Monday, February 25, 2019

Um drama terrível

O trabalho no campo acadêmico é de formiguinha. Devagar e sempre. Não combina com apoteoses do eu. O trabalho é em rede, é coletivo, cooperativo. São muitos anos exigidos para obter uma formação mínima aceitável pelo campo. Depois, mais anos ainda para dar início a um trabalho que tenha um plano de consistência e alguma relevância. As ansiedades de status apenas atrapalham. Em geral, são demandas de reconhecimento que as pessoas trazem de outras dimensões existenciais para o campo, um lance transferencial. O importante é permanecer durante 40 ou 50 anos de trabalho, sendo reconhecido como um interlocutor válido pelo campo. As subidas bruscas são quedas bruscas, pois assentadas em projeções imaginárias. Não há lugar para show do eu. Mas, infelizmente, é só o que tem. Quando lembro a rapidez com que pesquisadores que eram superpoderosos e impávidos nesse show do eu foram esquecidos após a morte, mesmo tendo obra relevante, fico mais convencido de que é preciso ter calma e não perder tempo com as projeções de sucesso e poder que são as tolices básicas do eu que se pensa como isolado e no centro da vida social. Pessoas que foram submetidas a condições sociais existenciais de muita humilhação e estão tentando romper com isso, sair de uma posição de vergonha socialmente imposta para uma de orgulho de si, acabam tendo muitos problemas com os contextos de trabalho que exigem cooperação e "humildade". Esta palavra ambivalente faz com que qualquer posição de humildade seja remetida às condições de humilhações já sofridas, de modo que as pessoas ficam reativas e não aceitam entrar num jogo que consideram que não foi feito para elas, mas para excluí-las. Começam a agir de um modo que passa a ser interpretado pelo coletivo como arrogante, pois para compensar os déficits de reconhecimento social as pessoas usam fantasias de realização que estão pouco ancoradas na realidade do campo. Começam a viver epifanias, celebrações de si, tudo com tom fortemente motivacional e, portanto, comovente, celebrações imaginárias de uma vitória que foi sair da invisibilidade a que estavam relegadas. Mas aí acabam se excluindo, pois não admitem qualquer prática de trabalho que as coloque em posição de ter que trabalhar fazendo coisas miudinhas que toda profissão exige, aquele sacrifício de si que todo ofício exige, pois os fantasmas estão lá para assustar, que assumir posições que não são apoteóticas é se submeter ao regime de opressão do qual se foge. E aí vão ficando pelo caminho, sendo efetivamente excluídas. Os que vão sendo assim excluídos vão se identificando nessa exclusão e se tornam profundamente ressentidos com qualquer coisa que esteja funcionando no campo que os excluiu. É um drama terrível.

Sunday, February 24, 2019

Compulsória compulsória

A ideia da aposentadoria compulsória aos 75 anos, se a saúde me permitisse, já estava em meus planos. Mas perder, na prática, o direito a uma aposentadoria voluntária não estava em nossos planos como categoria. De fato, nossa compulsória poderia até ser maior, poderia ser 80 anos, pois há cientistas e professores muito capazes nesta idade, em geral, são os melhores, dependendo da área. Estou lendo as coisas para tentar entender. Mas é um lance muito complexo. Precisamos estudar essas propostas.

Saturday, February 23, 2019

Trabalhadores

Ontem, conversei com trabalhadores (três homens), 1 a 2 salários, terceirizados da universidade, uma roda de conversa em pé, quando terminei minha aula às 21h40, me chamaram para um papo, eles estavam assustados. Muito temerosos. Relatando as perdas que sofreriam e como isso afetaria suas vidas. Insatisfeitos com o governo. Queriam saber minha opinião. Fui dormir um pouco melhor. Quando um trabalhador assalariado hoje expressa insatisfação com os governos e as empresas, fico tão alegre. É tão raro. A maioria dos que possuem o perfil deles se expressa como se fosse membro da classe rentista e da cúpula de altos executivos globais, mesmo não tendo nada, falam com uma linguagem que não é a deles. Quando o trabalhador usa linguagem de trabalhador, chega me dá um arrepio na espinha. Alguma esperança há. Eu tinha dado aulas de 14h até 21h40 sem intervalo. Fiquei conversando com eles de 21h40 até 22h10. Foi a melhor aula do dia, inesperada. Mesmo eles sabendo que ganho muito melhor do que eles três, que a minha perda com a reforma é a metade do salário deles, eles conversaram comigo de igual para igual. Foi massa. Mas se a gente entrasse em outras pautas, as identitárias, direitos humanos, provavelmente, seria um desastre. Esqueci de dizer que eles sabiam muito mais detalhes técnicos e precisos sobre a reforma da previdência do que eu, não era isso que eles queriam de mim, eles queriam que fizesse uma interpretação da conjuntura para saber se batia com a deles.

Capital agradece

Multidão de pessoas muito excluídas tendendo a apoiar a perda de direitos dos poucos, muito poucos, precariamente incluídos, estou falando da base. O capitalismo toma seu uisquinho vendo o circo pegar fogo. Vendo que dá para arregimentar ressentimentos para nivelar por baixo a estrutura do trabalho escravo assalariado. O capital agradece pelas concorrências mutuamente destrutivas dos segmentos infraclasse dos assalariados. Só que miséria não faz revolução. Quem com ferro fere com ferro será ferido. Serão muitos os ferreiros autoferidos sem o saber. O trabalhador hoje se odeia tanto que aceita o argumento ultraliberal de que aposentadoria é um assunto estritamente privado. Tem quem capitalizou e ponto final. Esse entendimento é um suicídio coletivo. Os bancos e as grandes empresas não costumam agir assim. Estão sempre desejando a garantia do Estado que só pode ser para eles o provedor para o sistema do capital em detrimento do trabalho vivo. Parte considerável da classe trabalhadora está se identificando com a reforma da previdência. Isso é bem assustador. Dizem que a reforma é contra os ricos. Mas ser contra os ricos não é coisa de socialista? Estou entendendo mais porra nenhuma. Qual ataque robusto aos gastos públicos o governo vai fazer quando o assunto é dívida de grandes empresas? É isso que querem silenciar. Que os gastos públicos para grandes empresas vai aumentar. Mas geram empregos, não é? É assim que a massa responde. Tudo cada vez mais na mais perfeita harmonia. O governo com apoio do povo anula qualquer contradição. Pagando para ver.

Wednesday, February 20, 2019

As estrelas antes da hora

Indivíduos que começaram a agir como estrelas antes de terminar a formação sofrem com ansiedades agudas de status. Em geral, desaparecem do mapa. Ninguém sabe, ninguém viu. Tão comum isso. Entram imaginariamente e portanto não saem, pois não entraram. Não foram sequer admitidos mas gozavam ilimitadamente num lugar inexistente. Muito triste isso. Se autonomear estrela é não entender que o sujeito é o campo.

Tuesday, February 19, 2019

Ninguém sabe, ninguém viu.

Indivíduos que começaram a agir como estrelas antes de terminar a formação sofrem com ansiedades agudas de status. Em geral, desaparecem do mapa. Ninguém sabe, ninguém viu. Tão comum isso. Entram imaginariamente e portanto não saem, pois não entraram. Não foram sequer admitidos mas gozavam ilimitadamente num lugar inexistente. Muito triste isso. Se autonomear estrela é não entender que o sujeito é o campo.

Monday, February 18, 2019

Os outros são os outros

Escondem a verdade do que aconteceu e depois se vitimizam. Não deixam ninguém saber que foram irresponsáveis e sem compromisso. Que não valorizaram a oportunidade de realização. Mas quando se vitimizam, comovem a todos. E ainda conseguem demonizar os outros. São perversos. Encontrar com gente assim é sempre uma lástima. E há uma multidão a dar guarida. São falsos e oportunistas. Possuem duas faces ou mais. Sorriem para você e te detonam onde e como puderem. Se aproximam quando precisam de algum suporte ou apoio. Se distanciam quando chamados a assumir responsabilidades. Fazem um leva e trás de fofocas e informações para atiçar relações de guerra e inimizade. Sem comprazem em ver o circo pegar fogo. São traiçoeiros. Sentem ódio e são ressentidos, mas vestem a máscara de abraços e simpatias quando encontram por aí quem detestam. Aprontam escrotices, mentem, se esmeram em prejudicar o que quer que vejam funcionando bem. Boicotam, envenenam relações, atuam como agentes de discórdia. Fazem o mal e fingem que não sabiam de nada. Montam estratagemas de exclusão de possíveis concorrentes. Escondem informações. Fogem do trabalho sério. Vivem se escorando nos outros. Pegam carona no resultado de quem trabalha, como se tivessem contribuído, quando nada fizeram. Vivem costurando redes de apoio às suas atitudes sacanas, se pintam como santos perseguidos. Mas quando percebem que vão ser punidos pois desmascarados ficam apavorados. Começam a chorar se fazendo de pobres coitados, o que no fundo são.

Elogiar o esforço mínimo?

Faz um mal enorme elogiar alguém que a gente sabe que não está à altura do elogio. Saber que a pessoa não fez o que tinha de fazer com cuidado, esmero, atenção e esforço requeridos, saber que a pessoa está apresentando um resultado medíocre e assim mesmo elogiar, para dar uma força, porque a pessoa precisa de algum reconhecimento, enfim, elogiar o pouco esforço e a baixa criatividade tem sido um jogo que tem feito muito mal a muita gente. Todo mundo que ser simpático e amigo, acabam alimentando o ego de quem não fez lá grande coisa. Vira uma coisa ridícula. O ego lá numa trip se achando. Achando que é um arraso no show da vida. Se passando como o ridículo e ninguém diz nada. Fazem é continuar a elogiar. Que merda, hein?

Sonho de astralidade

Meu sonho era levar uma vida astral, numa casinha de praia, bem simples, tudo artesanal, pescando um peixe fresco, tomando água de coco, pesquisando o folclore da região, sentindo aquela brisa fresca batendo no rosto todas as manhãs. E sabendo que o papai iria depositar minha mesada todo mês e pagar meu cartão de crédito quando fosse para NY passear, além de estar incluído no testamento do velho, agraciado com alguns imóveis caros que me dariam sombra e água fresca durante um boa vida de astralidade, dando bom dia para o sol e boa noite para a lua. Teria sido tão bom! Mas não foi o meu destino subjetivo ser uma pessoal astral e amiga da natureza.

Segura a mão do outro?

De vez em quando, e com mais frequência, estão chegando as notícias de pessoas conhecidas que adoeceram e morreram à míngua. Pessoas amigas, que estavam entre nós e ninguém suspeitava que pudessem morrer devido à pobreza material que não aparentavam ter. Isto é o fenômeno que mais me tem chamado a atenção nos novos tempos. E é tabu. Ninguém discute abertamente. Muita gente prestes a papocar. O coletivo expressa por redes sociais virtuais o seu pesar. Ou seja, segurar na mão do outro, ninguém solta a mão do outro, é a nova hipocrisia.

função mãe e função pai e a negação do show de eu

Estar na função materna e paterna com responsabilidade sistemática entra em contradição frontal com a ideia de estar no centro das atenções, sendo o objeto primordial do cuidado e do amor. Não dá certo estar na Babilônia, no narcismo, no sou mais eu, no show do eu, sendo o destaque de sucesso, a celebridade, se você efetivamente se tornou pai ou mãe responsáveis. Nesse ponto, o discurso conservador tem razão, apesar do seu moralismo, tem razão em criticar quem não assume o lugar do adulto. Na família, a gente é 24h resolvendo questões da vida dos filhos. É uma loucura. Se vc se ama muito em demasia do tipo espelho espelho meu, não tenha filhos. Não meta as crianças numa enrascada chamada seu show de eu.

Sunday, February 10, 2019

Cuidar das crianças é prioridade

Ter filhos envolve passar noites e noites acordado cuidando deles quando adoecem. Aquelas madrugadas de cansaço e preocupação. Só sabe quem já passou. Caçula por aqui com febre alta. A gente, pai e mãe, suspendendo tudo para cuidar dele. O difícil é lidar com um sistema que não aceita isso. Não aceita que a prioridade seja a criança. Em geral, no mundo do trabalho, a crueldade impera. Por isso que tento não ser o sacana quando isso acontece com pessoas que estudam ou trabalham comigo. Vamos lá. Cuidar das crianças é a maior prioridade sempre.

Wednesday, February 06, 2019

Barbárie cearense

Uma mulher ajoelhada na rua sendo açoitada por um agente da lei com um chicote de dar em cavalo. Isso é a segurança pública no CE. É importante não esquecer que a PM que faz isso é a PM que protege os "bairros nobres" e o governo das oligarquias. O Ceará é uma barbárie. Não adianta pagar especialista para elogiar o governo. Essa bajulação tem de acabar. Essa subserviência tem de parar por aqui. Vejam as imagens, vejam o vídeo. É uma mensagem terrível. De puro terrorismo de Estado. Ou vão querer patologizar o policial, dizendo que ele é uma exceção que passou pelo crivo do rigoroso recrutamento do Estado? É intolerável que a sociedade civil fique em silêncio diante de tamanha barbárie.

Elogio da loucura

Não sabia que havia uma história complexa e entrecruzada que envolvia Henrique VIII, Erasmo de Rotterdam, Thomas Morus e Lutero. Estou embasbacado. Erasmo e Lutero fizeram uma disputa teológica, política e intelectual. Que contexto histórico rico! A gente descobre cada coisa na vida. Aprendendo muito com as querelas dos anos 1490-1530. Ou seja, estou lavando louça na cozinha da minha casa.

Monday, February 04, 2019

Pensando com Erasmo

Construir uma relação com o espaço vazio. Manter uma relação com o nada. Para não cair no vazio e nem ser engolido pelo nada, elaborar um modo de negação do não ser. Será que isso continua sendo a tarefa da humanidade ou isso já ruiu e só restam ruínas destituídas de quaisquer modelos civilizacionais? "Tudo o que fazem os homens está cheio de loucura. São loucos tratando com loucos" (Erasmo). Uma vida aprisionada entre a vergonha e o medo. Em algum lugar. Ignorância, irreflexão, esquecimento e as esperanças mais tolas.

O sacrifício como tema para reflexão

O sacrifício pelo bem de si mesmo, de outrem ou do grupo? Ou é possível uma vida social humana sem sacrifícios? O tema do sacrifício se tornou um tabu. Ou seja, o tema da relações sociais recíprocas com suas obrigações mútuas virou tabu. Temos que criar uma nova linguagem para lidar com isso. Novas práticas e nova linguagem. Não dá para fazer revolução com promessa de consumo competente para todos. Foi isso o que ocorreu no BR. Os governos que abriram acesso ao consumo competente (virtualmente ou efetivamente) para todos foram rechaçados por pautas conservadoras, que, afora suas distorções ideológicas histéricas, partem de uma demanda por algo mais do que seja também um consumidor. O liberalismo social virou sinônimo de "indecência". Os estilos de vida defendidos passaram a ser lidos socialmente como individualistas, hedonistas, narcisistas e atomistas. Será que tais percepções que passam pelas formas do pensamento conservador a respeito das exigências de cidadania do consumo livre de quaisquer amarras não prepararam a queda do pensamento da esquerda oficial? Uma esquerda que prometia posição de consumidor de bens e serviços, com feitios a-morais, foi rechaçada pela demanda de integração moral dos laços sociais. Quando se tentou recuperar o terreno com a tal da "nova classe média", foi um desastre, pois se quis tratar uma demanda moral com ferramentas economicistas. Repetiu-se o erro. Os neoliberais também erram por incorrerem nesse economicismo da esquerda oficial. Já as igrejas, essas continuam muito antenadas com as demandas que envolvem projeções de fantasias coletivas na ordem social imaginária. O governo das igrejas é o mediador universal nesse contexto de uma vida definida pelo dinheiro e pela dívida.

A família como tema para reflexão

Todo dia acordar 5 da manhã para dar tempo das crianças estarem na escola às 7 em ponto e a gente no trabalho às 8h em ponto. De domingo a domingo, manter necessariamente a vida em bando. A vida familiar com suas rotinas exigentes e esfalfantes. Ninguém do bando pode ficar de lado, todo mundo tem de ser incluído. Esse lance de família não é brinquedo, não. São anos e anos, repetindo os mesmos movimentos. Praticando os mesmos cuidados. Função pai, função mãe, função responsável, isso exige uma disciplina espartana. Uma vida repleta de obrigações, deveres. Exigências de sacrifício do desejo individual. Conformidade às necessidades do grupo familiar. Enfim, é verdadeiramente aprisionamento numa rede de obrigações mútuas. Muito sacrifício. Ser responsável num sistema de responsabilidades tão exigente é uma questão de vida ou morte. Crianças e adolescentes são os que sofrem com as barbeiragens, omissões, irresponsabilidades, fugas, covardias. Entendo perfeitamente por que os conservadores transformaram o tema da família no tema central de suas elucubrações. A família é um compromisso que só pode existir como compromisso prioritário. O desafio para quem não é conservador é manter as noções de liberdade individual e de hedonismo narcisista à salvo de tantas obrigações, uma missão quase impossível. Não dá para ser um hedonista competente, quando se é arrimo de família, quando se é presente e responsável. A minha família e o meu trabalho salvam minha vida. Vamos tirar esse motivo da mão dos conservadores? Sim, mas para isso, é arregaçar as mangas e mandar ver na efetividade das práticas cotidianas. Uma loucura! Tenho muito respeito por quem não escolheu esse caminho da família. Muito mesmo. Acho coerente. O problema é escolher e não assumir o lugar, aí é que os problemas começam.