Sunday, September 06, 2015
Entre armas e livros
Na minha casa, meu pai tinha um revólver para viajar, para pegar a estrada, era o costume, no tempo em que não se usava cinto de segurança, ninguém nem sabia para que servia o cinto, um tempo tosco, rude. Ocorre que minha mãe tinha cinco armas e era uma exímia atiradora. Gostava de ir com ela para o stand de tiro, até de escopeta, ela atirava. Ela não gosta nem de lembrar, vai ralhar comigo por estar escrevendo essa história, virou budista. Era tanta arma. Quanta ignorância era a vida nesse tempo, um tempo passado de tão ontem. Entre os livros e as armas, pois havia muitos livros na minha casa, fiquei com os livros. A vida pacífica é a vida do cidadão de bem. Na minha casa, não temos mais armas. Depusemos as armas, estamos numa nova era, aquilo tudo, aquela guerra toda, deixou de ser, virou faísca de memória, graças a Deus. A gente se desarmou, e a vida ficou mais pressurosa na alegria da conversa, do parlamento na civilidade, os sertões viraram palavras, nomes que não pespegam mais, apenas soletram, cultivam os sons nos corpos, o que há de espraiado no espaço imemorial, desfeito de orgulho besta, enredados na espiritualidade da vida serena, tranquila, sorridente.
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