Tuesday, July 30, 2013

O caráter da tentativa

O que mais me interessa na vida é o caráter da tentativa - a situação de aniquilamento do próprio caráter, levando à bancarrota, arrastando para o abismo, a cristalização dos vícios que nele se amalgama. Mas não para viver sem caráter, a tentativa inaugura de novo originariamente o retorno para si a fim de erigir um novo esboço de caráter. No fundo, não há disposição que não esteja dirigida, orientada, em direção ao caos. A disposição é produto da ação agindo sobre si mesma, o que não é nada artificial, nem arbitrário, mas necessário para o agir do modo pensante.

Tuesday, July 23, 2013

Desejar o outro

Em algum lugar, em busca do tempo perdido, há um lembrete que me tem sido muito útil ao longo da vida: não há nada mais arriscado do que ser capturado pelo desejo do outro. O desejo do outro dirige-se a alguém para fazer desse alguém um objeto a ser desprezado, após ser destruído. Tornar-se objeto de desejo do outro é tornar-se o próximo objeto de nojo. Então, a condição saudável é a fuga. Fugir e fugir do desejo do outro que deseja o próprio desejo, e nessa traição de si, precisa de um objeto para chamar-se, para imiscuir-se na armadilha, um objeto para ser descartado. A fuga do objeto de desejo do outro enquanto estado é humanamente imprescindível à vontade da vontade. Essa banalidade é uma sabedoria fina de Monsieur Proust.

A mais solitária solidão

Diante da irremediável solidão, a tarefa é abraçar a mais solitária solidão, uma vez que assim não se capitula frente à crença no irremediável da condição solitária, o que seria uma característica dos que nada querem, de um lado, e, de outro, não se se ajoelha à condição dos esquecidos de si, abandonados aos sabores de um eu. A mais solitária solidão não é um retirar-se da vida. Nem é o estar só no meio da multidão. É algo que não se diferencia. Não diz respeito ao âmbito da intersubjetividade, talvez.