Thursday, July 26, 2007

Pasquim

houve tempo em que a inteligência expandia-se como em ondas, hoje é explosão de partículas. eu estava lendo o site do Millor e fiquei tão entusiasmado com as tiradas da figura que resolvi perguntar para minha filha o que ela achava. De certo modo, é como se eu passasse um legado para ela, resultado de todos os domingos em que, no centro cultural banco do brasil, eu li o arquivo completo do Pasquim desde o primeiro número. Para minha surpresa, ela me disse que eu colocassa a estante dela na biblioteca da nossa casa bem no alto, pois ela não gostava de ler, mas de interpretar os signos da ação, enquanto eram produzidos pelos diversos jogos de linguagem da desalmada modernidade. Tomei um susto de deixar cair o cigarro do beiço. Afinal, que conversa estranha era essa, minha filha é só um pequeno bebê humano, e já quer discutir a incomensurabilidade das taxonomias humanas? Fiquei pasmo. Andei a noite toda sem dormir, de um lado para outro, cigarro após outro, cerveja inteirando a outra, e nada de resposta para o enigma. Finalmente, lá pelas três da matina, deitei movido pelo cansaço, pela embriaguez e pela certeza de que ela estava dormindo, linda e maravilhosa, na casa da mãe dela. Não se fazem mais filhos como antigamente, eu, ao menos, era leitor assíduo do Pasquim. Aliás, sou!

Sunday, July 22, 2007

as tragédias não são em vão!

nada melhor do que a sombra ilhada do guarda-sol, um pedaço do mundo parece abrir-se a partir da terra, da areia molhada e fria, sob o calor escaldante da praia, do verão inventado na solidão do ciclo natural. os corpos atentos, direcionados, acesos. Outras pessoas passavam. Dirigiam-se aos círculos, propensas à embriaguez, dilatadas pela devassidão do caminho interrompido, malhado de tão estrito. Ao mesmo tempo circunscrito e aberto. Escalado para o nada, para o brilho da mente natural, das algas-marinhas, filhas da imensidão, e do alimento disperso. Cambiam os corpos deitados com o caminho possível. O picolé derretia na praia-balneário da Itália de Calvino. Amores ternos, fluidos, capazes de se amalgamarem aos cacos de tijolo pisados sob a maré baixa das pequenas vagas. Os olhares entrecruzam-se aflitos, ou melhor, sôfregos, em busca do adorno perfeito, do puro valor estético que faz a coisa ser mais funcional na sua apreciação e consistência. Ao sairem do mundo das vagas, encontram em si os fluxos de um trânsito de praia sul-africana na década de sessenta. Poucos carros, muitas vidas perdidas fora das estradas. Os apartamentos que margeiam as vias de acesso à praia estão bloqueados por quadros baratos comprados no supermercado mais original da cidade. Mesmo assim, os corpos antes deitados seguem firmes, e sentados. Guiados pela potência mortífera do automóvel. Dobram seitas, rejeitam esquinas, embrulham-se como pão feito na hora. Quentes e macios. Voltam do ninho à rua. Incrementam as mesas dos bares, e fazem a calefação dos olhares alheios e inquietos. Capazes de tudo, menos da ousadia de abraçar fios de alta tensão descapados escorrendo e serpenteando nos corredores das mesas como cobras. as letras fazem-se em guardanapos de papel. não ambicionam ir além disso, da pele tatuada e da alma estriada. São as estrias da alma que fazem o real ter espessura e sensatez. a querela maior é robusta, se comparada com as ninharias que os prisioneiros são obrigados a amamentar na rotina da selva de pedra, no mergulho no vazio dos átomos, sem comunicação, sem diferença. o que se há de evitar, espelha-se e reluz como medéia em apuros. o que se há de abraçar, dormita breve e quente na palma inteira da mão.