Saturday, January 23, 2021

A matriz comum na pandemia

Tenho observado no cotidiano da pandemia alguns pontos interessantes para a reflexão sociológica. Indivíduos não bolsonaristas pró-ciência podem fazer discursos sobre protocolos recomendados por cientistas sem que na prática efetiva sigam tais protocolos. Indivíduos bolsonaristas anticiência fazem discursos sobre a hipocrisia dos não bolsonaristas e apontam essa incongruência entre faça o que eu digo mas não faço o que eu faço. Isso é fundamental para o caráter de profecia autorrealizável do bolsonarismo, eles provam para si mesmos que estão certos, cercados de hipócritas. Essa atitude bolsonarista é disruptiva e bastante radical, se assemelha a outras formas de fundamentalismo religioso ou político. Alguns bolsonaristas que são exímios ativistas da desinformação, os que atuam estrategicamente no que estão fazendo, não são meros replicadores, adotam na prática certas soluções pró-ciência e escondem isso do seu perfil público, o caso dos médicos bolsonaristas, por exemplo. No convívio do dia a dia, em termos de práticas de cuidado, parece não haver um divisor muito grande entre o médico bolsonarista e o não bolsonarista, a oposição é mais ideológica. Há médicos anti-bolsonaristas que receitaram tratamento precoce para familiares e amigos, por exemplo, ou que na prática não usam máscara no dia a dia, no convívio social. E há médicos bolsonaristas que seguem padrões bem científicos quando estão cuidando de seus familiares e amigos. As pessoas em geral frequentemente condenam as outras, de um lado ou de outro, mas há práticas em comum, é dessa matriz de práticas em comum que o bolsonarismo se torna difuso e vai sobreviver mesmo que o bolsonarismo como fenômeno político se acabe. Afinal, o proto-bolsonarismo já existia antes do bolsonarismo. O fosso entre aquilo que se diz em público, aquilo que se diz privadamente, aquilo que se faz em público, aquilo que se faz privadamente, enfim, essas incongruências continuam fazendo parte do funcionamento das relações sociais como fato corriqueiro. As mudanças estão mais ligadas aos ímpetos de denunciar o outro como fonte de incongruência, escondendo dos outros e por vezes de si mesmo que se é, como indivíduo, parte dessa fonte humana de incongruência. Espero não ter escrito muitas incongruências nesta postagem.

Falando de mim mesmo

Quando falamos de um músico, de um dançarino, de um jogador de futebol, de um lutador, de um pedreiro, de um escultor, de um marceneiro, de um boleiro, enfim, de quaisquer atividades de conhecimento humano, cujos indivíduos que as desempenham são por nós admirados pela destreza, pela atenção, cuidado, pela dedicação a fazer bem feito, pelo tempo longo e permanente de treino, de formação, de aquisição de habilidades de artífice, que busca fazer o melhor que pode, tudo isso que admiramos muito, e que, em alguns casos, como os atletas das diversas modalidades esportivas, envolve treinamento de alto impacto, quando falamos no dia a dia desses indivíduos e suas performances, falamos com admiração. Por que, então, nas ciências humanas e sociais, falar de atividade de formação, de treinamento complexo para pesquisa, de alto impacto, de dedicação, de disciplina, ou seja, de tudo aquilo que outras atividades também realizam, é tido por muitos como uma excrescência, um traço de uma dominação espúria a ser negada, a ser boicotada? Por que ninguém fala isso de um jogador de futebol que passa o dia treinando sem parar para ser um atleta? Sobre este último, há elogios que sobram, justamente por fazer tudo aquilo que é preciso fazer para se tornar uma pesquisadora ou um pesquisador. Por que apenas na universidade não se pode treinar muito para se obter alto desempenho? Desconfio que isso ocorre por causa da divisão corpo-mente que é a base da matriz da colonialidade dos corpos. Mas isso me deixa perplexo. Um jovem de periferia das classes populares que na universidade se destaca pela dedicação ao treino é estigmatizado por parte de colegas, como adaptado ao regime da branquitude, mas quando é jogador de futebol quase ninguém questiona o corpo negro sendo submetido pela branquitude futebolística. Uma vez um militante universitário me falou que não ia ler textos para discutir, pois fazia parte de outro povo, de um povo que conhecia com o corpo, dançando, ele se referia ao povo negro, eu tive vontade de chorar quando escutei isso, que um corpo negro não poderia ler textos e discutir textos, mas apenas dançar, pois o jovem colocou claramente como essa separação entre livros da branquitude e corpo dançante da negritude. Talvez por ser jovem, mas há homens mais velhos por trás, alimentando essa polarização, a esses mais velhos, não perdoo. Corpos negros podem sim ser cientistas, acadêmicos e de alto nível, podem sim ler livros e escrever livros, é assim que penso. Mas me dizem que esse pensamento é de um branco liberal paternalista salvacionista que não enxerga o racismo estrutural. O que posso fazer como branco nesse contexto? Isso tem ocupado parte considerável das minhas reflexões, depois que um estudante negro recusou bolsa de iniciação científica por ser coisa da branquitude e depois eu o encontrei trabalhando de garçom num restaurante do entorno do campus, ganhando um pouco mais do que o valor da bolsa. Não é um problema individual de A ou B, é um problema que precisa ser discutido, mas não vai ser a branquitude crítica que vai liderar isso. Por enquanto, só lamento e espero e espero e espero que o debate aconteça. Identificar fazer atividade científica com coisa de branco, ler livros como coisa de branco, estudar como coisa de branco, um fundamentalismo essencialista que está se tornando uma loucura, tanto é que as pessoas estão adoecendo e abandonando a universidade, justamente os que viraram portadores da denúncia dos privilégios da branquitude. Isso tudo é um assunto tabu, eu não deveria nem estar escrevendo sobre isso, pois gera muita confusão. As melhores cientistas sociais do mundo hoje são mulheres e negras feministas. Altamente estudiosas e dedicadas. Por que elas não são a referência?