Friday, August 30, 2019
discordâncias em divergências
Saber transformar discordâncias em divergências é fundamental para corpos em aliança lateral, lado a lado. Não é uma exercício fácil. Divergir é levar a sério as objeções dos outros. No campo das ciências, essa atitude é um requisito para a construção de uma nova objetividade. O diálogo é um vínculo. Quebrar com o diálogo é romper o vínculo. As consequências podem ser mais ou menos graves. Os opostos nem sempre são contraditórios. Mediações entre os opostos, que não sejam feitas em nome do terceiro que está acima da conflitualidade, em nome da autoridade, precisam levar em consideração a possibilidade permanente de que os termos, as relações e as próprias ideias em jogo sejam lidas como inerentemente problemáticas. Não há portador inquestionável dos conceitos adequados, pois a própria pergunta relevante é uma questão de problematização. O desejo de poder, quando coloniza a vontade de saber, se torna abusivo nos seus anseios de autovalidação.
Thursday, August 29, 2019
Incômodos
Tem uma coisa que está me incomodando. Tenho vários amigos ou conhecidos que foram pessoas que batalharam muito na vida para superar dificuldades relacionadas à pobreza e à falta de perspectiva. Pessoas que nasceram em ambientes muito hostis e improváveis. Ambientes de muita exclusão, opressão e massacre de sonhos. Aí, esses amigos e conhecidos conseguiram "vencer na vida". E sentem uma culpa enorme pelo fato de serem poucos, se relacionamos com o lugar de onde vieram. Se sentem culpados por terem dado certo em meio a uma multidão de amigos, colegas, vizinhos, familiares e tal que deram muito errado. O sobrevivente morre de culpa. Entende? Aí, esse sobrevivente culpado, que ralou para caralho, que teve de fazer coisas impossíveis, como estudar e trabalhar sem ter sido destinado para os lugares do estudo e do trabalho, começa, depois de estar na classe média, como consumidor competente, a dizer para os mais jovens rejeitarem esses caminhos e essas trilhas tortuosos que os levou a sair da merda a um custo muito elevado. Não entendo isso. Não concordo. Para dizer ao outro que rejeite a ascensão, é preciso não usufruir dela. Usufruir da ascensão e dizer para o outro que não vale a pena é meio sacana. Dizer para o outro que não estude, não rale, não se submeta a essa disciplina horrorosa, e depois ir tomar um bom trago e comer uma boa comida e dormir numa boa cama, devido ao fato de ter se submetido a essas exigências horrorosas que são estudar e trabalhar com afinco, etc. Me parece uma contradição. Aí, me dizem, mas esse teu argumento é liberal, aí eu digo, a tua vida é liberal, e vc goza nela, e diz que ninguém mais deve buscar gozá-la. Tem alguma coisa errada aí.
Tuesday, August 27, 2019
Coitado do Mignolo
Uma das formas da razão imperial ocidental atuar é classificando o pensamento em puro e impuro. Walter Mignolo reproduz a colonialidade dessa razão euroamericana branca, da qual ele é representante, ao chamar o pensamento pós-colonial de "mercado" e o decolonial de "ativismo ". Mignolo é um grande empreendedor branco do mercado decolonial. Walter Mignolo escreve um texto 100% com categorias gregas e latinas para propor uma desvinculação epistêmica dos fundamentos de catedorias gregas e latinas. O giro decolonial dele é epistemologia branca na veia. Sou branco, eu sei. Sei reconhecer outro branco no seu desejo de poder imperial, usando disfarces descoloniais como estratégia de reposicionamento no mercado de ideias. Ele diz querer romper com a moderna teoria política desde Maquiavel, mas escreve textos que são versões das práticas relatadas por essas teorias. Ele é um filhote de Maquiavel. O background da proposta de desobediência epistêmica do Mignolo é fortemente euroamericana no seu sonho e em sua fantasia. A pretensão dele em ter se desconectado do eurocentrismo é sem base real. Não é isso que o texto dele diz. Um texto de cultura euromericana no seu esplendor. Nem tudo o que reluz é ouro. A presença de epistemologias afros e ameríndias na escrita dele é nula. Ele é objetivamente branco na escrita dele. Mignolo usa categorias analíticas ocidentais como economia e reciprocidade para falar de universos não ocidentais. Comete etnocentrismo em seus textos. Mignolo passa o texto todo tentando validar a si mesmo como pensador descolonial. Fala de ferida colonial, mas "esquece" suas feridas narcísicas. Seu desejo em ser aceito pelo mestiço, pela mestiçagem, exista coisa mais branca do que isso? A descrição romântica que Mignolo faz de Hugo Chávez foi uma das piores análises que li sobre política contemporânea. Ele é ingênuo? Não, ele é eurocentrado, o Mignolo. É também capturado pelo discurso do estatismo. Ele identifica Chávez no poder com o giro decolonial. Que ridículo!
Tuesday, August 20, 2019
Um dificuldade
Alguns pensadores euroamericanos, defrontados por uma intensa competição de mercado no campo acadêmico, adotaram como estratégia de poder gerar um novo mercado de ideias. Começaram a se classificar como pensamento latino-americano. Ou seja, em alguns casos, como dos homens brancos ricos que falam várias línguas e trabalham em centros de poder global, universidades dos EUA, da França, da Alemanha, da Inglaterra, esses homens brancos hegemônicos passam a se nomear representantes do chamado giro decolonial. Pessoalmente, gosto muito desse giro, mas não vou esquecer que virou um think tank euroamericano. Bourdieu que me ensinou a ter esse desconfiômetro ligado. Atenção, estou me referindo apenas aos homens brancos. Não generalizo. E outro detalhe: América latina, latino-americano, foram ferramentas políticas da diplomacia francesa para fazer frente ao crescente imperialismo dos EUA nas Américas central e do sul. Pensamento latino-americano pode até ter sido ressignificado, mas é uma arma francesa numa luta imperial.
Paradoxos do alto e do baixo
Reflexão sobre poder no campo acadêmico. Vocês sabiam que pesquisadores que ocupam posições dominantes, de alto capital, nas áreas de física, medicina, direito, engenharia, estatística, nos procuram (nas ciências sociais), dizendo que admiram nossa capacidade de pesquisa e análise e que a gente sabe fazer muito bem o que eles não sabem. E que precisam de parcerias. Mas aí os que lá nessas áreas são dominados, de baixo capital, vivem nos esculhambando, dizendo que não temos rigor etc. Deu para entender?
O LUGAR DE FALA DE UM PROFESSOR BRANCO
Os estudantes de ciências sociais mais jovens, que estão cursando a graduação, lançaram-me desafios de pensamento e reflexão crítica nos últimos tempos que me tiraram da minha zona de conforto. Estou super empolgado com isso, estou escrevendo um texto com elas e eles sobre isso, e vou relatar para vocês algumas coisas provocadoras sobre isso. Na verdade, fiquei inicialmente super incomodado, aí transformei meu incômodo em empolgação, o que é uma atitude de branco que não aceita ficar fora de uma disputa pelo poder, o que eu mascaro com motivos pedagógicos para melhor passar. Mas eu juro que não queria que fosse assim. É um imbróglio. E também uma ironia. O lugar de fala do branco é o racismo. Mesmo quando se faz algum esforço para ser antirracista, não há como escapar dessa questão. Vejam o tamanho do abacaxi. Eu sou branco, meus pais são brancos, meus avós maternos e paternos, meus bisavós maternos e paternos também. Não me acho mestiço, não reivindico que tenha alguém na minha família que me faça ser miscigenado. Minha esposa é branca e meus dois filhos são brancos. Os discursos do racismo estão incrustados nessa minha longa experiência de pertencimento familiar. Como brasileiro, me sinto herdeiro da tradição cultural euroamericana, ocidental. Me identifico mais com a Europa do que com a América Latina (esse produto do pensamento europeu). Minha biblioteca é quase toda ocidental, 90% certamente. Ademais, venho dessa classe média assalariada, não proprietária, sem posses, mas que investe tudo em saúde, educação e cultura para empoderar os filhos a fim de que possam ser competitivos em carreiras que exigem nível superior e pós-graduação. Minhas duas irmãs são brancas e possuem pós-graduação como eu. Meu pai e minha mãe possuem nível superior, estudaram na UFC, na mesma instituição onde sou professor. Ou seja, tudo na minha trajetória conspira para que eu tivesse me tornado um demônio louro. Mas será que eu não sou? Não sei. Em parte sim, em parte não. Mas certamente não sou um ideólogo do racismo, já que assumo com baixo sucesso social e política retóricas antirracistas. Na minha primeira juventude, minha militância era junto com amigos do movimento negro. Com eles e elas, aprendi muitas coisas interessantes. Hoje, esses meus amigos negros são velhos ou quase velhos como eu. São professores também. E estão também se sentindo interpelado pelos novos tempos e discussões. Mas como são negros e eu branco, a gente vivencia assim de modo bem diferente. Eles estimulam a ruptura com a hegemonia euroamericana no ensino e eu tenho minha prática pedagógica toda centrada no estudo sistemático dessa hegemonia, mesmo que usando autores euroamericanos contra-hegemônicos, como Foucault. Como tenho um acesso privilegiado ao pensamento de brancos euroamericanos, minha principal contribuição seria em torno de tais autores, da recepção crítica de tais autores, mas ao fazer isso, estou validando quer queira ou não a própria hegemonia desse pensamento. Pode o professor branco dominante, colonizador, falar sobre temas decoloniais? Meu principal alvo de críticas tem sido os brancos na tentativa de se apropriar da reflexão decolonial. Talvez seja a única maneira de eu contribuir para o debate, desconstruindo a pretensão do professor branco de ser portador do lugar de fala do subalterno, incluindo aí os professores de pele negra e máscaras brancas. Quem está na fogueira é para se queimar. Vou escrever um ensaio sobre isso para explicitar essas questões. Vou fazer umas postagens aqui que serão o início do ensaio, como esta que agora publico.
Thursday, August 08, 2019
PRIMEIRO DIA LETIVO DE 2019.2 - AUTOAJUDA
O grande desafio do momento no ambiente de trabalho é não se deixar contagiar pelas transferências de ansiedade e angústia, que são muitas, especialmente nesse momento do país. Tentar começar com boa respiração, sem taquicardia, com boa alimentação, leituras, estudos, caminhadas, concentrado, buscando fazer o melhor, sabendo distinguir as atividades mais essenciais das menos ou não essenciais. Buscar fazer o melhor possível, intensidade na qualidade das construções humanas de saber e conhecimento. Com respeito mútuo, ajuda mútua e solidariedade. Enfim, muito trabalho, mas sem adoecer desde o início, pois já há muitas pessoas começando o semestre já adoecidas, infelizmente.
Uma reflexão de início de semestre letivo
Se os consumidores de serviços educacionais, como clientes da empresa, escolhessem por maioria que se estudasse Olavo de Carvalho em vez de Weber na disciplina de Sociologia compreensiva, o democrático seria acatar a escolha que expressa o desejo da maioria? Acordei pensando nisso. Certa vez, na disciplina de sociologia clássica, um pequeno grupo de estudantes demandou que eu retirasse o Marx do plano de ensino, disseram que não o consideravam um autor digno de estar no plano. Outra vez, na disciplina de sociologia contemporânea, um pequeno outro grupo solicitou que eu retirasse Norbert Elias do plano de ensino e colocasse um sociólogo marxista no lugar dele. Fiz as devidas problematizações sobre como essas demandas não faziam sentido e segui com o plano de ensino incluindo Marx e Elias. Mas caso os consumidores de serviços educacionais fossem maiorias, tivessem decidido por maioria que Marx e Elias deveriam sair, por razões diametralmente opostas? Se eu não acatasse a decisão e insistisse em manter Marx para o desagradado dos liberais e Elias para o desagrado dos marxistas, minha decisão seria legítima? Seria democrática?
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