o homem gordo, em marcha a ré, perdeu o equilíbrio ao bater o calcanhar contra a dobra de tapete e despencou de si mesmo. provocou seu próprio mergulho depois dos três passos hesitantes que antecederam o vexame. de costas, os calcanhares entrechocaram-se ao se despedir do solo. a dobra de tapete tinha força vulcânica, não parecia mero obstáculo. sem falar que aquele tapete, ele comprara de presente, um presente caríssimo, para suas anfitriãs, que acompanhavam com viva surpresa, quase aclamando o desfiladeiro que se abriu sob suas costas. estrondoso e obsceno, ele despencou, felizmente, na cadeira de vime preferida do marido de Kézia. acompanhada do riso aberto de Clara, sua amiga íntima e confidente, ninguém, nem mesmo Kézia, parecia reprovar a cena. aliás, o sorriso sem quase sons, de ruídos abafados de Kézia, soava mais aterrador do que a gargalhada desbragada da outra. se visto a partir do seu reflexo no espelho, a gargalhada pura e simples de Clara era brincadeira de criança diante do escancarado desse sorriso refletido que, como tudo que ousa refletir, ganha parecença com a desmesura, com o excesso e o o espírito malsão da ironia pura.
a queda para o homem gordo era uma espécie de mergulho em si mesmo. não chegava a ser um de seus piores vexames, mas os simbolizava a todos como numa telemaquia às avessas.
Monday, March 24, 2008
Thursday, March 20, 2008
Sunday, March 09, 2008
9 march, 2008.
eu me vestia mal e lia Thomas Mann com devoção. estraguei duas obturações mastigando páginas de madeira sob a sombra de laranjeiras devoradas pela peste, carcomidas de doenças arrojadas pela concorrência californiana. que saudades de Berkeley eu não sentia ao escorregar pela minha camisa puída os dedos que viravam pálpebras. desde então não me visto tão mal, pois perdi o parâmetro, mas continuo à procura de José e seus irmãos, sem achá-los em lugar algum dessa terra queimada, e assim sobram-me ao menos as vontades da montanha mágica que quando criança parecia uma cena de filme onde o carro voava pelo penhasco de montanhas rochosas quase-canadenses, creio eu. se não fosse tudo fantasia, já estaria com saudades de mim num tempo em que nada desmerecia esse afeto.
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