Sunday, February 23, 2014

Do diário de campo do professor, coisas odiosas de se dizer.

DIÁLOGOS 1 -- Você pode me passar referências sobre o tema tal? -- Me envia aí o que você já achou para não haver retrabalho. -- Mas eu não procurei nada. -- Ah, tá! DIÁLOGOS 2 -- Você pode me passar referências sobre o tema tal? -- O que você já levantou pelo Portal de Periódicos da Capes? -- Nada, nem olhei lá. -- Ah, tá! DIÁLOGOS 3 -- Eu procurei, procurei e procurei lá no Portal de Periódicos da Capes e nada encontrei, você pode me passar as referências para o tema tal? -- Quais palavras chaves você usou? -- Tais e tais. -- Beleza, só um instante. -- Ok. -- Ei, coloquei lá as palavras chaves que você usou e encontrei 51 artigos sobre o tema tal. -- Que bom, professor! Pois faz o download de tudinho, coloca numa pasta e me envia, estou aguardando tomando um sorvete de cajá.

17 de agosto de 2013

Pessoal, depois de muitas reclamações que pessoas importantes enviaram in box, pedindo que eu me comportasse de modo condizente com a moralidade de um professor da universidade me pediram que eu voltasse a falar da Livraria Cultura, dos Cafés, dos Restaurantes franceses e do Progresso da Civilização no Ceará. Disseram que um homem branco como eu deveria defender a civilização e não me relacionar com favelas e pessoas misturadas. As pessoas são cultas e ouvem jazz e ouvem Debussy e leem romances em várias línguas, são indivíduos blasés, cosmopolitas, visitam Paris, Nova York, Londres e Sobral, e são apoiadoras do governo e querem que fiquemos em silêncio, em nome dos bons costumes do apartheid amoroso da elite cearense. Em nome deles, vou comer churros e tomar uma cachaça, lendo Thomas Mann, que eu sou muito obediente. Boa noite!

O prazer com a crueldade e com a destruição.

Duas prerrogativas humanas que considero essenciais para a experiência do existir: queimar cartas e rasgar fotografias ou então queimar fotografias e rasgar cartas. Destruir a memória na sua materialidade mais crua é um elemento chave da economia do prazer.

Saturday, February 22, 2014

18 de novembro de 2013

O rapaz estava defendendo com unhas e dentes uma forma de radicalismo neoliberal onde o comportamento egoísta no mercado em busca da maximização do lucro é a base do negócio. Ele, então, veio me abordar no corredor, pedindo indicações de leitura para ampliar conhecimentos sobre a relação entre cultura e economia. Expliquei para ele que ele não poderia me abordar no corredor, pois eu estava no meu intervalo, o que é garantido pelo meu sindicato, 10 minutos de intervalo entre uma aula e outra. E que se ele atrapalhasse esses dez minutos de intervalo, ele estaria diminuindo a maximização do meu descanso, antes de voltar para sala, que eu não lucraria em conversar com ele no corredor e que ele não me abordasse mais e procurasse se matricular na disciplina de algum professor que fosse oferecer referências para o que ele estava precisando. Ele me achou uma pessoa dura, disse que tínhamos que ser mais humanos uns com os outros. Humanismo neoliberal? De onde você tirou isso, perguntei-lhe sem obter nenhuma resposta de volta, pois dei as costas e o ignorei como uma coisa, afinal, não tenho nada a lucrar com ele, no dia que tiver, ele vira commoditie, quem sabe ser contratado pela empresa dele para dar uma conferência, algo que envolva dinheiro, é claro.

21 de novembro de 2013

Tenho perguntado individualmente a pessoas que se acham religiosas qual é a finalidade da vida. As pessoas respondem de tudo. Respondem que é ter boa saúde, que é ser feliz, que é ter uma família, que é viver em paz, que é ganhar dinheiro, que é ser rico, etc. A única coisa que essas pessoas que se dizem religiosas nunca respondem é: promover a felicidade eterna, o gozo de Deus. As pessoas religiosas perscrutam muito pouco os sentidos de sua fé, agem como pessoas ateias, apesar de se dizerem religiosas. Cristão para mim tem de se autoflagelar com um chicote todo dia. Lutero, por exemplo, levava 15 chicotadas todo dia de manhã. Isso é ser cristão, é isso o que eu respeito como cristão. A devoção, o ascetismo, a mística, a autopunição infinita. O resto é conversa para boi dormir. Sinto muito cristãos, vocês não têm quase nada de cristão. Sinto muito.