando não por que ali desejam ao máximo estar, mas por terem sido destinadas a esse sacrifício em nome do todo. É recorrente esse tipo de figuração subjetiva. Lutam pelo poder e falam em nome da justiça. São compulsivamente atados ao poder pelo poder, mas falam a língua dos anjos, os inocentes.
Sunday, April 16, 2017
Os sobrequalificados
A desqualificação do trabalho bem-feito está sendo realizada, entre outros fatores, pela pressão do capital impaciente, sob controle dos acionistas. A pressão pelo lucro de curto prazo faz com que as dinâmicas do mercado do trabalho assalariado estejam marcadas pela presença maciça de trabalhadores muito mais qualificados do que as vagas disponíveis exigem em sua maioria. Isso não é novidade. A primeira revolução industrial produziu esse efeito, o que resultou na revolta dos trabalhadores artesanais e dos artífices. A pauperização do trabalhador com melhor qualificação que compete por vagas para as quais está sobrequalificado vai empurrar o trabalhador com baixa qualificação para baixo.Vejam o caso da Colômbia, relatado pelo jornal El País.
Os eleitores de Trump
Baixos níveis de escolaridade, baixos rendimentos, desemprego e uma vida de incertezas, associadas a álcool, drogas, obesidade, doenças cardíacas, entre outras, estão relacionadas ao fato de que homens brancos de meia-idade nos EUA tenham se tornado um problema público, pois estão super representados nas estatísticas de mortes no país, incluindo suicídios. Em geral, pessoas brancas sem nível universitário tendem a viver situações de desrealização e pauperização. O nível universitário não garante o paraíso, pois não o há em parte alguma, contudo, garante qualidade mínima de vida. O acesso à universidade muda a condição social da existência. 60% desses homens brancos subalternos se tornaram eleitores do Trump.
Saturday, April 15, 2017
Geração Y
Num cenário de laços frouxos no mundo do trabalho, transformaram flexibilidade num lema, num estilo, contudo, agora, desejam cada vez mais estabilidade em meio à crise. Resultado de um pesquisa sobre a geração Y, publicada na Folha hoje. Flexibilidade e estabilidade. Querem flexibilidade para fazer seus horários e estabilidade na carreira, na família e nas finanças, com promoções e previsibilidade. Estão cansados de tantas mudanças no curto prazo, tantos "projetos", tantas alterações dos conjuntos de habilidades. O fim do longo prazo, a noção de "não há longo prazo", gerou a quebra das expectativas de compromisso, lealdade e obrigações mútuas. A geração Y chega à exaustão. Está cansada de pular de galho em galho, expressando ser o melhor jogador da equipe.
Friday, April 14, 2017
Sexta-feira, 6 da matina, do meu monastério.
A relação com o espaço vazio é o modo como a subjetividade moderna se constituiu. Perder o sentido dessa relação é cair no abismo do espaço vazio. Na loucura, na morte. Uma relação com a loucura e a morte é a fonte com que se torna possível atribuir sentido à experiência nos fluxos do real. A música e a literatura são as formas dessa relação para mim. Com o cinema e o teatro, não consigo tocar a relação. O teatro me desperta a curiosidade, o cinema me empolga. As artes visuais viraram um alfabeto. Estão de tal modo domesticadas pelo mundo da paixão consumptiva que raramente atingem a reflexão com o nada. O temor em estar só, essa condição da liberdade, é um sinal dos tempos. As pessoas se acovardam e, por isso, precisam estar juntas, a amizade não é apenas a política de existência e de liberdade, a amizade pode ser também uma forma social de covardia. Mas, realmente, não se trata de afirmar autonomia, esse modo exclusivo de ser cruel. Reinventar as relações de dependência mútua, para cavar a possibilidade de uma interpelação sem sujeição, é um desafio que faz da política uma questão de eticidade, de espiritualidade. O paradoxo disso é que essas demandas de desejo que passam pela modelação do self consumidor de sensações caem no mais das vezes na indiferença e na passividade como formas contemporâneas da demissão coletiva.
Thursday, April 13, 2017
Isto não é um cachimbo
Sou contra as pessoas irem para palestras sem serem leitoras. Isso é um mentira neoliberal. O consumidor neoliberal está em busca de sensações, em busca daquilo que não realiza. É a paixão consumptiva. Deveríamos criar um portaria que proibisse pessoas que não leem de entrar nas palestras (isto não é um cachimbo). Ia esvaziar total. Algumas pessoas me dizem que a palestra por si só contribui, discordo. A palestra pela palestra é o jogo da burguesia, é a aceitação da condição de subalternidade. É amar ser subalterno. A biblioteca que está lá e é pública também pode ser desejada, lá na universidade quero dizer. O aluno que diz não poder ler pois é pobre, lá na universidade, matriculado, é um babaca mentiroso. Conheço muitos alunos fudidos que são leitores de peso.
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