Sunday, March 09, 2014
Como um filme de minha vida
Quando eu era menino, me ensinaram a matar passarinhos com a baladeira, principalmente, rolinhas, a depená-las, assá-las e comê-las. Os meninos dos sertões matavam a fome assim. Até hoje eu sei matar uma rolinha de baladeira para comer. Conhecimento útil. E as rolinhas são tão bonitinhas, não são? São fofas. E deliciosas. Quando eu era menino, um tio avô meu me ensinou como matar um bode, eu tinha 12 anos, foi o primeiro bode que eu matei, sangrei, aparei o sangue na bacia. Ele revirou os olhos enquanto estrebuchava-se diante da morte e de seu matador: o matador era eu. Depois me ensinaram a tratar, tirar o couro na ponta da faca, eu tirei bem direitinho, botar o couro para secar, esticado com uns pedaços de pau, limpar o bicho, salgar e fazer o churrasco. Quando eu servi o churrasco, os homens da minha família estavam orgulhosos de mim. Eu tinha aprendido o que todo homem da minha família sabia fazer. Isso foi nos sertões. Eu sou do sertão. Quando eu era menino, eu só podia caçar usando baladeira, matava as rolinhas para comer. Mas um dia, com 13 anos, depois que tinha aprendido a usar a faca amolada para matar um bode, os meus tios paternos e meus primos mais velhos me chamaram para a primeira caçada com os homens. Passamos três dias nas matas dos sertões. Eles me ensinaram a atirar de revólver, de espingarda doze, de socadeira eu já sabia, e me ensinaram a fazer uma tocaia, a se esconder na mata, a se comunicar sem usar palavras, a sentir o cheiro vindo com os animais, a procurar água salobra, e quais frutas selvagens podem ser comidas e quais não podem. Me ensinaram também que as cobras tem medo de gente, por isso fogem, elas só atacam quando a gente pisa nelas, a culpa da picada da cobra é do humano e não da cobra, aprendi também que os cavalos sentem as tocaias de bicho bicho ou de bicho gente. Aprendi a atirar correndo a cavalo, antes eu tinha aprendido a correr a cavalo sem nada, só no osso, usando as crinas como rédeas, é preciso falar na orelha do bicho, é preciso ter relação cognitiva com o animal para dar certo. Aprendi também a arrear os animais e como negociar a compra e a venda de armas de procedência para evitar armas ilegais, armas que já tiraram a vida de homens justos. Era assim no meu tempo de menino, virando rapaz, nos sertões. Pois eu sou do sertão. Eu ganhei de presente do meu pai minha primeira peixeira estilizada com cabo de madrepérola e capa de couro com 13 anos. Com 14 eu ganhei minha primeira espingarda. Ela ficava guardada debaixo da minha cama. Sim, eu sou dos sertões. Não é ficção. Nunca vou esquecer a primeira vez que tentaram me matar. Eu estava no clube com a moça. Fomos para o estacionamento do clube para namorar. Um homem chegou vindo das sombras e começou a gritar. Era o irmão mais velho da moça. A moça disse para eu sair dali. Ela e o irmão ficaram brigando aos gritos. Voltei para o clube. Estava lotado. O homem veio vindo na minha direção. Armado. Um dos meus primos mais velhos notou e se atracou com o homem no meio do salão, numa luta corporal, sem deixá-lo sacar a arma. Meu primo estava desarmado mas sabia lutar com um homem armado para não deixar o homem sacar a arma. Outra vez não deu certo e ele levou um tiro, mas isso foi outra história. Outro primo meu falou no meu ouvido para eu ir embora e rápido. Quando eu estava saindo do clube, o homem que tinha conseguido se desvencilhar da briga com meu primo, gritou pelo meu nome, eu parei e olhei para trás. Ele puxou uma pistola e apontou para mim. Saí correndo pelas ruas. Ele começou a atirar, as balas passaram zunindo pelo meu corpo, nenhuma pegou, foram vários tiros, fiquei sabendo que ele estava bêbado e tinha cheirado muita cocaína, não estava com a pontaria cem por cento, dizem que foi minha sorte. Pulei num canavial, fiquei a noite toda sendo caçado pelo homem, eu estava desarmado. Um amigo da minha família foi quem me salvou, depois eu conto como foi. Lá no sertão, o meu pai é conhecido como galego. E eu como o filho do galego. Quando eu tinha 12, 13 e 14 anos, meus escritores prediletos eram Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, mas o meu xodó era José Lins do Rego. O obra do José Lins é a que mais proximidade tem com o tipo de vida que aprendi junto a família do meu pai. Regionalismo na veia. Modernismo regionalista na veia.
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