Morava no décimo terceiro andar. Na cidade baixa. Uma esquina entre duas estreitas ruas do que outrora fora o centro de intensa movimentação de pessoas, carros e firmas. Nas últimas duas décadas, o manancial havia secado e a praça pública que o continha tinha se tornado um esgoto a céu aberto, como nas três favelas do entorno. Ao lado da portaria, um açougue semi-clandestino, impregnava a aproximação pela faixa de calçada da entrada do prédio com um odor duvidoso de carne e sangue misturado ao detergente com naftalina com que os funcionários da loja lavavam a calçada para disfarçar a sujeira do estabelecimento e amenizar a noitada de mijo das gentes que passam. O porteiro não me cumprimentava mais. Franzia o cenho, lançava um olhar furtivo para o espelho do corredor que o permitia enxergar além do portão de entrada sem precisar fazer nenhum esforço com as pernas. O elevador semelhava ao de um hospital. Um guarda roupa entrava fácil. A fumaça de cigarro nele era inescapável. A plaqueta de plástico duro com o aviso de não fumar estava quebrada ao meio. Nos cinco primeiros andares, com exceção de um velho pescador pedófilo, com quem quase ninguém travava relações, moravam travestis velhas e novas, misturadas e formando, na medida das suas forças de autodefesa, uma comunidade de ataque muito acolhedora para seus amigos. Duas ou três vezes, eu parava no terceiro andar para compartilhar da comensalidade de uma mais velha, quase líder, quase avó, que fazia uma deliciosa sopa, dispota em uma mesa estreita de maderia no meio do corredor. Nessas ocasiões, as portas dos pequenos apartamentos permaneciam todas abertas. Ao me apromixar da porta do quarto e sala que eu alugara com metade de uma bolsa de iniciação científica que não passava de 240 reais há tempos, percebi a porta entreaberta. Uma injeção de adrenalina deixou-me com o corpo menos trôpego por um instante. Empurrei a porta com o pé esquerdo para não perder a base de apoio. A sala estava vazia. Apenas o colchão descoberto sobre o chão. As mesmas garrafas de sempre. Os cinzeiros. Os discos. Os livros. Restava o quarto, o banheiro e a pequena cozinha para averiguação. Na cozinha, a geladeira velha disparou-me um pequeno susto, mas estava ok. O quarto, nada. A porta do banheiro estava fechada. Nenhuma luz. Abri-a com cuidado. Sentada no vaso sanitário, eu a encontrei semi-despida com um rosto já talhado de sangue, quando acendi a luz.
Ela era uma romena doida. Perdida na cidade. Não queria dar para mim. Bastava-lhe ser minha amiga. Virei anjo da guarda da gringa. Um amigo cuidador. Não tinha perdido a esperança de ir um pouco mais além, mas só lembrava disso de tempos em tempos. Ela respirava. Dieu merci! O corte aberto na testa tinha beiços largos, a carne rasgada como guelras de peixe fresco, vermelha e brilhante. Consegui acordá-la da semi-consciência. Dei-lhe um banho e tratei do corte provisoriamente com esparadrapo, fazendo pontos falsos. Ela ainda não tinha condição de andar e carregá-la nos braços para o hospital mais próximo estava fora de questão, assim como a falta de dinheiro para um táxi. Eram quatro da manhã. A preguiça de quem ingeriu álcool além da conta deixou-me inamovível de atitude. Mas dizia para mim mesmo que iria dar um jeito, mais cedou ou mais tarde. Ela então pôs-se a balbuciar alguns trocados de palavras, enganando-se de quando em vez de língua. Tentava me explicar o que tinha acontecido, mas sua memória não bastava. Foi quando percebi um vulto movendo-se por minhas costas. Virei-me rapidamente e me deparei com a face lívida de uma boneca amiguinha. Era a namorada brasileira de Dácia. Ela estava muda. De um mutismo histérico. O corpo enroscava-se em si mesmo como uma trepadeira que perdesse sua base de sustentação. Nada pude adivinhar de sua falta de gestos. "Preciso fazer xixi", quebrou o silêncio de modo estúpido com dois passos ligeiros entrou no banheiro, batendo a porta com força atrás de si. O circo estava montado, pensei com meus botões. Vamos ver aonde a palhaçada nos leva, resmunguei, acendendo um cigarro, enquanto procurava uma garrafa para um trago. Mas, desta feita, tranquei a porta do apartamento como precaução contra mais intrusos em minha vida de enclausurado. Adoraria estar só em minha cela. O dia já raiava.
Esther saiu do banheiro. Sorriso histérico refeito, como maquiagem velha que emerge das rugas das minhas amigas travestis, já aposentadas, do quinto andar. Não pude adivinhar-lhe qualquer intenção pelo seu olhar. Esgazeada, parecia como um jabuti, buscando encurtar o pescoço para dentro da carapaça.