Sunday, April 12, 2015

A atividade do pensamento gera desordem.

Quantos eventos sociais você deixou de ir na vida porque preferiu ficar o dia inteiro ou a noite inteira estudando? Aqui no meu FB, dos 101 amigos, tenho certeza de que uns 30 passaram a vida inteira fazendo isso de modo sistemático. É o pessoal da minha turma. Fonte de orgulho, pois estudar é uma das tarefas mais complexas. Exige abrir mão de muita festinha, baladinha, o que não quer dizer que não sejamos grandes festeiros e baladeiros. Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. A galera do estudo quando entra na boêmia, tem é Zé pra sair. Mas em geral o pessoal entra depois de ter cumprido alguma tarefa de estudo muito importante. Tipo: terminado de ler as obras completas de Machado de Assis. Essa farra, quando eu tinha 19 anos, foi uma das mais intensas. Uma farra machadiana. Passei uns três dias seguidos entre o Cais Bar, os botecos 24 horas do Centro e as barracas da Praia do Futuro. Lavei no mar as palavras que saltavam da minha cachola. Fiquei atônito apenas por ter aprendido a palavra atônito. Fiquei ensimesmado porque tinha aprendido o que era o si mesmo como figura subjetiva literária. A cada obras completas era um porre. As farras tinham nomes dos homenageados: Graciliano Ramos, José Lins do Rego, João Rosa. Há motivo para festinhas e baladinhas melhor do que esse? É assim que as coisas se tornam reais. Pelo uso da força inerente à imaginação literária. É o que torna o amor possível. É o tempero do tira-gosto. É o sabor de uma cerveja. E como hoje é domingo, não é dia de farra, continuemos nos estudos, longe das festinhas, baladinhas e demais eventos sociais que festejam a ordem. Meu interesse é na desordem. Naquilo que gera desordem: a atividade do pensamento.

Saturday, April 11, 2015

Produtividade na universidade.

Na UFC, temos 32.853 alunos matriculados em cursos de graduação e pós-graduação. Somos 1.984 docentes do quadro efetivo. 16,55 alunos por cada professor é a demanda média de atendimento e de geração de benefício educacional. Em média, precisamos ter capacidade de trabalho para realizar benefícios educacionais para quase 17 usuários por dia, seja o atendimento de modo individual (orientação, atendimento etc) ou coletivo (sala de aula, laboratórios de pesquisa, grupos de estudo etc). Neste semestre, a minha média individual é de 23,71 estudantes em atendimento por dia. A cada semana, estou em contato permanente com 166 estudantes. Ou seja, um atendimento que é uma complexa relação pedagógica com 166 pessoas ao longo de um semestre. As 40 horas, dedicação exclusiva, são presenciais na instituição. É o que determina o contrato de trabalho. Todavia, para produzir ciência, fazer pesquisa, publicar artigos, livros, e fazer extensão, preciso fazer mais 32 horas de trabalho. Ao todo, são 72 horas semanais de trabalho. Minha situação não é isolada. É típica. Quem não está nessa situação de sobretrabalho é exceção ou minoria numérica.

Oxente

Meu avô paterno e minha avó materna e as irmãs e os irmãos mais velhos do meu pai falavam preferencialmente "oxente". Meu pai, que é mais novo, fala "oxe". Para mim, oxente e oxe são interjeições de fundamento. São interjeições que fundam minhas relações de parentesco. Quando escuto eu mesmo falando (e como raramente falo em público, no trabalho), é como se houvesse uma multidão na minha fala.

Wednesday, April 08, 2015

Aprendizagens e construção da autonomia

Quando eu era bolsista de iniciação científica, eu colava no meu orientador, para onde ele ia eu ia junto. Meu orientador era o César Barreira. Foi assim que aprendi um monte de coisa. Ele não dava um passo sem minha sombra, eu o "perseguia". Ele ia fazer uma entrevista de campo, eu me voluntariava para ir junto. Também me voluntariava para fazer as transcrições e aprendi que o trabalho não era mecânico, havia questões epistemológicas e metodológicas numa transcrição. Recortava jornais e fiz a mesma descoberta. Havia uma crítica da fonte e um método no trato com os jornais, uma sociologia da imprensa que tornava possível recortar jornais. Ele ia atualizar o Lattes dele, eu me oferecia para ajudar, assim aprendi a usar a plataforma e hoje não preciso de nenhum bolsista para fazer Lattes para mim, e como ninguém pede para me ajudar para aprender as dicas, fico esperando que um dia isso aconteça. Ele ia dar uma palestra, eu ia junto. Foi assim que na primeira pesquisa do LEV, tornei-me coautor do livro que resultou da pesquisa. Descobri que em cada atividade que eu me engajava com ele, havia um problema de método, de técnica e de teoria inserido no contexto de encaminhamento e resolução da tarefa. Entendi que havia uma remuneração indireta, não-financeira, baseada em transferência de capital acadêmico nessa proximidade. Hoje sou colega dele na universidade. 21 anos de parceria. A construção da autonomia exige muita dedicação e humildade em aprender com quem é mais experiente. Quem acha que já nasceu com "autonomia", vai direto para o buraco do esquecimento. Existe bolsista de iniciação científica da graduação que se acredita já professor titular da universidade. Olhem, olhem. De salto alto, quem não aprendeu ainda a andar, vive torcendo o pé e levando tombo. A fantasia da autonomia como uma dádiva dos céus não corresponde à realidade dos fatos. Trabalhar coletivamente é preciso. Fica a dica. Excluindo a inevitável violência simbólica da dica, porque vinda do professor, não deixa de ser uma dica na amizade.