Wednesday, April 21, 2010

saber escrever para mulheres

naquele dia, havia caminhado durante quarteirões a fio. a cada passo, a amarradura do tênis ameaçava se soltar novamente. os dedos estavam doendo horrores. quando já havia desistido de volver os olhos para o entorno de mim, deparei-me com os volumosos cabelos dela, vencendo a barreira do vento quente. era um final de tarde. nos entreolhamos e de lá podemos passar de um ao outro como na busca desejosa, era um enleio pelo olhar que se apresentava, um afã nascido de uma rotina frouxa, ao ponto de escapulir de todo e qualquer prazo. era um instante apenas. meu passo diminuiu como se as pernas carregassem nuvens, em seus movimentos de quadril, a aproximação era leve, muito leve. seria ela séria ao ponto de me negar um canto de olho que fosse? pensei em respirar como os corredores de longas maratonas e expulsar dos cantos internos do diafragma os restinhos de ar comprimido que me roubavam a voz. ela olhou para o chão. deu para sentir que não era o que ela queria, foi um lampejo de busca por proteção. um olhar tosco de arrependimento. parecia dizer "Putz, que vacilo!". mas nada me desviou da total imprecisão que a expressão dela remetia nesse movimento de recontro. a calçada ficou curta e estreita. um sorriso escapuliu. não sabia se era meu ou dela. tudo estava tão próximo.

Wednesday, April 07, 2010

não remunerar a perturbação

estou pensando em fazer escolhas produtivas sem produtivismo barato. quem perturba o juízo da gente não merece ser remunerado com nossa audiência. ouvindo jazz sempre.

esse é o meu não objetivo do dia a dia.

Perfis do orkut que vão e vem

Educador freiriano e pesquisador, não tenho interesse em me adaptar às exigências do mercado "livre".

O mercado é reativo, reacionário, está em função da ordem social mais absurda, desigual e injusta. Quem planta mercados liberais em sua vida, colhe tempestades subjetivas de autodestruição e destruição do Outrem.

Não tenho interesse no Estado e nos seus esquemas de filiação e antagonismo, nem nos micro-fascismos que lhe dão sustentação e base social velada.

Anarco-comunista da gema. Campo democrático popular na veia. Espartaquista na alma.

Frátria, Autogestão, Autonomia e Arte.

Projeto Popular campo-cidade em torno do direito à segurança alimentar.

Diferenças sem desigualdades.
Diferenças sem distinções.
Diferenças sem purismos.
Diferenças sem planificação.

O que me interessa são pessoas em coletivos e coletivos em pessoas de modo democrático, livre e igual. Multiplicidades de redistribuição de riqueza, conhecimento e afetividades.

A desconstrução não é uma questão teórica, mas prática. A desconstrução é uma tese contra Feuerbach em versão libertária.

O princípio redistributivo é o que interessa a todos e a todas.

As ações capitalizáveis estão com nada. São mesquinhas, medíocres e cafonas. Esteticamente estéreis.

Arte, cultura e criatividade estão onde nenhum lugar se encontra. Estão fora dos centros de poder, sejam amplos ou restritos.

zona autônoma temporária
socialização dos meios de desconstrução
regulamentação dos processos aquisitivos
desregulamentação dos processos criativos
autoposição da perspectiva diante de quaisquer contextos reducionistas.

as relações sociais são relações de transformação social

Leitura do dia

Etnografia como cenografia? Esse George Marcus se sai com cada uma. Gostei.

Saturday, April 03, 2010

Titanzinho lá vou eu

Estou me arrumando para encontrar com prof. Bebeto. Alongamento, caminhada e relaxamento no Titanzinho.

A condição humana

Ontem, fomos a um evento muito importante para um de nossos amigos. Há 9 anos que ele não usa uma gota de álcool, nenhuma sequer. Acumula fichas por isso. Fichas que tem uma valor simbólico imenso no grupo do qual faz parte. Merecia uma celebração. Agendamos com antecedência. Não pretendíamos faltar em hipótese alguma.

A esposa dele estava exultante. Colocou um vestido de gala. Vermelho. O contraste com a cor da pele indígena estava marcante. Fomos buscá-la numa das muitas fronteiras da zona oeste. Da última vez que tínhamos ido lá, para a ceia de natal, o rabo da cobra de uma guerra infinita mostrou-se de modo exuberante, pois até mesmo na violência o povo ameríndio é exuberante. Apesar da miséria do crack e da falta generalizada de dinheiro.

Thursday, April 01, 2010

comensalidade revisitada

Os rituais de comensalidade são do tempo do mármore. Imprimem sobre as pessoas moldes duradouros a partir do calor das mãos sobre a mesa - e das palavras do tempo em que não se via obstáculo entre elas. E da singularidade nasce a troca sem obrigação, a gratuidade a que se pode chamar de paz sob os auspícios do brinde e da aguardente a que hão de se abandonar sem risco e ao riso solto ao menos de uma vez.

de tempos misturados

azeite, cebola, alho, pimenta e manteiga. cervejas. cachaças. filet bleu au poivre. batatas. salada. filet de badejo na manteiga ao molho de alcaparras. Strogonoff de filet mignon ao vinho. Peixe pargo frito inteiro com baião, tomate e farofa. Tagliatele ao molho de vodka com camarão. Salmão grelhado. Moules marinières avec frites. Ostras. Ova de peixe. vinhos cabernet sauvignon, carmenère e merlot. brancos maduros misturados com champanhe. pudim de leite. sorvete de sapoti e doce de leite. café forte e amargo com cognac. água mineral.

a regra e a corrida

Duas crianças estavam brincando de apostar corrida no pátio da escola. Eram dois meninos. Um deles era deficiente físico, usava um suporte na perna direita para caminhar; mas sua vontade de correr era tão forte que ele de fato corria e com muito afinco. O outro menino não a mesma deficiência física, suas deficiências eram menos visíveis. Quando os dois se alinham lado a lado para começar a apostar a corrida, um deles propõe: eu vou correr como você, tá? Um, dois, três e já! Eles começaram a correr, uma disputa acirrada, e lá ia o menino sem deficiência física na perna, fazendo um esforço fenomenal para correr como se fosse o seu amigo. Houve uma verdadeira competição e eu pude aprender muito em observar esses dois garotos, aprendendo a ser gente.

das antigas

Entre o melodrama e a dimensão trágica, ocorre-me o escorrego na cova rasa da vida; mas sou ligeiro, escapo com granada na mão sem pino. E não largo a granada até atingir o alvo com o meu próprio corpo. Vi isso num filme, ou terá sido num game? De qualquer modo, pulo de modulação e saio do eu estúpido da guerra e abraço o amor da vida boa e da petite joie!

"a vida só se organiza se desmentindo, o que é bom para uns é muitas vezes a morte para outros, sendo que só os tolos, entre os que foram atirados com displicência ao fundo, tomam de empréstimo aos que estão por cima a régua que estes usam pra medir o mundo; como vítimas da ordem, insisto em que não temos outra escolha, se quisermos escapar ao fogo deste conflito: forjarmos tranqüilamente nossas máscaras, desenhando uma ponta de escárnio na borra rubra que faz a boca; e, como resposta à divisão em anverso e reverso, apelemos inclusive para o deboche, passando o dedo untado na brecha do universo; se as flores vicejam nos charcos, dispensemos nós também o assentimento dos que não alcançam a geometria barroca do destino; não podemos nos permitir a pureza dos espíritos exigentes que, em nome do rigor, trocam uma situação precária por uma situação inexistente" (Raduan Nassar).

Fui

Vida de boa-aventurança!

sei nem se é repetição

um dos meus maiores prazeres é trocar o grafite da lapiseira. saciá-la, abastecê-la, mimá-la. nutro um amor profundo pela minha leal e histriônica lapiseira amarela zero ponto nove.

eau-de-vie

gosto das relações humanas quando são cálidas como o efeito de um trago de cognac.

eau-de-vie.

modo de acordar

espírito livre, acordei noturno para violino e piano de Chopin.

não faço a menor idéia de por que escrevi isso

no momento deciso em que esperava ser outro,
o julgamento ultrapassou a leveza do fluxo,
o destempero do porvir
e o espaço de ação
- antes desprezados -
fizeram-se nomes de todas as coisas.
E o espaço de ação - antes aviltado - fez-se qualidade do pensamento, e do improviso da razão!

em primícias de desventura,
criei o despropósito de morredouro,
a lipoaspiração do ente
disparatado, no prato de camarão.

antes dele - alvo do arco verde.
antes dele - marcado de carvão.
antes dele - tutoria do agora.
antes dela - incúria.

mais uma citação antiga

"Mediocribus esse poetis non di, non homines, non concessere columnae", diz Horácio em sua Ars Poetica ('A mediocridade dos poetas não é permitida, nem pelos deuses, nem pelos homens, nem pelos pilares que sustentam as lojas dos livreiros')." (CASSIRER, E. Ensaio sobre o homem. São Paulo: Martins Fontes, 2005: 368-69).

uma anotação antiga que encontrei por esses dias

Valentina me explicou que as escadas estão de cabeça para baixo. Enquanto nós subimos, pisamos primeiro na cabeça da escada e depois no corpo até chegar aos pés. E quando nós descemos? Vou perguntar para ela. Pronto, ela me disse que quando nós descemos as escadas sobem. É o contrário, é simples!

outra da mesma cepa

"Tudo o que ele conseguira refrear por meio da sua responsabilidade fora ele mesmo" (Roth sobre Seymour Levov).

citação que encontrei no hd de 40

"Sim, estamos sós, profundamente sós, e para sempre, uma reserva guardada para nós, uma camada de solidão cada vez mais espessa. Não há nada que possamos fazer para nos livrar disso. Não, a solidão não devia nos surpreender, por mais espantosa que seja essa experiência. A gente pode tentar se virar pelo avesso, mas tudo o que a gente consegue então é ficar do lado avesso e solitário, em vez de do lado direito e solitário" (Roth).

Inventando as coisas

Houve tempo para briga. Agora é só relaxar, distender e começar a elaborar os próximos passos de uma nova e intrigante trajetória.