Sunday, March 09, 2014
Em 24 de agosto de 2012, eu descrevi que tive um pesadelo.
Eu tive um pesadelo de ontem para hoje. Vou narrá-lo para vocês. Foi assim: eu caminhava pelos jardins da Reitoria da UFC, indo em direção ao bloco das Ciências Sociais, onde trabalho. Várias pessoas, vindas de todos os lugares ao mesmo tempo, como num passe de mágica, começam a me assediar, fazem mil perguntas, pedem informações, solicitam que lhes indique referências de obras, livros, artigos, fazem perguntas, exigem explicações, há uma barafunda de falas que começam a se transformar em gritos, os rostos se tornam raivosos, olhos esbugalhados, só então percebo, pela primeira vez, que são faces conhecidas, são meus alunos e minhas alunas, pessoas queridas, pessoas que eu respeito profundamente, mas no alto do meu desespero, começo a ficar tonto, zonzo, pois a multidão de vozes dissonantes falam ao mesmo tempo o meu nome "Léo, Léo, Léo...", olhares esgazeados e famintos, na fuga, num ato de desespero, eu também começo a gritar, esbaforido e desfeito da atitude que o decoro exige de um professor da Universidade, e nesse ponto, eu me viro de repente e digo: -- Sr. Professor Dr. Leonardo Sá! Grito em desespero, como fez Antonin Artaud quando estava internado no hospício e o psiquiatra insistia em chamá-lo pelo primeiro nome, o nome de infância, o nome da mãe: Antonin. Em tom de voz duro, eu começava a olhar um por um nos olhos de meus queridos alunos, dizendo-lhes: -- Tratem-me de Sr. Professor! Havia um delírio, um transe paranoico, um esgar que quase travava minha voz. E a partir deste momento eu chamava a todos de Senhor e Senhora. Senhor Estudante, Senhora Estudante, Senhor Colega Professor, e o delírio ia inundando minha mente quase ao ponto de fazê-la explodir. De súbito, acordei resfolegante. Foi apenas um pesadelo de que a Universidade houvesse se tornado um lugar de terror, de medo, de celebração da reprodução das mais arraigadas e violentas hierarquias da vida social. Ainda bem que foi apenas um pesadelo. Logo estarei ouvindo da voz de educandos/as o sonoro "Léo" ou o carinhoso "professor" com que me brindam na vida cotidiana da nossas ricas e profícuas trocas acadêmicas e humanas. E ninguém precisará me chamar de Senhor, nem de Herr Professor, ok? Somos apenas les pauvres enfants de la patrie, um novo e discreto precariado, abandonados a própria sorte, quem sabe... Saudações libertárias
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
No comments:
Post a Comment