"Minha disposição é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha janela e algumas belas árvores em frente de minha porta; e, se Deus quiser tornar completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, tocado em meu coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos - mas não antes de terem sido enforcados" (Heine).
"O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica" (Freud).
"Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?" (Drummond).
e quem nos impede de escrever? o mar agitado, quebrando em caixões desde minha infância? certamente que não. seria a areia da praia em que com meus camaradas tantas vezes pisei em troca do afago, da poesia e da imprecisão da manhã? certamente que não. conversar com os amigos até perder os limites da injunção entre cores pintalgadas de cemitério? certamente que não. angariar fundos para uma partida de ping-pong e uma garrafa de cachaça? certamente que não. uma crise de estabelecer o transitório na vida como se fosse regra? certamente que não. incríveis impropérios sobre o viver, instruídos pela falta de acalanto? certamente que não. martini seco e cubos de gelo, derretidos pela manhã no copo impróprio do beijo de quem mal se sabe amar? certamente que não. singapura no café da manhã? certamente que não. libido de sexo de areia sob a mira do mergulo de olho trôpego, inquisto, do outro? certamente que não. mar de informações, credores pregueados de efetividade e arrogantes pela necessidade do beijo, jasmin? certamente que não. anarco-punk indissoluto, laboriante da vida e na teia do desequilíbrio? certamente...
espírito livre
allegro
andante
presto
allegro assai
acordei noturno para piano e violino de Chopin...e dormi sonatas para piano de Mozart.
Ou muito distante das aparências do mundo;
ou no centro simbólico delas.
Monday, January 14, 2008
Thursday, January 03, 2008
Rastros de estalactite
Há dias em que aproveito a vida como um prisioneiro. As pontas de cigarro no cinzeiro são como salva-vidas da esperança. Será que acordei sentimental demais? Em que parte do trajeto teria perdido a sensatez e espoliado minhas próprias possibilidades de consolo? De qualquer modo, dias revirados como se fossem latas de lixo não me aprazem menos do que o volume de boa literatura com o qual ainda posso me narcotizar. Esperei trezentos anos pela fúria do mar, enredado em meras palavras, resolvi não mais discursar nos seminários, palestras e fóruns a que eu me achegava com certo rubor de felicidade, parecia um néscio, caminhando de quatro patas, obtuso como o lago do monstro Ness. Criaturas nefandas como amigos, saltei do quarto, emendei dois pontos na cartela, e pus-me a rir da triste memória dos dias em que de tanto estupor não conseguia deixar de passar as velas quebradas sobre a cabeça. Macaqueei mil faces de estanho, antes de perder a Voz múltipla do vale de sombras douradas. Vida esfuziante, sem temor, sem impróbrio? Nada de doce perpetua essa rigidez ao se debater contra as fronhas do amanhã. Petrificado por quem? Talvez pela incúria dos dias flácidos. Da barriga desmesurada de cerveja ruim ao estilo dessa vida americana do passar sem amor pelas bisnagas quentes de pão. Pão de centeio, pão da vida!
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