Sunday, June 30, 2013
Uma ode moralista ao moralismo que é a base da vida social: o estudo.
Se alguém gosta demasiadamente da vida social, de ter vida social, encontrará muita dificuldade em se tornar analista da vida social, não apenas por que, como dizia Lévi-Strauss, o cientista social não "curte" seu próprio grupo social e assim busca pelo distanciamento de si pela elaboração de um olhar distanciado sobre a humanidade outra, alter nativa, mas, principalmente, pelo simples fato, de que uma vida social agitada não combina com a vida dos estudos, não combina com o ethos da pesquisa. Festa, restaurante, churrasco, pizzaria, viagens, toda essa profusão, para quem a ela se deixa render por prazer ou por adorar demais a mundanidade, rouba por completo o tempo precioso da leitura, da pesquisa, da escrita, da dedicação à leitura e à escrita que caracteriza o ascetismo secular de quem por vocação escolheu ser ermitão da pesquisa. Às vezes, quando vez ou outra deparo-me com brados anti-intelectualistas que com pouquíssima habilidade para a ironia vituperam palavras chulas contra a vida dos livros, como se fosse uma vida fácil, fico-me a perguntar se é tão fácil por que a maioria não consegue sentar a bunda na cadeira e ler 4 horas por dia, que é o mínimo do mínimo, para que leva o estudo à sério. Se é fácil estar numa biblioteca lendo, por que tão poucos mantem essa prática com regularidade, sistematicidade e paixão. Faltam afetos, paixões e sentimentos dirigidos ao mundo do saber e sobram desejos em excesso dirigidos ao mundo dos bens de consumo e seus símbolos de prestígio. O governo foi incitar a imaginação das pessoas de que poderiam ser "nova classe média" sem estudar, aí todo mundo querendo churrascaria, pizzaria, carro novo, geladeira nova, tudo aquilo que é "direito" da cidadania, não é? As lutas históricas do campo democrático popular foram vencidas pelo desejo de ser "classe média", ou seja, pelo desejo de ser medíocre e viver uma vida tediosa e vazia. É preciso detestar a vida social da classe média para construirmos alguma coisa que valha a pena.
Monday, June 10, 2013
O QUE TENHO APRENDIDO COM EPICURO SOBRE A VIDA FELIZ
"Nem a posse das riquezas nem a abundância das coisas nem a obtenção de cargos ou o poder produzem a felicidade e a bem-aventurança; produzem-na a ausência de dores, a moderação nos afetos e a disposição de espírito que se mantenha nos limites impostos pela natureza" (Epicuro). Neste sentido, o prazer é o princípio e o fim da vida feliz. E o que Epicuro entende por prazer, como ele próprio alerta, não é o que dizem os ignorantes que o associam aos prazeres intemperantes ou prazeres produzidos pela sensualidade, o prazer é como o "desejo incômodo e inquieto" que se dissolve no amor à filosofia, o que remete à liberdade, de modo que a liberdade está ancorada na condição de quem se encontra livre do sofrimento do corpo e das perturbações da alma. É a vivacidade, o gozo livre da vida e a alegria com a liberdade que fazem do prazer o princípio da vida feliz. E a forma da interrogação dirigida ao próprio desejo é a prática que atua como ponto de partida da reflexão sobre a vida feliz. Prender-se às angústias das angústias, desprender-se do contato com a natureza, envolve impor-se a si infinitos desejos e temores, ligados aos movimentos das opiniões vãs. Não se trata, portanto, de ceder aos impulsos dos prazeres ligados à luxúria, uma vez que "a quem não basta pouco, nada basta". Apenas os insensatos vivem na agitação constante de uma vida orientanda para o futuro, como no caso de quem esquece que a verdadeira riqueza é a capacidade de um sujeito desejante na relação consigo mesmo em conformidade com a natureza. A abundância é uma relação com o próprio desejo. Destarte, "o princípio e o maior bem é a prudência, da qual nascem todas as outras virtudes; ela nos ensina que não é possível viver agradavelmente sem sabedoria, beleza e justiça, nem possuir sabedoria, beleza e justiça sem doçuras. As virtudes encontram-se por sua natureza ligadas à vida feliz; e a vida feliz é inseparável delas".
SOBRE MONSTROS MORAIS DA CLASSE CULTA E INSTRUÍDA
Estou percebendo membros da "classe instruída", expressando cada vez mais um irracionalismo fascista dirigido ao todo, ao mundo, ao governo, aos adversários do governo, quando o problema por trás dessa expressividade de raiva e ódio que ocorre no conforto das redes sociais virtuais parece ser mais efetivamente o sintoma do tédio, da neurose. Alguém "feliz" no casamento, "feliz" na família, "feliz" no trabalho, "feliz" na igreja, ou seja, uma "pessoa de bem", instruída, com alto padrão de renda e consumo, o que esta pessoa estaria fazendo nas redes sociais virtuais a esbravejar contra tudo e todos, a expressar ódio, rancor, ressentimento e fúria (de modo virtual) se o seu principal problema não derivasse justamente do excesso de segurança ontológica? Quanto mais seguras as pessoas estão em suas próprias certezas, mais a revolta do inconsciente se realiza como ódio de si na expressão do ódio generalizado do outro. Ódio difuso, dirigido às figuras já marcadas socialmente para serem objeto de descarga desse ódio ligado ao tédio da classe média culta (detentora de diplomas e posições de renda e consumo invejados por muitos). Estou perplexo com a adesão de membros "cultos" e "instruídos" às formas típicas do fascismo (seja fascismo de esquerda, seja fascismo de direita). Há algo de muito podre no reino da Dinamarca. O sujeito em vez de procurar uma terapia, um analista, uma vez que tem padrão de renda e conhecimento para fazer essa escolha, prefere despejar o lixo de seu tédio, de sua mortal "segurança", por meio de discursos sobre a insegurança. Quem de nós está efetivamente inseguro? Segurança e insegurança são distribuídas, afinal, de um modo bastante desigual, e contra essa desigualdade, quase ninguém vitupera. Ao contrário, a desigualdade é celebrada, é tida na conta do galardão do vencedor. Como dizia Machado, pela boca de Quincas Borbas, "ao vencedor, as batatas". Ao vencedor, o tédio de seu próprio ressentimento e medo de si. Pois só há a temer quem produziu socialmente algo que gera temor nos semelhantes. Somos tão inocentes nesse paraíso de onde não desejamos ser expulsos, esse paraíso da crueldade, o nosso teatro, né?
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