Wednesday, September 18, 2013

O que diz a pele?

Na segunda metade da década de 1980 e na primeira metade da década de 1990, tudo o que tínhamos a falar, tudo o que tínhamos a escrever, era feito no bando. Um pequeno grupo de amigos que se encontrava para beber, namorar, dançar, ler poesia, trocar livros e insultos, discutir política, jogar porrinha, fazer fanzines e enviar para outros bandos de outras bandas. Havia uma intensidade de bando e dessa intensidade de bando emergia muita coisa e muita coisa ficava enterrada na memória corporal do próprio bando. Havia, é claro, os postes onde podíamos fotocopiar mensagens, textos, imagens e sair colocando pelas ruas numa madrugada de domingo. Havia também os bares, onde os bandos se cruzavam, e os indivíduos que compunham bandos adversos acabavam cruzando, também. Noites divertidas, manhãs angustiosas. Havia o telefone público. Falar horas com alguém do bando usando telefone público. As fitas cassetes onde se gravava um setting personalizado e especial para dar de presente para alguém com belos olhos, um par de pernas e alguma massa cinzenta. Havia também o pátio do colégio, onde o troca-troca era incessante, como no pátio da prisão. Havia a fuga do pátio do colégio para a beira da praia, onde se dançava e se fazia amor à milanesa. Havia reuniões infindáveis de grupos de estudo, cheirando à sexo. Havia tanta coisa. Vou tentar deixar a pele lembrar e depois de um banho de mar, eu conto mais.

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