Wednesday, August 30, 2006

Redobras

Sempre Jean Genet
Saint Genet
Sans mourrir
La mort à nouveau
Sens parti
de ma jeunesse parmi
n'importe qui
parmi les plumes
ni façon, ni aube
au but et du bout

Tuesday, August 29, 2006

Telefone

"vem, eu queria legar-te coisas sensíveis perdidas, o conciliábulo do mundo múltiplo e do corpo nu, legar-te-ei a finura, gostos e perfumes, a sapiência e a sagacidade, vem, e quando tivermos construído a pele com panos, como um hábito, dir-te-ei, depois, as velhas ruínas de minha língua, minha bela linguagem que vai morrer, saída diretamente da água que se enruga como uma seda, dos álamos de folha que freme quase séssil, doce voz das coisas, vem nos restos abandonados de dois jardins devastados, esquecidos, o jardim dos sentidos destruído pela linguagem, o jardim de minha língua destruído pelos códigos, vem enquanto é tempo ainda, eu me saí mal, vamos recomeçar" (Michel Serres).

Sexus, Nexus, Plexus

Duas línguas. Duas velocidades. Na manilha do tempo, minhas pernas naturais seguiam a via da cerveja e do crime. Tudo se passava num ponto de ônibus. Doze graus. Pernas cruzadas. Todos as linhas passavam. Nem procura, nem aval, tudo era fluido. Sem planos, sem rugas. O liso do asfalto desenxabido se impunha a não sem quem. Não a mim! Não a nós! Sem alegria? O cinema agigantado pela poltrona do sofá, regado de pelo incrustado na pele é sem alegria? Sem consignação talvez! Os aplicativos estavam todos destronados. Sem comiseração. Não havia modéstia. Qual frêmito se entremeava entre nós? Qual massa de lasanha bolonhesa se voluntariava a nos servir? Nada via sem antes procurar as ofertas. Ofertas precedidas de carne de sol acebolada. Não havia alegria? Faze-me rir, odiar-te-ei, por isso. Da minha risada histriônica, chorarei do canto a casa fantasmagórica, irascível de expulsão. Cavalgada sem lugar, sem espaço e sem palavra? Nem poderia, pois tudo se passa como se tudo fosse fugaz. Há alegria nessa fuga? É claro que sim, meu amor, toda a alegria do mundo, o entorno da coisas se faz presente. Quem sou eu para ser alegre. Do triste me fiz alma, no momento de decidir, de imprecar contra a própria morte, estabeleci destino de bigorna. Não sei mais filosofar. Abandonei minha casa, minha sensação doce e perfumada. Busco no que se oferece a menor linsonja, simples conexão. Nem coisa, nem relação. Só, sempre, e só, conexão de conexões.

Presentes

"Poesia
Nuvens, céu azul, estrelas.
Noite fria.
O dia já vem,
Canários bem-ti-vi, graúna,
flores na capela.
Quando ela passa sob o sol fresquinho,
a natureza toda fica sorrindo."

Manu Kelé

Monday, August 28, 2006

imprecações

um tropeço de alma o levou à lona. luz de ribalta ofusca se não for bem tratada. nem os vitrais de notre dame poderiam salvá-lo do ruído sem voz do seu dia. nenhum fragor, nenhuma emissão de partículas, somente vacuidade gratuita. tudo sem volume. sem música. a leitura não caminhava. a impaciência dominava ao ponto de querer a violência como vizinhança, capaz de fazer ao adversário a imprecação de um força de vínculo. mas tudo se passava na frieza calma de uma central de ar condicionado. o barulho infinito chamava-o ao grupo. estar só era o remédio. não ouvir os órgãos, nem o mundo e, muito menos, a si mesmo. a linguagem lhe fazia querer privar-se da capacidade de dizer o dito, de matar o sentido e ferir o sensível. sem salvação, mergulhou no possível dos aplicativos. atualizou as cinzas.

Monday, August 14, 2006

alguns filmes

Les quatre cents coups. Domicílio conjugal. La noche. E la nave va! Amarcord. Arizona dream. Poucas e boas. A batalha real. Jules et Jim. L'homme a la camera. Os sete samurais.

alguma leitura

Economia e sociedade (Max Weber). O capital (Karl Marx). As formas elementares da vida religiosa (Durkheim). Sociologia e antropologia (Marcel Mauss). A grande transformação (Karl Polany). Os argonautas do pacífico ocidental (Malinowski). Os nuer (Evans-Pritchard). A ética protestante e o espírito do capitalismo (Max Weber). A história da loucura (Foucault). A verdade e as formas jurídicas (Foucault). Vigiar e punir (Foucault). As palavras e as coisas (Foucault). História da sexualidade (Foucault). Investigações filosóficas (Wittgenstein). Naven (Gregory Bateson). Steps to an Ecology of Mind (Gregory Bateson). Esquisse d'une théorie de la pratique (Bourdieu). As etapas do pensamento sociológico (Raymond Aron). O que é filosofia (Deleuze e Guattari). Diário de um ladrão (Jean Genet). Querelle (Jean Genet). Morangos mofados (Caio Fernando Abreu). A trilogia de Nova York (Paul Auster). A peste (Camus). O estrangeiro (Camus). A náusea (Sartre). Memorial do convento (José Saramago). O processo (Kafka). A metamorfose (Kafka). Colônia penal (Kafka). O castelo (Kafka). Memórias do cárcere (Graciliano Ramos). O amor nos tempos do cólera (Gabriel García Marques). O general em seu labirinto (Gabriel García Marques). Ilíada e Odisséia (Homero). Diálogos (Platão). A divina comédia (Dante).
Dom Quixote (Cervantes). Crime e castigo (Dostoiévski). Recordações da casa dos mortos (Dostoiévski). A comédia humana (Balzac). A gaia ciência (Nietzsche). A genealogia da moral (Nietzsche). Além do bem e do mal (Nietzsche). Assim falou Zaratrusta (Nietzsche). Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis). Esaú e Jacó (Machado de Assis). Memorial de Aires (Machado de Assis). Papéis avulsos (Machado de Assis). Em busca do tempo perdido (Marcel Proust). O homem sem qualidades (Robert Müsil). A montanha mágica (Thomas Mann). Dr. Fausto (Thomas Mann). Grande sertão: veredas (João Rosa). Sagarana (João Rosa). Noites do sertão (João Rosa).
A paixão segundo G.H. (Clarice Lispector). Laços de família (Clarice Lispector). A hora da estrela (Clarice Lispector). Amores difíceis (Italo Calvino). Pastoral Americana (Philip Roth). Desonra (John Coetzee). A vida dos animais (John Coetzee). O livro das ilusões (Paul Auster). Aqueles cães malditos de Arquelau (Isaías Pessoti).

Signos refletidos

"O que era ele, despido de todos os sinais que refletia com tanto brilho? Em toda parte, as pessoas se punham de pé e gritavam: 'eu sou isto! Eu sou isto!'. Toda vez que a gente olhava para as pessoas, elas se colocavam de pé e diziam para a gente quem elas eram, e a verdade disso tudo é que as pessoas, no fundo, não sabiam quem ou o que eram...Elas também acreditavam nos sinais que refletiam. Elas deveriam se levantar e dizer: 'Eu não sou isto! Eu não sou isto!'. Então a gente talvez soubesse como agir diante dessa palhaçada de tantos sinais refletidos pelo mundo afora" (Philip Roth).

Notas

necessidade de ficar longe das coisas.
Substrato de caráter ou subjetividade?
O que seria um inventário de uma pessoa? Inventariar com mapas cognitivos? Mas como fincar pé nessa descontinuidade de real? the map is not the territory.

Recortes

Doce saudade da tua impetuosidade, rapaz! Em duas ou três palavras, torcia e distorcia o que quer que fosse. Não perdeste a habilidade, é claro, todavia a danada da impetuosidade não combina mais com teus sapatos. Então, troca! Deixa o esquecimento tomar conta da tua vida, vira a boca um pouco, e se faz de rogado, até meio torto, como nos sinais, tu podes tentar andar. Chega de tempestade e ímpeto. Toma um gole d'água e vai correr uns dez quilômetros, ouvindo secret.

Pela terceira vez, dirigia-lhe a palavra a fim de improvisar o eco de voz em quase silêncio. Nada se pareceria com suas hordas de palavra de encher os olhos. Tudo nele estava tímido, arredio às imprecações de quem quer que fosse, havia, no fundo, sido jubilado, jubilado de um seu eu que não lhe parecera, enfim, promissor. Não sabia o que era o fatalismo. Pauvre enfant!

O vento só não cortara pior do que da outra vez. O rosto na janela necrotérico. Não se sabia doente. Aí que foram elas! Tudo parecia com uma tremenda despedida e acabou gerando outra festa. Signos, lógico! Daí se dirigiu em passo reto ao bar. Não era a primeira vez que repetia a façanha. Escapava ao léu. Ao seu modo. Interessado em suprassumir. Palavra que aprendera com as aulas de alemão do padre da filosofia. Sorria ao encontrar o que não entendia. Quase um sentimento basco de enternecimento pelas questões, e aja questões para inventar conceitualmente.

Tatuagem

"Eis a tatuagem: minha alma constantemente presente, branca, cintila e difunde-se nos vermelhos que se permutam, instáveis, com os outros vermelhos, os desertos são escuros por falta de alma; verdes os prados onde a alma, raramente, contudo, às vezes, se instala, ocre, malva, azul frio, alaranjada, turquesa...Assim, complexa e um tanto assustadora, surge nossa carta de identidade. Cada um tem a sua, original, como a impressão de seu polegar ou a marca de seus maxilares. Nenhuma carta é igual a nenhuma outra, todas mudam com o tempo; fiz tanto progresso desde minha juventude triste e trago na pele o traço e os caminhos abertos por aquelas que me ajudaram a procurar minha alma difusa.

Os que têm necessidade de ver para saber ou crer desenham ou pintam e fixam o lago de pele inconstante e ocelado, tornam visível, com cores e formas, o puro tátil. Mas, para cada epiderme, seria preciso uma tatuagem diferente, seria preciso que ela evoluísse com o tempo: cada rosto pede uma máscara tátil original. A pele historiada traz e mostra a própria história; ou visível: desgastes, cicatrizes de feridas, placas endurecidas pelo trabalho, rugas e sulcos de velhas esperanças, manchas, espinhas, eczemas, psoríases, desejos, aí se imprime a memória; por que procurá-la em outro lugar; ou invisível: traços imprecisos de carícias, lembranças de seda, de lã, veludos, pelúcias, grãos de rocha, cascas rugosas, superfícies ásperas, cristais de gelo, chamas, timidez do tato sutil, audácias do contato pugnaz. A um desenho ou colorido abstrato, corresponderia uma tatuagem fiel e sincera, onde se exprimiria o sensível. A pele vira porta-bandeira, quando porta impressões.

Nascimento do desenho cambiante nas carícias: nua, estirada, enroscada a meu redor, tigre, puma, tatu, procuras adivinhar minha pele historiada, líquida e cambiante. Nossa alma se difunde de tal forma que não estamos unidos" (Michel Serres).