Monday, July 28, 2014
Duchamp e Cage jogam xadrez eletrônico
A problematização da arte não pode voltar a ser pré-Duchamp. O lugar de poder que se escolhe para colocar o objeto "de arte" é mais decisivo do que a obra. Se a gente quisesse ou pudesse prestar um pouco mais de atenção a algo que não seja o campo do poder das oligarquias governamentais, teríamos problematizado a problematização que Marcel Duchamp e John Cage fizeram quando estavam jogando o xadrez eletrônico, né? Mas a gente quer mesmo é ir para onde o campo do poder consagra, infelizmente. E, felizmente, nem todos. Mas os bicos continuam calados, exceto quando vão se divertir com os assessores de governo. Não há nada pior do que o elogio protocolar. Em vez de se fazer crítica política, se faz o sentido fantasmático da autoridade. Hegemonia é fazer com que os opositores falem a linguagem do espaço institucional de modo espontâneo e natural. Eu prefiro ficar no Facebook do que habitar o templo dos assessores do governo. Eu prefiro ficar nesta merda do Facebook do que ir para qualquer merda governamentalizada, que faz a merda cheirar mais mal do que normalmente cheiraria, principalmente, em tempos de eleições, onde qualquer evento nos templos dos assessores do governo é pior do que a Igreja Universal do Reino de Deus. Mas desta, pode-se falar mal à vontade, né? Não é cosmopolita nem astral.
Thursday, July 24, 2014
Shopping center e vida coletiva
No dia 2 de abril de 1982, todos (socialmente poucos) corremos entusiasmados e excitados para a inauguração do primeiro grande shopping center do Ceará, na cidade de Fortaleza. As roupas novas que tínhamos ganhado em janeiro, após as vendas de natal, quando os preços caiam, foram decisivas para termos um acesso relativamente decente ao shopping. As crianças e os adolescentes, quase todos não negros e não negras, das escolas particulares, lotaram o shopping. As atrações eram muitas e nos causavam um verdadeiro frisson. O cinema e o fliperama, principalmente. Entre 1982 e 1988, ir para o shopping center comer pizza, paquerar, namorar no estacionamento ou simplesmente ficar correndo de um lado para o outro naquela efusão de luzes e cores maravilhosas com montes de mercadorias que faziam do seu simples vislumbre um acesso ao fora, havia nisso algo que remetia imaginariamente ao fora, ao Rio de Janeiro, à São Paulo, nem falávamos de Nova York ou de Miami, não cabia essa imagem no espaço do possível, exceto para um ou dois coleguinhas muito ricos de uma turma de 40, que iam passar férias no exterior, e nós, a maioria, não tínhamos nem ideia do que isso significava, nosso sonho era o Rio, era São Paulo. O shopping center nos deslumbrava. Foi uma experiência marcante. Só depois de seis anos de uso intensivo desse espaço de socialidade e lazer é que, com a idade da crítica e da contestação, abandonei em parte esse deslumbre, mas precisei me apropriar de novos vocabulários políticos e culturais para fazer a crítica do templo das mercadorias, como o chamava um amigo meu.
Wednesday, July 23, 2014
Eu desconfio
A diferença é que hoje eu desconfio de quando eu sonhava acordado sem saber de nada que me afligisse desconfiando acordado de não dormir jamais sem saber o que é rememoração ou invenção pura. E a diferença é uma coisa de pobre, né? Como somos pobres, apenas nos restou a lan house como se fosse uma fun house, é muito triste, fico feliz pelas maravilhas que as pessoas são capazes de fazer para elas próprias, como se tivessem nascido com merda na cachola, uma coisa linda.
Sobre a autoridade
Eu me desautorizo a falar em nome de mim mesmo. No desterro da palavra dita eu enfermo dissoluto, em fuga, lá aonde a desdita me livra da herança. Contra os detentores da autoridade, repouso minha confusão no achado de uma ordem inaudita, impossível, irrefreável como um soluço, e sigo só, desamparado, sem Deus.
Sunday, July 13, 2014
Sobre o amor
A mais terrível das privações é a privação de amor. Ser privado de amar e de ser amado, não há condição mais tenebrosa e destruidora de vida do que esta. Não é o dinheiro, nem a falta dele, o que está no fundamento da guerra, mas sim o medo do abandono, a queda no desespero de um abismo sem fim, onde o ser deixa de ser o que é, desvanece no esquecimento implacável do mais inopinável desamparo. Mata-se e morre-se por amor; em geral, por falta dele. O amor, uma palavra substituta para o vazio. Apenas o sujeito esvaziado é capaz de amar. Não é recomendável amar sem antes ter ido ao banheiro. Afinal, entre choros e lágrimas, a vida é antes de tudo tubular. E das lágrimas nasce o choro de um riso histriônico, e do riso brota o que há de diabólico no ato de amar, a destruição do objeto, a fim de reencontrá-lo no sempre perdido de sua topologia, o lugar da ausência é a origem do desejo, a origem do mal.
Friday, July 11, 2014
Nos hospitais públicos da vida
Estava sem plano de saúde. Ter arrancado com os dentes a pelinha do indicador da mão esquerda não foi uma boa ideia. A ponta do dedo virou uma bola enorme e latejante. Uma dor de dias, daquelas de nos fazer lembrar bem ou mal de uma alma em nós, como quando a agulha do tatuador corta a pele numa camada um pouco mais além da conta. Viver no Rio de Janeiro sem plano de saúde era o fim da picada. Acreditava ainda na imortalidade, certamente. Coisa de jovem ainda marcado pelo destemor. Chegou o dia em que a dor cessou, uma bola enorme de pus tomou o lugar do meu dedo. No dia seguinte, às seis da matina, tomei banho, escovei os dentes, fumei um cigarro, aliás, dois, um copo d'água, e fui para a fila de um hospital público municipal. Foi o início do pesadelo. A fila para o atendimento ambulatorial estava dobrando o quarteirão. Eu com meu dedo tomei lugar em pé entre uma e outra dor. A senhora olhou para mim perplexa e me perguntou na cara o que eu estava fazendo ali. Eu era o único branco na fila. Não precisou que eu lhe respondesse, apenas mostrei o dedo. Fiquei de sete da manhã até quase uma hora da tarde na fila dos desvalidos. Não tinha tomado café da manhã, nem nada. Não tinha sido uma boa ideia. Quando chegou minha vez, entrei pela porta do consultório ao chamado da enfermeira. Era uma salinha exígua, do tamanho de um banheiro generoso. O médico, um velho de barba branca de uns cento e cinquenta quilos, escrevia algo numa receita para alguém ainda em atendimento. Ele fumava horrores na salinha fechada com ar-condicionado quase a pifar. O consultório médico estava afundado numa frigideira de olho quente. O médico não olhava para ninguém. Ante o relato que a enfermeira fez sobre meu dedo, que ela já havia examinado com a atenção necessária de quem já sabe do que se trata e do que se é preciso fazer, ela mesma indicou ao médico que era necessário sarjar. O médico deu um resmungo à guisa de um vá em frente. Não havia onde sentar, a enfermeira teve de sarjar meu dedo em pé, ela e eu, um de frente para o outro, enquanto eu segurava o aparador que ia acolhendo a porcaria saindo do dedo. Uma tontura fez minha cabeça girar. Despenquei de frente com o rosto contra o chão. Um pouco antes de retornar a si, a inconsciência ainda restante, enquanto abria os olhos, me deu uma das sensações de paz interior mais significativas da minha existência, como se tivesse tomado morfina na veia. Mas durou pouco, tive que ser levantado por um segurança de dois metros de altura, que me pegou como se eu fosse um saco de batata e me jogou numa cadeira de rodas. O médico continuava olhando para o bloco de receitas, era uma estátua de pedra, sequer lançou um olhar para o estrondo do meu corpo caindo no colchão de cimento. A enfermeira que ordenou ao segurança que me levasse para a emergência. Tinha que cuidar de um supercílio com beiços e de várias escoriações, pequenos cortes de quem foi atropelado e caiu no asfalto quente. Com o rosto ensanguentado, sendo empurrado numa cadeira de rodas, fui um espetáculo de horror para algumas faces ainda na fila, dirigindo-se para o abatedouro. Era uma entrada que não admitia saída sem autorização médica. Duas horas da tarde e eu ainda sem ter tomado café da manhã, sem ter pego uma merenda, nem água e nem cigarro. O segurança avisou que precisava da cadeira de rodas, ordenou que eu levantasse e sentasse em algum canto. Mas não havia nenhum canto para sentar, emergência lotada, o jeito foi ficar escorado numa parede. Ocorre que quando senti uma nova tontura pensei comigo mesmo que levar uma nova queda de cara no chão não ia ser nada agradável. Já tinha um supercílio aberto, sangrando, eu precisava me deitar em algum lugar. No chão do corredor não podia ser, pois as macas passavam por ali a todo instante. Havia uma porta dupla que quando foi entreaberta deixou-me num lance entrever a ponta de uma maca. Com minhas últimas forças avancei sobre a sala e adentrei no recinto. A maca realmente estava lá, desocupada, e despenquei sobre ela aliviado. Dormi profundamente. Abro os olhos e o teto do hospital era o único lugar onde manchas escuras não besuntavam a pintura das paredes, como a que eu estava escorado antes de me deitar naquela maca salvadora. Quando olho para um lado, há um cadáver estraçalhado, olhos vidrados e braços rijos lançados ao ar. Do outro lado, outro cadáver, um corpo sujo e muito machucado. Levantei-me da maca de supetão, e me dirigi para fora da sala que tinha sido minha miragem salvadora. Só então me dei conta de que a maca onde eu me deitara estava completamente encharcada de sangue, por isso ela estava desocupada. Ao aparecer no corredor da emergência, com um dedo para cima, o que tinha sido sarjado, com o supercílio direito aberto, escoriações no rosto por causa da queda de cara no chão e agora com a roupa, calça jeans e camiseta banhadas em sangue, pude perceber pelo olhar dos presentes que a cena não era agradável. Um residente então olhou para mim, perplexo, e me perguntou o que tinha acontecido comigo. Expliquei rapidamente o percurso que fizera até chegar àquela situação. Ele me perguntou o que eu fazia no Rio, eu disse que estava fazendo doutorado na UFRJ. O espanto dele aumentou. Ele me disse a mesma coisa que a senhora negra havia me dito às sete horas da manhã na fila de espera, o que você está fazendo aqui, por que você não foi lá no hospital da universidade e outras dicas tardias. Ele colou meu supercílio com um tipo de adesivo, não deu pontos, disse para eu sair dali, ir para casa tomar um banho e me dirigir para o hospital da UFRJ, que ele ia telefonar avisando que eu estava a caminho. Ainda tive que caminhar para casa, uns dez quarteirões, vagando ensanguentado aos olhares assustados das pessoas nas ruas, que desviavam com cuidado para não esbarrarem comigo. Desde então tenho uma outra percepção sobre os humanos que caminham em situação monstruosa pelas ruas da cidade. Além de que pude perceber na pele como os pobres, as pessoas negras, são tratados como um nada, como absolutamente nada, com o investimento dos governos que nós elegemos. Isso foi em 2001.
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