Monday, January 14, 2013

Sensibilidade artística

Ela pede socorro. Ela é uma pessoa. Ela é uma cidadã. Ela é ela e ela pede socorro, ela é uma pessoa, ela é uma cidadã...mas o socorro é muito mal distribuído. Falei para vocês um dia desses sobre como um vazamento que ia causar um buraco no bairro dos nobres foi consertado da noite para o dia, vocês ainda lembram? O bairro é muito bem atendido pelos serviços da prefeitura e do governo do Estado, o IDH-M do bairro é melhor do que de países do chamado primeiro mundo, e ele é localizado aqui na periferia da periferia do cu do mundo. O IDH-M do bairro ao lado é pior do que de vários países do mundo em guerra e vivendo estado de calamidade. Que está acontecendo com nossa sensibilidade artística?

TURN ON, TUNE IN, DROP OUT

As instâncias de controle pretendem mediar na totalidade as experiências das pessoas na relação com o fora, com o exterior, com os mundos possíveis que se atualizam nos mundos dos outros. O exercício livre da inteligência e do pensamento crítico e reflexivo exige das pessoas uma atitude de recusa ativa dessas instâncias mediadoras absorventes, totalizantes e anestesiantes, pois tais agências de poder (o Partido, a Igreja, a Família, a Universidade, a Escola, a Mídia, a Droga, etc.) são agências de controle das dispersividades e das ações livres das pessoas enquanto criadora de relações relativamente autônomas com os outros sem a mediação da política da identidade. É na recusa ativa do Estado onde reside a base histórica concreta e local de constituição da liberdade. E o modus operandi das agências reguladoras é sempre incitar as pessoas a se expressarem livremente no interior delas, a fim de produzir contexto de observação controlada do que há de livre nas pessoas tendo em vista a imposição de um padrão de comportamento que restringe o potencial criativo e põe sob tutela o exercício das capacidades agentivas, por isso é sempre bom lembrar que expressar a liberdade sob demanda das ditas agências é favorecer o próprio processo de destituição e captura que estas pretendem realizar, não necessariamente anulando a liberdade das pessoas, mas fazendo dessa liberdade apenas um sentimento fugidio da liberdade, uma dose de veneno para mortificar o corpo e fustigá-lo de tal maneira que o abandono das supostas veleidades daquelas pessoas que agem livremente será promovido ao cargo de auto-censor e estabelecerá as condições de assujeitamento de seu próprio descenso pelo auto-flagelo de uma adesão feliz às razões do Estado e das agências de poder que lhes são concorrentes, portanto, solidárias no crime que inaugura sua pretensão de monopólio pelas linguagens heterônomas que impõem a todos os adeptos.

Saturday, January 12, 2013

Loucura real ou presumida?

Quando estou a escrever os fragmentos de textos por aqui ou alhures, frequentemente as pessoas acham que eu estou doido, maluco, surtado ou bêbado. Mas, quando eu estou dando entrevistas para a mídia, participando de audiências públicas e exercendo outros rituais de poder, onde "os melhores no centro usam libré e estão a soldo da classe dominante" (Benjamin), as pessoas me elogiam, me acham com cara de responsável, de cidadão que está contribuindo com os avanços da vida pública, entre outros delírios. Quando estou mais lúcido, as pessoas acham que estou doido, quando estou inserido em rituais que expressam fantasias de grupo, paranoias, busca desenfreada pelo poder, pelo dinheiro, entre os engravatados, todo mundo me acha elegante e digno de um professor da Universidade. A loucura real é escrever textos, buscando exercitar imaginação livre, ou é reproduzir discursos de autoridade entre aqueles que monopolizam os meios intelectuais de expressão e pensamento a serviço das classes dominantes? A minha loucura é sempre presumida, e enquanto tal é irredutível à presunção do outro em anunciá-la ou denunciá-la. Resistir é preciso, viver não é preciso.

Mensagem para ser feliz

Recebi uma mensagem por e-mail dizendo assim: "Preocupe-se com o que é importante para você!". O e-mail oferece empréstimos e diz que com empréstimos "você resolve seus problemas e tem mais tempo para ser feliz!". Havia uma fotografia de uma família branca, de olhos azuis, sorridente. Eu fiquei tão emocionado que não estou conseguindo segurar o choro da mais pura emoção que eu senti no meu coração. Gostaria de agradecer do fundo da minha alma por este e-mail ter me mostrado a verdade, o caminho da verdade: fé, vida e redenção. Eu estava vazio e triste, prisioneiro de livros que ainda estou por pagar, agora tenho certeza de que me tornei uma pessoa melhor. Sim, eu me tornei uma pessoa melhor!

O amor por ela

Fuçando no sebo, encontrei um exemplar da Nova Aguilar da poesia completa de Cecília Meireles. Parecia que havia sido chutado. Todo amarrotado. Volume pisado. Roto. Sujo. A capa havia sido perversamente quase arrancada. Dependurada, mantinha-se por uma peia. E que peia o volume haveria de ter levado, céus? Negociei com o dono do sebo, comprei o volume por um preço camarada, enviei-o com a ajuda dele para um restaurador e hoje, nesse sábado de dezembro, recebo a notícia de que Cecília Meireles está me esperando. Já tomei banho, coloquei uma roupa faceira, e estou indo agora, correndo, com o coração na mão, mãos frias, nervoso, encontrá-la.

Um pesadelo antes do ano acabar

Eu tive um pesadelo e acordei de sobressalto. Um estudante, meu aluno, um rapaz negro, militante do movimento negro, estava sentado pacificamente no chão de um ambiente público, algo parecido com um Centro de Negócios, um estádio, um shopping, não consigo me lembrar direito, mas a arquitetura do lugar remetia a todos esses espaços ao mesmo tempo. O rapaz fazia uma fala, um discurso, pessoas paradas ao redor a escutá-lo, ele dizia palavras que me lembraram falas de vários intelectuais negros que eu admiro. Eu estava um pouco distante. Eu vi então quando um segurança negro, depois de receber a ordem de um gerente branco do lugar, se deslocou e sem fazer nenhum tipo de abordagem, algemou o rapaz, diante dos protestos do rapaz, o segurança começou a espancá-lo em público. Resolvi então intervir. O rapaz negro estava algemado ao braço do segurança negro. Os dois algemados um no outro, enquanto o último espancava o primeiro usando um cassetete. O segurança negro gritava impropérios racistas contra o rapaz negro. Eu não sabia o que fazer. Me aproximei e num impulso olhei para o segurança e disse: o Senhor está preso, enquanto cidadão, estou lhe dando ordem de prisão por racismo. O segurança parou de bater, olhou para mim atônito, o rapaz também ficou parado, ainda se recuperando dos golpes que havia recebido. Depois de uns cinco segundos, eternos cinco segundos, eu acordei de supetão. Não sei ao certo o que aconteceu. Mas acho que eu recebi um cassetete que partiu meu nariz de branco metido a besta. Fiquei me sentindo péssimo. Acordei bem cedinho e fui reler Franz Fanon e ouvir jazz na minha confortável vida de branco que, em geral, tem o nariz quebrado apenas no mundo onírico.

Alerta geral

Senhoras e senhores! Venho por meio desta mensagem alertá-los, neste dia de meu deus, que o sistema de dominação continua em pleno funcionamento e cada vez mais brutalmente sofisticado em algumas de suas partes e sofisticadamente brutal para a maioria. De qualquer modo, o sistema de crueldades continua operando em condições ótimas sob a direção de nossos governantes com as mais avançadas tecnologias de poder disponíveis no mercado mundial. Sabemos que a escolha do Estado de servidão voluntária em que se quer viver é uma decisão do cidadão. Pela atenção, obrigado.

Tuesday, January 01, 2013

DICAS PARA UM FELIZ ANO NOVO.

Tenho algumas dicas infalíveis para quem quer estudar mais e melhor em 2013, além de incrementar com qualidade a produção acadêmica. Primeiramente, livre-se do celular (isso eu já fiz) e se livre também do automóvel individual (isso também já fiz). Em segundo lugar, divulgue pelas redes sociais digitais posições politicamente cada vez mais radicias, faça as pessoas pensarem que você é o radical do radical para quem PSTU, PSOL e PCB são partidos do Estado burguês. O resultado desta segunda dica é que os convites da imprensa para entrevistas, dos órgãos públicos para palestras e das empresas em geral vão começar a rarear. Quando o repórter de TV ligar para você, solicitando matéria onde você deve se comportar com informações de utilidade pública e apenas, você pede uns minutos e diz que vai só se despedir de uma reunião com o Renato Roseno e liga já de volta depois. É batata, não será mais atendido, nem procurado. A melhor maneira de se excluir das agitações do mercado e das festas da cidade é dizer que é amigo do Renato Roseno. Eu digo logo é assim: estamos na equipe para a eleição de Renato para deputado. É muito útil ser radical para ter sossego. Mas só faça isso se você tiver passado no concurso para servidor público federal ou outro que lhe garanta estabilidade, pois caso contrário ficará a ver navios, amargando anos e anos de exclusão. E já que toquei nesse assunto, um sujeito veio me admoestar, dizendo: "depois que você, Leonardo, se tornou professor da universidade, estável e tal, virou o bocão!", ao que lhe retruquei, "mas querido, não faz parte da missão? professor da universidade é pra ficar calado, em silêncio, trabalhando pro governo, ganhando um por fora, ou se empresariando para o setor privado e dando o salário de mesada para os filhos?". Aí ele aplacou a raiva que estava sentindo de mim, mas isso é outra história. A terceira dica é falar coisas disparatadas, fazer longas citações e exercer um tipo de pedantismo acadêmico nos momentos em que as demandas exigirem total pragmatismo e pé no chão. Vão começar a dizer: "não procurem aquele louco, ele começa a falar da teoria das multiplicidades, quando queríamos apenas uma frase pra colocar no jornal como especialista". Enfim, essas são as minhas estratégias para ter tempo para ser produtivo, eficiente, e buscar a excelência, nas missões ligadas a minha atividade-fim. Bolem as suas próprias. Feliz ano novo.

Uma observação direta

A família num confortável automóvel importado de 335 mil reais. Pai, mãe e filhos. Brancos, bem arrumados e endinheirados. Enquanto estacionam para ir ao supermercado, provavelmente para comprar alguma sobremesa para as crianças, depois de ter almoçado em restaurantes cujas contas variam entre 500 e 1.500 reais, a variação dependendo se o casal vai tomar ou não a garrafa preferida de champanha, a fim de comemorar mais um ano de sucesso e novas aquisições de poder e de patrimônio, enquanto portanto o homem bem vestido, cordão de ouro e Rolex de pulso no braço esquerdo, manobra com contentamento expresso na face o seu imponente carro, o policial militar "moreno", fazendo bico como batedor, protegendo a família, arriscando a própria vida, para compensar salários baixos, deixa a qualquer olhar entrever na cintura o grosso volume de uma pistola, enquanto cuidadoso olha para todos os lados, ao mesmo tempo agora, e se comunica pelo olhar com o colega que está também fazendo bico para o supermercado, cuidando da segurança do estacionamento. Ambos estão distantes de suas respectivas famílias. Ambos estão correndo sério risco de morte. Os profissionais de segurança sabem que um homem sozinho não é capaz de barrar uma equipe profissional e bem armada de sequestradores. A função daquele policial batedor é ser a primeira vítima, caso ocorra uma séria tentativa de sequestro. É uma vítima sacrificial, exposto à morte em caso de ataque, de modo a dificultar em algum grau o serviço dos possíveis sequestradores. Os endinheirados possuem seguranças assim para tombarem em seu lugar nos casos de ataques efetivos, sérios e graves. No dia a dia, ele, o segurança, consegue manter afastado pequenos assaltantes e amadores e principalmente os descuidistas, mas jamais conseguiria sair vivos de um ataque de uma quadrilha de profissionais. O policial sabe disso. E está lá, a cabeça derretendo dentro do capacete, o sol do Ceará a pino, acelerando seu processo de envelhecimento precoce, a família almoçando diante da cadeira vazia do pai.

Algum acidente

às 22 horas de ontem, três pessoas, ferragens retorcidas, vieram a falecer, nas estradas da vida. sobre elas, sabe-se pouco, o automóvel é o protagonista. batida de frente. a morte as abraçou como em um instantâneo. a máquina apenas piscou o olho, e o fio da vida escapuliu, objetivamente, tendo sido cortado em mil pedaços. a atenção se dissolveu. um nada abriu-se sob as rodas reviradas. ninguém chorou. apenas gemidos de dor de dois sobreviventes.

DE MARX A BALZAC PARA VOLTAR A MARX.

A última edição da versão brasileira de A comédia humana está completando duas décadas e as livrarias estão aí a comemorar o relançamento da coleção. O Paulo Rónai que fez o serviço junto com enorme equipe (vejam o trecho abaixo ao final desta postagem que copiei e colei do site da Livraria Cultura que está doida pra vender a nova edição). Ocorre que acabei de adquirir um e-book por três reais de uma editora francesa que reuniu as obras completas. Fiquei me perguntando que disparidade é essa, afinal, o e-book apenas do volume 1 da versão brasileira está saindo por 52 reais e 90 centavos. Que margem, hein? Mas não era sobre isso que eu pretendia falar. É que ontem eu reli o "Avant-propos" de A comédia humana. Fiquei extasiado. Há exatos vinte anos, por influência do Marx, que dizia que se aprendia mais sobre o funcionamento da sociedade burguesa lendo Balzac do que livros de economia política, eu me aventurei nisso e entrei de cabeça, dos 17 volumes da coleção brasileira, li os 13 primeiros. Por pura disciplina. Agora vou terminar de ler os que ficaram faltando. Balzac é o bicho, pois os bichos também são metáforas do estado social. "Vinte anos depois da última edição, A comédia humana com orientação, introdução e notas de Paulo Rónai, volta às livrarias trazendo ao público brasileiro um dos mais importantes monumentos literários em 88 romances distribuídos em 17 volumes.Disperso, prolífico, ambicioso, genial: Honoré de Balzac (1799-1850) foi, como ele mesmo dizia, mais que um romancista, um cronista de costumes. Seu maior projeto literário, A comédia humana, tomou vinte e um anos de sua vida e foi interrompido apenas com a morte prematura do autor, aos 51 anos. Na imensa obra, Balzac pretendeu fazer um verdadeiro inventário da França no século XIX: costumes, negócios, casamentos, ciências, modismos, política, profissões, tudo entrava nesse imenso painel, costurado com maestria narrativa e exibido aos poucos em folhetins.Com tudo isso em mente, Balzac passou a dar a seus romances o caráter vivo de uma época. Assim, um personagem que é protagonista em um livro aparece em outro como coadjuvante; se há um personagem já ancião em um romance, é possível conhecer sua juventude em outro; personagens reais entram nas histórias, e os imaginários frequentam teatros, restaurantes e passeios que todos franceses conheciam. E assim Balzac foi construindo todo o universo de A comédia humana, que a Biblioteca Azul passa a reeditar em 2012 com a publicação dos primeiros quatro volumes que compõem as Cenas da vida privada.A imensa obra veio a público no Brasil duas vezes, editada pela Globo de Porto Alegre e depois pela Globo Livros. A primeira, a partir de 1947 e a segunda, de 1992. Em ambas teve orientação, introduções de todos os romances e notas de Paulo Rónai, um dos maiores críticos literários do Brasil. Rónai dedicou 15 anos à organização de todo aparato de A comédia humana, que contou com 20 tradutores, 12 mil notas e prefácio para cada um dos 89 romances. Dada a dimensão da edição de Rónai, considerada uma das mais importantes fora da França, é compreensível que nenhuma outra editora tenha dado conta de refazê-la e a obra permaneceu por anos encontrada apenas em sebos ou recortada de seu contexto.Obras que compõem A comédia humana volume 1 Estudos de costumes Cenas da vida privada: Ao Chat-qui-pelote, O baile de Sceaux, Memórias de duas jovens esposas, A bolsa, Modesta Mignon". (site da Livraria Cultura).

A UNIVERSIDADE CONTRA O MERCADO.

Agências de classificação de risco das instituições do mercado que funcionam como entidades de mercado classificando outras entidades de mercado classificam como seguras empresas que estavam à beira do colapso. O mercado classificando o mercado segundo critérios de mercado. Conhecimentos práticos de mercado que do ponto de vista da objetividade científica do conhecimento produzem distorções, falsificações e erros graves de avaliação. Conhecimento e interesses de mercado produzindo cotações que favorecem com classificações declarativas de "entidade segura" entes profundamente inseguros, que logo após as avaliações quebram em avalanche. E ainda há colegas na Universidade e fora dela que defendem que nós devemos nos pautar pelo modelo de conhecimento do Mercado. Há quem defenda que o modelo do conhecimento do mercado deva pautar os critérios cognitivos, de pesquisa, de ensino e aprendizagem da Universidade. Que esta deve estar atrelada à política de conhecimento do mercado. Universidade é lugar de formação do pensamento crítico e reflexivo sem o qual não há produção científica do conhecimento. Sem autonomia relativa da Universidade diante das forças de mercado, a Universidade será colonizada pelo lógica prática do conhecimento de mercado que, cega para o saber, alimenta os circuitos de poder das empresas privadas e da sociedade de mercado. Ciência não pode ser pautada pelo mercado. Ciência é contra o mercado. É contra as certezas de conhecimento que valorizam o poder, estejam onde estiverem essas certezas, seja no mercado ou na própria universidade que capitula à lógica empobrecedora e anti-científica dos mercados.

REBOLAR O IPHONE (uma ficção sentimental).

Minha filha esteve em São Paulo e foi para um parque verde onde várias crianças tinham ido para brincar ao ar livre. Quando pais e mães se sentaram para usufruir o ar puro da natureza, as crianças gritaram ao mesmo tempo: vamos brincar! Cada uma delas então correu e tomou de assalto o Iphone dos responsáveis, sentaram-se e começaram a jogar no Iphone. Minha filha ficou intrigada. Aproximou-se das crianças e disse para elas de modo bastante e incisivamente propositivo: vocês querem brincar de rebolar o Iphone? Foi um destroço. Causou altos prejuízos. Tenho que domesticar essa menina para ir para São Paulo. Sair do Ceará para São Paulo em estado ainda selvagem é um perigo.

Conceito de hábito

CONCEITO MÓVEL DE HÁBITOS IMPERFEITOS (Deixa Bourdieu a ver navios). "As leis da memória estão sujeitas às leis mais abrangentes do hábito. O hábito é o acordo efetuado entre o indivíduo e seu meio, ou entre o indivíduo e suas próprias excentricidades orgânicas, a garantia de uma fosca inviolabilidade, o pára-raios de sua existência. O hábito é o lastro que acorrenta o cão a seu vômito. Respirar é um hábito. A vida é um hábito. Ou melhor, a vida é uma sucessão de hábitos, posto que o indivíduo é uma sucessão de indivíduos (uma objetivação da vontade do indivíduo, diria Schopenhauer), o pacto deve ser continuamente renovado, a carta de salvo-conduto atualizada. A criação do mundo não foi um evento único e primordial, é um acontecimento que se repete a cada dia. O hábito, então, é um tormento genérico para os incontáveis compromissos travados entre os incontáveis sujeitos que constituem o indivíduo e seus incontáveis objetos correspondentes". (Samuel Beckett).

12 de dezembro pelo FB.

A SOCIAL-DEMOCRACIA NO BRASIL E A CRISE POLÍTICA ATUAL. Há uma continuidade profunda entre os governos FHC e os governos Lula. Continuidade da desigualdade e diminuição da pobreza, sendo que Lula foi mais eficiente em obter isso em escala ampliada. A Ditadura Militar era mais corrupta do que os dois, pois não havia liberdade de imprensa nenhuma. A estagnação econômica com hiper inflação do governo Sarney foi rescaldo negativo do famigerado Milagre brasileiro. Entre FHC e Lula, há continuidade e convergência de propósitos. Ambos são militantes da social democracia que enquanto governos se tornaram arautos do neoliberalismo, como aconteceu no mundo todo, não apenas aqui. FHC assumiu que apenas políticas compensatórias eram possíveis, Lula não mudou a assertiva, apenas mostrou que os gerentes do sistema, por estarem mais próximos da realidade do povo, tinham como explorar melhor a margem de manobra para tais políticas. PSDB e PT entraram numa luta que, se levarmos em consideração o que uma militância diz da outra, parecem duas quadrilhas muito perigosas praticando assaltos pelo poder a qualquer custo. Uma cegueira tomou conta dos dois partidos nessa luta. O PT é muito coerente. Desde 1989 que o projeto atual foi estabelecido. As esquerdas em sua maioria nunca gostaram da "democracia", pois a democracia seria supostamente um elemento burguês. Desde do governo Franco Montoro, de quem FHC foi aliado, que esquerdas fizeram desvio de recursos públicos em nome da revolução. Desde 1980 que sabemos que militantes petistas desviam dinheiro de entidades estudantis e de outras entidades, alegando estarem fazendo o desvio a serviço da revolução, isso não é novidade nenhuma. Houve ampliação de escala. Desvios do PSDB sempre foram o cadinho que fez a classe média e a classe alta se aproximar do partido. A transferência de renda dos cofres públicos para segmentos privados foi a tônica do PSDB. O Lula peitou a classe média. Foi muito corajoso politicamente falando, pois lembro como se fosse hoje, ele dizendo em público que não queria disputar o voto da classe média do PSDB. Nesse ponto, apesar das militâncias petistas atuais estarem muito delirantes, o Lula manteve alguma coerência. Aliás, ele sempre foi muito coerente. Não há nada que ele faça hoje que já não tenha feito sempre. As militâncias petistas atuais estão em sua maioria muito, mas muito aquém do que as militâncias petistas já foram, e olhem que antes não eram lá essas coisas (com todo o respeito a camaradas que mesmo equivocados estavam no PT). Eu pessoalmente faço oposição de esquerda ao PT, inserido com muitos outros coletivos, desde 1988. As críticas que o PSOL começou a fazer ao PT um dia desses, outros segmentos das frentes de esquerda fazem desde a década de 1980, por isso o PSOL é tão atrelado ao PT, basta lembrar do Ivan Valente na presidência. PSB se tornou um novo nicho do PSDB, com traições e fissuras, é certo, mas um lugar de reorganização de segmentos que visualizaram que o PSDB tinha se tornado inviável. As militâncias atuais, se continuarem recalcitrantes em escutar outras versões, irão ficar tão delirantes quanto a Veja que tanto criticam. De versão em versão, ninguém está discutindo que o modelo se esgotou e que se não houver transformações, podemos nos tornar uma nova república de Weimar. A chapa está quente.

Onde estou agora?

Onde estou agora, uma vez que o Eu não passa de uma frágil membrana que serve apenas à comunicação do que há de mais trivial e descartável?

Devaneio no dia 31 de dezembro de 2012.

Estou com saudade de um lugar onde jamais pus os pés: Biblioteca Pública de Nova York. Como é possível sentir saudades assim de um lugar desconhecido? Será algum presságio de que se tornará cada vez menos respirável o ar, em 2013, sem a proximidade com os 20.402.004 livros do acervo público do lugar? Neste 31 de dezembro de 2012, fico a pensar no que está escrito no site da biblioteca: "Education and literacy keep America's democracy strong" (Vered M.). Os governantes "socialistas" do Ceará e de Fortaleza estão se inspirando nisso para realizar um dos mais importantes e relevantes investimentos na vida cultural de Fortaleza, como os eventos de arte e cultura que estão sendo realizados neste Réveillon? A Biblioteca Pública de Fortaleza em 2013 será a prioridade máxima dos socialistas? 20 milhões, quatrocentos e dois mil e quatro livros! Que maravilha! Vou passar uns tempos de homeless em New York!

As leituras do novo ano.

Hoje, estou terminando de ler dois livros. Sunset Park, do Paul Auster e fechando uma instigante segunda leitura de O Castelo, de Franz Kafka, duas décadas após a primeira leitura, quando eu tinha 19 anos. Até meia-noite, consigo finalizá-los, faltam poucas páginas de cada. Por esses dias também finalizei uma releitura depois de exatas duas décadas, o volume II das obras escolhidas de Walter Benjamin. Também reli Capitalismo e esquizofrenia (volume 1 - Anti-édipo e volume 2 - Mil platôs), livros que eu havia lido pela primeira vez em 2001. Todos os anos gosto de escolher um livro especial para bater o centro e começar com uma leitura de primeira. Em janeiro de 2012, o primeiro livro que li foi Le maître ignorant, de Jacques Rancière (uma sugestão do querido colega Gabriel Feltran), amei, me serviu como norte ao longo do ano inteiro. Amanhã, às 8h da manhã, como de hábito, irei dedicar as minhas 6 horas de leitura diária solitária a um escritor maravilhoso que muito me emociona. Quando li De amor e trevas, fiquei exultante. Por isso, desejando que em 2013 a guerra cesse, vou começar o ano com a leitura de Uma certa paz, de Amós Oz. Espero que dê sorte e que o conflito por lá se resolva da melhor maneira, pois do jeito que está não pode ficar.

31 de dezembro de 2012 às 19h30

SÃO SETE E TRINTA E FALTAM QUATRO HORAS E MEIA PARA COMEÇAR OUTRO ANO... "São sete e meia, faltam quatro horas e meia para começar outro ano, o desgastado ritual de fogos de artifício e buzinas, a explosão de vozes embriagadas que vai ecoar por toda a região à meia-noite, sempre a mesma erupção nessa meia-noite em particular, mas ele agora está bem longe de tudo aquilo, sozinho com seu uísque e seus pensamentos, e se puder penetrar bem fundo naqueles pensamentos, não vai nem ouvir as vozes e o clamor quando chegar a hora" (Paul Auster, Sunset Park).

Feliz 2013

A solidão é condição da liberdade, escreveu Hannah, a filósofa, não tem nada a ver com ser solitário, solidão é diferente de ser solitário, os mais solitários estão inseridos no ruído dos rebanhos, a solidão é sair do rebanho, é se desgarrar para ser capaz de pensar. Isolation não é desolation. Isolation is not desolation. Que haja algo de lindo no novo!