Saturday, August 16, 2014

Lembrança dos 11 anos

Ela me ligou, ao meio-dia, dizendo: "estou indo para a liberdade, encontrar meu namorado". É isso.

Friday, August 08, 2014

Presente de verdade

Uma pessoa quando fosse dar um presente para outra deveria dar um presente de qualidade, esse lance de dizer que a intenção é que vale é a maior mentira.

Estudar na universidade? Como assim?

Está cada vez mais difícil estudar na universidade, a universidade está sendo usada de muitas maneiras, mas os estudos andam perdendo é feio. Super difícil encontrar pessoas estudando. Mas, afinal, estudo não tem nada a ver com universidade, né? Quem quer estudar que vá para as sedes dos partidos políticos, para o shopping center ou então para as igrejas, esses locais destinados especialmente aos estudos.

E não tem amor

Tem gente que tem aliança, cama, talheres, taças, toalhas, dispêndio, mas não tem amor.

Produtividade do saber

Nelson Cavaquinho, uma das maiores produtividades do saber no Brasil, validado pelo Cnpq e pela Capes. Morreu rico.

Thursday, August 07, 2014

A história do nosso corpo

Existem detalhes que dizem muito sobre nossa origem social. Houve um tempo não muito distante em que eu ainda apertava a descarga e ficava segurando até o fim, até que me explicaram que não era mais assim o mecanismo, bastava apertar uma vez e soltar. Até um dia desses, eu usava água da torneira fervida para fazer o café, até que me explicaram que era melhor usar água mineral, pois o café fica mais leve e saboroso. Mas continuo firmemente desde criança comendo sem deixar um caroço de arroz ou de feijão no prato. Na economia de guerra da minha infância, isso era o maior crime que se podia cometer: estragar comida, e também desperdiçar água potável. Quando termina uma banca, eu saio recolhendo as garrafinhas d'água mineral que o pessoal deixa pela metade, ponho tudo na mochila, e fico com estoque de água potável para beber. Esses anos 70 e 80 que não saem dos meus couros, que fazem o meu corpo.

Monday, July 28, 2014

Duchamp e Cage jogam xadrez eletrônico

A problematização da arte não pode voltar a ser pré-Duchamp. O lugar de poder que se escolhe para colocar o objeto "de arte" é mais decisivo do que a obra. Se a gente quisesse ou pudesse prestar um pouco mais de atenção a algo que não seja o campo do poder das oligarquias governamentais, teríamos problematizado a problematização que Marcel Duchamp e John Cage fizeram quando estavam jogando o xadrez eletrônico, né? Mas a gente quer mesmo é ir para onde o campo do poder consagra, infelizmente. E, felizmente, nem todos. Mas os bicos continuam calados, exceto quando vão se divertir com os assessores de governo. Não há nada pior do que o elogio protocolar. Em vez de se fazer crítica política, se faz o sentido fantasmático da autoridade. Hegemonia é fazer com que os opositores falem a linguagem do espaço institucional de modo espontâneo e natural. Eu prefiro ficar no Facebook do que habitar o templo dos assessores do governo. Eu prefiro ficar nesta merda do Facebook do que ir para qualquer merda governamentalizada, que faz a merda cheirar mais mal do que normalmente cheiraria, principalmente, em tempos de eleições, onde qualquer evento nos templos dos assessores do governo é pior do que a Igreja Universal do Reino de Deus. Mas desta, pode-se falar mal à vontade, né? Não é cosmopolita nem astral.

Thursday, July 24, 2014

Shopping center e vida coletiva

No dia 2 de abril de 1982, todos (socialmente poucos) corremos entusiasmados e excitados para a inauguração do primeiro grande shopping center do Ceará, na cidade de Fortaleza. As roupas novas que tínhamos ganhado em janeiro, após as vendas de natal, quando os preços caiam, foram decisivas para termos um acesso relativamente decente ao shopping. As crianças e os adolescentes, quase todos não negros e não negras, das escolas particulares, lotaram o shopping. As atrações eram muitas e nos causavam um verdadeiro frisson. O cinema e o fliperama, principalmente. Entre 1982 e 1988, ir para o shopping center comer pizza, paquerar, namorar no estacionamento ou simplesmente ficar correndo de um lado para o outro naquela efusão de luzes e cores maravilhosas com montes de mercadorias que faziam do seu simples vislumbre um acesso ao fora, havia nisso algo que remetia imaginariamente ao fora, ao Rio de Janeiro, à São Paulo, nem falávamos de Nova York ou de Miami, não cabia essa imagem no espaço do possível, exceto para um ou dois coleguinhas muito ricos de uma turma de 40, que iam passar férias no exterior, e nós, a maioria, não tínhamos nem ideia do que isso significava, nosso sonho era o Rio, era São Paulo. O shopping center nos deslumbrava. Foi uma experiência marcante. Só depois de seis anos de uso intensivo desse espaço de socialidade e lazer é que, com a idade da crítica e da contestação, abandonei em parte esse deslumbre, mas precisei me apropriar de novos vocabulários políticos e culturais para fazer a crítica do templo das mercadorias, como o chamava um amigo meu.

Wednesday, July 23, 2014

Eu desconfio

A diferença é que hoje eu desconfio de quando eu sonhava acordado sem saber de nada que me afligisse desconfiando acordado de não dormir jamais sem saber o que é rememoração ou invenção pura. E a diferença é uma coisa de pobre, né? Como somos pobres, apenas nos restou a lan house como se fosse uma fun house, é muito triste, fico feliz pelas maravilhas que as pessoas são capazes de fazer para elas próprias, como se tivessem nascido com merda na cachola, uma coisa linda.

Sobre a autoridade

Eu me desautorizo a falar em nome de mim mesmo. No desterro da palavra dita eu enfermo dissoluto, em fuga, lá aonde a desdita me livra da herança. Contra os detentores da autoridade, repouso minha confusão no achado de uma ordem inaudita, impossível, irrefreável como um soluço, e sigo só, desamparado, sem Deus.

Sunday, July 13, 2014

Sobre o amor

A mais terrível das privações é a privação de amor. Ser privado de amar e de ser amado, não há condição mais tenebrosa e destruidora de vida do que esta. Não é o dinheiro, nem a falta dele, o que está no fundamento da guerra, mas sim o medo do abandono, a queda no desespero de um abismo sem fim, onde o ser deixa de ser o que é, desvanece no esquecimento implacável do mais inopinável desamparo. Mata-se e morre-se por amor; em geral, por falta dele. O amor, uma palavra substituta para o vazio. Apenas o sujeito esvaziado é capaz de amar. Não é recomendável amar sem antes ter ido ao banheiro. Afinal, entre choros e lágrimas, a vida é antes de tudo tubular. E das lágrimas nasce o choro de um riso histriônico, e do riso brota o que há de diabólico no ato de amar, a destruição do objeto, a fim de reencontrá-lo no sempre perdido de sua topologia, o lugar da ausência é a origem do desejo, a origem do mal.

Friday, July 11, 2014

Nos hospitais públicos da vida

Estava sem plano de saúde. Ter arrancado com os dentes a pelinha do indicador da mão esquerda não foi uma boa ideia. A ponta do dedo virou uma bola enorme e latejante. Uma dor de dias, daquelas de nos fazer lembrar bem ou mal de uma alma em nós, como quando a agulha do tatuador corta a pele numa camada um pouco mais além da conta. Viver no Rio de Janeiro sem plano de saúde era o fim da picada. Acreditava ainda na imortalidade, certamente. Coisa de jovem ainda marcado pelo destemor. Chegou o dia em que a dor cessou, uma bola enorme de pus tomou o lugar do meu dedo. No dia seguinte, às seis da matina, tomei banho, escovei os dentes, fumei um cigarro, aliás, dois, um copo d'água, e fui para a fila de um hospital público municipal. Foi o início do pesadelo. A fila para o atendimento ambulatorial estava dobrando o quarteirão. Eu com meu dedo tomei lugar em pé entre uma e outra dor. A senhora olhou para mim perplexa e me perguntou na cara o que eu estava fazendo ali. Eu era o único branco na fila. Não precisou que eu lhe respondesse, apenas mostrei o dedo. Fiquei de sete da manhã até quase uma hora da tarde na fila dos desvalidos. Não tinha tomado café da manhã, nem nada. Não tinha sido uma boa ideia. Quando chegou minha vez, entrei pela porta do consultório ao chamado da enfermeira. Era uma salinha exígua, do tamanho de um banheiro generoso. O médico, um velho de barba branca de uns cento e cinquenta quilos, escrevia algo numa receita para alguém ainda em atendimento. Ele fumava horrores na salinha fechada com ar-condicionado quase a pifar. O consultório médico estava afundado numa frigideira de olho quente. O médico não olhava para ninguém. Ante o relato que a enfermeira fez sobre meu dedo, que ela já havia examinado com a atenção necessária de quem já sabe do que se trata e do que se é preciso fazer, ela mesma indicou ao médico que era necessário sarjar. O médico deu um resmungo à guisa de um vá em frente. Não havia onde sentar, a enfermeira teve de sarjar meu dedo em pé, ela e eu, um de frente para o outro, enquanto eu segurava o aparador que ia acolhendo a porcaria saindo do dedo. Uma tontura fez minha cabeça girar. Despenquei de frente com o rosto contra o chão. Um pouco antes de retornar a si, a inconsciência ainda restante, enquanto abria os olhos, me deu uma das sensações de paz interior mais significativas da minha existência, como se tivesse tomado morfina na veia. Mas durou pouco, tive que ser levantado por um segurança de dois metros de altura, que me pegou como se eu fosse um saco de batata e me jogou numa cadeira de rodas. O médico continuava olhando para o bloco de receitas, era uma estátua de pedra, sequer lançou um olhar para o estrondo do meu corpo caindo no colchão de cimento. A enfermeira que ordenou ao segurança que me levasse para a emergência. Tinha que cuidar de um supercílio com beiços e de várias escoriações, pequenos cortes de quem foi atropelado e caiu no asfalto quente. Com o rosto ensanguentado, sendo empurrado numa cadeira de rodas, fui um espetáculo de horror para algumas faces ainda na fila, dirigindo-se para o abatedouro. Era uma entrada que não admitia saída sem autorização médica. Duas horas da tarde e eu ainda sem ter tomado café da manhã, sem ter pego uma merenda, nem água e nem cigarro. O segurança avisou que precisava da cadeira de rodas, ordenou que eu levantasse e sentasse em algum canto. Mas não havia nenhum canto para sentar, emergência lotada, o jeito foi ficar escorado numa parede. Ocorre que quando senti uma nova tontura pensei comigo mesmo que levar uma nova queda de cara no chão não ia ser nada agradável. Já tinha um supercílio aberto, sangrando, eu precisava me deitar em algum lugar. No chão do corredor não podia ser, pois as macas passavam por ali a todo instante. Havia uma porta dupla que quando foi entreaberta deixou-me num lance entrever a ponta de uma maca. Com minhas últimas forças avancei sobre a sala e adentrei no recinto. A maca realmente estava lá, desocupada, e despenquei sobre ela aliviado. Dormi profundamente. Abro os olhos e o teto do hospital era o único lugar onde manchas escuras não besuntavam a pintura das paredes, como a que eu estava escorado antes de me deitar naquela maca salvadora. Quando olho para um lado, há um cadáver estraçalhado, olhos vidrados e braços rijos lançados ao ar. Do outro lado, outro cadáver, um corpo sujo e muito machucado. Levantei-me da maca de supetão, e me dirigi para fora da sala que tinha sido minha miragem salvadora. Só então me dei conta de que a maca onde eu me deitara estava completamente encharcada de sangue, por isso ela estava desocupada. Ao aparecer no corredor da emergência, com um dedo para cima, o que tinha sido sarjado, com o supercílio direito aberto, escoriações no rosto por causa da queda de cara no chão e agora com a roupa, calça jeans e camiseta banhadas em sangue, pude perceber pelo olhar dos presentes que a cena não era agradável. Um residente então olhou para mim, perplexo, e me perguntou o que tinha acontecido comigo. Expliquei rapidamente o percurso que fizera até chegar àquela situação. Ele me perguntou o que eu fazia no Rio, eu disse que estava fazendo doutorado na UFRJ. O espanto dele aumentou. Ele me disse a mesma coisa que a senhora negra havia me dito às sete horas da manhã na fila de espera, o que você está fazendo aqui, por que você não foi lá no hospital da universidade e outras dicas tardias. Ele colou meu supercílio com um tipo de adesivo, não deu pontos, disse para eu sair dali, ir para casa tomar um banho e me dirigir para o hospital da UFRJ, que ele ia telefonar avisando que eu estava a caminho. Ainda tive que caminhar para casa, uns dez quarteirões, vagando ensanguentado aos olhares assustados das pessoas nas ruas, que desviavam com cuidado para não esbarrarem comigo. Desde então tenho uma outra percepção sobre os humanos que caminham em situação monstruosa pelas ruas da cidade. Além de que pude perceber na pele como os pobres, as pessoas negras, são tratados como um nada, como absolutamente nada, com o investimento dos governos que nós elegemos. Isso foi em 2001.

Friday, May 02, 2014

Pelo amor à luz elétrica!

Existem pessoas que precisam de Deus. Indivíduos cujas vidas seriam esmagadas, trucidadas, repentinamente, esvaziadas, ficariam como um pneu murcho, sem para nada servir, caso não tivesse Deus obrando, operando, monitorando suas mentes. Não sei se tenho pena ou admiração de pessoas dependentes de Deus, o vício em Deus pode nascer de uma tentativa desesperada de negação de vícios inomináveis, que despertam culpas terríveis, que fazem sofrer, vícios sujos, e então é preciso se lavar com Deus, se limpar com Deus, como se Deus fosse um tipo de detergente super eficiente, que pudesse manter as coisas limpas na mente. Pessoas que não conseguem negociar com dois ou três vícios, que estão fadados a nos acompanhar, afirmando nosso campo de decisão, fazem de Deus um vício de Absoluto, uma forma enviesada de habitar secretamente todos os vícios, daí a eterna vigilância e auto flagelação dos crentes, o que também é punição do outro, flagelação do outro que habita em si, do outro que desperta o desejo de suas próprias perversões, do seu próprio vínculo com o demoníaco. É o medo da própria mente em ação, de uma mente assaz misturada, impura, experimental, que faz de certas buscas pelo espírito divino em si mesmo uma maneira de curar uma doença: doenças do espírito, quem sabe. Pois, ao contrário, das pessoas que precisam de Deus como do ar que se respira, prefiro pessoas que mergulham nas sombras, agruras e delícias da própria mente, deliciando-se com o fato de ela ser uma peneira fluída, flexível, que deixa tudo vazar e por todos os lados. Pegar a mente, colocá-la sobre uma mesa para analisá-la, como se fosse um troço qualquer, um objeto desprovido de desígnio, encarar nesse jogo de verdade o espaço vazio que é o ponto nevrálgico de toda a criação artística. O criador é o caos operando na forma de uma mente em dissolução: o princípio criador, o que não pode ser alienado a outrem, muito menos a Outrem. É na relação com a morte que reside o desafio de uma literatura que examina o cadáver da própria mente, a necrose de qualquer vontade de transcendência, o mergulho no vazio absoluto da mente, no abismo sem fim e sem sentido da existência. Como Antonin Artaud, citado lá em riba, na capa deste meu livro de face, na capa desta minha fachada irresoluta, infiel de mim mesmo, escorregadio, fragmentado, esquizóide, paranoico da noite sem chão, neurótico da falta de civilidade, perverso na minha guerra contra o que é confortável para os de mente fraca, viciados em Absoluto, estou aqui sempre para tentar acabar com o juízo de Deus. Em nome de quê? Pelo amor à luz elétrica! Um salve de oxalá, nesta sexta-feira de maio, para os espíritos livres!

Tuesday, March 18, 2014

sim, morrem...

As pessoas morrem. Eu conversei com uma pessoa, mas ela morreu, aí eu não conversei nunca mais. Eu não vou para meu próprio enterro. Vou faltá-lo. Pregar uma peça no agente funerário. Eu não conheço nenhum agente funerário, do mesmo modo que não conheço nenhum agente literário. O único agente que eu conhecia, mas morreu, era o agente de polícia.

Sunday, March 09, 2014

Em 24 de agosto de 2012, eu descrevi que tive um pesadelo.

Eu tive um pesadelo de ontem para hoje. Vou narrá-lo para vocês. Foi assim: eu caminhava pelos jardins da Reitoria da UFC, indo em direção ao bloco das Ciências Sociais, onde trabalho. Várias pessoas, vindas de todos os lugares ao mesmo tempo, como num passe de mágica, começam a me assediar, fazem mil perguntas, pedem informações, solicitam que lhes indique referências de obras, livros, artigos, fazem perguntas, exigem explicações, há uma barafunda de falas que começam a se transformar em gritos, os rostos se tornam raivosos, olhos esbugalhados, só então percebo, pela primeira vez, que são faces conhecidas, são meus alunos e minhas alunas, pessoas queridas, pessoas que eu respeito profundamente, mas no alto do meu desespero, começo a ficar tonto, zonzo, pois a multidão de vozes dissonantes falam ao mesmo tempo o meu nome "Léo, Léo, Léo...", olhares esgazeados e famintos, na fuga, num ato de desespero, eu também começo a gritar, esbaforido e desfeito da atitude que o decoro exige de um professor da Universidade, e nesse ponto, eu me viro de repente e digo: -- Sr. Professor Dr. Leonardo Sá! Grito em desespero, como fez Antonin Artaud quando estava internado no hospício e o psiquiatra insistia em chamá-lo pelo primeiro nome, o nome de infância, o nome da mãe: Antonin. Em tom de voz duro, eu começava a olhar um por um nos olhos de meus queridos alunos, dizendo-lhes: -- Tratem-me de Sr. Professor! Havia um delírio, um transe paranoico, um esgar que quase travava minha voz. E a partir deste momento eu chamava a todos de Senhor e Senhora. Senhor Estudante, Senhora Estudante, Senhor Colega Professor, e o delírio ia inundando minha mente quase ao ponto de fazê-la explodir. De súbito, acordei resfolegante. Foi apenas um pesadelo de que a Universidade houvesse se tornado um lugar de terror, de medo, de celebração da reprodução das mais arraigadas e violentas hierarquias da vida social. Ainda bem que foi apenas um pesadelo. Logo estarei ouvindo da voz de educandos/as o sonoro "Léo" ou o carinhoso "professor" com que me brindam na vida cotidiana da nossas ricas e profícuas trocas acadêmicas e humanas. E ninguém precisará me chamar de Senhor, nem de Herr Professor, ok? Somos apenas les pauvres enfants de la patrie, um novo e discreto precariado, abandonados a própria sorte, quem sabe... Saudações libertárias

Beijar na boca de fantasmas

Vocês já beijaram na boca de uma pessoa que já morreu? Ou melhor dizendo, para que não se confunda com necrofilia: vocês já beijaram na boca de uma pessoa e essa pessoa morreu de modo que vocês lembram de ter beijado na boca de uma pessoa, mas a pessoa já não existe mais, virou cadáver, explodiu depois de alguns dias dentro do caixão lá no cemitério, a sete palmos? O beijo dado não é mais recebido na imaginação de um ser vivo, mas apenas de um fantasma. É isso o que podemos chamar de um fantasma? Um beijo que perdeu o seu suporte vital na memória de um ente vivo? Então, o beijo não é mais compartilhado pela memória secreta do beijo, uma vez que apenas um dos beijantes está vivo para contar a história, não haveria ninguém para confirmá-la, não haveria nenhum vestígio de memória do beijo dado no suporte corporal da outra alma. O beijo então realmente existiu? A imagem do beijo dado ao ter perdido seu objeto é uma imagem válida da existência do beijo dado ou a evidência de que existem fantasmas?

Ele morreu.

Eu tinha um amigo que me dava carona. A gente bebia cerveja junto e ria das besteiras da selva social. Ele morreu. Nunca mais peguei carona com ele. Aliás, o desinfeliz morreu num acidente de automóvel, poderia ter me levado junto o desgraçado. Será que os mortos podem ainda rir das brincadeiras que fazemos com eles depois de mortos? Um morto é capaz de rir?

Como um filme de minha vida

Quando eu era menino, me ensinaram a matar passarinhos com a baladeira, principalmente, rolinhas, a depená-las, assá-las e comê-las. Os meninos dos sertões matavam a fome assim. Até hoje eu sei matar uma rolinha de baladeira para comer. Conhecimento útil. E as rolinhas são tão bonitinhas, não são? São fofas. E deliciosas. Quando eu era menino, um tio avô meu me ensinou como matar um bode, eu tinha 12 anos, foi o primeiro bode que eu matei, sangrei, aparei o sangue na bacia. Ele revirou os olhos enquanto estrebuchava-se diante da morte e de seu matador: o matador era eu. Depois me ensinaram a tratar, tirar o couro na ponta da faca, eu tirei bem direitinho, botar o couro para secar, esticado com uns pedaços de pau, limpar o bicho, salgar e fazer o churrasco. Quando eu servi o churrasco, os homens da minha família estavam orgulhosos de mim. Eu tinha aprendido o que todo homem da minha família sabia fazer. Isso foi nos sertões. Eu sou do sertão. Quando eu era menino, eu só podia caçar usando baladeira, matava as rolinhas para comer. Mas um dia, com 13 anos, depois que tinha aprendido a usar a faca amolada para matar um bode, os meus tios paternos e meus primos mais velhos me chamaram para a primeira caçada com os homens. Passamos três dias nas matas dos sertões. Eles me ensinaram a atirar de revólver, de espingarda doze, de socadeira eu já sabia, e me ensinaram a fazer uma tocaia, a se esconder na mata, a se comunicar sem usar palavras, a sentir o cheiro vindo com os animais, a procurar água salobra, e quais frutas selvagens podem ser comidas e quais não podem. Me ensinaram também que as cobras tem medo de gente, por isso fogem, elas só atacam quando a gente pisa nelas, a culpa da picada da cobra é do humano e não da cobra, aprendi também que os cavalos sentem as tocaias de bicho bicho ou de bicho gente. Aprendi a atirar correndo a cavalo, antes eu tinha aprendido a correr a cavalo sem nada, só no osso, usando as crinas como rédeas, é preciso falar na orelha do bicho, é preciso ter relação cognitiva com o animal para dar certo. Aprendi também a arrear os animais e como negociar a compra e a venda de armas de procedência para evitar armas ilegais, armas que já tiraram a vida de homens justos. Era assim no meu tempo de menino, virando rapaz, nos sertões. Pois eu sou do sertão. Eu ganhei de presente do meu pai minha primeira peixeira estilizada com cabo de madrepérola e capa de couro com 13 anos. Com 14 eu ganhei minha primeira espingarda. Ela ficava guardada debaixo da minha cama. Sim, eu sou dos sertões. Não é ficção. Nunca vou esquecer a primeira vez que tentaram me matar. Eu estava no clube com a moça. Fomos para o estacionamento do clube para namorar. Um homem chegou vindo das sombras e começou a gritar. Era o irmão mais velho da moça. A moça disse para eu sair dali. Ela e o irmão ficaram brigando aos gritos. Voltei para o clube. Estava lotado. O homem veio vindo na minha direção. Armado. Um dos meus primos mais velhos notou e se atracou com o homem no meio do salão, numa luta corporal, sem deixá-lo sacar a arma. Meu primo estava desarmado mas sabia lutar com um homem armado para não deixar o homem sacar a arma. Outra vez não deu certo e ele levou um tiro, mas isso foi outra história. Outro primo meu falou no meu ouvido para eu ir embora e rápido. Quando eu estava saindo do clube, o homem que tinha conseguido se desvencilhar da briga com meu primo, gritou pelo meu nome, eu parei e olhei para trás. Ele puxou uma pistola e apontou para mim. Saí correndo pelas ruas. Ele começou a atirar, as balas passaram zunindo pelo meu corpo, nenhuma pegou, foram vários tiros, fiquei sabendo que ele estava bêbado e tinha cheirado muita cocaína, não estava com a pontaria cem por cento, dizem que foi minha sorte. Pulei num canavial, fiquei a noite toda sendo caçado pelo homem, eu estava desarmado. Um amigo da minha família foi quem me salvou, depois eu conto como foi. Lá no sertão, o meu pai é conhecido como galego. E eu como o filho do galego. Quando eu tinha 12, 13 e 14 anos, meus escritores prediletos eram Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, mas o meu xodó era José Lins do Rego. O obra do José Lins é a que mais proximidade tem com o tipo de vida que aprendi junto a família do meu pai. Regionalismo na veia. Modernismo regionalista na veia.

Ao seu inteiro dispor

-- Professor, eu entrei lá no site do jeito que o senhor falou, usando a palavra-chave que o senhor indicou e não encontrei nada. --- Pois eu encontrei 2.789 referências com a mesma busca. --- Que bom, professor! O senhor tem muita experiência, né? Legal ter pessoas experientes nos ajudando. Pois faça uma lista de referências e me envie por e-mail, ok? Estarei aguardando, e coloque nas normas da ABNT. Marca de vermelho o que talvez eu precise olhar, de azul o que eu tenho de ler e de marrom o que não preciso nem checar, viu! --- Sim, senhor, querido orientando! A seu dispor.

8 de outubro de 2013

A partir de hoje, não leio mais o jornal O Povo, pois estão exigindo um cadastro para ter acesso à versão digital. Fiz a mesma coisa com outros jornais que passaram a exigir cadastro. Já somos cadastrados demais. Cadastrados pela polícia, pela receita federal, pelo exército, pelo Obama, e ainda ter que ser cadastrado pelos jornais? É o fim de uma relação. Fui leitor do jornal durante muito tempo. É uma pena, pois jornal depender de leitores cadastrados é o mesmo que depender de assinantes. Para medidas antipáticas, respostas antipáticas.

Tornar-se homem

Lá na minha família, no sertão, para virar homem tinha que aprender a beber, a fumar, a trepar, a dançar forró, a ter palavra de honra, a ser honesto, a saber atirar, montar a cavalo, não ter medo do escuro, mas ter cuidado com andar no escuro para evitar malfeitores, não roubar, não pegar nada que não é seu, a ter raiva de ladrão, a respeitar a quem se dá respeito, a evitar a vida desmantelada demais e a estudar muito. Fazer o quê, né?

Patético e sem esperança

Há algo de profundamente patético na minha existência, um patético que não consigo divisar através das muralhas de sonhos e fantasias que compõem minhas próprias banalidades. Mas é no delírio errante da longa viagem para o declínio que hei de criar marra para, ao menos, escrever a história da minha desesperança!

Leonardo de Nada

E lá onde não deveria ousar ir, é para onde me dirijo, com a impetuosidade dos inocentes e a cegueira dos iludidos. Mas não poderia deixar de ousar manter a ousadia de driblar os determinismos sociológicos que me aprisionam no lugar do nada. Lembrei que uma vez minha irmã foi numa loja comprar algo, uma loja metida a besta, e a vendedora perguntou o nome dela, ela disse: Mônica. Aí a vendedora perguntou de volta: Mônica de quê? Ao que ela simplesmente emendou, dizendo tudo o que estou querendo dizer há décadas: Mônica de Nada. Mônica de Nada, apenas isso. Leonardo de Nada.

Saturday, March 08, 2014

eu tomo literatura

Existe uma diferença entre uma vida merencória e uma vida de combate contra a melancolia. Faço da minha revolta pessoal o antídoto para essa patifaria que é viver na selva social. Prefiro chutar a canela de uns e outros do que tomar remédio tarja preta. E eu não tomo, eu tomo literatura.

Não tenho pedigree

Todo santo dia, eu me pergunto o que poderei fazer para minimizar o papel avassalador que a mediocridade ocupa na determinação do que eu faço, digo, escrevo e sou. Sempre tive horror que o núcleo medíocre de mim mesmo me tomasse por completo, fizesse de mim o completo idiota que não sou, sou apenas meio idiota. O medo de ser um idiota rematado sempre foi meu pior e inconfessável receio na vida. Tenho mais medo de ser mais medíocre do que já sou do que de me tornar pobre, louco ou criminoso. E é a afetação desse medo que me perturba o juízo. Tenho o passado condenado de quem não passa de mais um entre milhares de filhos das camadas médias inferiores. E o conteúdo e a forma da minha revolta são determinados por essa estreiteza do meu pertencimento de classe. Eu leio livros como quem quer se livrar de um destino social de funcionário público subalterno, como se isso fosse apagar a subalternidade da minha condição. É uma fantasia pessoal minha, sem a qual tudo desmorona, saber que pela relação um tanto pedante e superficial com o campo do saber eu possa me sentir menos destinado a ser um branco pobre de periferia, sem brilho na selva social. Eu canso de mim mesmo. Canso do meu pedantismo de intelectual, querendo se afirmar onde não representa nenhuma tradição, onde não se carrega nenhuma herança. Um dia desses um amigo de adolescência fez uma confissão numa mesa de bar que me arrasou: cara, fica todo mundo impressionado que hoje você seja professor da universidade, sabe, Léo! Porque você era o mais burro da turma. Em 1989, a gente querendo discutir a Perestroica e você não sabia nem onde era a Rússia direito. Era uma anta. Hoje virou o bichão. Ouvi calado essa admoestação do amigo. Se ele a disse é pela razão de ter alguma verdade que seja. A verdade que seja no caso é que é verdade sim que sou um recém-chegado na vida intelectual. Não tenho pedigree. Minha ancestralidade é toda analfabeta ou semi-analfabeta, o que não quer dizer sem sabedoria, é claro.

O lucro dos canalhas

Quem mais lucra simbolicamente com a crença segunda a qual "todos" são canalhas é o canalha mor. Se todos acreditam que todos são canalhas, essa crença naturaliza a condição e a atuação do canalha, como se fosse natural, normal, de acordo como é. Não é verdade que todos sejam ladrões, querendo desviar dinheiro público. Não é verdade mesmo! Há um monopólio cerrado dessa prática, são minorias poderosas e muito bem organizadas. Fiquemos atentos ao que os representantes do povo dizem. Muito atentos!

Nem que eu fure meus olhos!

A última coisa que eu quero na vida, e não estou dizendo que sou capaz de escapar dessa coisa que abomino, como o grande herói, é fazer parte daquela maioria que parece "gente satisfeita consigo mesma", como dizia Edgar Allan Poe. Posso não escapar, afinal ninguém escapa, mas brigar para escapar já é alguma coisa diante de quem não luta, não recusa, não grita, não esperneia por estar sendo posto na prisão sem muros da selva social. Nem que eu fure os meus olhos e fique louco, cego e surdo, deixarei de fazer o boicote autodestrutivo consciente de não pertencer à classe de indivíduos dessa "gente satisfeita consigo mesma". A crença na satisfação consigo próprio, além de arrogante, é a expressão de si como mercadoria, pois tudo o que diz respeito ao plano da satisfação ou da não satisfação implica a condição alienante do não-sujeito enquanto consumidor de mercadorias: uma mercadoria consumidora de outras mercadorias. Sejamos incompletos, ou seja, sejamos plenos. A incompletude e plenitude são a salvação da alma pela espiritualidade. Ninguém precisa de igreja para isso. Igreja é a negação da espiritualidade, está em função da mercantilização da crença na moral para a realização de vinganças e invejas.

Na cama com a analista

A única vez que eu tentei fazer análise na minha vida, acabei indo para a cama com a psicanalista: ela era tão linda! Ficava lá toda arrumada, cheirosa, elegante, inteligente, que boca, que olhar, e lá querendo me escutar, foi irresistível. Fatalmente, improvável. Eu estava livre e desimpedido (ou seja, terrivelmente só, abandonado, completamente abandonado e sem amor). Convidei-a para jantar e ela aceitou. Só teve um problema, ela era casada e não me disse, também não disse para o marido dela. Enfim. Adeus, Lacan!

Dando voltas (17 de novembro de 2013)

Fizesse sol ou chuva, muito ou pouco frio, um homem estava sempre a dar voltas, caminhando em torno das muralhas da cidade. Ele não respondia a nenhum aceno, a nenhum cumprimento. Andava completamente absorto em si mesmo. Um louco? Um desocupado? Alguém exercitando o corpo? Não, o homem "simplesmente" estava caminhando em torno da cidade, passando mentalmente a estrutura de uma sinfonia para atingir sua forma perfeita, ficava corrigindo mentalmente a estrutura sinfônica, e após ter mentalmente o modelo perfeito da sinfonia, ele a colocava no papel, começava a escrevê-la no papel apenas de enorme esforço mental. O homem era Beethoven. (Walter Benjamin reconta esta história que ele leu no Grande Dicionário Universal, de Larousse). A conclusão a que Benjamin quer nos levar é que nem sempre quem parece não estar ocupado está desocupado e que muitas vezes quem parece estar muito ocupado não está ocupado coisíssima nenhuma. As coisas são relativas.

Segunda-feira pela manhã no trabalho (18 de novembro de 2013)

Vou contar um segredo: há pessoas que fazem uma mise en scène toda segunda de manhã e toda sexta-feira. Segunda pela manhã aparecem bem cedinho na repartição seja pública ou privada (trabalhei nove anos em empresas privadas e é para muitos o puro universo da enrolação), como se estivessem a abrir a empresa e na hora do almoço, somem. Voltam então na sexta, final de expediente, para fechar a empresa. Essas duas imagens criam uma fama poderosa. As pessoas começam a dizer: olha como fulano é trabalhador. Toda segunda é o primeiro a chegar e toda sexta é o último a sair. Mas é encenação, entende? Por outro lado, há quem trabalhe muito e por não fazer marketing pessoal e encenação disso passa por ausente. Fica a dica.

Sunday, February 23, 2014

Do diário de campo do professor, coisas odiosas de se dizer.

DIÁLOGOS 1 -- Você pode me passar referências sobre o tema tal? -- Me envia aí o que você já achou para não haver retrabalho. -- Mas eu não procurei nada. -- Ah, tá! DIÁLOGOS 2 -- Você pode me passar referências sobre o tema tal? -- O que você já levantou pelo Portal de Periódicos da Capes? -- Nada, nem olhei lá. -- Ah, tá! DIÁLOGOS 3 -- Eu procurei, procurei e procurei lá no Portal de Periódicos da Capes e nada encontrei, você pode me passar as referências para o tema tal? -- Quais palavras chaves você usou? -- Tais e tais. -- Beleza, só um instante. -- Ok. -- Ei, coloquei lá as palavras chaves que você usou e encontrei 51 artigos sobre o tema tal. -- Que bom, professor! Pois faz o download de tudinho, coloca numa pasta e me envia, estou aguardando tomando um sorvete de cajá.

17 de agosto de 2013

Pessoal, depois de muitas reclamações que pessoas importantes enviaram in box, pedindo que eu me comportasse de modo condizente com a moralidade de um professor da universidade me pediram que eu voltasse a falar da Livraria Cultura, dos Cafés, dos Restaurantes franceses e do Progresso da Civilização no Ceará. Disseram que um homem branco como eu deveria defender a civilização e não me relacionar com favelas e pessoas misturadas. As pessoas são cultas e ouvem jazz e ouvem Debussy e leem romances em várias línguas, são indivíduos blasés, cosmopolitas, visitam Paris, Nova York, Londres e Sobral, e são apoiadoras do governo e querem que fiquemos em silêncio, em nome dos bons costumes do apartheid amoroso da elite cearense. Em nome deles, vou comer churros e tomar uma cachaça, lendo Thomas Mann, que eu sou muito obediente. Boa noite!

O prazer com a crueldade e com a destruição.

Duas prerrogativas humanas que considero essenciais para a experiência do existir: queimar cartas e rasgar fotografias ou então queimar fotografias e rasgar cartas. Destruir a memória na sua materialidade mais crua é um elemento chave da economia do prazer.

Saturday, February 22, 2014

18 de novembro de 2013

O rapaz estava defendendo com unhas e dentes uma forma de radicalismo neoliberal onde o comportamento egoísta no mercado em busca da maximização do lucro é a base do negócio. Ele, então, veio me abordar no corredor, pedindo indicações de leitura para ampliar conhecimentos sobre a relação entre cultura e economia. Expliquei para ele que ele não poderia me abordar no corredor, pois eu estava no meu intervalo, o que é garantido pelo meu sindicato, 10 minutos de intervalo entre uma aula e outra. E que se ele atrapalhasse esses dez minutos de intervalo, ele estaria diminuindo a maximização do meu descanso, antes de voltar para sala, que eu não lucraria em conversar com ele no corredor e que ele não me abordasse mais e procurasse se matricular na disciplina de algum professor que fosse oferecer referências para o que ele estava precisando. Ele me achou uma pessoa dura, disse que tínhamos que ser mais humanos uns com os outros. Humanismo neoliberal? De onde você tirou isso, perguntei-lhe sem obter nenhuma resposta de volta, pois dei as costas e o ignorei como uma coisa, afinal, não tenho nada a lucrar com ele, no dia que tiver, ele vira commoditie, quem sabe ser contratado pela empresa dele para dar uma conferência, algo que envolva dinheiro, é claro.

21 de novembro de 2013

Tenho perguntado individualmente a pessoas que se acham religiosas qual é a finalidade da vida. As pessoas respondem de tudo. Respondem que é ter boa saúde, que é ser feliz, que é ter uma família, que é viver em paz, que é ganhar dinheiro, que é ser rico, etc. A única coisa que essas pessoas que se dizem religiosas nunca respondem é: promover a felicidade eterna, o gozo de Deus. As pessoas religiosas perscrutam muito pouco os sentidos de sua fé, agem como pessoas ateias, apesar de se dizerem religiosas. Cristão para mim tem de se autoflagelar com um chicote todo dia. Lutero, por exemplo, levava 15 chicotadas todo dia de manhã. Isso é ser cristão, é isso o que eu respeito como cristão. A devoção, o ascetismo, a mística, a autopunição infinita. O resto é conversa para boi dormir. Sinto muito cristãos, vocês não têm quase nada de cristão. Sinto muito.

Sunday, January 26, 2014

Um início

Chega um tempo em que o homem não precisa mais de peitos a não ser os seus próprios, pendurados, chacoalhando, sendo apalpados com graça pelos risinhos das amantes.

Saturday, December 28, 2013

Voltar à normalidade?

Voltar à normalidade? Normalidade de quem? Normalidade do ponto de vista de quem? Para mim, os governos são profundamente anormais, irresponsáveis e irregulares. Não vejo normalidade neles. "Normalidade" da opressão? É isso que vocês defendem? Que voltemos à "normalidade" ditada pelos opressores? Sei. Estou ligado.

Em 4 de maio de 2013, pelo FB, uma história já mil vezes contada e recontada. Cansei.

Uma vez o cara estava conversando comigo na cantina da universidade. Ele falou assim: vocês que são anti-capitalistas são uns babacas. Eu sou é a favor do lucro, do capitalismo e do sucesso das empresas. Eu fiquei atônito, só ouvindo aquele gorgolejar. Depois de um tempão, o mesmo cara chegou pra mim dizendo: Amigo, estou precisando de você, repasse-me umas indicações de livros valiosos e centrais para eu desenvolver minha "produção". Perguntei: o Senhor está querendo me propor algum contrato de prestação de serviços educacionais? Ele fez uma cara de "não entendi". Aí fui mais claro: Como o Senhor é a favor de distribuir competitivamente ganhos por fornecimento de mercadorias, fiquei atento, pois a informação é hoje a principal mercadoria, quando o Senhor me tachou de anti-capitalista salafrário e incompetente, o Senhor disse que não aceitava nada que não fosse na dimensão contratual de compra e venda de serviços ou produtos, por que o Senhor quer agora minha amizade? Por que o Senhor quer a amizade de um agente anti-capitalista, pedindo-me fornecer serviços e produtos sem contrato comercial prévio? Eu quero ser capitalista com você? Ele ficou ofendido: disse que eu era insensível e que estava desumanizando a relação. De minha parte, fiquei lembrando dos ensinamentos da filosofia cristã antiga, segundo a qual não é possível exigir dos outros aquilo que não se pode exigir de si próprio, não estar em contradição consigo mesmo. É por isso que eu acho estranhíssimo quando pessoas defensoras do capitalismo se aproximam pedindo oferta de serviços educacionais na "amizade". Os mesmos que defendem o acirramento do contrato de compra e venda como vetor da vida anti-social são os que, quando necessitam, pedem socorro aos amigos. Um bando de filhos da puta. E que Deus seja louvado! Como na moeda americana.

SANTIAGO DE CHILE, 02 DE OUTUBRO DE 2013

Numa cidade onde não é permitido a população beber nas ruas, os bêbados aparecem por aí, vomitando, tropeçando e fazendo imprecações a si mesmos. Há também os bêbados que levam tombos em frente às igrejas, sob o olhar obtuso dos carabineros. Uma população contida só pode ser explosiva. Santiago de Chile é um lugar-terremoto. Desde o primeiro momento, fiquei cabreiro, no meu estado de cabra mais atento, com tantas bandeiras flamejantes da nação. É muita nação demais. O custo de vida, dizem as pessoas do lugar, está pela hora da morte. E enquanto isso a campanha presidencial clama por uma "nova maioria", com mulheres brancas assustadoras em fotos de photoshop. A cidade se livra de negros e índios de um modo quase perfeito. Até o casal de rapazes se beijando em praça pública é recatado. Há um catolicismo exacerbado. Na catedral, fala-se de política, pois "el amor es más", e a igreja é capaz, segundo ela própria anuncia no seu templo, de trazer paz e reconciliação ao povo de Chile. Algumas pessoas vomitam nas ruas. O vômito fica lá, imagino que muito gelado. Outras pessoas esperam no ponto de ônibus com rostos que não nos deixam adivinhar a qualidade humana do lugar para onde estão se dirigindo. É como se estivessem num cemitério ao ar livre, zanzando entre as lápides e as catacumbas. O taxista de 64 anos celebra o terremoto como o acontecimento econômico mais importante do desenvolvimento da nação. Segundo ele, os cinco terremotos que ele sobreviveu dinamizaram a economia do país, pois obrigam o dinheiro a circular e a gerar empregos para a construção na destruição. Estranha economia essa do Chile. Aliás, as universidades também. Em uma delas, há um prédio antigo, pomposo, com imagens de padres da igreja, onde as lojas, as boutiques, são tão sofisticadas quanto as de um shopping center, onde as famílias brancas do país se orgulham de possuir um arranha-céu como os de São Paulo e Nova York, mas quase ninguém fala dos acampamentos de indigentes, pois eles atrapalham a ideia de que não há pobres no Chile. Mas há indigência. Há também ladrões tentando bater a carteira dos turistas. Há muito Brasil no Chile, apesar do Chile parecer desejar reciprocidade com o Canadá, em primeiro lugar.

Monday, November 11, 2013

Algodão doce!

Há 4 anos, faço uma mesma pergunta sobre o CE: quantas investigações estão sendo feitas sobre o atacado de armas de fogo? Zero interesse. Coisa mais difícil de se pautar no CE é debate sobre atacado de armas de fogo, ninguém quer chegar lá, mais "neutro" falar dos bairros. Queria ver o governo lançar mapa dos mercados ilícitos de armas de fogo e colocar na imprensa. Colocar os bairros é muito água com açúcar.

Tudo é líquido!

Secretaria da Fazendo do CE envia release para o jornal dizendo que sonegação no Estado é de 6 milhões por mês e os "jornalistas" nem para checar que em 1995 era, segundo PF, de 45 milhões, basta consultar jornais da época. Estranho não é? Tanto progresso, tanto PIB, e a sonegação diminuiu, não é? Motivo de orgulho? É preciso aprender a ler o implícito de um jornal para não virar massa. Só para vocês terem uma ideia da relatividade do dado, a Polícia Civil divulgou há uns dois anos que o varejo do crack (o varejo) girava 5 milhões por mês. A polícia civil não disse que outros 5 milhões não giravam pois iam para contas "amigas". Então, apenas o crack (o varejo), em estimativas oficiais, acrescentando-se o valor não oficial do arrego, gira 10 milhões, digamos, por mês. Aí a sonegação no Estado inteiro, com empresas que movimentam até 100 milhões de dólares por dia (estou me referindo a uma única empresa, ok? 100 milhões não oficiais por dia, há empresa que movimenta isso, PF sabe) financiando o governo, é de 6 milhões, é? Querem contar piada ou fazer jornalismo?

Enquanto isso, a vida das celebridades...

E as celebridades (o que é uma celebridade?) estão desabafando nas redes sociais virtuais. E a massa tendo o desejo apontado pelo desabafo da celebridade. E a gente tem que começar a segunda-feira do mesmo jeito que passou o sábado e o domingo: na precariedade de quem precisa estudar, pesquisar, escrever, uma vez que não dispomos de sistemas confiáveis de signos para apontar o caminho do sentido da existência. É preciso partir do lugar nenhum para lugar algum, e ser minimamente convincente uma vez que do declínio nutre-se a aurora da vida, e de incerteza em incerteza, nesse anti-delírio, ainda somos etiquetados de seres delirantes. O único delírio de que padeço é o delírio invertido: em vez de certeza absoluta, sou movido por dúvida radical.

Lesbofobia mata.

Até quando teremos que lidar com o absurdo de mais vítimas fatais por causa de sexismo, lesbofobia, homofobia e transfobia? Uma garota de 16 anos, descobrindo o amor com outra garota, sendo brutalmente impedida de vivenciar suas descobertas, seu direito à diferença, esmagada pela própria família, pela mãe, pelo peso do ódio às diferenças, lançou-se do alto de um edifício num momento de dor, sofrimento e perturbação provocados por falta de reconhecimento e de apoio da própria família neste final de semana em Fortaleza. Essa imbecilidade que faz vítimas entre os membros da própria família precisa parar. É inaceitável e intolerável qualquer forma de preconceito. Toda forma de amor tem direito à vida, à liberdade e ao prazer de existir com alegria.

Garrafas vazias de uísque.

As garrafas esvaziadas de uísque possuem um preço nas favelas para os falsificadores de uísque, uma garrafa pode custar até cinco reais, dependendo do estado em que se encontra. Uma garrafa vazia de uísque, quando impecável, ganha valor para a falsificação do uísque. Uma garrafa de uísque falsificado pode voltar para uma prateleira, de onde se surrupia uma garrafa de uísque original, supondo-se tratar de que seja original, ou seja, uma crença na originalidade do uísque que, por sua vez, gera um marginalismo nas franjas do real. Se alguém leva uma garrafa do uísque falsificado na favela (da favela para o bar, para o supermercado, para a casa do patrão, para o buffet, etc) e traz de lá uma garrafa fechada do original, realizou-se o preço que redireciona um importante e lucrativo circuito comercial informal e ilícito. (Para o amigo Carlos Augusto Lima).

O sentido de revisar trabalhos

Revisar trabalhos de orientandos exige um página a página, detalhe a detalhe, que não diz respeito apenas ao plano de conteúdo. O que está em questão na revisão é a formação intelectual ampla, o manejo dos repertórios teóricos, a inventividade quanto ao método proposto, a formalidade acadêmica, a normatização do texto, os elementos que dizem respeito à lógica da descoberta, as potencialidades, é, praticamente, uma análise do processo de construção de si, enquanto pesquisador ou pesquisadora, por meio do trabalho a ser realizado. É uma atividade altamente complexa e absorvente o ato de revisar o trabalho do orientando.

Minha empresa

Uma vez uma pessoa burocrata que encontrei nessas reuniões interdepartamentais da administração superior, uma figura que se dedica inteiramente a assumir posições de mando no espaço institucional, me disse que o problema da universidade era que tinha muita gente com a mentalidade de estudar, dar aula, pesquisar, orientar e publicar, levando vida de intelectual, que era isso que fazia a universidade ficar para trás no jogo das posições do campo do poder mais amplo. Que se houvesse menos intelectual na universidade, a empresa ia decolar, ia fazer várias parcerias com mercados públicos e privados e ia dar um show, ia ser de sucesso, contribuindo para o "progresso" da economia. Mas "minha empresa", ela chamava a universidade de "minha empresa", é cheia de intelectual que vive estudando e pesquisando e dando aula, tudo com a cabeça nas nuvens, isso é o que faz o "nosso" atraso. E eu escutando juntamente com outros colegas aquela ladainha de uma pessoa que quer ser reitora da "minha empresa". (esqueci de dizer, fui olhar o Lattes da tal pessoa: nunca orientou monografia, nem dissertação, nem tese, nunca publicou uma artigo científico, não participa de eventos acadêmicos, etc. Uma pessoa que odeia a vida acadêmica e quer ser "chefe" dos acadêmicos e vai acabar sendo pois é indicação do deputado e do governador).

Dilema? Dilema nenhum.

Quanto menos atendo a telefonemas, quanto menos respondo a e-mails, quanto menos respondo às solicitações do mundo para exercer o poder, principalmente, em reuniões e mais reuniões da tecno-burocracia universitária, mais produtivos são meus dias de trabalho: as aulas, as pesquisas, as bancas, as orientações, as leituras e as publicações. De um lado, não responder aos apelos de desejo do mundo exterior é evitar as transferências deles advindas, o que melhora a saúde do ser errante e errático, sair do rebanho, sair do grupo. De outro lado, não responder e-mails, perde-se rede de poder, a imagem pública é deteriorada, e por mais produtivo que se seja, desenvolvendo-se o trabalho final com qualidade e intensidade, é-se punido por não pagar pedágio às redes, pois os que investem nas redes, que fizeram opção pelo poder e não pelo saber, não admitem que o outro possa ter qualidade lá no lugar onde o poder não lhes permite ter, ou melhor, onde a dedicação às fantasias de poder não lhes permite ter outros objetivos que não sejam colocar tudo em rede de poder. Quanto mais se tem capacidade de apresentar resultados da atividade-fim com qualidade, mais se perde lugar. Quanto mais se briga por lugar, menos capacidade se tem de apresentar resultados da atividade-fim que não sejam resultados do acúmulo de posições de mando. Estudar ou mandar? Pesquisar ou mandar? Ler ou mandar? Publicar ou mandar? Os que optaram por mandar possuem a capacidade de tornar invisíveis os que se recusam a estar no rebanho. Ficar fora do rebanho é declinar para uma morte solitária nas montanhas, como lobo solitário, como lobo da estepe. Mas de meus instintos selvagens, da busca por minha libido, e da birra contra o sentimento de rebanho, disso não abro mão, nem que fure meus olhos.

O Ceará que nos representa!

Achei a cara do Ceará contemporâneo o lutador cearense de MMA que, no campeonato, foi nocauteado em menos de 40 segundos, demonstrando profunda incompetência por ter baixado a guarda de modo arrogante, e depois, falta de profissionalismo e de autocontrole, ao ter esmurrado a parede no vestuário, descarregando energia psíquica retesada pela frustração de estar muito distante daquilo que se imagina, quando se vê imaginariamente com dinheiro, carros, mulheres, etc. É a cara do mainstream cearense. Somos fantasiosos demais, competentes de menos e ainda por cima, faltamos com o equilíbrio emocional para saber lidar com nossa posição dependente e subalterna. O lutador incompetente e desequilibrado que o Ceará enviou para a competição é a única entidade que efetivamente hoje nos representa no Ceará. E sendo otimista.

Friday, November 08, 2013

Meu problema com o telefone.

Um médico cirurgião entra numa sala de cirurgia depois de todo um procedimento de preparação, toda uma profilaxia, uma organização de equipe, um ritual complexo. O paciente aberto, cortado sobre a mesa, o médico cirurgião com as duas mãos ocupadas, segurando ferramentas e afastando tecidos, com muito cuidado para não cortar indevidamente vasos sanguíneos, e cauterizando aqueles que é necessário cortar, enfim, são horas e horas de concentração, de muita atenção, de cuidado máximo. A atividade fim do médico cirurgião é fazer isso que ele está a fazer. Nunca ninguém pediria que ele deixasse de fazer o que está fazendo para qualquer outra coisa que pusesse em risco a vida do paciente e a finalidade técnica do trabalho. Deu para entender a questão? Vão telefonar para a casa do caralho! Telefonem para a casa do caralho, mas deixem-me terminar a cirurgia, ela é longa, as palavras estão escorrendo pelo corpo do texto. É a famosa produção, a famosa produtividade. Para quem trabalha com telemarketing, sinto muito, eu não trabalho com Serviço de Atendimento ao Consumidor. Telefone tocando do meu ódio! Não há nada que me deixe mais de bom humor do que preparar com gosto uma aula pra bichinha sair caprichada, como manda a ética do meu contrato de trabalho como professor. PRECISANDO DE UMA DICA SOBRE O USO DA FERRAMENTA ABAIXO, QUEM QUISER ME TELEFONAR PARA ME AJUDAR NA PROBLEMATIZAÇÃO DESTA FERRAMENTA DE OPERAÇÃO, ESTOU AGUARDANDO, ANSIOSAMENTE O TELEFONE TOCAR. "Quando Lévi-Strauss diz, no prefácio do Cru et le Cuit, que 'procurou transcender a oposição do sensível e do inteligível colocando-se logo ao nível dos signos', a necessidade, a força e a legitimidade do seu gesto não nos podem fazer esquecer que o conceito de signo não pode em si mesmo superar esta oposição do sensível e do inteligível" (Derrida). Vixe, fui frescar, agora estão ligando é de número confidencial de dois em dois minutos. Me lasquei. Não devia ter frescado, né? Deus pune. Estou atendendo telefonemas assim agora: -- Alô, Senhor Leonardo? -- Sim, falando com ele, pois não? -- O Senhor pode falar? -- Agora, eu não posso, pois estou fazendo amor, pode ligar depois da minha morte, por ocasião do meu velório? Na última segunda-feira, um celular desconhecido ligou 17 vezes ao longo do dia para mim. Eu não atendi, é claro, estava palitando os dentes e coçando a sobrancelha. No dia seguinte, o mesmo número ligou 12 vezes. Fiquei curioso, tirei o palito do canto da boca, limpei a babinha característica de quem dorme muito, e atendi ao telefone, o primeiro telefonema em 7 dias. Um sujeito de voz esbaforida disse: professor Leonardo, aqui é da TV Novos Tempos, o senhor pode vir dar uma entrevista aqui no estúdio? E eu: sobre o que é mesmo essa entrevista? Ele: só um minuto (gritou para alguém perguntando sobre o que era a pauta mesmo), enquanto ele se informava, eu desliguei o telefone calmamente e voltei para a poltrona para coçar a sobrancelha e morder meu palitinho de dente. O mais interessante é quando um número qualquer já ligou mais de dez vezes sem parar para você, e você evitando atender, e em determinado momento o telefone toca e o mostrador avisa que é um amigo querido, aí você atende, então, o amigo querido diz: peraí, Leonardo, tem uma pessoa aqui do lado lá da cúpula do Tribunal de Justiça, querendo falar contigo para te fazer um convite para vir trabalhar de graça num evento ridículo que vai ter aqui e passa o telefone para a autoridade na maior desfaçatez do mundo. O que fazer com um amigo querido que faz esse tipo de sacanagem? Apagar da agenda do celular e sumir do mapa. Se até no amor, as pessoas se abandonam, imaginem na amizade com uma pessoa inconveniente, é matar e adeus, nem no velório eu vou. Em relação ao meu problema gravíssimo com telefones, fiquei mais aliviado, depois que fiquei sabendo que: "Freud, ao que parece, não gostava de telefone, ele gostava, contudo, de escutar. Quem sabe ele já sentisse, previsse que o telefone é sempre uma cacofonia, e que o que ele deixa passar é a voz ruim, a comunicação falseada?" (Roland Barthes). Droga, existe algum tipo de bruxaria nesse lugar. De repente, meu telefone começou a tocar sem parar, um número anônimo, desconhecido, de alguém que não me ama, ninguém que esteja na função de Mãe. Eu só aceito telefonemas na função de Mãe. Será que o pessoal mais sofisticado que já usa Iphone já possui na programação a função de Mãe? Devo comprar no mercado das mercadorias essa função de Mãe?

Thursday, November 07, 2013

O sorriso de uma mercadoria.

Gostaria de compartilhar uma emoção que eu senti hoje, foi algo único. Eu estava caminhando pelas ruas da cidade, quando, de repente, eu vi uma mercadoria! Foi um momento encantador, acho que fiquei com um fetiche, tão deslumbrante era a imagem.

argumento

A estudante de letras, ex-crente, ex-evangélica, casou com um pastor estelionatário que a abandonou para ficar com a viúva de um ex-deputado que prometeu lançá-lo na política. Ela precisou ter muita força de vontade para se reerguer. Hoje, ela é puta de um italiano que trafica pó nos bares da cidade, fala italiano melhor do que ele, o curso de letras era muito bom.

Falar mal é uma moeda.

Já falei mas vou falar de novo. Tinha um sujeito que metia o pau na prefeita. Para onde ele ia, ele esculhambava com ela. Ele era formador de opinião. Multiplicava. Falava horrores da prefeita. Coisas baixas. Muito baixas. Ele conseguiu uma consultoria, ganhando 5 mil sem fazer nada para ele e outra de 5 mil para a esposa dele. Passaram anos levando essa boquinha de dez mil para não falar, parar de criticar. Aliás, ele começou a fazer elogios à prefeita que eu nunca tinha escutado nem da mãe dela. Hoje, o mesmo sujeito e a mulher dele, depois de esculhambarem muito o prefeito, foram chamados de novo para compor as tais consultorias. Tem gente que vive disso, não é? E dá certo, afinal, uma família ganhar dez contos por mês só para parar de falar mal é nada mal para os canalhas, não é? Esse lance de ameaçar para conseguir consultoria é de praxe para quem aceita, não é?

Hiper-masculinidade no mundo acadêmico.

Os homens no mundo acadêmico gastam mais tempo mijando fora do pinico, fazendo competição para saber quem mija mais longe, brincadeira de meninos, recortando e generalizando (fazendo o gênero perverso, o gozo perverso) a favor de espaços e formas de socialidade masculina, do que estudando e pesquisando. A questão principal passa a ser quem é o pica grossa que vai mandar no bando de irmãos. Quem vai ser o bichão. Me faz lembrar de um rapaz, nascido e criado na favela, que ficava puto quando alguém dizia que a rapaziada da favela só sabia pedir grana para quem era de fora. Ele tinha ódio de quem fazia essa sugestão: de que o pivete é pidão. Uma coisa tem a ver com a outra não é? Minhas pesquisas de campo têm me propiciado aprender alguma coisa sobre a forma-favela da universidade e sobre a forma-universidade da favela.

Procedimento de trabalho

Procedimentos de trabalho: toda semana, escrevo um texto inédito de 10 páginas e levo para alimentar os debates em sala de aula. Às vezes, não consigo escrever dez, mas escrevo cinco. Na pós-graduação, terei 16 encontros no semestre. Ou seja, no final do ano, tenho entre 80 e 160 páginas inéditas, escritas e discutidas em sala de aula, sobre o campo de problematização do curso. Neste semestre, estou ministrando Estratégias Discursivas de Poder. Além de usar esta produção na próxima edição do mesmo curso como material didático, daqui a dois anos, fazendo a transformação de uma turma em outra, consequentemente, de um educador em outro, vou elaborar um ensaio teórico para publicação de um artigo sobre a questão central da disciplina. De dois em dois anos, surge um artigo novo. Em dez anos, um livro. Vou fazer isso com Estratégias Discursivas de Poder e também com Michel Foucault e a teoria social contemporânea (os dois cursos para a pós).

Um diário de professor

Estamos tentando fazer uma mudança na universidade para que as disciplinas de 4 créditos não sejam mais repartidas em dois dias, como de costume. Seriam sempre uma manhã ou tarde ou noite. Na prática, isto já é possível. Por exemplo, tenho concentrado minhas aulas neste semestre na sexta-feira, 8 horas de aulas ininterruptas, de 14 horas às 18 horas, na pós-graduação (mestrado e doutorado) e de 18 horas às 22 horas, na graduação. Às terças-ferias, de 14 horas às 18 horas, há uma reunião obrigatória de departamento, colegiado da pós ou de área ou do colegiado da coordenação. 12 horas de sala de aula mais a reunião obrigatória. Na terça-feira pela manhã, de 8 horas às 12 horas, faço atendimento de orientandos. Na terça-feira à noite, repito, concentrando três expedientes num único dia. Na sexta-feira pela manhã, antes da tarde e noite de aulas, escrevo toda semana um texto de 5 a 10 páginas com minhas problematizações para levar para sala de aula, ou seja, ao final de 16 encontros do semestre, tenho entre 80 a 160 páginas sobre o curso, o que uso como material didático na próxima edição dele, e também para publicar como artigos e depois como livro. As coisas estão se organizando. Sábado ou é trabalho de campo ou é produção de artigos, e há uma reunião de final de tarde no sábado que estou fazendo na minha residência com a equipe de bolsistas de iniciação científica que coordeno. Segunda-feira pela manhã, há uma reunião da coordenação da pós-graduação, da qual sou membro. Segunda à tarde e à noite, preciso revisar os textos de orientandos para poder encontrá-los na terça pela manhã. Uma média de 150 páginas por semana de revisão de textos. As leituras de teses, dissertações e monografias para bancas ficam diluídas e precisam ocorrer ao sabor das datas de defesa. Nesses momentos, é preciso parar tudo para fazer essas revisões de formação final que são um momento central da formação de recursos humanos (graduados, mestres e doutores).

Sunday, November 03, 2013

O amor

Tirante as dimensões espirituais, psíquicas, financeiras, sociais e políticas, sou sim um indivíduo que vive em uma situação confortável. O conforto é a alegria do pobre: o amor.

Minha vida de cachorro

"We bring to life what is hidden under the words; we put our thougths into the author's line, and we establish our own relationship to other characters in the play, and the conditions of their lives; we filter through ourselves all the materials that we receive from the author and the director; we work over them, supplementing them out of our own imagination" (Stanislavski). Não estou aqui com minha linguagem ordinária. Estou aqui na fala da linguagem (ou pelo menos, na tentativa de estar na fala da linguagem). O sujeito da linguagem aqui é merencório e não vale a pena ser performado, o que se performa é o efeito de um sujeito de fala que na verdade está subsumido pela fala da linguagem ela mesma).

Saturday, November 02, 2013

Essa necessidade.

Essa necessidade de escrever no FB (essa necessidade de me expor) é algo que me causa muito sofrimento psíquico, além de ser já sintoma de outras camadas de sofrimento psíquico que trago comigo desde a mais tenra infância. Aliás, desde o nascimento, o desgraçado do médico quebrou minha clavícula durante o parto. Depois de três dias de choro ininterrupto, de muita dor, a minha querida avó materna, Josefa, ao me dar banho, percebeu que minha clavícula estava quebrada. É por isso que não consigo parar de escrever no FB. Preciso expor a dor de na dor ter vindo com mais dor ao mundo. Mas cá para nós, é bem mais seguro ser espectador, não escrever nada, nunca se expor, e permanecer na dor calada, contrita, sem verborragia. Em vez de verborragia, eu pensei em escrever hemorragia. E ao escrever hemorragia, lembrei que tenho muito medo de ter hemorroidas e que agora os exames de próstata precisam ser regulares, pois de câncer de próstata, nos membros homens (sem trocadilhos) da minha família paterna e materna, está cheio. Por isso, estou escrevendo este recado de utilidade pública: cuidem de serem complacentes enquanto espectadores, não se exponham ao ridículo de quem escreve para se expor, previnam hemorroidas e câncer de próstata, seguindo os modelos preventivos de saúde, divulgados pelo governo das almas, nem tudo que vem do governo é ruim, só quase tudo. E para finalizar, abraços, pois vou entrar numa reunião já que vai de 14 às 18. Hora do almoço.

Thursday, October 31, 2013

O vigia do prédio...

O vigia do prédio em frente de onde eu moro que passa a noite armado, com um cachorro aos pés dele, vigiando a entrada e saída de automóveis do condomínio defronte onde moram famílias de alto padrão aquisitivo que escutam suingueira, funk e pagode em festas caríssimas e bregas que incomodam a vizinhança toda, pois bem, o vigia do prédio passa a noite ou escutando jazz ou música clássica no celular dele. Um dia ele estava escutando Carmina Burana, outro dia Mozart e frequentemente ele escuta muito jazz. Ainda não conversei com ele para saber como ele adquiriu tais repertórios e recursos tão contrastantes: refiro-me à arma, ao trabalho como segurança privado, mas também aos patrões que estão cada vez mais endinheirados na mesma proporção em que assumem repertórios que são associados ao gosto popular. É muito interessante esse conjunto de contrastes.

Anatole France

"O único conhecimento exato que existe é o do ano de publicação e o do formato dos livros" (Anatole France apud Benjamin). Muita gente não gosta, mas Le Crime de Sylvestre Bonnard, de Anatole France, me marcou. Talvez por causa do teto de mil livros.

Wednesday, October 30, 2013

Um segredo entre especialistas.

Vou contar um segredo para vocês a respeito do funcionamento da esdrúxula comunidade acadêmica: uma parte considerável de meus colegas pesquisadores acha um verdadeiro absurdo não concentrar a comunicação intelectual entre especialistas. Preferem a confraria de especialistas. A comunicação com não-especialistas é considerada um excesso de mundanidade, algo que não contribui para a "verdadeira" tarefa que é produzir academicamente a partir de relações estritamente acadêmicas com especialistas da sua área de conhecimento. A confraria da qual faço parte também não gosta que contemos esses segredos, é percebido como uma traição. Eu gosto tanto de estar entre especialistas (sociólogos, antropólogos, politólogos), quanto especialistas de outras áreas de saber, incluindo especialistas não-acadêmicos e, principalmente, gosto de conversar muito com pessoas comuns, não-especialistas, ou melhor, sábios do viver. Daí minha paixão pelo trabalho de campo etnográfico: visto por outro ângulo, um modo de fugir ao convívio da comunidade de especialistas da qual se faz parte, pelo menos por interregnos de tempo. Mas que fique em segredo, ok?

Consumidores virtuais

Vocês também estão notando que há uma enxurrada de publicação sugerida no FB, uma intensificação de fluxos de mensagens pagas com finalidade comercial? Está mais comercial o fluxo. Cidadão ou consumidor? Consumidores e cidadãos? Lembrei do Canclini. Querem esmagar esferas, espaços e arenas públicas, não é? O consumidor é alguém a ser satisfeito ou não. Mas a satisfação ou não é algo que não diz respeito ao sentido da vida. Mercados nos anestesiam com mercadorias narcotizantes, estimulantes, é uma economia de desejo muito líquida, temos que fazer a crítica à economia política do desejo. Aí é Débord, é Benjamin, Bauman que não gosto muito, e nós mesmos. Não se contentar em estar satisfeito ou insatisfeito diante do consumo de mercadorias é o núcleo do desafio ético. A eticidade é a invenção de si para além da condição de consumidor. O consumo gera significações, pelos usos, mas, por outro lado, engole a chave de leitura do produto que vem junto à mercadoria, quase sempre embutido em seu design. Questões para pensarmos.

Tuesday, October 29, 2013

E a viatura invertida

Voltei com uma baita crise de sinusite de São Paulo. As ventanias frias castigaram a cidade. Lembro que estava passando na rua, em direção ao hotel, e achei muito simpático da parte dos rapazes que estavam avisando aos transeuntes e aos motoristas que um automóvel do Estado Democrático de Direito tinha sido lançado na rua pela força dos ventos. Ficaram lá acenando com as bandeiras para que a gente tomasse cuidado. Esses meninos são um exemplo de cidadania para o nosso país.

No batente com ódio do telefone que toca.

Ontem, entre 9 horas e 13 horas, estive numa reunião de trabalho. Depois, de 14 horas às 18 horas, revisando um livro para publicação. De 18 horas até duas da manhã reescrevendo a introdução do livro. Overdose de computador. Ao longo do dia, meu celular não parou de tocar, sete pessoas ligaram para mim insistentemente, cada uma com mais de 7 ligações. Depois de ter cumprido todas as minhas obrigações profissionais, realizado as metas de produção do dia (o que não inclui serviço de atendimento de telefonemas), resolvi às duas da manhã, horário livre, horário de recreio, ligar para as pessoas que tinham passado o dia ligando pra mim pra saber o que elas queriam. Fiquei ligando direto. Umas não atenderam, outras desligaram na minha cara, outras atenderam e me trataram mal. Fiquei sem entender nada. Eu nunca ligo para ninguém. Quase nunca, aliás. Detesto me comunicar por telefone. No dia que estou livre, na hora que estou no intervalo entre um dia de trabalho e o início de outro, eu ligo para as pessoas que se acham no direito de me ligaram mil vezes sem parar e não há reciprocidade esperada. O que é isso, dois pesos e duas medidas? Quer ser atendido e não quer atender? O bom disso tudo foi um dia desses um amigo que passou a manhã ligando para mim, quando eu liguei de volta, perguntei o que era, ele tinha ligado 13 vezes, aí ele disse que era só para jogar conversa fora. Eu falei que ia cobrar pela análise, aí ele desistiu.

O tempo

Gente, estou horrorizado. O que está a acontecer? Estou com alunos e alunas na minha sala de aula na graduação que nasceram em 1991, 1992, 1993, 1994 e até de 1995. O que é isso? Como alguém poder ter nascido na década de 1990 e ser meu aluno na universidade? Não estou entendendo.

Adoro ser academicista!

Eu adoro ser academicista. Tenho o maior tesão no academicismo. Habitar uma torre de marfim onde houvesse apenas uma biblioteca e nenhuma ação direta. É tudo o que eu queria. Sou um anarquista que tenho alergia à ação direta. Acho muito chula, pois exige se lançar com os corpos suados no turbilhão físico-químico, um horror, é muito promíscuo ter de se agarrar com a polícia, não? Viva os livros como objetos distantes e inacessíveis, enigmas a serem decifrados. Mas aqui pra nós, ironias à parte, e até para compreender ironia é preciso estudar, mas pessoal que não gosta de estudar inventa todo tipo de desculpa para não sentar a bunda na cadeira e queimar pestanas, até política e militância radical servem como desculpa para a demissão intelectual e adesão à indigência das prateleiras de ideias prontas dos gurus stalinistas-cristãos-budistas e seus livrinhos sínteses de auto-ajuda para o militante entender. Vão estudar, pessoal! (estudar é um direito humano) Ou será que neste momento o pessoal da ação direta está participando de conflito armado lá na favela?

O horror pelo telefone tocando.

Estou desde 8 da matina concentrado aqui num texto de introdução de um livro que a gente do LEV vai lançar, mas o meu telefone não para de tocar. É mais produtivo eu parar de produzir textos acadêmicos e ir atender telefone, né? Pronto, está decidido, pelo bem da República, vou passar o dia atendendo telefonemas, podem ligar. Assim a gente constrói uma Nação. Então, se, por acaso, alguém não estiver cumprindo metas de produção, pode ligar para mim, eu vou suspender as minhas para ficar conversando com pessoas que tenham suspendido suas metas de trabalho. Conversar sobre o quê? Falar mal dos vizinhos? Qualquer assunto "produtivo". Estou aguardando as ligações. Ou seja, parem de me ligar, vão estudar, vão trabalhar, vão fazer amor, mas parem de me telefonar, pelo amor de Deus.

Monday, October 28, 2013

No posto de gasolina, fala-se de casamentos...

Ontem, no posto de gasolina, três cervejas, por favor, o amigo com a cerveja na mão, o outro querendo se livrar e ir embora, ele dizia repetidas vezes, segurando o braço do amigo querendo se ir: "casamento é solidão sem privacidade". O cara estava super infeliz. Fiquei imaginando as pessoas com quem ele vive, devem sofrer tanto com um cara que se sente assim, não é? que falta de imaginação.

Não sou dono da minha cabeça.

Tudo se passa como se uma história muito antiga pudesse ser contada. Uma história imemorial. Mítica. Uma narrativa seria melhor dizer. Narrativa sobre pessoas que viviam nas ondulações, intangíveis, entre forças e impactos, desrevestidas, no máximo delineando em formas inseguras e passageiras que se desfaziam no mesmo momento em que eram acionadas, moviam-se pelos atos de olhar, fascinadas pelo encanto e pela impossibilidade do aprisionamento do corpo difuso do outro. Dar o nome ao nome, regra ao torto, acabamento ao direito. Nesse ponto eram duras quase figuras, essas pessoas narradas. Não se mostravam acanhadas nas matanças nem nas danças ininterruptas que a ela se interpunham. Iam a se apropriar do real, interagindo no firme propósito de impedir qualquer estabilidade hierárquica entre os viventes. Para elas, a maior riqueza era saber compartilhar as diferenças, distribuindo-as de um modo natural que não era uma reificação da entidade Natureza, mas sim, ao contrário, uma ode aos fluxos. Tudo de origem coletiva era de ficar sob vigilância deles. Passavam-se séculos em instantes, não havia o início, o meio e o fim como modelo de fazer. Pessoas de coração generoso, sorriso largo e capazes de amar o próprio destino. Povos raros, ligado na qualidade das conexões, das alianças, dedicando a maior das atenções para os tratos, os pactos e as imprecações entre viventes e moribundos. Gente de impecabilidade. Fazer o caminho desse povo é uma aproximação que faísca. Com o peito ao chão, deitada a honra, com a cabeça servida na bandeja das mãos, ofertada a inteligência. O nascimento é uma ação livre, prenha de potencialidades livres.

Uma chance para a paz.

Sou a favor da paz, do amor e da evolução espiritual da humanidade! Um dia poderemos todos e todas viver em abraços como irmãos e irmãs, e esse dia é hoje, pois as senhoras e os senhores que andam nos supermercados, nas repartições e no shopping center estão super desejosos de nos abraçar, pois o amor será a universalização dos princípios éticos que as classes sacerdotais, na infinita fé e no total sacrifício da materialidade do ser, serão capazes de nos oferecer, como uma benção, como uma chuva de espiritualidade que nos fará invisíveis. Sempre invisíveis.

No dia do servidor público...

Engraçado, hoje é o dia do servidor público, é feriado na universidade, mas eu passei o dia trabalhando, desde 8 da matina até agora, 20 horas, e ainda não terminei de fazer as coisas que estão por fazer. Ontem, domingo, trabalhei de 9h às 21h. No sábado, de 8h às 20h. Na sexta, preparei aula de 8h às 13h, e dei aula de 14h às 22h, direto, sem parar, sem intervalo. Essa estrutura de sexta, sábado, domingo e segunda nesse ritmo é permanente. E ninguém deu os parabéns pelo dia do servidor público. Acho que vou ter de tomar pelo menos uma cerveja bem gelada pra compensar.

Ódio ao toque do telefone

Eu tenho ódio no coração quando o telefone toca. Para certas profissões, falar ao telefone é algo imprescindível. Para a profissão de professor e pesquisador é totalmente inútil. Falar ao telefone para a gente é parar de revisar trabalhos, é parar de escrever artigos, é parar de dar aula, é parar de fazer o planejamento pedagógico, é parar de estudar, etc. Professor não precisa ter telefone, basta Facebook e e-mail, e olhe que Facebook, quando vira Central de Atendimento ao Consumidor, aí é o ó do boró. Eu detesto telefone mesmo, só falto ter um ataque do coração quando esse bicho estranho toca. Pense numa coisa do meu ódio, ponho a bílis para a fora. De dez telefonemas, 9 são para pedir algo sem dar nada em troca. Para cobrar sem cobrar de si. No meu caso, falar ao telefone é anti-trabalho. Totalmente, anti-produtivo. Os únicos colegas que falam ao telefone sem parar são aqueles que exercem o poder de mando, colegas que estão em cargos de chefia, que mandam na gente. Aí é telefone o dia todo. Mas não é o meu caso. Meu trabalho é dar aula, pesquisar, escrever, ler, orientar, revisar trabalhos (nada inclui falar ao telefone). Morte ao telefone. Eu tinha jogado fora. Chutado, esmagado. Tive que ter de volta, mas é só pra falar com minha filha, minha companheira, minha mãe, meu pai, minha família, e olhe lá. Não passem meu número e nem me liguem, exceto se for para me chamar para tomar uma cerveja e conversar entre amigos. Qualquer outra comunicação que não seja de amigo para amigo, sem exigir nada, sem nada querer em troca, na gratuidade, pra marcar de encontrar para celebrar a vida e jogar conversa fora, e neste caso eu suspendo tudo e vou, o resto que não seja isso, aí é por e-mail.

Conhecimento livre

"Conhecer é fazer, fazer é conhecer" (Maturana e Varela). Não há conhecimento que não esteja embasado em outro conhecimento. Passa-se de um conhecimento a outro conhecimento. De um fazer a outro fazer. A base de produção do conhecimento é coletiva. Uma língua, por exemplo. Uma língua é uma riqueza coletiva. Não há proprietários de uma língua. Há falantes reprodutores e falantes criativos da língua. Em geral, somos as duas coisas. Se não há proprietário da língua, qualquer coisa que se faça com ela, qualquer conhecimento que se utilize dela, precisa pagar tributo à dimensão coletiva da produção da riqueza. Por isso que o problema não é o problema da propriedade privada, o problema mesmo é o problema da riqueza privada. A riqueza privada é uma contradição entre termos, pois a base da sua produção é coletiva, está marcada pela interdependência sistêmica de todxs atores sociais. Do catador de reciclagem ao cientista, todo mundo está produzindo riqueza. Não haveria produção de riqueza de um sem o outro. O modelo da capitalização não esgota a inteligibilidade plural da ação humana. O modelo da capitalização é uma imposição que gera a desrealização coletiva da riqueza. Pensando alto.

Lá na Rússia

Ora, se numa província da Rússia, que está tomada pelas máfias, o filho de um membro da cúpula do governo provincial, braço direito do chefe do executivo, foi preso por tráfico de drogas, com vários quilos de cocaína, balança de precisão e tudo, além de quilos de maconha, numa residência juntamente com um outro traficante, e este outro respondeu sozinho pelo crime, o traficante que era filho do membro do governo foi liberado e saiu da cena do crime no automóvel do secretário de segurança pública dessa província lá da Rússia, o secretário foi deixá-lo em casa, e hoje o rapaz continua saindo nas colunas sociais de lá, como empresário de sucesso e futuro dirigente da província lá na Rússia. Isso acontece, né? Sem falar que tem um delegado da polícia civil lá nessa província da Rússia que mora num apartamento de 2 milhões de dólares na mesma cidade onde o traficante filho do membro da alta cúpula do governo provincial não foi preso ao ser flagrado traficando pesado. O tal delegado também tem uma cobertura lá em Miami. Sabe qual o segredo? Ele vende não-abertura de inquérito para filhos criminosos de camadas médias altas e altas, ele cobra entre 50 a 250 mil dólares para liberar um jovem criminoso de classe alta quando é por acaso preso. Por isso, os advogados das famílias ricas, quando um de seus queridos filhos é preso, já ligam para o dito delegado, pois ele faz o acordo, liberando os meninos. Por exemplo, um filho de um empresário importante da província foi preso por formação de quadrilha e roubo de carros de luxo, ele pagou 200 mil dólares para o delegado e foi morar nos EUA, onde está fazendo MBA em negócios. A Rússia tem dessas coisas. O único crime que as elites dessa província lá da Rússia não admitem que ocorra liberação é o crime de sequestro. Isto já foi motivo para cúpula de segurança cair. Há um acordo entre as famílias mais ricas da província em não admitir em hipótese nenhuma isso. Outro exemplo, quando um filho de um grande empresário foi sequestrado, havia participação de policiais como sequestradores, aí a cúpula da segurança caiu no dia seguinte. Governador da província lá da Rússia levou puxão de orelha em jantar com o PIB peso pesado da província. Há grupos de matadores da polícia prontos a agir no caso de sequestro de algum membro do andar de cima. É a única coisa que funciona na polícia lá da província da Rússia. Tenho lido ótimos trabalhos que pesquisadores lá da Rússia têm escrito sobre o mundo do crime de lá. Quem quiser depois a referência de onde eu tirei esse relato é só me enviar uma solicitação por e-mail que eu envio o PDF da etnografia do crime dos ricos lá na Rússia.

Amizade como modo de vida

Um dia desses, eu escrevi que não estava aqui para fazer amigos, que estava a escrever para não morrer. Hoje mudei um pouco de ideia. Estou sim aqui para fazer amigos, conquanto que não sejam assessores de governo. Estou muito incomodado com o fato dos indivíduos que compõem o campo governamental do poder se referirem a todos e a todas como amigos e amigas. Uma vez me perguntaram se eu ia deixar de ser "amigo" (era uma ameaça). Desde então fiquei cabreiro com essa história de "amigos". Mas para dizer realmente o que penso, estou aqui porque a política da amizade é a base de uma moral possível, é uma ética, fazer amizade é tornar o mundo mais ético. Instrumentalizar relações interpessoais para exercer o poder e chamar isso de amizade é intolerável. Amizade é este acolhimento mútuo que fazemos sorrindo, sem pedir tantas explicações, e, sobretudo, primando pela simetria das posições. As nossas situações de poder ficam em suspenso quando fazemos relações de amizade. Saudações aos amigos e às amigas.

Tuesday, October 15, 2013

Uma pergunta perdida

Alguém saberia me indicar um livro ou um site que nos ensine a identificar os sintomas de uma pessoa que está morrendo?

Sobre a polêmica das biografias

Como é que um país que não consegue lidar com a liberdade de escrita por meio do conhecimento da verdade das biografias de quem quer que seja que tenha ou tenha tido um lugar público negativado ou positivado quer lidar com uma Comissão da Verdade sobre graves violências cometidas contra seus cidadãos que resultaram em tortura e morte? Se não se aceita uma biografia escrita sobre alguém, por que o país haverá de aceitar que criminosos sejam punidos a partir de uma Comissão da Verdade? Uma coisa tem que ver com a outra, não? Muito sintomático este imbróglio a propósito de biografias no momento em que se estava a propor Comissões da Verdade para biografia do país.

ser inadequado

Quando a gente desconfia que os convites para parcerias não passam de mise en scène, que não há nenhum interesse em metas de produção de conhecimento ou de sua difusão, mas querem apenas fazer coisas para inglês ver ou eu recuso o convite ou então me faço inadequado. Tipo: esperam de mim que eu esteja me vestindo como assessores de governo, aí eu vou de all star preto, calça suja de pneu e óleo de motocicleta e camiseta de surfe Out Burst. Pelo olhar que dão dos pés à cabeça, noto que se arrependeram profundamente de ter me convidado e que nunca mais me chamarão. O olhar diz assim: "mas esse aí que é o professor da universidade?" Em geral, as pessoas estão usando roupas que imitam trajes que elas acham serem usuais para pessoas da alta sociedade, ou seja, usam imitações de imitações de imitações de roupas feias, caras e cafonas. Esse lance de subalterno, de desejo de subalterno pelo Maître, é o que mantém o sistema de dominação em pleno funcionamento, não é a polícia, sinto muito, mas não é. A polícia é o subalterno, é o olhar de decepção do subalterno, quando seus ícones fantasiosos de desejo do dominante são frustrados. Agora eu já sei, sempre me vestir de tênis e falar gíria ao telefone. Preciso afastar convites absurdos. Tipo convite do governo, entende? Como é que um vândalo como eu ainda recebe convite de governo para alguma coisa que o valha! Não tenho decência chapa-branca, meu povo! Assessores de governo, me esqueçam, pela amor de Deus! Vocês que são pessoas de bem, não convidem os baderneiros pra nada, ok?

Escrito no dia 14 de outubro

Amanhã é o dia do professor e o colegiado de professores e professoras do departamento de ciências sociais da UFC estará de 14 horas às 18 horas reunido para dar continuidade ao processo de discussão, visando mudanças de organização curricular do curso de ciências sociais. Semana passada discutimos o currículo do bacharelado, amanhã, vamos debater o novo currículo da licenciatura. Uma mudança desta natureza nunca é uma questão técnica. Exige fundamentações e justificativas, pois, afinal, são o projeto político pedagógico e a qualidade do egresso que estão sendo tomados como objetos de transformação, o que exige a transformação de si, do ponto de vista docente. O mais interessante é observar várias gerações de professores e professoras dialogando a partir de visões e pontos de vista plurais e mesmo assim avançando em resoluções e medidas de consolidação da excelência acadêmica dos cursos diurno e noturno das ciências sociais. A pluralidade é a nossa força. Dia do professor é dia de trabalho. Aliás, todo dia é dia de trabalho para o professor, mesmo no feriado antecipado que foi hoje. O batente hoje foi de 8h às 22h. E ainda estamos aqui no recreio, no pátio do recreio, que se tornou o facebook.

O melhor de ser professor é...

O melhor de ser professor é ouvir alguém comentar: vocês só estudam, escrevem, dão aula e pesquisam, é? E quando é que vocês trabalham? É realmente o melhor ouvir esse tipo de carinho destinado aos professores. É muita compreensão demais da conta!

Dia do professor, 2013

E no dia do professor, como professor, gostaria de reafirmar minha profunda indignação diante da atitude do Sr. Roberto Cláudio, atual prefeito de Fortaleza, quando chamou e autorizou, em aliança com a prefeita de Fortaleza do PT e o governador do Ceará do PSB, o batalhão de choque da PM para nos espancar enquanto fazíamos uma manifestação pacífica, cidadã, que buscava acesso à Casa do Povo, à Assembléia Legislativa do Ceará. No dia seguinte ao espancamento brutal, fizemos uma passeata com dez mil pessoas pelas ruas de Fortaleza para mostrar nosso repúdio às atitudes autoritárias, anti-democráticas, tecnocratas e personalistas assumidas pelos governos do Ceará desde Tasso Jereissati até Cid Gomes. Não esquecemos! Não, não vamos esquecer jamais. Estamos na luta. Na luta por educação de qualidade, por igualdade, justiça social e, sobretudo, liberdade para continuar lutando por democracia real no nosso país. Os oligarcas passarão, nós, passarinhos!

Tuesday, October 08, 2013

Coisas que se aprendem

Uma das táticas que mais detesto é quando as pessoas estão devendo alguma coisa (faltaram encontros, devendo leituras, trabalhos, etc) e em vez de chegar e se desculpar por não terem sustentado os compromissos assumidos a pessoa parte para o ataque, cobrando do outro, de modo performático, como se fosse o outro que estivesse na dívida. Isso é uma canalhice, transferir responsabilização para o outro, acusar o outro de não ter dado as coordenadas e as informações corretas ou necessárias, um tipo de boicote, a intenção é fazer o outro conceder privilégios e esquecer das dívidas acumuladas. Negar descaradamente que não recebeu informação, etc. Nesses casos, eu recompenso a pessoa com o máximo de satisfação que ela está desejando e fecho completamente a porta para outras possibilidades de troca. Aí, faço da intransigência uma arma eficiente. Quem ataca, chama o contra-ataque. É como as coisas são, né? (coisas que também aprendo com e em sala de aula).

Wednesday, September 18, 2013

O que diz a pele?

Na segunda metade da década de 1980 e na primeira metade da década de 1990, tudo o que tínhamos a falar, tudo o que tínhamos a escrever, era feito no bando. Um pequeno grupo de amigos que se encontrava para beber, namorar, dançar, ler poesia, trocar livros e insultos, discutir política, jogar porrinha, fazer fanzines e enviar para outros bandos de outras bandas. Havia uma intensidade de bando e dessa intensidade de bando emergia muita coisa e muita coisa ficava enterrada na memória corporal do próprio bando. Havia, é claro, os postes onde podíamos fotocopiar mensagens, textos, imagens e sair colocando pelas ruas numa madrugada de domingo. Havia também os bares, onde os bandos se cruzavam, e os indivíduos que compunham bandos adversos acabavam cruzando, também. Noites divertidas, manhãs angustiosas. Havia o telefone público. Falar horas com alguém do bando usando telefone público. As fitas cassetes onde se gravava um setting personalizado e especial para dar de presente para alguém com belos olhos, um par de pernas e alguma massa cinzenta. Havia também o pátio do colégio, onde o troca-troca era incessante, como no pátio da prisão. Havia a fuga do pátio do colégio para a beira da praia, onde se dançava e se fazia amor à milanesa. Havia reuniões infindáveis de grupos de estudo, cheirando à sexo. Havia tanta coisa. Vou tentar deixar a pele lembrar e depois de um banho de mar, eu conto mais.

Ele dizia que Deus era contra o cu

Estratégia de luta: eu estava uma vez numa mesa com pessoas que não me interessavam, detesto quando isso ocorre. Dois irmãos, dois senhores, coroas de classe média, estavam nessa mesa. Um deles começou a falar um monte de coisas abertamente homofóbicas, ele estava sendo claramente estúpido. Como eu não tinha muita intimidade, num primeiro momento fiquei calado. Certa hora, fui ao banheiro, o irmão do cara também. Enquanto mijávamos lado a lado, o cara me disse: esse meu irmão é um problemático, sabe!? Quando ele era criança era o rei do troca-troca, vivia dando o boga em troca de outro boga, coisas entre meninos, aí agora que ele é o braço direito do padre viado lá da igreja, deu pra ficar com esses arroubos. Gente, eu não esperava isso, não tinha pedido essa fala. O cara falou espontaneamente. Depois que voltamos à mesa, lá pelas tantas, o cara resolveu retomar os ataques homofóbicos (ele estava usando uma cruz de madeira pendurada num laço no pescoço, enquanto bebia uísque). Falava que Deus era contra o cu. Eu juro! Era desse jeito que ele falava. Ele não parava de falar do cu. Deus é contra o cu, cu não é para fazer sexo, cu é para cagar, cu é sujo, cu é cloaca, cu não é para ter prazer etc. Ele era da paróquia, da paróquia de Deus. Tal hora, sem aguentar mais tanta babaquice, eu falei: "é, Deus era o rei do troca-troca! O Deus menino, né?". O cara ficou branco! Lívido. Azul. Cinza. Começou a passar mal. Foi vomitar no banheiro. Ligou para a esposa para vir buscá-lo. Saiu sem me cumprimentar. O irmão dele ficou rindo. Ganhei minha noite. Isso faz tempo. Eu ainda era ruim. Uma pessoa ruim, sem Deus no curação.

Fatos da vida

Era uma vez uma mesa de bar que não era a minha. Um playboy brother meu insistiu tanto para eu ir, fazia décadas que me chamava, que eu acabei indo. Era num bar temático: torcedores do Ceará. Eu sou torcedor do Ceará, então, não me incomodou este aspecto identitário. Cheguei de bermuda e chinela japonesa e camiseta branca, como sempre. Os caras estavam lá de rolex, iphone, quase passeio completo. Achei estranho, pois o bar vendia frango assado, as mesas sobre a calçada, desrespeitando o estatuto da cidade, os banheiros sujos e a comida ruim. Mas, enfim, quem sou para julgar as coisas, né? Aí continuei lá ouvindo os papos. Sou etnógrafo, entende? Escuto tudo. Lá pelas tantas chegou um playboy, passado nos panos, foi cumprimentado como grande amigo por todos, com abraços e frases do tipo: "macho, senta aqui e pega na minha!". E eu só observando, bebericando minha cachaça, tirando o gosto com a gelada. Na hora que o cara chegou, outro cara, que tinha lhe dado um senhor abraço, aqueles abraços entre amigos que o playboy senta no outro, e logo na sequência se levantou e se despediu de todo mundo, dizendo que tinha que ir nessa, levar a mãe para a missa. O playboy não esperou nem o outro botar a carteira, a chave e o iphone sobre a mesa, partiu ligeiro, no foguete. O playboy que era meu brother, lá no banheiro, enquanto mijávamos lado a lado, me deu o toque: cara, o outro lá que saiu da mesa foi comer a mulher do babaca ali! Ela já tá la esperando, e a gente segura o corno na mesa. É assim toda semana. É a alegria da pobre! O mundo do playboy é limpo, né? Fair play! E viva o Ceará Sporting Club. Esse mundo Cid de ser. Viva o Ceará!, eles gritavam brindando amigavelmente com o amigo corno.

O Deus dos que não prestam?

A polícia é de Deus. Os ladrão é de Deus. Os político é de Deus. Os governo é de Deus. Os ex-ruim é de Deus. Tudo que não presta nesse país agora é de Deus? Num tô entendendo, alguém mais ligado me explica aí por que Deus está em tudo que não presta!

As regras do jogo

Tenho aprendido na prática da vida que quem faz as regras do jogo as faz sempre para tentar manter situações de poder consolidadas e barrar o acesso de outros a tais posições. Fazem regras para que quem já está no topo possa continuar ganhando fama, reputação e prestígio. Ter o monopólio das classificações, das instâncias de classificação, e, sobretudo, de monitoramento e avaliação são estratégias corriqueiras. Norbert Elias tem belas páginas sobre isso em vários textos, Bourdieu, também. Quanto menos elaborarmos demandas para as instâncias de classificação, para quem as controlam, portanto, menos legitimamos tais estratégias e mais somos excluídos e considerados pessoas indesejáveis. É isso aí!

O carro mata!

Eu adoro pilotar por aí. Hoje pela manhã, eu saí de casa para trabalhar às 8 horas e 18 minutos (Meireles) e cheguei na Universidade às 8 horas e 48 minutos (Benfica). Um amigo meu saiu 7 horas e 30 minutos e chegou às 9 horas, usando automóvel individual. Eu estava sobre duas rodas. Um diferença de uma hora. E eu ainda me diverti pacas! Os carros todos parados e eu fazendo acrobacias entre eles, sem velocidade, treinando passagem entre obstáculos. Me senti no paraíso! Como ciclista, pedestre e motociclista, gostaria muitíssimo de agradecer aos gestores da minha cidade que perderam o controle sobre o trânsito. Estamos quase chegando no ponto perfeito: automóveis individuais completamente parados. Por que comemoro? Para quem está à pé, de bike ou de moto, carros parados são uma benção! Carro parado não mata! Hoje uma pessoa tentou me matar. Ontem foram duas. Aliás, neste ano, já tentaram me matar diversas vezes, algumas dezenas de vezes. Como? Como pedestre, ciclista e motociclista. É mais fácil morrer no trânsito da cidade do que na guerra do Peloponeso.

Wednesday, August 21, 2013

Qual o critério?

Em qual critério de verdade alguém se baseia para exercer o controle sobre a fala do outro? Há justificativa com validade universal para alguém ter o direito de controlar a fala do outro? Qual o critério? Qual a fundamentação da validade universal do critério? Como escreveu Miller, "o que é válido é apenas porção (...) percebida por todos os homens em comum" (p.25).

A crença é uma fatalidade!

A crença é uma fatalidade. A descrença é um desconstrução dessa fatalidade, é um opor-se à ideia do medo do desconhecido imposto pelo destino. Talvez, a humanização precise se livrar da figura do homem que é uma figura pálida que desvanece no ser da linguagem para ressurgir enquanto relação com a pura animalidade do humano.

O temor nada cria

O temor nada cria. O temor aniquila a vontade. Não há nada pior do que o temor. O corpo ameaçado pelo temor. É a incorporação do aguilhão da palavra de morte. A incorporação da ameaça é um ato que atua como condição para uma atitude de fé. Esta atua como uma terapia para a alma aguilhoada pelo ferrão de um palavra de ordem. Na relação entre caos e ordem, emerge a singularidade, a universalidade do singular, que é a única universalidade, uma vez só há a priori histórico.

A aula

A objetivação do pensamento pela escrita é uma forma de desintoxicação mental. Escrever para não morrer, como já disseram vários e várias mundo afora. Escrever é a única terapia que me apraz. Por isso eu escrevo. Mas há também a sala de aula, o efeito terapêutico da sala de aula é uma maravilha, é um teatro, é catártico pelo estranhamento do estranho. Estou feliz só de imaginar que vou voltar para a sala de aula, o único lugar onde a fala fala sobre si mesma, dobrando-se para fazer emergir objetos de pensamento, como figuras holográficas flutuando no ar, o pensar é holográfico, por isso nós, professores, usamos as mãos, nos levantamos da cadeira, olhamos para o éter, pois não há vazio, há objetos imaginados, figurações flutuando e se constituindo pela força da mente, pela força intelectual, pela sutileza de construções imagéticas do pensamento, tudo o que se efetua na fala em sala de aula, pois quem fala deseja, como dizia o psiquiatra. A aula dá tesão e estimula a cognição na sua virtualidade no fluxo das coisas, que é a forma real da realidade, enquanto devir, a aula incita e excita na simultaneidade do sentir-se em co-presença de coisas de pensamento.

Por que alguém escreve? (segundo Barthes).

Gozo, fruição, prazer, usufruto, posse. O prazer pelo que é de sentido "precário, revogável, reversível", o prazer pelo discurso incompleto (cf. Barthes). Atuar nas margens de indecisão, pois não há classificações seguras. "Se leio com prazer essa frase, essa história ou essa palavra, é porque foram escritas no prazer" (Barthes). Que haja jogo da vida, que haja "imprevisão do desfrute", possibilidade de um desejo, o que interessa na pessoa do outro não é a pessoa, "é o espaço". "A tagarelice de um texto é apenas essa espuma de linguagem que se forma sob o efeito de uma simples necessidade de escritura. Não estamos aqui na perversão, mas na procura" (Barthes). "A neurose é um último recurso: não em relação à 'saúde', mas em relação ao 'impossível' de que fala Bataille ('A neurose é a apreensão timorata de um fundo impossível' etc.); mas esse último recurso é o único que permite escrever (e ler). Chega-se então a este paradoxo: os textos, como os de Bataille - ou de outros - que são escritos contra a neurose, do seio da loucura, têm em si, se querem ser lidos, esse pouco de neurose necessário para a sedução de seus leitores: esses textos terríveis são apesar de tudo textos coquetes" (Barthes).

O discurso amoroso

"o discurso amoroso é hoje de uma extrema solidão. Tal discurso talvez seja falado por milhares de sujeitos (quem pode saber?), mas não é sustentado por ninguém; é completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado não apenas do poder, mas também de seus mecanismos (ciência, saberes, artes). Quando um discurso é assim lançado por sua própria força na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta além de ser o lugar, por exíguo que seja, de uma afirmação" (Barthes).

É isso

"De palavra em palavra, esgoto-me dizendo de modos outros o mesmo de minha Imagem, impropriamente o próprio de meu desejo" (Barthes).

A amizade como covardia

Em alguns casos, a recorrente mundanidade que faz alguém estar em todos os lugares, em todas as baladas, em todas as mesas de bar, é um forte sinal de privação, de desespero, pela falta de amor. Talvez seja nesse sentido que Marcel Proust considerava a amizade um tipo de covardia. Querer estar entre amigos, buscando o grupo de amigos, pode ser o sintoma de intensa privação do amor, do mesmo modo que fugir dos amigos, evitar o grupo de amigos, pode ser sintoma de frustração ou de melancolia. Ninguém suporta a vida mundana sem invocar a ausência do objeto amado e quase sempre de modo imaginário, pois o objeto presente de amor não satisfaz.

Sobre o blog acadêmico Campos em fuga

Brasil, Estados Unidos, Rússia, Alemanha, França, Portugal, Ucrânia, Espanha, Holanda e Austrália são os países onde tenho amigos que estão gostando de acompanhar o blog acadêmico que venho mantendo, chamado Campos em fuga. Criei o blog em fevereiro deste ano (fevereiro de 2013) e com mais de 1.500 visualizações (umas 400 me parecem visualizações de máquinas, não tenho certeza, mas 1.100 visualizações foram feitas diretamente a partir do Facebook e do Twitter). Além de me regozijar, afinal, não tem como não deixar de ser uma alegria que outras pessoas leiam o que a gente escreve, não vou fingir que isso não importa, importa demais, é claro, é uma satisfação, mas a observação é em outro sentido. Até que ponto essas novas formas de escrever, novas formas de produzir conhecimento, nas redes sociais virtuais, nos blogs, vai um dia ser plenamente reconhecido como produção acadêmica ou não? Uma questão a se pensar. Quando eu vejo por exemplo vários colegas fazendo algo parecido, e até colegas mais experientes, já consolidados no mundo acadêmico, diferentemente de quem apenas inicia, como eu, fico cada vez mais inquieto. Dificilmente, a publicação de artigos em revistas acadêmicas revisadas por pares deixará de ser o veículo central, pois isso está no coração da coisa, é como se adquire prestígio, mas e as outras formas de produção, como ficarão no futuro próximo? Continuarão sendo ainda vistas de modo preconceituoso como coisas de quem não tem o que fazer? Será? Quem viver, verá!

Por que alguém escreve? (uma citação linda de Henry Miller).

"O homem escreve para livrar-se do veneno que acumula devido à falsidade do seu modo de vida. Está tentando recapturar sua inocência, mas ainda assim tudo que consegue fazer (escrevendo) é inocular o mundo com o vírus de sua desilusão. Ninguém escreveria uma palavra sequer se tivesse a coragem de viver aquilo em que acredita." Henry Miller.

Saturday, August 10, 2013

Menino, vai estudar!

A mãe me mandou estudar, "vai estudar, menino!", aí eu internalizei a autoridade dela, num processo de identificação, onde os livros são objetos escolhidos para serem investidos e desinvestidos, compulsivamente, para que a influência de novas identificações, marcadas pelo delírio do "vai estudar, menino!", possam ocorrer. E na compulsão, vou devorando um livro de cada vez, um por dia, e aí eu acordo todo dia, tomo banha e vou estudar, cantarolando "mamãe, eu quero. mamãe, eu quero. mamãe, eu quero mamar". E nessa impossibilidade, transformo a angústia real em angústia neurótica, e para evitar que essa dimensão neurótica da angústia de me se apodere, aniquilando-me, passo à intoxicação pela cerveja, para evitar consolidar a angústia neurótica. E com muito literatura nos couros, como se estivesse apanhando de novo do cinturão do meu pai e da chinela da minha mãe, eu volto novamente aos estudos, a forma como destruo os livros, é a forma de um psicótico na revolta contra a ordem social dada, tomando cafezinho entre uma pausa e outra. Mas deixemos de charlatanismo, mamãe disse que tenho que ser um bom menino, liga toda semana para cobrar, então, queimar as pestanas e ruela do dedo enfiado no pápis (ops, lápis), pois é preciso estudar, viver não é preciso! (para os desavisados, eu não entendo nada de psicanálise, estou só fazendo lorota no intervalo pra voltar aos livros).

Tuesday, August 06, 2013

Expressionismo

há uma condição que é absolutamente incapaz de dizer-se a si mesma, um condição que não possui as prerrogativas da onisciência e da onipotência, uma condição que não pode fazer um relato completo de si por estar imersa no mais intricado labirinto, entre sombras e alguns clarões que as atravessam, como numa ponte que não liga nenhum lugar a lugar nenhum, uma ponte atópica, de um castelo atópico, sem utopias, apenas nos deslocamentos que apontam para a fuga do lugar absoluto do corpo que é o único lugar absoluto, pois destinado à finitude radical, à ruína, ao aniquilamento completo e total, uma condição que só se defronta com o absoluto e com a totalidade do ser quando não há mais ser, uma fluência no puro devir em direção à morte, ao gozo final.