Saturday, December 28, 2013

SANTIAGO DE CHILE, 02 DE OUTUBRO DE 2013

Numa cidade onde não é permitido a população beber nas ruas, os bêbados aparecem por aí, vomitando, tropeçando e fazendo imprecações a si mesmos. Há também os bêbados que levam tombos em frente às igrejas, sob o olhar obtuso dos carabineros. Uma população contida só pode ser explosiva. Santiago de Chile é um lugar-terremoto. Desde o primeiro momento, fiquei cabreiro, no meu estado de cabra mais atento, com tantas bandeiras flamejantes da nação. É muita nação demais. O custo de vida, dizem as pessoas do lugar, está pela hora da morte. E enquanto isso a campanha presidencial clama por uma "nova maioria", com mulheres brancas assustadoras em fotos de photoshop. A cidade se livra de negros e índios de um modo quase perfeito. Até o casal de rapazes se beijando em praça pública é recatado. Há um catolicismo exacerbado. Na catedral, fala-se de política, pois "el amor es más", e a igreja é capaz, segundo ela própria anuncia no seu templo, de trazer paz e reconciliação ao povo de Chile. Algumas pessoas vomitam nas ruas. O vômito fica lá, imagino que muito gelado. Outras pessoas esperam no ponto de ônibus com rostos que não nos deixam adivinhar a qualidade humana do lugar para onde estão se dirigindo. É como se estivessem num cemitério ao ar livre, zanzando entre as lápides e as catacumbas. O taxista de 64 anos celebra o terremoto como o acontecimento econômico mais importante do desenvolvimento da nação. Segundo ele, os cinco terremotos que ele sobreviveu dinamizaram a economia do país, pois obrigam o dinheiro a circular e a gerar empregos para a construção na destruição. Estranha economia essa do Chile. Aliás, as universidades também. Em uma delas, há um prédio antigo, pomposo, com imagens de padres da igreja, onde as lojas, as boutiques, são tão sofisticadas quanto as de um shopping center, onde as famílias brancas do país se orgulham de possuir um arranha-céu como os de São Paulo e Nova York, mas quase ninguém fala dos acampamentos de indigentes, pois eles atrapalham a ideia de que não há pobres no Chile. Mas há indigência. Há também ladrões tentando bater a carteira dos turistas. Há muito Brasil no Chile, apesar do Chile parecer desejar reciprocidade com o Canadá, em primeiro lugar.

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