Monday, September 24, 2012
Escondidos de mais ninguém os velhos brincam...
Os velhos, crianças retornadas, redivivas, perdem-se nos lugares secretos onde escondem objetos corriqueiros e inúteis, cujos valores até mesmo afetivos deixaram de ter uma memória própria, uma distância, e assim brincam nos mesmos esconderijos de quando eram meninos e meninas, esconderijos dos quais não se lembram mais a que misteriosos segredos davam vazão, como fantasia pura do sensível, a não ser agora a seus corpos, ao vazio dos seus corpos, ou a parte mais esquecida deles, esse efeito pode ser encenado sem ser propriamente revivido, na frenética perda do recém esconderijo que de embuste serve a essa brincadeira titubeante, esquálida, os velhos ressentem-se de que algo perdido, não apenas a memória, se encontra naquele lugar de pura ausência e aniquilamento do eu que é o patético de estar diante de um canto de espelho a lhes espreitar, o horror da fantasia irremediável que não lhes veste mais sequer a devassidão de um rosto composto de imensos buracos negros.
Monday, September 17, 2012
PT: um mega gerenciador de recursos humanos?
Em sentido amplo, e nos termos das exigências de regulamentação para funcionamento e reprodução da ordem do capitalismo-empresa contemporâneo, o programa do PT é imbatível. Não há melhor. É melhor do que o do PSDB. Este último partido possui uma composição com gerentes de cima que estão desconectados das bases, pois mais próximos dos gerentes de cúpula. No caso do PT, a composição gerencial dos quadros está mais próxima da base da classe trabalhadora, ou seja, o PT é realmente o partido da classe trabalhadora, é um partido de massa, não de classe, todavia. Isso foi uma decisão histórica do próprio PT.
Na campanha do PT em Fortaleza, o deslocamento do tema das cidades para o das pessoas é muito significativo, politicamente e sociologicamente significativo. A cidade é historicamente bastião da resistência anti-estado e anti-capital. Cuidar da pessoa é tema de RH, é um tema que faz convergir o cuidado que a tradição sindical e assistencial do sindicalismo desenvolveu com a noção de cuidado que as empresas contemporâneas desenvolveram para dar conta do novo formato das transações organizacionais voltada para a realização do modelo da empresa (treinamento permanente, auto-responsabilidade do trabalhador diante do seu próprio aperfeiçoamento, etc).
Ocorre que a felicidade das pessoas, como objeto da política na modernidade, passa pelo pertencimento à cidade como busca de autonomia civil contra a violência patronal e a violência estatal. A ideia de comuna passa pela associação entre pessoas e coletivos livres organizados horizontalmente em redes interdependentes de cidades. "Cuidado" é política empresarial-sindical de RH.
Não existe, por conseguinte, nenhum partido mais coerente com sua própria história e com seus discursos do que o PT. Sou adversário político, mas não podemos negar a ordem dos fatos. O PT é fiel a si mesmo e apresenta o que há de mais "atual" e convergente com as forças do capitalismo contemporâneo.
O comércio não é o capitalismo. Nota de leitura mais lembrete.
A produção para o mercado empobrece a riqueza das redes comerciais heterogêneas, pois o comércio não é o capitalismo. As formas do comércio envolvem modos de cálculo, mas tais racionalizações conectadas às exigências das atividades comerciais são processos de troca com deuses estrangeiros entre si, referem-se às formas de uma socialidade politeísta capaz de se dirigir para o fora, criando traduções e organizações ecumênicas de todo tipo que não são apenas econômicas, comerciais, fiscais, mas, imediatamente também, religiosas e artísticas. O comércio é um elemento dos relatos míticos com que operam negociantes e escriturários de empresas corporativas em geral. Todavia, o comércio é um deus da transcodificação. Não suporta a subordinação provocada pelo capitalismo que se realiza, sob os auspícios do Estado moderno, produzindo desigualdades do tipo centro-periferia.
Lembrete: preciso dar uma olhada nuns trechos de Marx, Weber, Braudel, Deleuze/Guattari, Pignarre/Stengers, Samir Amin, Florestan Fernandes.
Entre o paroxismo e o anátema: o fim da linguagem dos negócios.
Uma coisa é o indivíduo ser obrigado a fazer negócios para viver, almeje ou não o lucro infinito, outra completamente diferente é o sujeito viver da apologia aos negócios, extrair ganhos da celebração da linguagem chula dos negócios. Os grandes comerciantes do mundo sempre souberam disso e concentravam, portanto, esforços consideráveis para manter investimentos em linguagens criativas que produzissem algo mais do que lixo negocial. Os melhores negociantes ou foram mecenas ou tímidos artistas, escondidos por detrás de acervos suntuosos, alimentando assim os negócios dos mercados das artes, uma forma de expiação pela mixórdia burlesca de um anti-ethos com que desabitavam o mundo. Entre o anátema e o paroxismo, preferiram, pelo menos os mais sensíveis ao problema, alimentar este último.
Saturday, September 08, 2012
Aos vencedores, as batatas!
"Se você vai escolher suas relações a dedo, com base em princípios morais, é melhor deixar este país, a menos que queira se afastar de toda a sociedade decente" (Crofts, personagem sórdido de George Bernard Shaw, tentando convencer Vivie de que a vida social é mais suja e aliada na sujeira do que ela, em sua ingenuidade, imagina apud H.S.Becker).
Só há uma falha grave na conclusão de Crofts. Ele, enquanto agente canalha de uma rede de vigarices, ligando ilegalismos populares e ilegalismos dominantes, ao fazer crer que TODOS são canalhas produz com esse efeito de crença a maior eficácia simbólica que naturaliza a presença supostamente bem repartida do canalha entre nós. E isso não é verdade, pois há concentração maior de canalhas em um lugar do que em outro, mais de um lado do que de outro, não se trata de uma lógica aritmética como as agonísticas lutas entre petistas de um lado, acusando tucanos de serem os maiores ladrões da história do Brasil e estes, os tucanos, acusando os petistas de serem os maiores ladrões da história do país. Conflito nada edificante para nossas crianças, não é?
Mas, enfim, se segmentos hegemônicos da "boa sociedade" chafurdam na lama, em acusações públicas e recíprocas, com segmentos hegemônicos das bases de "gerentes" do sindicalismo brasileiro e da "classe trabalhadora", é por que algo vai muito mal nessa história toda.
É a supressão da política que almejam. Querem transformar tudo em negociata.
Por isso, precisamos reativar nossas forças e energias em torno de uma nova política, uma política que não seja sua própria desqualificação generalizada que somente aos canalhas e aos bastardos, como dizem os australianos a respeito de seus "homens públicos", interessa.
Nada é impossível de mudar.
O negócio da "política" nos tempos de antigamente.
Antigamente, nas campanhas políticas, as pessoas relatam que havia certos comitês onde um quartinho abarrotado até o teto de dinheiro ia abastecendo o dia a dia das campanhas pelas mãos dos coordenadores. Como a montanha de dinheiro era fluxo de caixa dois, o controle financeiro era muito frouxo, e não havia cobrança sobre a destinação de pagamentos. Ou seja, era possível um coordenador de campanha fazer uma retirada de 120 mil, por exemplo, fazer a redistribuição de 80 mil e embolsar 40 mil, formando um caixa dois do caixa dois. Como as operações iam se repetindo, coordenadores de campanha conseguiam fazer rios de dinheiro em pouquíssimo tempo, e assim compravam apartamentos, carros, terrenos, faziam viagens caríssimas ao exterior e mantinham a posição de "classe média alta", sustentando várias camadas "gerenciais" de suas clientelas políticas com padrões de classe média baixa e média. Esses circuitos movimentavam em pouco tempo milhões, houve investigação da PF que apontou que num dia era possível haver movimentação de 40 a 50 milhões de lavagem, não custa ressaltar que era por dia (documentado pela PF). Os doleiros entravam em ação fazendo operações de compra e venda de dólares via funcionários de empresas estatais que recebiam com cotação oficial, vendiam com ágio seus dólares, num esquema massivo, e assim se lavavam milhões e milhões de dólares em fuga para contas no exterior. Várias concessionárias de carros importados foram adquiridas com esse dinheiro. Novas fortunas constituídas em torno dos negócios da política. E a desigualdade cada vez mais crescente. Os chamados laranjas iam enriquecendo fazendo a grilagem de terrenos públicos ou de espaços vazios na cidade, representando políticos importantes, e esses laranjas, por sua vez, iam construindo sua própria rede de laranjas, dando capilaridade ao processo de distribuição de benefícios pelas redes de clientelismo político. De modo que uma única família podia receber 90 mil reais por mês para assumir papel de laranja, um serviço prestado com valor da base gerencial de baixo, diga-se de passagem. Mas isso era antigamente, muito antigamente...
Tuesday, September 04, 2012
Desafios coletivos para a UFC
Colegas, algumas reflexões para esboçarmos os termos de uma plataforma coletiva de discussão:
Podemos melhorar ainda mais.
Precisamos buscar maneiras de termos mais atenção do que a atualmente dispensada à qualidade do ensino nas graduações e nas pós-graduações.
Professores mais experientes assumindo as disciplinas de introdução, juntamente com professores pedagogicamente mais preparados.
Precisamos também buscar nosso primeiro programa de pós-graduação nota 7 (nota máxima da Capes).
Física (física da matéria condensada) e Farmacologia , com atual nota 6, já estão a caminho.
Sociologia, Química, Matemática, Engenharia Química, Engenharia de Teleinformática, Engenharia Civil (recursos hídricos), Enfermagem e Bioquímica (programas nota 5 que precisamos colocar o desafio da nota 6 como meta coletiva).
Superar o pensamento dicotômico graduação versus pós-graduação. Integração entre graduação e pós-graduação precisa ser estimulada.
A pesquisa como princípio que unifica bacharelado e licenciatura.
Mais produção de artigos acadêmicos de qualidade. Mais recursos para pesquisas de ponta e inovação.
Superação da obsoleta divisão ciência pura e ciência aplicada, nem a favor de uma ou de outra, mas com novos paradigmas de produção de conhecimento.
Vanguarda de inovação frente aos mercados. A inovação diante do mercado, sem que estejamos a reboque de demandas pontuais de mercados, pois a universidade tem de liderar a inovação e os mercados gerarem campos de aplicação, quando possível no curto, médio e longo prazo.
Melhorar o campo das atividades extensionistas, aprofundamento das relações de cooperação com poder público federal, estadual e municipal, com movimentos organizados da sociedade civil, com a população em geral e com empresas, evitando empresariamento no mal sentido, ou seja, quando nos tornarmos fornecedores de parceiros, o investimento tem de ser feito com bases contratuais melhores do que as realizadas pelo modelo Harvard-MIT, fora disso, haverá, no mínimo, sangria de quadros para iniciativa privada e simples transferência de recursos públicos para setor privado.
Autonomia universitária e melhoria do planejamento e da gestão, reativando as formas parlamentares de debate e deliberação da democracia interna da universidade.
Convivência nos campi. Estilo de vida das universidades, como ocorre no mundo todo. O campus é uma territorialidade transnacional e pertence a uma comunidade também transnacional. Intercâmbios de cooperação científica são fundamentais.
Sunday, September 02, 2012
Tesão em mulheres feministas: uma confissão.
Eu morro de tesão em mulheres feministas. Mulheres cujas escritas de si rimam com uma política de existência livre. Trocar de condição com as mulheres feministas ao londo da vida fez de mim e continua fazendo algo mais do que um idiota, que é aquilo que o registro de poder hegemônico nos reserva, infelizmente, para que nós, os meninos, os rapazes e os homens, com tais investimentos de morte nos tornemos e para que sejamos uns idiotas inseguros bobos, desperdiçando destarte um campo surpreendente de possibilidades e exuberâncias estéticas, intelectuais, eróticas e políticas.
Os machismos que habitam em mim, contra minha vontade, contra meu tesão, só puderam ser debelados, enfraquecidos, combatidos e questionados desde o meu inteiro devir-feminista na troca com lindas e sedutoras figuras subjetivas que atravessaram de ponta a ponta minha curta, mas intensa vida, e que seja longa essa travessia, pois, desde que, aos 19 anos, pude perceber a tolice que seria continuar a ser "homem" de acordo com os padrões embrutecedores e estúpidos ensinados nas escolas, nas famílias e na caretice generalizada de um monte de pessoas estúpidas e embotadas que ainda nos ensinam o desejo de morte e o desejo de estado. Oxalá, encontremos sempre pessoas que nos convidam a celebrar o desejo da liberdade, em suas minoritárias e deslumbrantes virtualidades, pessoas que nos incitam e nos excitam a viver à flor da pele nossas próprias zonas de autonomia enquanto devires desejantes de uma campo social aberto.
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