Friday, November 08, 2013

Meu problema com o telefone.

Um médico cirurgião entra numa sala de cirurgia depois de todo um procedimento de preparação, toda uma profilaxia, uma organização de equipe, um ritual complexo. O paciente aberto, cortado sobre a mesa, o médico cirurgião com as duas mãos ocupadas, segurando ferramentas e afastando tecidos, com muito cuidado para não cortar indevidamente vasos sanguíneos, e cauterizando aqueles que é necessário cortar, enfim, são horas e horas de concentração, de muita atenção, de cuidado máximo. A atividade fim do médico cirurgião é fazer isso que ele está a fazer. Nunca ninguém pediria que ele deixasse de fazer o que está fazendo para qualquer outra coisa que pusesse em risco a vida do paciente e a finalidade técnica do trabalho. Deu para entender a questão? Vão telefonar para a casa do caralho! Telefonem para a casa do caralho, mas deixem-me terminar a cirurgia, ela é longa, as palavras estão escorrendo pelo corpo do texto. É a famosa produção, a famosa produtividade. Para quem trabalha com telemarketing, sinto muito, eu não trabalho com Serviço de Atendimento ao Consumidor. Telefone tocando do meu ódio! Não há nada que me deixe mais de bom humor do que preparar com gosto uma aula pra bichinha sair caprichada, como manda a ética do meu contrato de trabalho como professor. PRECISANDO DE UMA DICA SOBRE O USO DA FERRAMENTA ABAIXO, QUEM QUISER ME TELEFONAR PARA ME AJUDAR NA PROBLEMATIZAÇÃO DESTA FERRAMENTA DE OPERAÇÃO, ESTOU AGUARDANDO, ANSIOSAMENTE O TELEFONE TOCAR. "Quando Lévi-Strauss diz, no prefácio do Cru et le Cuit, que 'procurou transcender a oposição do sensível e do inteligível colocando-se logo ao nível dos signos', a necessidade, a força e a legitimidade do seu gesto não nos podem fazer esquecer que o conceito de signo não pode em si mesmo superar esta oposição do sensível e do inteligível" (Derrida). Vixe, fui frescar, agora estão ligando é de número confidencial de dois em dois minutos. Me lasquei. Não devia ter frescado, né? Deus pune. Estou atendendo telefonemas assim agora: -- Alô, Senhor Leonardo? -- Sim, falando com ele, pois não? -- O Senhor pode falar? -- Agora, eu não posso, pois estou fazendo amor, pode ligar depois da minha morte, por ocasião do meu velório? Na última segunda-feira, um celular desconhecido ligou 17 vezes ao longo do dia para mim. Eu não atendi, é claro, estava palitando os dentes e coçando a sobrancelha. No dia seguinte, o mesmo número ligou 12 vezes. Fiquei curioso, tirei o palito do canto da boca, limpei a babinha característica de quem dorme muito, e atendi ao telefone, o primeiro telefonema em 7 dias. Um sujeito de voz esbaforida disse: professor Leonardo, aqui é da TV Novos Tempos, o senhor pode vir dar uma entrevista aqui no estúdio? E eu: sobre o que é mesmo essa entrevista? Ele: só um minuto (gritou para alguém perguntando sobre o que era a pauta mesmo), enquanto ele se informava, eu desliguei o telefone calmamente e voltei para a poltrona para coçar a sobrancelha e morder meu palitinho de dente. O mais interessante é quando um número qualquer já ligou mais de dez vezes sem parar para você, e você evitando atender, e em determinado momento o telefone toca e o mostrador avisa que é um amigo querido, aí você atende, então, o amigo querido diz: peraí, Leonardo, tem uma pessoa aqui do lado lá da cúpula do Tribunal de Justiça, querendo falar contigo para te fazer um convite para vir trabalhar de graça num evento ridículo que vai ter aqui e passa o telefone para a autoridade na maior desfaçatez do mundo. O que fazer com um amigo querido que faz esse tipo de sacanagem? Apagar da agenda do celular e sumir do mapa. Se até no amor, as pessoas se abandonam, imaginem na amizade com uma pessoa inconveniente, é matar e adeus, nem no velório eu vou. Em relação ao meu problema gravíssimo com telefones, fiquei mais aliviado, depois que fiquei sabendo que: "Freud, ao que parece, não gostava de telefone, ele gostava, contudo, de escutar. Quem sabe ele já sentisse, previsse que o telefone é sempre uma cacofonia, e que o que ele deixa passar é a voz ruim, a comunicação falseada?" (Roland Barthes). Droga, existe algum tipo de bruxaria nesse lugar. De repente, meu telefone começou a tocar sem parar, um número anônimo, desconhecido, de alguém que não me ama, ninguém que esteja na função de Mãe. Eu só aceito telefonemas na função de Mãe. Será que o pessoal mais sofisticado que já usa Iphone já possui na programação a função de Mãe? Devo comprar no mercado das mercadorias essa função de Mãe?

Thursday, November 07, 2013

O sorriso de uma mercadoria.

Gostaria de compartilhar uma emoção que eu senti hoje, foi algo único. Eu estava caminhando pelas ruas da cidade, quando, de repente, eu vi uma mercadoria! Foi um momento encantador, acho que fiquei com um fetiche, tão deslumbrante era a imagem.

argumento

A estudante de letras, ex-crente, ex-evangélica, casou com um pastor estelionatário que a abandonou para ficar com a viúva de um ex-deputado que prometeu lançá-lo na política. Ela precisou ter muita força de vontade para se reerguer. Hoje, ela é puta de um italiano que trafica pó nos bares da cidade, fala italiano melhor do que ele, o curso de letras era muito bom.

Falar mal é uma moeda.

Já falei mas vou falar de novo. Tinha um sujeito que metia o pau na prefeita. Para onde ele ia, ele esculhambava com ela. Ele era formador de opinião. Multiplicava. Falava horrores da prefeita. Coisas baixas. Muito baixas. Ele conseguiu uma consultoria, ganhando 5 mil sem fazer nada para ele e outra de 5 mil para a esposa dele. Passaram anos levando essa boquinha de dez mil para não falar, parar de criticar. Aliás, ele começou a fazer elogios à prefeita que eu nunca tinha escutado nem da mãe dela. Hoje, o mesmo sujeito e a mulher dele, depois de esculhambarem muito o prefeito, foram chamados de novo para compor as tais consultorias. Tem gente que vive disso, não é? E dá certo, afinal, uma família ganhar dez contos por mês só para parar de falar mal é nada mal para os canalhas, não é? Esse lance de ameaçar para conseguir consultoria é de praxe para quem aceita, não é?

Hiper-masculinidade no mundo acadêmico.

Os homens no mundo acadêmico gastam mais tempo mijando fora do pinico, fazendo competição para saber quem mija mais longe, brincadeira de meninos, recortando e generalizando (fazendo o gênero perverso, o gozo perverso) a favor de espaços e formas de socialidade masculina, do que estudando e pesquisando. A questão principal passa a ser quem é o pica grossa que vai mandar no bando de irmãos. Quem vai ser o bichão. Me faz lembrar de um rapaz, nascido e criado na favela, que ficava puto quando alguém dizia que a rapaziada da favela só sabia pedir grana para quem era de fora. Ele tinha ódio de quem fazia essa sugestão: de que o pivete é pidão. Uma coisa tem a ver com a outra não é? Minhas pesquisas de campo têm me propiciado aprender alguma coisa sobre a forma-favela da universidade e sobre a forma-universidade da favela.

Procedimento de trabalho

Procedimentos de trabalho: toda semana, escrevo um texto inédito de 10 páginas e levo para alimentar os debates em sala de aula. Às vezes, não consigo escrever dez, mas escrevo cinco. Na pós-graduação, terei 16 encontros no semestre. Ou seja, no final do ano, tenho entre 80 e 160 páginas inéditas, escritas e discutidas em sala de aula, sobre o campo de problematização do curso. Neste semestre, estou ministrando Estratégias Discursivas de Poder. Além de usar esta produção na próxima edição do mesmo curso como material didático, daqui a dois anos, fazendo a transformação de uma turma em outra, consequentemente, de um educador em outro, vou elaborar um ensaio teórico para publicação de um artigo sobre a questão central da disciplina. De dois em dois anos, surge um artigo novo. Em dez anos, um livro. Vou fazer isso com Estratégias Discursivas de Poder e também com Michel Foucault e a teoria social contemporânea (os dois cursos para a pós).

Um diário de professor

Estamos tentando fazer uma mudança na universidade para que as disciplinas de 4 créditos não sejam mais repartidas em dois dias, como de costume. Seriam sempre uma manhã ou tarde ou noite. Na prática, isto já é possível. Por exemplo, tenho concentrado minhas aulas neste semestre na sexta-feira, 8 horas de aulas ininterruptas, de 14 horas às 18 horas, na pós-graduação (mestrado e doutorado) e de 18 horas às 22 horas, na graduação. Às terças-ferias, de 14 horas às 18 horas, há uma reunião obrigatória de departamento, colegiado da pós ou de área ou do colegiado da coordenação. 12 horas de sala de aula mais a reunião obrigatória. Na terça-feira pela manhã, de 8 horas às 12 horas, faço atendimento de orientandos. Na terça-feira à noite, repito, concentrando três expedientes num único dia. Na sexta-feira pela manhã, antes da tarde e noite de aulas, escrevo toda semana um texto de 5 a 10 páginas com minhas problematizações para levar para sala de aula, ou seja, ao final de 16 encontros do semestre, tenho entre 80 a 160 páginas sobre o curso, o que uso como material didático na próxima edição dele, e também para publicar como artigos e depois como livro. As coisas estão se organizando. Sábado ou é trabalho de campo ou é produção de artigos, e há uma reunião de final de tarde no sábado que estou fazendo na minha residência com a equipe de bolsistas de iniciação científica que coordeno. Segunda-feira pela manhã, há uma reunião da coordenação da pós-graduação, da qual sou membro. Segunda à tarde e à noite, preciso revisar os textos de orientandos para poder encontrá-los na terça pela manhã. Uma média de 150 páginas por semana de revisão de textos. As leituras de teses, dissertações e monografias para bancas ficam diluídas e precisam ocorrer ao sabor das datas de defesa. Nesses momentos, é preciso parar tudo para fazer essas revisões de formação final que são um momento central da formação de recursos humanos (graduados, mestres e doutores).

Sunday, November 03, 2013

O amor

Tirante as dimensões espirituais, psíquicas, financeiras, sociais e políticas, sou sim um indivíduo que vive em uma situação confortável. O conforto é a alegria do pobre: o amor.

Minha vida de cachorro

"We bring to life what is hidden under the words; we put our thougths into the author's line, and we establish our own relationship to other characters in the play, and the conditions of their lives; we filter through ourselves all the materials that we receive from the author and the director; we work over them, supplementing them out of our own imagination" (Stanislavski). Não estou aqui com minha linguagem ordinária. Estou aqui na fala da linguagem (ou pelo menos, na tentativa de estar na fala da linguagem). O sujeito da linguagem aqui é merencório e não vale a pena ser performado, o que se performa é o efeito de um sujeito de fala que na verdade está subsumido pela fala da linguagem ela mesma).

Saturday, November 02, 2013

Essa necessidade.

Essa necessidade de escrever no FB (essa necessidade de me expor) é algo que me causa muito sofrimento psíquico, além de ser já sintoma de outras camadas de sofrimento psíquico que trago comigo desde a mais tenra infância. Aliás, desde o nascimento, o desgraçado do médico quebrou minha clavícula durante o parto. Depois de três dias de choro ininterrupto, de muita dor, a minha querida avó materna, Josefa, ao me dar banho, percebeu que minha clavícula estava quebrada. É por isso que não consigo parar de escrever no FB. Preciso expor a dor de na dor ter vindo com mais dor ao mundo. Mas cá para nós, é bem mais seguro ser espectador, não escrever nada, nunca se expor, e permanecer na dor calada, contrita, sem verborragia. Em vez de verborragia, eu pensei em escrever hemorragia. E ao escrever hemorragia, lembrei que tenho muito medo de ter hemorroidas e que agora os exames de próstata precisam ser regulares, pois de câncer de próstata, nos membros homens (sem trocadilhos) da minha família paterna e materna, está cheio. Por isso, estou escrevendo este recado de utilidade pública: cuidem de serem complacentes enquanto espectadores, não se exponham ao ridículo de quem escreve para se expor, previnam hemorroidas e câncer de próstata, seguindo os modelos preventivos de saúde, divulgados pelo governo das almas, nem tudo que vem do governo é ruim, só quase tudo. E para finalizar, abraços, pois vou entrar numa reunião já que vai de 14 às 18. Hora do almoço.

Thursday, October 31, 2013

O vigia do prédio...

O vigia do prédio em frente de onde eu moro que passa a noite armado, com um cachorro aos pés dele, vigiando a entrada e saída de automóveis do condomínio defronte onde moram famílias de alto padrão aquisitivo que escutam suingueira, funk e pagode em festas caríssimas e bregas que incomodam a vizinhança toda, pois bem, o vigia do prédio passa a noite ou escutando jazz ou música clássica no celular dele. Um dia ele estava escutando Carmina Burana, outro dia Mozart e frequentemente ele escuta muito jazz. Ainda não conversei com ele para saber como ele adquiriu tais repertórios e recursos tão contrastantes: refiro-me à arma, ao trabalho como segurança privado, mas também aos patrões que estão cada vez mais endinheirados na mesma proporção em que assumem repertórios que são associados ao gosto popular. É muito interessante esse conjunto de contrastes.

Anatole France

"O único conhecimento exato que existe é o do ano de publicação e o do formato dos livros" (Anatole France apud Benjamin). Muita gente não gosta, mas Le Crime de Sylvestre Bonnard, de Anatole France, me marcou. Talvez por causa do teto de mil livros.

Wednesday, October 30, 2013

Um segredo entre especialistas.

Vou contar um segredo para vocês a respeito do funcionamento da esdrúxula comunidade acadêmica: uma parte considerável de meus colegas pesquisadores acha um verdadeiro absurdo não concentrar a comunicação intelectual entre especialistas. Preferem a confraria de especialistas. A comunicação com não-especialistas é considerada um excesso de mundanidade, algo que não contribui para a "verdadeira" tarefa que é produzir academicamente a partir de relações estritamente acadêmicas com especialistas da sua área de conhecimento. A confraria da qual faço parte também não gosta que contemos esses segredos, é percebido como uma traição. Eu gosto tanto de estar entre especialistas (sociólogos, antropólogos, politólogos), quanto especialistas de outras áreas de saber, incluindo especialistas não-acadêmicos e, principalmente, gosto de conversar muito com pessoas comuns, não-especialistas, ou melhor, sábios do viver. Daí minha paixão pelo trabalho de campo etnográfico: visto por outro ângulo, um modo de fugir ao convívio da comunidade de especialistas da qual se faz parte, pelo menos por interregnos de tempo. Mas que fique em segredo, ok?

Consumidores virtuais

Vocês também estão notando que há uma enxurrada de publicação sugerida no FB, uma intensificação de fluxos de mensagens pagas com finalidade comercial? Está mais comercial o fluxo. Cidadão ou consumidor? Consumidores e cidadãos? Lembrei do Canclini. Querem esmagar esferas, espaços e arenas públicas, não é? O consumidor é alguém a ser satisfeito ou não. Mas a satisfação ou não é algo que não diz respeito ao sentido da vida. Mercados nos anestesiam com mercadorias narcotizantes, estimulantes, é uma economia de desejo muito líquida, temos que fazer a crítica à economia política do desejo. Aí é Débord, é Benjamin, Bauman que não gosto muito, e nós mesmos. Não se contentar em estar satisfeito ou insatisfeito diante do consumo de mercadorias é o núcleo do desafio ético. A eticidade é a invenção de si para além da condição de consumidor. O consumo gera significações, pelos usos, mas, por outro lado, engole a chave de leitura do produto que vem junto à mercadoria, quase sempre embutido em seu design. Questões para pensarmos.

Tuesday, October 29, 2013

E a viatura invertida

Voltei com uma baita crise de sinusite de São Paulo. As ventanias frias castigaram a cidade. Lembro que estava passando na rua, em direção ao hotel, e achei muito simpático da parte dos rapazes que estavam avisando aos transeuntes e aos motoristas que um automóvel do Estado Democrático de Direito tinha sido lançado na rua pela força dos ventos. Ficaram lá acenando com as bandeiras para que a gente tomasse cuidado. Esses meninos são um exemplo de cidadania para o nosso país.

No batente com ódio do telefone que toca.

Ontem, entre 9 horas e 13 horas, estive numa reunião de trabalho. Depois, de 14 horas às 18 horas, revisando um livro para publicação. De 18 horas até duas da manhã reescrevendo a introdução do livro. Overdose de computador. Ao longo do dia, meu celular não parou de tocar, sete pessoas ligaram para mim insistentemente, cada uma com mais de 7 ligações. Depois de ter cumprido todas as minhas obrigações profissionais, realizado as metas de produção do dia (o que não inclui serviço de atendimento de telefonemas), resolvi às duas da manhã, horário livre, horário de recreio, ligar para as pessoas que tinham passado o dia ligando pra mim pra saber o que elas queriam. Fiquei ligando direto. Umas não atenderam, outras desligaram na minha cara, outras atenderam e me trataram mal. Fiquei sem entender nada. Eu nunca ligo para ninguém. Quase nunca, aliás. Detesto me comunicar por telefone. No dia que estou livre, na hora que estou no intervalo entre um dia de trabalho e o início de outro, eu ligo para as pessoas que se acham no direito de me ligaram mil vezes sem parar e não há reciprocidade esperada. O que é isso, dois pesos e duas medidas? Quer ser atendido e não quer atender? O bom disso tudo foi um dia desses um amigo que passou a manhã ligando para mim, quando eu liguei de volta, perguntei o que era, ele tinha ligado 13 vezes, aí ele disse que era só para jogar conversa fora. Eu falei que ia cobrar pela análise, aí ele desistiu.

O tempo

Gente, estou horrorizado. O que está a acontecer? Estou com alunos e alunas na minha sala de aula na graduação que nasceram em 1991, 1992, 1993, 1994 e até de 1995. O que é isso? Como alguém poder ter nascido na década de 1990 e ser meu aluno na universidade? Não estou entendendo.

Adoro ser academicista!

Eu adoro ser academicista. Tenho o maior tesão no academicismo. Habitar uma torre de marfim onde houvesse apenas uma biblioteca e nenhuma ação direta. É tudo o que eu queria. Sou um anarquista que tenho alergia à ação direta. Acho muito chula, pois exige se lançar com os corpos suados no turbilhão físico-químico, um horror, é muito promíscuo ter de se agarrar com a polícia, não? Viva os livros como objetos distantes e inacessíveis, enigmas a serem decifrados. Mas aqui pra nós, ironias à parte, e até para compreender ironia é preciso estudar, mas pessoal que não gosta de estudar inventa todo tipo de desculpa para não sentar a bunda na cadeira e queimar pestanas, até política e militância radical servem como desculpa para a demissão intelectual e adesão à indigência das prateleiras de ideias prontas dos gurus stalinistas-cristãos-budistas e seus livrinhos sínteses de auto-ajuda para o militante entender. Vão estudar, pessoal! (estudar é um direito humano) Ou será que neste momento o pessoal da ação direta está participando de conflito armado lá na favela?

O horror pelo telefone tocando.

Estou desde 8 da matina concentrado aqui num texto de introdução de um livro que a gente do LEV vai lançar, mas o meu telefone não para de tocar. É mais produtivo eu parar de produzir textos acadêmicos e ir atender telefone, né? Pronto, está decidido, pelo bem da República, vou passar o dia atendendo telefonemas, podem ligar. Assim a gente constrói uma Nação. Então, se, por acaso, alguém não estiver cumprindo metas de produção, pode ligar para mim, eu vou suspender as minhas para ficar conversando com pessoas que tenham suspendido suas metas de trabalho. Conversar sobre o quê? Falar mal dos vizinhos? Qualquer assunto "produtivo". Estou aguardando as ligações. Ou seja, parem de me ligar, vão estudar, vão trabalhar, vão fazer amor, mas parem de me telefonar, pelo amor de Deus.

Monday, October 28, 2013

No posto de gasolina, fala-se de casamentos...

Ontem, no posto de gasolina, três cervejas, por favor, o amigo com a cerveja na mão, o outro querendo se livrar e ir embora, ele dizia repetidas vezes, segurando o braço do amigo querendo se ir: "casamento é solidão sem privacidade". O cara estava super infeliz. Fiquei imaginando as pessoas com quem ele vive, devem sofrer tanto com um cara que se sente assim, não é? que falta de imaginação.

Não sou dono da minha cabeça.

Tudo se passa como se uma história muito antiga pudesse ser contada. Uma história imemorial. Mítica. Uma narrativa seria melhor dizer. Narrativa sobre pessoas que viviam nas ondulações, intangíveis, entre forças e impactos, desrevestidas, no máximo delineando em formas inseguras e passageiras que se desfaziam no mesmo momento em que eram acionadas, moviam-se pelos atos de olhar, fascinadas pelo encanto e pela impossibilidade do aprisionamento do corpo difuso do outro. Dar o nome ao nome, regra ao torto, acabamento ao direito. Nesse ponto eram duras quase figuras, essas pessoas narradas. Não se mostravam acanhadas nas matanças nem nas danças ininterruptas que a ela se interpunham. Iam a se apropriar do real, interagindo no firme propósito de impedir qualquer estabilidade hierárquica entre os viventes. Para elas, a maior riqueza era saber compartilhar as diferenças, distribuindo-as de um modo natural que não era uma reificação da entidade Natureza, mas sim, ao contrário, uma ode aos fluxos. Tudo de origem coletiva era de ficar sob vigilância deles. Passavam-se séculos em instantes, não havia o início, o meio e o fim como modelo de fazer. Pessoas de coração generoso, sorriso largo e capazes de amar o próprio destino. Povos raros, ligado na qualidade das conexões, das alianças, dedicando a maior das atenções para os tratos, os pactos e as imprecações entre viventes e moribundos. Gente de impecabilidade. Fazer o caminho desse povo é uma aproximação que faísca. Com o peito ao chão, deitada a honra, com a cabeça servida na bandeja das mãos, ofertada a inteligência. O nascimento é uma ação livre, prenha de potencialidades livres.

Uma chance para a paz.

Sou a favor da paz, do amor e da evolução espiritual da humanidade! Um dia poderemos todos e todas viver em abraços como irmãos e irmãs, e esse dia é hoje, pois as senhoras e os senhores que andam nos supermercados, nas repartições e no shopping center estão super desejosos de nos abraçar, pois o amor será a universalização dos princípios éticos que as classes sacerdotais, na infinita fé e no total sacrifício da materialidade do ser, serão capazes de nos oferecer, como uma benção, como uma chuva de espiritualidade que nos fará invisíveis. Sempre invisíveis.

No dia do servidor público...

Engraçado, hoje é o dia do servidor público, é feriado na universidade, mas eu passei o dia trabalhando, desde 8 da matina até agora, 20 horas, e ainda não terminei de fazer as coisas que estão por fazer. Ontem, domingo, trabalhei de 9h às 21h. No sábado, de 8h às 20h. Na sexta, preparei aula de 8h às 13h, e dei aula de 14h às 22h, direto, sem parar, sem intervalo. Essa estrutura de sexta, sábado, domingo e segunda nesse ritmo é permanente. E ninguém deu os parabéns pelo dia do servidor público. Acho que vou ter de tomar pelo menos uma cerveja bem gelada pra compensar.

Ódio ao toque do telefone

Eu tenho ódio no coração quando o telefone toca. Para certas profissões, falar ao telefone é algo imprescindível. Para a profissão de professor e pesquisador é totalmente inútil. Falar ao telefone para a gente é parar de revisar trabalhos, é parar de escrever artigos, é parar de dar aula, é parar de fazer o planejamento pedagógico, é parar de estudar, etc. Professor não precisa ter telefone, basta Facebook e e-mail, e olhe que Facebook, quando vira Central de Atendimento ao Consumidor, aí é o ó do boró. Eu detesto telefone mesmo, só falto ter um ataque do coração quando esse bicho estranho toca. Pense numa coisa do meu ódio, ponho a bílis para a fora. De dez telefonemas, 9 são para pedir algo sem dar nada em troca. Para cobrar sem cobrar de si. No meu caso, falar ao telefone é anti-trabalho. Totalmente, anti-produtivo. Os únicos colegas que falam ao telefone sem parar são aqueles que exercem o poder de mando, colegas que estão em cargos de chefia, que mandam na gente. Aí é telefone o dia todo. Mas não é o meu caso. Meu trabalho é dar aula, pesquisar, escrever, ler, orientar, revisar trabalhos (nada inclui falar ao telefone). Morte ao telefone. Eu tinha jogado fora. Chutado, esmagado. Tive que ter de volta, mas é só pra falar com minha filha, minha companheira, minha mãe, meu pai, minha família, e olhe lá. Não passem meu número e nem me liguem, exceto se for para me chamar para tomar uma cerveja e conversar entre amigos. Qualquer outra comunicação que não seja de amigo para amigo, sem exigir nada, sem nada querer em troca, na gratuidade, pra marcar de encontrar para celebrar a vida e jogar conversa fora, e neste caso eu suspendo tudo e vou, o resto que não seja isso, aí é por e-mail.

Conhecimento livre

"Conhecer é fazer, fazer é conhecer" (Maturana e Varela). Não há conhecimento que não esteja embasado em outro conhecimento. Passa-se de um conhecimento a outro conhecimento. De um fazer a outro fazer. A base de produção do conhecimento é coletiva. Uma língua, por exemplo. Uma língua é uma riqueza coletiva. Não há proprietários de uma língua. Há falantes reprodutores e falantes criativos da língua. Em geral, somos as duas coisas. Se não há proprietário da língua, qualquer coisa que se faça com ela, qualquer conhecimento que se utilize dela, precisa pagar tributo à dimensão coletiva da produção da riqueza. Por isso que o problema não é o problema da propriedade privada, o problema mesmo é o problema da riqueza privada. A riqueza privada é uma contradição entre termos, pois a base da sua produção é coletiva, está marcada pela interdependência sistêmica de todxs atores sociais. Do catador de reciclagem ao cientista, todo mundo está produzindo riqueza. Não haveria produção de riqueza de um sem o outro. O modelo da capitalização não esgota a inteligibilidade plural da ação humana. O modelo da capitalização é uma imposição que gera a desrealização coletiva da riqueza. Pensando alto.

Lá na Rússia

Ora, se numa província da Rússia, que está tomada pelas máfias, o filho de um membro da cúpula do governo provincial, braço direito do chefe do executivo, foi preso por tráfico de drogas, com vários quilos de cocaína, balança de precisão e tudo, além de quilos de maconha, numa residência juntamente com um outro traficante, e este outro respondeu sozinho pelo crime, o traficante que era filho do membro do governo foi liberado e saiu da cena do crime no automóvel do secretário de segurança pública dessa província lá da Rússia, o secretário foi deixá-lo em casa, e hoje o rapaz continua saindo nas colunas sociais de lá, como empresário de sucesso e futuro dirigente da província lá na Rússia. Isso acontece, né? Sem falar que tem um delegado da polícia civil lá nessa província da Rússia que mora num apartamento de 2 milhões de dólares na mesma cidade onde o traficante filho do membro da alta cúpula do governo provincial não foi preso ao ser flagrado traficando pesado. O tal delegado também tem uma cobertura lá em Miami. Sabe qual o segredo? Ele vende não-abertura de inquérito para filhos criminosos de camadas médias altas e altas, ele cobra entre 50 a 250 mil dólares para liberar um jovem criminoso de classe alta quando é por acaso preso. Por isso, os advogados das famílias ricas, quando um de seus queridos filhos é preso, já ligam para o dito delegado, pois ele faz o acordo, liberando os meninos. Por exemplo, um filho de um empresário importante da província foi preso por formação de quadrilha e roubo de carros de luxo, ele pagou 200 mil dólares para o delegado e foi morar nos EUA, onde está fazendo MBA em negócios. A Rússia tem dessas coisas. O único crime que as elites dessa província lá da Rússia não admitem que ocorra liberação é o crime de sequestro. Isto já foi motivo para cúpula de segurança cair. Há um acordo entre as famílias mais ricas da província em não admitir em hipótese nenhuma isso. Outro exemplo, quando um filho de um grande empresário foi sequestrado, havia participação de policiais como sequestradores, aí a cúpula da segurança caiu no dia seguinte. Governador da província lá da Rússia levou puxão de orelha em jantar com o PIB peso pesado da província. Há grupos de matadores da polícia prontos a agir no caso de sequestro de algum membro do andar de cima. É a única coisa que funciona na polícia lá da província da Rússia. Tenho lido ótimos trabalhos que pesquisadores lá da Rússia têm escrito sobre o mundo do crime de lá. Quem quiser depois a referência de onde eu tirei esse relato é só me enviar uma solicitação por e-mail que eu envio o PDF da etnografia do crime dos ricos lá na Rússia.

Amizade como modo de vida

Um dia desses, eu escrevi que não estava aqui para fazer amigos, que estava a escrever para não morrer. Hoje mudei um pouco de ideia. Estou sim aqui para fazer amigos, conquanto que não sejam assessores de governo. Estou muito incomodado com o fato dos indivíduos que compõem o campo governamental do poder se referirem a todos e a todas como amigos e amigas. Uma vez me perguntaram se eu ia deixar de ser "amigo" (era uma ameaça). Desde então fiquei cabreiro com essa história de "amigos". Mas para dizer realmente o que penso, estou aqui porque a política da amizade é a base de uma moral possível, é uma ética, fazer amizade é tornar o mundo mais ético. Instrumentalizar relações interpessoais para exercer o poder e chamar isso de amizade é intolerável. Amizade é este acolhimento mútuo que fazemos sorrindo, sem pedir tantas explicações, e, sobretudo, primando pela simetria das posições. As nossas situações de poder ficam em suspenso quando fazemos relações de amizade. Saudações aos amigos e às amigas.

Tuesday, October 15, 2013

Uma pergunta perdida

Alguém saberia me indicar um livro ou um site que nos ensine a identificar os sintomas de uma pessoa que está morrendo?

Sobre a polêmica das biografias

Como é que um país que não consegue lidar com a liberdade de escrita por meio do conhecimento da verdade das biografias de quem quer que seja que tenha ou tenha tido um lugar público negativado ou positivado quer lidar com uma Comissão da Verdade sobre graves violências cometidas contra seus cidadãos que resultaram em tortura e morte? Se não se aceita uma biografia escrita sobre alguém, por que o país haverá de aceitar que criminosos sejam punidos a partir de uma Comissão da Verdade? Uma coisa tem que ver com a outra, não? Muito sintomático este imbróglio a propósito de biografias no momento em que se estava a propor Comissões da Verdade para biografia do país.

ser inadequado

Quando a gente desconfia que os convites para parcerias não passam de mise en scène, que não há nenhum interesse em metas de produção de conhecimento ou de sua difusão, mas querem apenas fazer coisas para inglês ver ou eu recuso o convite ou então me faço inadequado. Tipo: esperam de mim que eu esteja me vestindo como assessores de governo, aí eu vou de all star preto, calça suja de pneu e óleo de motocicleta e camiseta de surfe Out Burst. Pelo olhar que dão dos pés à cabeça, noto que se arrependeram profundamente de ter me convidado e que nunca mais me chamarão. O olhar diz assim: "mas esse aí que é o professor da universidade?" Em geral, as pessoas estão usando roupas que imitam trajes que elas acham serem usuais para pessoas da alta sociedade, ou seja, usam imitações de imitações de imitações de roupas feias, caras e cafonas. Esse lance de subalterno, de desejo de subalterno pelo Maître, é o que mantém o sistema de dominação em pleno funcionamento, não é a polícia, sinto muito, mas não é. A polícia é o subalterno, é o olhar de decepção do subalterno, quando seus ícones fantasiosos de desejo do dominante são frustrados. Agora eu já sei, sempre me vestir de tênis e falar gíria ao telefone. Preciso afastar convites absurdos. Tipo convite do governo, entende? Como é que um vândalo como eu ainda recebe convite de governo para alguma coisa que o valha! Não tenho decência chapa-branca, meu povo! Assessores de governo, me esqueçam, pela amor de Deus! Vocês que são pessoas de bem, não convidem os baderneiros pra nada, ok?

Escrito no dia 14 de outubro

Amanhã é o dia do professor e o colegiado de professores e professoras do departamento de ciências sociais da UFC estará de 14 horas às 18 horas reunido para dar continuidade ao processo de discussão, visando mudanças de organização curricular do curso de ciências sociais. Semana passada discutimos o currículo do bacharelado, amanhã, vamos debater o novo currículo da licenciatura. Uma mudança desta natureza nunca é uma questão técnica. Exige fundamentações e justificativas, pois, afinal, são o projeto político pedagógico e a qualidade do egresso que estão sendo tomados como objetos de transformação, o que exige a transformação de si, do ponto de vista docente. O mais interessante é observar várias gerações de professores e professoras dialogando a partir de visões e pontos de vista plurais e mesmo assim avançando em resoluções e medidas de consolidação da excelência acadêmica dos cursos diurno e noturno das ciências sociais. A pluralidade é a nossa força. Dia do professor é dia de trabalho. Aliás, todo dia é dia de trabalho para o professor, mesmo no feriado antecipado que foi hoje. O batente hoje foi de 8h às 22h. E ainda estamos aqui no recreio, no pátio do recreio, que se tornou o facebook.

O melhor de ser professor é...

O melhor de ser professor é ouvir alguém comentar: vocês só estudam, escrevem, dão aula e pesquisam, é? E quando é que vocês trabalham? É realmente o melhor ouvir esse tipo de carinho destinado aos professores. É muita compreensão demais da conta!

Dia do professor, 2013

E no dia do professor, como professor, gostaria de reafirmar minha profunda indignação diante da atitude do Sr. Roberto Cláudio, atual prefeito de Fortaleza, quando chamou e autorizou, em aliança com a prefeita de Fortaleza do PT e o governador do Ceará do PSB, o batalhão de choque da PM para nos espancar enquanto fazíamos uma manifestação pacífica, cidadã, que buscava acesso à Casa do Povo, à Assembléia Legislativa do Ceará. No dia seguinte ao espancamento brutal, fizemos uma passeata com dez mil pessoas pelas ruas de Fortaleza para mostrar nosso repúdio às atitudes autoritárias, anti-democráticas, tecnocratas e personalistas assumidas pelos governos do Ceará desde Tasso Jereissati até Cid Gomes. Não esquecemos! Não, não vamos esquecer jamais. Estamos na luta. Na luta por educação de qualidade, por igualdade, justiça social e, sobretudo, liberdade para continuar lutando por democracia real no nosso país. Os oligarcas passarão, nós, passarinhos!

Tuesday, October 08, 2013

Coisas que se aprendem

Uma das táticas que mais detesto é quando as pessoas estão devendo alguma coisa (faltaram encontros, devendo leituras, trabalhos, etc) e em vez de chegar e se desculpar por não terem sustentado os compromissos assumidos a pessoa parte para o ataque, cobrando do outro, de modo performático, como se fosse o outro que estivesse na dívida. Isso é uma canalhice, transferir responsabilização para o outro, acusar o outro de não ter dado as coordenadas e as informações corretas ou necessárias, um tipo de boicote, a intenção é fazer o outro conceder privilégios e esquecer das dívidas acumuladas. Negar descaradamente que não recebeu informação, etc. Nesses casos, eu recompenso a pessoa com o máximo de satisfação que ela está desejando e fecho completamente a porta para outras possibilidades de troca. Aí, faço da intransigência uma arma eficiente. Quem ataca, chama o contra-ataque. É como as coisas são, né? (coisas que também aprendo com e em sala de aula).

Wednesday, September 18, 2013

O que diz a pele?

Na segunda metade da década de 1980 e na primeira metade da década de 1990, tudo o que tínhamos a falar, tudo o que tínhamos a escrever, era feito no bando. Um pequeno grupo de amigos que se encontrava para beber, namorar, dançar, ler poesia, trocar livros e insultos, discutir política, jogar porrinha, fazer fanzines e enviar para outros bandos de outras bandas. Havia uma intensidade de bando e dessa intensidade de bando emergia muita coisa e muita coisa ficava enterrada na memória corporal do próprio bando. Havia, é claro, os postes onde podíamos fotocopiar mensagens, textos, imagens e sair colocando pelas ruas numa madrugada de domingo. Havia também os bares, onde os bandos se cruzavam, e os indivíduos que compunham bandos adversos acabavam cruzando, também. Noites divertidas, manhãs angustiosas. Havia o telefone público. Falar horas com alguém do bando usando telefone público. As fitas cassetes onde se gravava um setting personalizado e especial para dar de presente para alguém com belos olhos, um par de pernas e alguma massa cinzenta. Havia também o pátio do colégio, onde o troca-troca era incessante, como no pátio da prisão. Havia a fuga do pátio do colégio para a beira da praia, onde se dançava e se fazia amor à milanesa. Havia reuniões infindáveis de grupos de estudo, cheirando à sexo. Havia tanta coisa. Vou tentar deixar a pele lembrar e depois de um banho de mar, eu conto mais.

Ele dizia que Deus era contra o cu

Estratégia de luta: eu estava uma vez numa mesa com pessoas que não me interessavam, detesto quando isso ocorre. Dois irmãos, dois senhores, coroas de classe média, estavam nessa mesa. Um deles começou a falar um monte de coisas abertamente homofóbicas, ele estava sendo claramente estúpido. Como eu não tinha muita intimidade, num primeiro momento fiquei calado. Certa hora, fui ao banheiro, o irmão do cara também. Enquanto mijávamos lado a lado, o cara me disse: esse meu irmão é um problemático, sabe!? Quando ele era criança era o rei do troca-troca, vivia dando o boga em troca de outro boga, coisas entre meninos, aí agora que ele é o braço direito do padre viado lá da igreja, deu pra ficar com esses arroubos. Gente, eu não esperava isso, não tinha pedido essa fala. O cara falou espontaneamente. Depois que voltamos à mesa, lá pelas tantas, o cara resolveu retomar os ataques homofóbicos (ele estava usando uma cruz de madeira pendurada num laço no pescoço, enquanto bebia uísque). Falava que Deus era contra o cu. Eu juro! Era desse jeito que ele falava. Ele não parava de falar do cu. Deus é contra o cu, cu não é para fazer sexo, cu é para cagar, cu é sujo, cu é cloaca, cu não é para ter prazer etc. Ele era da paróquia, da paróquia de Deus. Tal hora, sem aguentar mais tanta babaquice, eu falei: "é, Deus era o rei do troca-troca! O Deus menino, né?". O cara ficou branco! Lívido. Azul. Cinza. Começou a passar mal. Foi vomitar no banheiro. Ligou para a esposa para vir buscá-lo. Saiu sem me cumprimentar. O irmão dele ficou rindo. Ganhei minha noite. Isso faz tempo. Eu ainda era ruim. Uma pessoa ruim, sem Deus no curação.

Fatos da vida

Era uma vez uma mesa de bar que não era a minha. Um playboy brother meu insistiu tanto para eu ir, fazia décadas que me chamava, que eu acabei indo. Era num bar temático: torcedores do Ceará. Eu sou torcedor do Ceará, então, não me incomodou este aspecto identitário. Cheguei de bermuda e chinela japonesa e camiseta branca, como sempre. Os caras estavam lá de rolex, iphone, quase passeio completo. Achei estranho, pois o bar vendia frango assado, as mesas sobre a calçada, desrespeitando o estatuto da cidade, os banheiros sujos e a comida ruim. Mas, enfim, quem sou para julgar as coisas, né? Aí continuei lá ouvindo os papos. Sou etnógrafo, entende? Escuto tudo. Lá pelas tantas chegou um playboy, passado nos panos, foi cumprimentado como grande amigo por todos, com abraços e frases do tipo: "macho, senta aqui e pega na minha!". E eu só observando, bebericando minha cachaça, tirando o gosto com a gelada. Na hora que o cara chegou, outro cara, que tinha lhe dado um senhor abraço, aqueles abraços entre amigos que o playboy senta no outro, e logo na sequência se levantou e se despediu de todo mundo, dizendo que tinha que ir nessa, levar a mãe para a missa. O playboy não esperou nem o outro botar a carteira, a chave e o iphone sobre a mesa, partiu ligeiro, no foguete. O playboy que era meu brother, lá no banheiro, enquanto mijávamos lado a lado, me deu o toque: cara, o outro lá que saiu da mesa foi comer a mulher do babaca ali! Ela já tá la esperando, e a gente segura o corno na mesa. É assim toda semana. É a alegria da pobre! O mundo do playboy é limpo, né? Fair play! E viva o Ceará Sporting Club. Esse mundo Cid de ser. Viva o Ceará!, eles gritavam brindando amigavelmente com o amigo corno.

O Deus dos que não prestam?

A polícia é de Deus. Os ladrão é de Deus. Os político é de Deus. Os governo é de Deus. Os ex-ruim é de Deus. Tudo que não presta nesse país agora é de Deus? Num tô entendendo, alguém mais ligado me explica aí por que Deus está em tudo que não presta!

As regras do jogo

Tenho aprendido na prática da vida que quem faz as regras do jogo as faz sempre para tentar manter situações de poder consolidadas e barrar o acesso de outros a tais posições. Fazem regras para que quem já está no topo possa continuar ganhando fama, reputação e prestígio. Ter o monopólio das classificações, das instâncias de classificação, e, sobretudo, de monitoramento e avaliação são estratégias corriqueiras. Norbert Elias tem belas páginas sobre isso em vários textos, Bourdieu, também. Quanto menos elaborarmos demandas para as instâncias de classificação, para quem as controlam, portanto, menos legitimamos tais estratégias e mais somos excluídos e considerados pessoas indesejáveis. É isso aí!

O carro mata!

Eu adoro pilotar por aí. Hoje pela manhã, eu saí de casa para trabalhar às 8 horas e 18 minutos (Meireles) e cheguei na Universidade às 8 horas e 48 minutos (Benfica). Um amigo meu saiu 7 horas e 30 minutos e chegou às 9 horas, usando automóvel individual. Eu estava sobre duas rodas. Um diferença de uma hora. E eu ainda me diverti pacas! Os carros todos parados e eu fazendo acrobacias entre eles, sem velocidade, treinando passagem entre obstáculos. Me senti no paraíso! Como ciclista, pedestre e motociclista, gostaria muitíssimo de agradecer aos gestores da minha cidade que perderam o controle sobre o trânsito. Estamos quase chegando no ponto perfeito: automóveis individuais completamente parados. Por que comemoro? Para quem está à pé, de bike ou de moto, carros parados são uma benção! Carro parado não mata! Hoje uma pessoa tentou me matar. Ontem foram duas. Aliás, neste ano, já tentaram me matar diversas vezes, algumas dezenas de vezes. Como? Como pedestre, ciclista e motociclista. É mais fácil morrer no trânsito da cidade do que na guerra do Peloponeso.

Wednesday, August 21, 2013

Qual o critério?

Em qual critério de verdade alguém se baseia para exercer o controle sobre a fala do outro? Há justificativa com validade universal para alguém ter o direito de controlar a fala do outro? Qual o critério? Qual a fundamentação da validade universal do critério? Como escreveu Miller, "o que é válido é apenas porção (...) percebida por todos os homens em comum" (p.25).

A crença é uma fatalidade!

A crença é uma fatalidade. A descrença é um desconstrução dessa fatalidade, é um opor-se à ideia do medo do desconhecido imposto pelo destino. Talvez, a humanização precise se livrar da figura do homem que é uma figura pálida que desvanece no ser da linguagem para ressurgir enquanto relação com a pura animalidade do humano.

O temor nada cria

O temor nada cria. O temor aniquila a vontade. Não há nada pior do que o temor. O corpo ameaçado pelo temor. É a incorporação do aguilhão da palavra de morte. A incorporação da ameaça é um ato que atua como condição para uma atitude de fé. Esta atua como uma terapia para a alma aguilhoada pelo ferrão de um palavra de ordem. Na relação entre caos e ordem, emerge a singularidade, a universalidade do singular, que é a única universalidade, uma vez só há a priori histórico.

A aula

A objetivação do pensamento pela escrita é uma forma de desintoxicação mental. Escrever para não morrer, como já disseram vários e várias mundo afora. Escrever é a única terapia que me apraz. Por isso eu escrevo. Mas há também a sala de aula, o efeito terapêutico da sala de aula é uma maravilha, é um teatro, é catártico pelo estranhamento do estranho. Estou feliz só de imaginar que vou voltar para a sala de aula, o único lugar onde a fala fala sobre si mesma, dobrando-se para fazer emergir objetos de pensamento, como figuras holográficas flutuando no ar, o pensar é holográfico, por isso nós, professores, usamos as mãos, nos levantamos da cadeira, olhamos para o éter, pois não há vazio, há objetos imaginados, figurações flutuando e se constituindo pela força da mente, pela força intelectual, pela sutileza de construções imagéticas do pensamento, tudo o que se efetua na fala em sala de aula, pois quem fala deseja, como dizia o psiquiatra. A aula dá tesão e estimula a cognição na sua virtualidade no fluxo das coisas, que é a forma real da realidade, enquanto devir, a aula incita e excita na simultaneidade do sentir-se em co-presença de coisas de pensamento.

Por que alguém escreve? (segundo Barthes).

Gozo, fruição, prazer, usufruto, posse. O prazer pelo que é de sentido "precário, revogável, reversível", o prazer pelo discurso incompleto (cf. Barthes). Atuar nas margens de indecisão, pois não há classificações seguras. "Se leio com prazer essa frase, essa história ou essa palavra, é porque foram escritas no prazer" (Barthes). Que haja jogo da vida, que haja "imprevisão do desfrute", possibilidade de um desejo, o que interessa na pessoa do outro não é a pessoa, "é o espaço". "A tagarelice de um texto é apenas essa espuma de linguagem que se forma sob o efeito de uma simples necessidade de escritura. Não estamos aqui na perversão, mas na procura" (Barthes). "A neurose é um último recurso: não em relação à 'saúde', mas em relação ao 'impossível' de que fala Bataille ('A neurose é a apreensão timorata de um fundo impossível' etc.); mas esse último recurso é o único que permite escrever (e ler). Chega-se então a este paradoxo: os textos, como os de Bataille - ou de outros - que são escritos contra a neurose, do seio da loucura, têm em si, se querem ser lidos, esse pouco de neurose necessário para a sedução de seus leitores: esses textos terríveis são apesar de tudo textos coquetes" (Barthes).

O discurso amoroso

"o discurso amoroso é hoje de uma extrema solidão. Tal discurso talvez seja falado por milhares de sujeitos (quem pode saber?), mas não é sustentado por ninguém; é completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado não apenas do poder, mas também de seus mecanismos (ciência, saberes, artes). Quando um discurso é assim lançado por sua própria força na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta além de ser o lugar, por exíguo que seja, de uma afirmação" (Barthes).

É isso

"De palavra em palavra, esgoto-me dizendo de modos outros o mesmo de minha Imagem, impropriamente o próprio de meu desejo" (Barthes).

A amizade como covardia

Em alguns casos, a recorrente mundanidade que faz alguém estar em todos os lugares, em todas as baladas, em todas as mesas de bar, é um forte sinal de privação, de desespero, pela falta de amor. Talvez seja nesse sentido que Marcel Proust considerava a amizade um tipo de covardia. Querer estar entre amigos, buscando o grupo de amigos, pode ser o sintoma de intensa privação do amor, do mesmo modo que fugir dos amigos, evitar o grupo de amigos, pode ser sintoma de frustração ou de melancolia. Ninguém suporta a vida mundana sem invocar a ausência do objeto amado e quase sempre de modo imaginário, pois o objeto presente de amor não satisfaz.

Sobre o blog acadêmico Campos em fuga

Brasil, Estados Unidos, Rússia, Alemanha, França, Portugal, Ucrânia, Espanha, Holanda e Austrália são os países onde tenho amigos que estão gostando de acompanhar o blog acadêmico que venho mantendo, chamado Campos em fuga. Criei o blog em fevereiro deste ano (fevereiro de 2013) e com mais de 1.500 visualizações (umas 400 me parecem visualizações de máquinas, não tenho certeza, mas 1.100 visualizações foram feitas diretamente a partir do Facebook e do Twitter). Além de me regozijar, afinal, não tem como não deixar de ser uma alegria que outras pessoas leiam o que a gente escreve, não vou fingir que isso não importa, importa demais, é claro, é uma satisfação, mas a observação é em outro sentido. Até que ponto essas novas formas de escrever, novas formas de produzir conhecimento, nas redes sociais virtuais, nos blogs, vai um dia ser plenamente reconhecido como produção acadêmica ou não? Uma questão a se pensar. Quando eu vejo por exemplo vários colegas fazendo algo parecido, e até colegas mais experientes, já consolidados no mundo acadêmico, diferentemente de quem apenas inicia, como eu, fico cada vez mais inquieto. Dificilmente, a publicação de artigos em revistas acadêmicas revisadas por pares deixará de ser o veículo central, pois isso está no coração da coisa, é como se adquire prestígio, mas e as outras formas de produção, como ficarão no futuro próximo? Continuarão sendo ainda vistas de modo preconceituoso como coisas de quem não tem o que fazer? Será? Quem viver, verá!

Por que alguém escreve? (uma citação linda de Henry Miller).

"O homem escreve para livrar-se do veneno que acumula devido à falsidade do seu modo de vida. Está tentando recapturar sua inocência, mas ainda assim tudo que consegue fazer (escrevendo) é inocular o mundo com o vírus de sua desilusão. Ninguém escreveria uma palavra sequer se tivesse a coragem de viver aquilo em que acredita." Henry Miller.

Saturday, August 10, 2013

Menino, vai estudar!

A mãe me mandou estudar, "vai estudar, menino!", aí eu internalizei a autoridade dela, num processo de identificação, onde os livros são objetos escolhidos para serem investidos e desinvestidos, compulsivamente, para que a influência de novas identificações, marcadas pelo delírio do "vai estudar, menino!", possam ocorrer. E na compulsão, vou devorando um livro de cada vez, um por dia, e aí eu acordo todo dia, tomo banha e vou estudar, cantarolando "mamãe, eu quero. mamãe, eu quero. mamãe, eu quero mamar". E nessa impossibilidade, transformo a angústia real em angústia neurótica, e para evitar que essa dimensão neurótica da angústia de me se apodere, aniquilando-me, passo à intoxicação pela cerveja, para evitar consolidar a angústia neurótica. E com muito literatura nos couros, como se estivesse apanhando de novo do cinturão do meu pai e da chinela da minha mãe, eu volto novamente aos estudos, a forma como destruo os livros, é a forma de um psicótico na revolta contra a ordem social dada, tomando cafezinho entre uma pausa e outra. Mas deixemos de charlatanismo, mamãe disse que tenho que ser um bom menino, liga toda semana para cobrar, então, queimar as pestanas e ruela do dedo enfiado no pápis (ops, lápis), pois é preciso estudar, viver não é preciso! (para os desavisados, eu não entendo nada de psicanálise, estou só fazendo lorota no intervalo pra voltar aos livros).

Tuesday, August 06, 2013

Expressionismo

há uma condição que é absolutamente incapaz de dizer-se a si mesma, um condição que não possui as prerrogativas da onisciência e da onipotência, uma condição que não pode fazer um relato completo de si por estar imersa no mais intricado labirinto, entre sombras e alguns clarões que as atravessam, como numa ponte que não liga nenhum lugar a lugar nenhum, uma ponte atópica, de um castelo atópico, sem utopias, apenas nos deslocamentos que apontam para a fuga do lugar absoluto do corpo que é o único lugar absoluto, pois destinado à finitude radical, à ruína, ao aniquilamento completo e total, uma condição que só se defronta com o absoluto e com a totalidade do ser quando não há mais ser, uma fluência no puro devir em direção à morte, ao gozo final.

Tuesday, July 30, 2013

O caráter da tentativa

O que mais me interessa na vida é o caráter da tentativa - a situação de aniquilamento do próprio caráter, levando à bancarrota, arrastando para o abismo, a cristalização dos vícios que nele se amalgama. Mas não para viver sem caráter, a tentativa inaugura de novo originariamente o retorno para si a fim de erigir um novo esboço de caráter. No fundo, não há disposição que não esteja dirigida, orientada, em direção ao caos. A disposição é produto da ação agindo sobre si mesma, o que não é nada artificial, nem arbitrário, mas necessário para o agir do modo pensante.

Tuesday, July 23, 2013

Desejar o outro

Em algum lugar, em busca do tempo perdido, há um lembrete que me tem sido muito útil ao longo da vida: não há nada mais arriscado do que ser capturado pelo desejo do outro. O desejo do outro dirige-se a alguém para fazer desse alguém um objeto a ser desprezado, após ser destruído. Tornar-se objeto de desejo do outro é tornar-se o próximo objeto de nojo. Então, a condição saudável é a fuga. Fugir e fugir do desejo do outro que deseja o próprio desejo, e nessa traição de si, precisa de um objeto para chamar-se, para imiscuir-se na armadilha, um objeto para ser descartado. A fuga do objeto de desejo do outro enquanto estado é humanamente imprescindível à vontade da vontade. Essa banalidade é uma sabedoria fina de Monsieur Proust.

A mais solitária solidão

Diante da irremediável solidão, a tarefa é abraçar a mais solitária solidão, uma vez que assim não se capitula frente à crença no irremediável da condição solitária, o que seria uma característica dos que nada querem, de um lado, e, de outro, não se se ajoelha à condição dos esquecidos de si, abandonados aos sabores de um eu. A mais solitária solidão não é um retirar-se da vida. Nem é o estar só no meio da multidão. É algo que não se diferencia. Não diz respeito ao âmbito da intersubjetividade, talvez.

Sunday, June 30, 2013

Uma ode moralista ao moralismo que é a base da vida social: o estudo.

Se alguém gosta demasiadamente da vida social, de ter vida social, encontrará muita dificuldade em se tornar analista da vida social, não apenas por que, como dizia Lévi-Strauss, o cientista social não "curte" seu próprio grupo social e assim busca pelo distanciamento de si pela elaboração de um olhar distanciado sobre a humanidade outra, alter nativa, mas, principalmente, pelo simples fato, de que uma vida social agitada não combina com a vida dos estudos, não combina com o ethos da pesquisa. Festa, restaurante, churrasco, pizzaria, viagens, toda essa profusão, para quem a ela se deixa render por prazer ou por adorar demais a mundanidade, rouba por completo o tempo precioso da leitura, da pesquisa, da escrita, da dedicação à leitura e à escrita que caracteriza o ascetismo secular de quem por vocação escolheu ser ermitão da pesquisa. Às vezes, quando vez ou outra deparo-me com brados anti-intelectualistas que com pouquíssima habilidade para a ironia vituperam palavras chulas contra a vida dos livros, como se fosse uma vida fácil, fico-me a perguntar se é tão fácil por que a maioria não consegue sentar a bunda na cadeira e ler 4 horas por dia, que é o mínimo do mínimo, para que leva o estudo à sério. Se é fácil estar numa biblioteca lendo, por que tão poucos mantem essa prática com regularidade, sistematicidade e paixão. Faltam afetos, paixões e sentimentos dirigidos ao mundo do saber e sobram desejos em excesso dirigidos ao mundo dos bens de consumo e seus símbolos de prestígio. O governo foi incitar a imaginação das pessoas de que poderiam ser "nova classe média" sem estudar, aí todo mundo querendo churrascaria, pizzaria, carro novo, geladeira nova, tudo aquilo que é "direito" da cidadania, não é? As lutas históricas do campo democrático popular foram vencidas pelo desejo de ser "classe média", ou seja, pelo desejo de ser medíocre e viver uma vida tediosa e vazia. É preciso detestar a vida social da classe média para construirmos alguma coisa que valha a pena.

Monday, June 10, 2013

O QUE TENHO APRENDIDO COM EPICURO SOBRE A VIDA FELIZ

"Nem a posse das riquezas nem a abundância das coisas nem a obtenção de cargos ou o poder produzem a felicidade e a bem-aventurança; produzem-na a ausência de dores, a moderação nos afetos e a disposição de espírito que se mantenha nos limites impostos pela natureza" (Epicuro). Neste sentido, o prazer é o princípio e o fim da vida feliz. E o que Epicuro entende por prazer, como ele próprio alerta, não é o que dizem os ignorantes que o associam aos prazeres intemperantes ou prazeres produzidos pela sensualidade, o prazer é como o "desejo incômodo e inquieto" que se dissolve no amor à filosofia, o que remete à liberdade, de modo que a liberdade está ancorada na condição de quem se encontra livre do sofrimento do corpo e das perturbações da alma. É a vivacidade, o gozo livre da vida e a alegria com a liberdade que fazem do prazer o princípio da vida feliz. E a forma da interrogação dirigida ao próprio desejo é a prática que atua como ponto de partida da reflexão sobre a vida feliz. Prender-se às angústias das angústias, desprender-se do contato com a natureza, envolve impor-se a si infinitos desejos e temores, ligados aos movimentos das opiniões vãs. Não se trata, portanto, de ceder aos impulsos dos prazeres ligados à luxúria, uma vez que "a quem não basta pouco, nada basta". Apenas os insensatos vivem na agitação constante de uma vida orientanda para o futuro, como no caso de quem esquece que a verdadeira riqueza é a capacidade de um sujeito desejante na relação consigo mesmo em conformidade com a natureza. A abundância é uma relação com o próprio desejo. Destarte, "o princípio e o maior bem é a prudência, da qual nascem todas as outras virtudes; ela nos ensina que não é possível viver agradavelmente sem sabedoria, beleza e justiça, nem possuir sabedoria, beleza e justiça sem doçuras. As virtudes encontram-se por sua natureza ligadas à vida feliz; e a vida feliz é inseparável delas".

SOBRE MONSTROS MORAIS DA CLASSE CULTA E INSTRUÍDA

Estou percebendo membros da "classe instruída", expressando cada vez mais um irracionalismo fascista dirigido ao todo, ao mundo, ao governo, aos adversários do governo, quando o problema por trás dessa expressividade de raiva e ódio que ocorre no conforto das redes sociais virtuais parece ser mais efetivamente o sintoma do tédio, da neurose. Alguém "feliz" no casamento, "feliz" na família, "feliz" no trabalho, "feliz" na igreja, ou seja, uma "pessoa de bem", instruída, com alto padrão de renda e consumo, o que esta pessoa estaria fazendo nas redes sociais virtuais a esbravejar contra tudo e todos, a expressar ódio, rancor, ressentimento e fúria (de modo virtual) se o seu principal problema não derivasse justamente do excesso de segurança ontológica? Quanto mais seguras as pessoas estão em suas próprias certezas, mais a revolta do inconsciente se realiza como ódio de si na expressão do ódio generalizado do outro. Ódio difuso, dirigido às figuras já marcadas socialmente para serem objeto de descarga desse ódio ligado ao tédio da classe média culta (detentora de diplomas e posições de renda e consumo invejados por muitos). Estou perplexo com a adesão de membros "cultos" e "instruídos" às formas típicas do fascismo (seja fascismo de esquerda, seja fascismo de direita). Há algo de muito podre no reino da Dinamarca. O sujeito em vez de procurar uma terapia, um analista, uma vez que tem padrão de renda e conhecimento para fazer essa escolha, prefere despejar o lixo de seu tédio, de sua mortal "segurança", por meio de discursos sobre a insegurança. Quem de nós está efetivamente inseguro? Segurança e insegurança são distribuídas, afinal, de um modo bastante desigual, e contra essa desigualdade, quase ninguém vitupera. Ao contrário, a desigualdade é celebrada, é tida na conta do galardão do vencedor. Como dizia Machado, pela boca de Quincas Borbas, "ao vencedor, as batatas". Ao vencedor, o tédio de seu próprio ressentimento e medo de si. Pois só há a temer quem produziu socialmente algo que gera temor nos semelhantes. Somos tão inocentes nesse paraíso de onde não desejamos ser expulsos, esse paraíso da crueldade, o nosso teatro, né?

Friday, March 15, 2013

Dá nos nervos!

Escrever é enervante. É como ficar respirando prestando atenção na respiração. Dá uma sensação de morte iminente. Detesto muito escrever.

Boa memória?

"O homem de boa memória nunca lembra de nada, porque nunca esquece de nada" (Samuel Beckett sobre má memória de Proust)

Ler e escrever.

Ler envolve certa relação com a luz. Escrever envolve certa relação com o mar.

Botas? Para quê?

"e quem precisa de botas nesses caminhos eternamente vazios" (Kafka)?

Um lema para a idade madura

"Ne jamais profiter de l'élan acquis" André Gide.

Wednesday, March 13, 2013

Síndrome esquerdista de Peter Pan

tenho um problema horrível de inadaptação aos novos tempos. eu nasci e cresci durante a ditadura militar. passei a adolescência sendo chamado de "baderneiro", "vagabundo", "marginal", "maconheiro", "comunista" e "rebelde". junto com o pessoal que fazia oposição de esquerda ao PT em 1987-89, fazíamos a crítica que o pessoal "descobriu" só depois de 2002. não consigo me acostumar com a ideia de que ser de ex-querda é ser de "sucesso", é ser do "poder", é ser da "nova classe média". prefiro continuar sendo o eterno "irresponsável" por criticar o presidente Figueiredo e o Lula ao mesmo tempo. síndrome de Peter Pan? Será?

Monday, March 04, 2013

Relações de poder e crueldade.

Um lance cruel, um expediente de poder, vem trazendo problemas sérios de saúde para os professores. Combina-se um prazo que contenha uma quantidade definida de dias para a revisão do professor coincidir com o final do semestre (digamos que 20 dias antes das férias seria a entrega de um trabalho de modo que o professor tivesse 10 dias para revisar e tempo para agendar encontro presencial a fim de dar um retorno). Ocorre que alguns estudantes resolvem de modo unilateral usar o tempo desses 20 dias que eram do professor para esticar o seu prazo próprio de trabalho, e entregam o trabalho no último dia útil que antecede as férias. Ao receber o trabalho nessas condições, o professor se escraviza, afinal, se o professor disser que só irá tratar do trabalho após as férias o aluno considera uma desfeita, até por que exige que a avaliação seja lançada no sistema, caso contrário o aluno reprova. Para o professor não ser penalizado, ficando trabalhando durante as férias em ritmo alucinado e sob pressão intensa, uma marcação colada exaustiva do aluno que lhe roubou o tempo acordado para revisão, terá que se recusar a receber o trabalho fora do prazo. Moral da história: o seguro morreu de velho. A regra é não aceitar de jeito nenhum o trabalho depois do prazo e reprovar o aluno. Pois o sorriso cínico e adulador para que o professor aceite o trabalho fora do prazo se torna uma boca arreganhada de dentes e uma língua ferina e maldosa e raivosa a abocanhar as férias. Matem a caça, antes que a caça te mate. Não perdoar e não aceitar trabalho atrasado de aluno é fundamental para a saúde e para as férias do professor. Se a vovozinha é o lobo disfarçado e come a chapeuzinho, então sejamos os caçadores desde o início. É isso o que se pode chamar de educação? Nem o cheiro!

Sunday, March 03, 2013

Ascetismo secular.

Foi uma dupla constatação que me levou a escrever uma carta de despedida temporária aos amigos. Dei-me conta de uma brutal insuficiência de recursos intelectuais para dar conta da complexidade das coisas que se somou a uma curiosa debilidade em me manter na normalidade requerida para o trato com os humanos e, ainda mais e por cima, que a combinação das duas, da brutalidade e da debilidade, assolavam-me ferindo de morte os meus dias e os trabalhos. E assim me decidi pelo retiro. Resta-me, para os próximos 15 anos, se o indivíduo biológico que habito me permitir, um mergulho total e irrestrito e inexorável no mais brutal e rigoroso isolamento. Uma fuga dos adjetivos. Dirão alguns que passo de uma loucura a outra. Outros, os mais maldosos, propagarão minha perfeita morte. Mas dos primeiros, resguardo-me adotando a loucura como meu princípio de dor, sem nela mergulhar de ponta cabeça como se a pedra que me acolheria, partindo-me o crânia, subjazesse na eternidade submersa. E dos últimos, os maldosos, para com estes, de quem nada espero, enterneço-me, confraternizando-me na mais astuta fuga de si. Afinal, nem só de pão vive o homem, mas da palavra infinita de uma página em branco. E da página em branco, farei o aguilhão de um ascetismo secular. Sem morbidez, mas também sem frutas e verduras orgânicas, pois aos céus apenas os bons e os justos terão recursos para aceder, comprando-lhes o acesso.

Sunday, February 17, 2013

Uma sensação de inadequação

Quando acordo, sinto uma sensação de inadequação. Recém-chegado e estranho, luto contra os marcos, contra a fama e a opinião, viver na paradoxa, na contestação de si, é a maneira mais estúpida de fazer funcionar a estruturação de uma personalidade, afinal, estrutura-se no vazio o sentido sem significação, e tudo vaza, tudo vaza por todos os lados, a pessoa e os objetos. E o pensamento torna-se um lugar possível, graças ao bom e enganador criador.

Friday, February 08, 2013

Na cama com Barthes.

Afeito ao meu gozo, abdico ao hedonismo aderente da sua cultura. Infesto de teu prazer, rasgo meu ego por nojo à tua fantasia. Deploro-me. Descarnavalizo-me (por pura perversão). Me sento, me deito, me largo e leio o prazer incerto do texto, rolando saciado e distante e improvável e matreiro e choroso e detestando cada vez mais ser escravo dos adjetivos.

O babaca absoluto.

Que você ou eu sejamos babacas, sobre isso, há, graças ao Bom Deus, controvérsias acesas, uns nos acham muito, outros nos acham pouco e ainda por cima para que não entremos em infame desespero há os que não nos acham babacas de jeito nenhum e nos chamam de interessantes, inteligentes e bonitinhos, aí a massagem é total. Enfim, há quem nos considere babacas e também quem não nos considere. Tudo na mais perfeita normalidade dialética das coisas. Nós mesmos somos uma vez ou outra perdida na vida capazes de nos assombrarmos com algum grau de babaquice que atingimos em determinada situação ou contexto e nos sentirmos profundamente envergonhados apenas à lembrança disso, com exceção dos babacas perversos e adeptos do mal-caratismo, mas aí a gente teria de mudar de assunto. No fundo, quando o tema é a babaquice, a alheia é sempre mais retumbante. Somos babacas relativos, afinal. Ocorre, meu amigo e minha amiga, que há babacas arrematados. Completos babacas. Babacas capazes de gerar um consenso em torno de sua própria babaquice, unindo militantes partidários de esquerda das mais diversas origens e tendências (e olhe que nas militâncias de esquerda, há babacas saindo pelo ladrão, o Zé que o diga, e sobre as militâncias babacas de direita, seria um gasto de saliva lançar alguma consideração: já têm um Zé também). O problema é que após a raiva que o babaca total nos provoca, acabamos por sentir certa pena, forma-se em nós um gotejo de compaixão, e antes que nos descubramos babacas, justamente, por estarmos tendo pena do mais babaca dos babacas, o ódio ao babaca absoluto apodera-se de nós novamente, e com sangue no olho! Voltamos a xingá-lo e a vituperá-lo em silêncio, como reza a hipocrisia que é a base da vida social civilizada (essa coisa cada vez mais rara). E só perdoamos, no nosso íntimo, a babaquice geral àquele babaca tosco de tão resoluto é por que afinal somos parte de uma mesma humanidade, criaturas diante de um mesmo Deus, e não podemos negar a evidência de que o babaca absoluto é em algum grau um nosso parente, um próximo, por que não: um irmão. Daí nasce o sentimento cristão que nos faz acolher na mesa de bar, no Twitter, na rodinha de conversa, nos corredores do Tribunal de Justiça, nos Partidos das frentes de esquerda, nas Igrejas, nas Universidades e por aí vai, o pior dos babacas. Mesmo quando estamos certos de que iremos nos arrepender profundamente pelo acolhimento que fazemos ao babaca-mor, não teríamos como não lançarmos esse ato de amor que o enleve à condição de homo sapiens sapiens, mesmo sendo um babaca absoluto.

Monday, February 04, 2013

Acordei numa condição miserável

Acordei na mais profunda miséria. Nunca foi diferente. Não houve mudança repentina de condição. A condição sempre foi a mesma, a fuga. Estabelecido no mais profundo vazio de sentido, e pouco simpático às soluções escapistas, a fuga, naquilo que ela tem de radicalmente anti-escapista, foi o único bem de salvação pessoal disposto ao meu alcance. Estando a mão, a fuga é quase uma aberração, uma vez que a aberração num sentido pleno é o escapismo. Quem dera, como meu vizinho, dispor de coisas dadas. Um penteado da moda (quando ele era jovem), um carro do ano (japonês) e um beijo de segunda-feira da esposa, cheirosa e asseada com os perfumes adocicados trazidos da última viagem que o casal fez para Nova York, esse paraíso das compras, a "nossa São Paulo", dizia ela, riso histriônico, com a máscara de felicidade maquilada entre as rugas, enquanto embarcavam no Aeroporto Internacional de Fortaleza. Enfim, se ao menos eu tivesse acesso à metafísica de sentido do vizinho: carreira de sucesso, carteira recheada e muitos enfeites emprestando-lhe uma máscara jovial, bem-sucedida, responsável e surpreendentemente estável. Sim, ele grita com a emprega e berra com o porteiro, além de só fazer sexo aos domingos, ouvindo Roberto Carlos nas alturas com a estação de rádio mal-sintonizada e tosse muito quando está tomando banho e vota nos candidatos socialistas que formam o time dos executivos que governam o Ceará, mas não é essa a questão, todo mundo é humano, afinal. O que eu invejo no meu vizinho é a estabilidade com que as formas coletivas de percepção o premiam com a imagem do bom filho, do bom cidadão, do bom marido e do (quase) bom condômino (pois, ele anda devendo algumas taxas extras, principalmente, a do controle individual do portão automático, e, como ainda não o adquiriu, ele despeja a estrondosa buzina de seu carro japonês três vezes ao dia nos ouvidos da rua inteira, em geral, é nesse momento que ele também grita com o porteiro, mas deixemos de fofocas). O certo é que hoje acordei na mais profunda inanição, sentindo-me precário, esvaziado e excluído da possibilidade de consumir Metafísicas e narcóticos. Que fatal-idade é essa a minha? Por que estou obrigado a produzir meu próprio sentido com o suor do meu rosto? Tão mais fácil seria se eu tivesse acesso ao corriqueiro sentido, consumido com regularidade publicitária, pelos meus vizinhos sofisticados, e não fosse preciso, a marteladas, antes mesmo de tomar um digno café da manhã, ter de me confessar para o mundo: estou só! Que nosso senhor Jesus me proteja da danação eterna dessa desamparada condição.

Sunday, February 03, 2013

A condição é a fuga

a condição é a fuga. e as fusões são uma condição para fugas prazerosas. fusão de linguagens, experimentalismos com o corpo dos outros. abandono do próprio corpo em busca de um outro corpo. desafios de pensamento são vitais como o ar que se respira.

O corpo-fechado por si.

Não ter devoção para com próprio corpo é condição da liberdade de se tornar um outro corpo. Narcisismo é uma forma de corpo-fechado por si.

No deserto com Paulo Mendes Campos.

Ao ler Paulo Mendes Campos, eu me sinto menos só nesse deserto que nos assola, a alma penada dele me encanta, não me assusta.

apenas um bruto apenas um bruto

Um bruto. Apenas. Desfiro letras a golpes de peixeira. Cicatrizes toscas, dedos indigestos, aos olhos, finos, elegantes. Apenas. Um bruto.

Desnudamento em público

Amigos/as, preciso confessar algo para vocês, já que o FB virou essa grande galeria de desnudamento em público. Ontem à noite, depois de ter trabalhado o dia todo, de 7h às 19h, como todo mundo que é da base, que não é de cúpula, que, por sua vez, vivem do nosso trabalho, mas isso é outro assunto, resolvi sentar para pensar um pouco. Acontece que de relance olhei para o lado de uma prateleira e vi uma garrafa de cachaça, isso mesmo, car@s amig@s, de água ardente: a minha mão tremeu! Não sabia se era a cachaça que olhava para mim ou se eu para ela, lembrei da ideia do Bruno Latour de quase-objeto. Ou era a cachaça que era um quase-sujeito? Enfim, coloquei uma dose. Cherei-a várias vezes antes de tragá-la. Depois que eu o fiz, bateu um sentimento no meu coração, e era isso que eu queria piedosamente lhes contar, um sentimento que por assim dizer me deixou estupefato. Foi um espanto, sabe? Algo que não acontece com frequência. Parecia uma comunicação divina, vinda dos altos, para me alertar sobre a catástrofe que se apoderou do mundo, e de mim no mundo. Pois bem, ao sorvê-la, aos goles, molhando a palavra, bateu-me um sentimento de alegria tão intensa que eu nem precisei tomar outra dose. Fui dormir tranquilo, com paz de espírito, e, mesmo sabendo dos males que a cachaça promove, destruindo tantas vidas mundo afora, hoje resolvi fazer o elogio da minha dose de cachaça noturna, que não tem nada a ver com a cachaça soturna das vidas despedaçadas e esvaziadas que se esvaziam em garrafas de cachaça por que não tem mais imginação e liberdade, nem mediação na busca do prazer e da alegria de viver. Que os deuses salvem a nossa cachaça benfazeja de cada dia e nos protejam do esvaziamento existencial que o embrutecimento dessa vida mesquinha e medíocre das maiorias. É uma delícia ser uma minoria e explorar as virtualidades minoritárias do bem-viver! Molhar a palavra é um modo de realizar a ressureição de nós mesmos. Essa é a minha ode à liberdade, a cachaça é só um detalhe delicioso para a degustação da alma e o relaxamento do espírito. Saudações libertáras!

Farofa psicodélica

Sabe que eu percebi que as pessoas gostam de farofa, como eu! Eu adoro farofa, então, fico sempre querendo que a farofa seja uma delícia, uma farofa relevante, expressiva, um estalo de língua de cachaça após fazer descer a farofa. Será que existe uma farofa nesse sentido amplo em que as prisões de horizontes nos levam a querer escapar de nós mesmos, em nome de uma desdita e não-dita liberdade de fazer a própria farofa? Sinceramente, não sei! Não tenho respostas, nem reações. Tenho inquietações e incitações. Então, para vocês que têm respostas dadas ao tempero correto da farofa, desejo: ciência, arte e reflexão, esses modos inacabados, imperfeitos, aproximativos e necessariamente superáveis de conceber qualquer prática humana. Sejam felizes. E nos unamos para que não mais pelos de rato estejam presentes nas farinhas brasileiras com que fazemos nossa farofa, para o bem ou para o melhor.

Ter vergonha de estudar? Por que estudar se tornou coisa de otário?

Faço parte de uma geração de pessoas que iniciou a vida escolar na década de 1970 (ensino fundamental), passando na década de 1980 pelo ensino médio e no início da década de 1990 pelo nível superior. Com seis, sete anos de idade começávamos a ouvir a ladainha interminável e cotidiana de nossos pais a respeito do lugar decisivo dos estudos na vida, era uma ladainha às vezes insistentemente chata, às vezes dramática com falas maternas sobre perda de futuro para quem não estuda, enfim, havia uma verdadeira obsessão de nossos pais com a tarefa dos estudos. Minha mãe me obrigava com 10 anos de idade a ler dois livros por semana. Depois que ganhei gosto e autonomia, não precisei que ela mandasse mais, apesar de que ela continuava cobrando no mínimo três horas de estudos todo santo dia, além das leituras que eram consideradas "por fora". Na escola, quando fiz parte das minhas primeiras militâncias estudantis, a diretoria do grêmio só tinha "fera", só tinha caxias nos estudos ou então pessoas com paixão pela leitura, no mínimo. Éramos militantes do "quadro de honra". Os melhores filhos da pequena burguesia ou de uma classe média de pequenos funcionários públicos, como eu fui. Entre nós, havia também filhos da classe média alta, também muito estudiosos, e todo mundo muito animado com as possibilidades de construir uma sociedade democrática no Brasil, as divergências ideológicas, partidárias, políticas, não tiram de nós esse pano de fundo unificador. Estudar era o desafio da gente. Estudar muito, bem e com afinco. Era quase uma mística. O modelo da pessoa estudiosa era admirado coletivamente, era respeitado, cultuado até, havia certo elitismo nisso, como não poderia deixar de ser, mas havia também um forte sentimento de que para superar o Brasil do pistolão, nós teríamos que fazer o Brasil do mérito funcionar, com todas as fantasias coletivas que aí se interpõem, isso não deixava de alimentar uma forte corrente de moças e rapazes rebeldes, críticos, reflexivos, alternativos, esquerdistas e, fortemente, dedicados e dedicadas aos estudos. Não me envergonho dessa memória, apesar de não fazer uma apologia cega do que há de pretensioso nisso, mas, por favor, gostaríamos de voltar a não ter vergonha no nosso país de ensinar modelos de vida estudiosa para nossas crianças. Hoje, é como se a gente precisasse pedir licença para falar em estudo. Temos que pisar em ovos, pois todas as acusações se voltam contra o valor da educação e do ensino como valores de base. Alguém sabe por quê? O que aconteceu que paramos de almejar ser uma nação que se destaca pela produção de conhecimento, pelo estudo, pela inteligência? Por que tantas pessoas hoje ficam ressentidas com os "intelectuais", tem raiva da "arrogância" de quem estuda? Sem querer afirmar verdades absolutas, compartilho essas inquietações com vocês.

Monday, January 14, 2013

Sensibilidade artística

Ela pede socorro. Ela é uma pessoa. Ela é uma cidadã. Ela é ela e ela pede socorro, ela é uma pessoa, ela é uma cidadã...mas o socorro é muito mal distribuído. Falei para vocês um dia desses sobre como um vazamento que ia causar um buraco no bairro dos nobres foi consertado da noite para o dia, vocês ainda lembram? O bairro é muito bem atendido pelos serviços da prefeitura e do governo do Estado, o IDH-M do bairro é melhor do que de países do chamado primeiro mundo, e ele é localizado aqui na periferia da periferia do cu do mundo. O IDH-M do bairro ao lado é pior do que de vários países do mundo em guerra e vivendo estado de calamidade. Que está acontecendo com nossa sensibilidade artística?

TURN ON, TUNE IN, DROP OUT

As instâncias de controle pretendem mediar na totalidade as experiências das pessoas na relação com o fora, com o exterior, com os mundos possíveis que se atualizam nos mundos dos outros. O exercício livre da inteligência e do pensamento crítico e reflexivo exige das pessoas uma atitude de recusa ativa dessas instâncias mediadoras absorventes, totalizantes e anestesiantes, pois tais agências de poder (o Partido, a Igreja, a Família, a Universidade, a Escola, a Mídia, a Droga, etc.) são agências de controle das dispersividades e das ações livres das pessoas enquanto criadora de relações relativamente autônomas com os outros sem a mediação da política da identidade. É na recusa ativa do Estado onde reside a base histórica concreta e local de constituição da liberdade. E o modus operandi das agências reguladoras é sempre incitar as pessoas a se expressarem livremente no interior delas, a fim de produzir contexto de observação controlada do que há de livre nas pessoas tendo em vista a imposição de um padrão de comportamento que restringe o potencial criativo e põe sob tutela o exercício das capacidades agentivas, por isso é sempre bom lembrar que expressar a liberdade sob demanda das ditas agências é favorecer o próprio processo de destituição e captura que estas pretendem realizar, não necessariamente anulando a liberdade das pessoas, mas fazendo dessa liberdade apenas um sentimento fugidio da liberdade, uma dose de veneno para mortificar o corpo e fustigá-lo de tal maneira que o abandono das supostas veleidades daquelas pessoas que agem livremente será promovido ao cargo de auto-censor e estabelecerá as condições de assujeitamento de seu próprio descenso pelo auto-flagelo de uma adesão feliz às razões do Estado e das agências de poder que lhes são concorrentes, portanto, solidárias no crime que inaugura sua pretensão de monopólio pelas linguagens heterônomas que impõem a todos os adeptos.

Saturday, January 12, 2013

Loucura real ou presumida?

Quando estou a escrever os fragmentos de textos por aqui ou alhures, frequentemente as pessoas acham que eu estou doido, maluco, surtado ou bêbado. Mas, quando eu estou dando entrevistas para a mídia, participando de audiências públicas e exercendo outros rituais de poder, onde "os melhores no centro usam libré e estão a soldo da classe dominante" (Benjamin), as pessoas me elogiam, me acham com cara de responsável, de cidadão que está contribuindo com os avanços da vida pública, entre outros delírios. Quando estou mais lúcido, as pessoas acham que estou doido, quando estou inserido em rituais que expressam fantasias de grupo, paranoias, busca desenfreada pelo poder, pelo dinheiro, entre os engravatados, todo mundo me acha elegante e digno de um professor da Universidade. A loucura real é escrever textos, buscando exercitar imaginação livre, ou é reproduzir discursos de autoridade entre aqueles que monopolizam os meios intelectuais de expressão e pensamento a serviço das classes dominantes? A minha loucura é sempre presumida, e enquanto tal é irredutível à presunção do outro em anunciá-la ou denunciá-la. Resistir é preciso, viver não é preciso.

Mensagem para ser feliz

Recebi uma mensagem por e-mail dizendo assim: "Preocupe-se com o que é importante para você!". O e-mail oferece empréstimos e diz que com empréstimos "você resolve seus problemas e tem mais tempo para ser feliz!". Havia uma fotografia de uma família branca, de olhos azuis, sorridente. Eu fiquei tão emocionado que não estou conseguindo segurar o choro da mais pura emoção que eu senti no meu coração. Gostaria de agradecer do fundo da minha alma por este e-mail ter me mostrado a verdade, o caminho da verdade: fé, vida e redenção. Eu estava vazio e triste, prisioneiro de livros que ainda estou por pagar, agora tenho certeza de que me tornei uma pessoa melhor. Sim, eu me tornei uma pessoa melhor!

O amor por ela

Fuçando no sebo, encontrei um exemplar da Nova Aguilar da poesia completa de Cecília Meireles. Parecia que havia sido chutado. Todo amarrotado. Volume pisado. Roto. Sujo. A capa havia sido perversamente quase arrancada. Dependurada, mantinha-se por uma peia. E que peia o volume haveria de ter levado, céus? Negociei com o dono do sebo, comprei o volume por um preço camarada, enviei-o com a ajuda dele para um restaurador e hoje, nesse sábado de dezembro, recebo a notícia de que Cecília Meireles está me esperando. Já tomei banho, coloquei uma roupa faceira, e estou indo agora, correndo, com o coração na mão, mãos frias, nervoso, encontrá-la.

Um pesadelo antes do ano acabar

Eu tive um pesadelo e acordei de sobressalto. Um estudante, meu aluno, um rapaz negro, militante do movimento negro, estava sentado pacificamente no chão de um ambiente público, algo parecido com um Centro de Negócios, um estádio, um shopping, não consigo me lembrar direito, mas a arquitetura do lugar remetia a todos esses espaços ao mesmo tempo. O rapaz fazia uma fala, um discurso, pessoas paradas ao redor a escutá-lo, ele dizia palavras que me lembraram falas de vários intelectuais negros que eu admiro. Eu estava um pouco distante. Eu vi então quando um segurança negro, depois de receber a ordem de um gerente branco do lugar, se deslocou e sem fazer nenhum tipo de abordagem, algemou o rapaz, diante dos protestos do rapaz, o segurança começou a espancá-lo em público. Resolvi então intervir. O rapaz negro estava algemado ao braço do segurança negro. Os dois algemados um no outro, enquanto o último espancava o primeiro usando um cassetete. O segurança negro gritava impropérios racistas contra o rapaz negro. Eu não sabia o que fazer. Me aproximei e num impulso olhei para o segurança e disse: o Senhor está preso, enquanto cidadão, estou lhe dando ordem de prisão por racismo. O segurança parou de bater, olhou para mim atônito, o rapaz também ficou parado, ainda se recuperando dos golpes que havia recebido. Depois de uns cinco segundos, eternos cinco segundos, eu acordei de supetão. Não sei ao certo o que aconteceu. Mas acho que eu recebi um cassetete que partiu meu nariz de branco metido a besta. Fiquei me sentindo péssimo. Acordei bem cedinho e fui reler Franz Fanon e ouvir jazz na minha confortável vida de branco que, em geral, tem o nariz quebrado apenas no mundo onírico.

Alerta geral

Senhoras e senhores! Venho por meio desta mensagem alertá-los, neste dia de meu deus, que o sistema de dominação continua em pleno funcionamento e cada vez mais brutalmente sofisticado em algumas de suas partes e sofisticadamente brutal para a maioria. De qualquer modo, o sistema de crueldades continua operando em condições ótimas sob a direção de nossos governantes com as mais avançadas tecnologias de poder disponíveis no mercado mundial. Sabemos que a escolha do Estado de servidão voluntária em que se quer viver é uma decisão do cidadão. Pela atenção, obrigado.

Tuesday, January 01, 2013

DICAS PARA UM FELIZ ANO NOVO.

Tenho algumas dicas infalíveis para quem quer estudar mais e melhor em 2013, além de incrementar com qualidade a produção acadêmica. Primeiramente, livre-se do celular (isso eu já fiz) e se livre também do automóvel individual (isso também já fiz). Em segundo lugar, divulgue pelas redes sociais digitais posições politicamente cada vez mais radicias, faça as pessoas pensarem que você é o radical do radical para quem PSTU, PSOL e PCB são partidos do Estado burguês. O resultado desta segunda dica é que os convites da imprensa para entrevistas, dos órgãos públicos para palestras e das empresas em geral vão começar a rarear. Quando o repórter de TV ligar para você, solicitando matéria onde você deve se comportar com informações de utilidade pública e apenas, você pede uns minutos e diz que vai só se despedir de uma reunião com o Renato Roseno e liga já de volta depois. É batata, não será mais atendido, nem procurado. A melhor maneira de se excluir das agitações do mercado e das festas da cidade é dizer que é amigo do Renato Roseno. Eu digo logo é assim: estamos na equipe para a eleição de Renato para deputado. É muito útil ser radical para ter sossego. Mas só faça isso se você tiver passado no concurso para servidor público federal ou outro que lhe garanta estabilidade, pois caso contrário ficará a ver navios, amargando anos e anos de exclusão. E já que toquei nesse assunto, um sujeito veio me admoestar, dizendo: "depois que você, Leonardo, se tornou professor da universidade, estável e tal, virou o bocão!", ao que lhe retruquei, "mas querido, não faz parte da missão? professor da universidade é pra ficar calado, em silêncio, trabalhando pro governo, ganhando um por fora, ou se empresariando para o setor privado e dando o salário de mesada para os filhos?". Aí ele aplacou a raiva que estava sentindo de mim, mas isso é outra história. A terceira dica é falar coisas disparatadas, fazer longas citações e exercer um tipo de pedantismo acadêmico nos momentos em que as demandas exigirem total pragmatismo e pé no chão. Vão começar a dizer: "não procurem aquele louco, ele começa a falar da teoria das multiplicidades, quando queríamos apenas uma frase pra colocar no jornal como especialista". Enfim, essas são as minhas estratégias para ter tempo para ser produtivo, eficiente, e buscar a excelência, nas missões ligadas a minha atividade-fim. Bolem as suas próprias. Feliz ano novo.

Uma observação direta

A família num confortável automóvel importado de 335 mil reais. Pai, mãe e filhos. Brancos, bem arrumados e endinheirados. Enquanto estacionam para ir ao supermercado, provavelmente para comprar alguma sobremesa para as crianças, depois de ter almoçado em restaurantes cujas contas variam entre 500 e 1.500 reais, a variação dependendo se o casal vai tomar ou não a garrafa preferida de champanha, a fim de comemorar mais um ano de sucesso e novas aquisições de poder e de patrimônio, enquanto portanto o homem bem vestido, cordão de ouro e Rolex de pulso no braço esquerdo, manobra com contentamento expresso na face o seu imponente carro, o policial militar "moreno", fazendo bico como batedor, protegendo a família, arriscando a própria vida, para compensar salários baixos, deixa a qualquer olhar entrever na cintura o grosso volume de uma pistola, enquanto cuidadoso olha para todos os lados, ao mesmo tempo agora, e se comunica pelo olhar com o colega que está também fazendo bico para o supermercado, cuidando da segurança do estacionamento. Ambos estão distantes de suas respectivas famílias. Ambos estão correndo sério risco de morte. Os profissionais de segurança sabem que um homem sozinho não é capaz de barrar uma equipe profissional e bem armada de sequestradores. A função daquele policial batedor é ser a primeira vítima, caso ocorra uma séria tentativa de sequestro. É uma vítima sacrificial, exposto à morte em caso de ataque, de modo a dificultar em algum grau o serviço dos possíveis sequestradores. Os endinheirados possuem seguranças assim para tombarem em seu lugar nos casos de ataques efetivos, sérios e graves. No dia a dia, ele, o segurança, consegue manter afastado pequenos assaltantes e amadores e principalmente os descuidistas, mas jamais conseguiria sair vivos de um ataque de uma quadrilha de profissionais. O policial sabe disso. E está lá, a cabeça derretendo dentro do capacete, o sol do Ceará a pino, acelerando seu processo de envelhecimento precoce, a família almoçando diante da cadeira vazia do pai.

Algum acidente

às 22 horas de ontem, três pessoas, ferragens retorcidas, vieram a falecer, nas estradas da vida. sobre elas, sabe-se pouco, o automóvel é o protagonista. batida de frente. a morte as abraçou como em um instantâneo. a máquina apenas piscou o olho, e o fio da vida escapuliu, objetivamente, tendo sido cortado em mil pedaços. a atenção se dissolveu. um nada abriu-se sob as rodas reviradas. ninguém chorou. apenas gemidos de dor de dois sobreviventes.

DE MARX A BALZAC PARA VOLTAR A MARX.

A última edição da versão brasileira de A comédia humana está completando duas décadas e as livrarias estão aí a comemorar o relançamento da coleção. O Paulo Rónai que fez o serviço junto com enorme equipe (vejam o trecho abaixo ao final desta postagem que copiei e colei do site da Livraria Cultura que está doida pra vender a nova edição). Ocorre que acabei de adquirir um e-book por três reais de uma editora francesa que reuniu as obras completas. Fiquei me perguntando que disparidade é essa, afinal, o e-book apenas do volume 1 da versão brasileira está saindo por 52 reais e 90 centavos. Que margem, hein? Mas não era sobre isso que eu pretendia falar. É que ontem eu reli o "Avant-propos" de A comédia humana. Fiquei extasiado. Há exatos vinte anos, por influência do Marx, que dizia que se aprendia mais sobre o funcionamento da sociedade burguesa lendo Balzac do que livros de economia política, eu me aventurei nisso e entrei de cabeça, dos 17 volumes da coleção brasileira, li os 13 primeiros. Por pura disciplina. Agora vou terminar de ler os que ficaram faltando. Balzac é o bicho, pois os bichos também são metáforas do estado social. "Vinte anos depois da última edição, A comédia humana com orientação, introdução e notas de Paulo Rónai, volta às livrarias trazendo ao público brasileiro um dos mais importantes monumentos literários em 88 romances distribuídos em 17 volumes.Disperso, prolífico, ambicioso, genial: Honoré de Balzac (1799-1850) foi, como ele mesmo dizia, mais que um romancista, um cronista de costumes. Seu maior projeto literário, A comédia humana, tomou vinte e um anos de sua vida e foi interrompido apenas com a morte prematura do autor, aos 51 anos. Na imensa obra, Balzac pretendeu fazer um verdadeiro inventário da França no século XIX: costumes, negócios, casamentos, ciências, modismos, política, profissões, tudo entrava nesse imenso painel, costurado com maestria narrativa e exibido aos poucos em folhetins.Com tudo isso em mente, Balzac passou a dar a seus romances o caráter vivo de uma época. Assim, um personagem que é protagonista em um livro aparece em outro como coadjuvante; se há um personagem já ancião em um romance, é possível conhecer sua juventude em outro; personagens reais entram nas histórias, e os imaginários frequentam teatros, restaurantes e passeios que todos franceses conheciam. E assim Balzac foi construindo todo o universo de A comédia humana, que a Biblioteca Azul passa a reeditar em 2012 com a publicação dos primeiros quatro volumes que compõem as Cenas da vida privada.A imensa obra veio a público no Brasil duas vezes, editada pela Globo de Porto Alegre e depois pela Globo Livros. A primeira, a partir de 1947 e a segunda, de 1992. Em ambas teve orientação, introduções de todos os romances e notas de Paulo Rónai, um dos maiores críticos literários do Brasil. Rónai dedicou 15 anos à organização de todo aparato de A comédia humana, que contou com 20 tradutores, 12 mil notas e prefácio para cada um dos 89 romances. Dada a dimensão da edição de Rónai, considerada uma das mais importantes fora da França, é compreensível que nenhuma outra editora tenha dado conta de refazê-la e a obra permaneceu por anos encontrada apenas em sebos ou recortada de seu contexto.Obras que compõem A comédia humana volume 1 Estudos de costumes Cenas da vida privada: Ao Chat-qui-pelote, O baile de Sceaux, Memórias de duas jovens esposas, A bolsa, Modesta Mignon". (site da Livraria Cultura).

A UNIVERSIDADE CONTRA O MERCADO.

Agências de classificação de risco das instituições do mercado que funcionam como entidades de mercado classificando outras entidades de mercado classificam como seguras empresas que estavam à beira do colapso. O mercado classificando o mercado segundo critérios de mercado. Conhecimentos práticos de mercado que do ponto de vista da objetividade científica do conhecimento produzem distorções, falsificações e erros graves de avaliação. Conhecimento e interesses de mercado produzindo cotações que favorecem com classificações declarativas de "entidade segura" entes profundamente inseguros, que logo após as avaliações quebram em avalanche. E ainda há colegas na Universidade e fora dela que defendem que nós devemos nos pautar pelo modelo de conhecimento do Mercado. Há quem defenda que o modelo do conhecimento do mercado deva pautar os critérios cognitivos, de pesquisa, de ensino e aprendizagem da Universidade. Que esta deve estar atrelada à política de conhecimento do mercado. Universidade é lugar de formação do pensamento crítico e reflexivo sem o qual não há produção científica do conhecimento. Sem autonomia relativa da Universidade diante das forças de mercado, a Universidade será colonizada pelo lógica prática do conhecimento de mercado que, cega para o saber, alimenta os circuitos de poder das empresas privadas e da sociedade de mercado. Ciência não pode ser pautada pelo mercado. Ciência é contra o mercado. É contra as certezas de conhecimento que valorizam o poder, estejam onde estiverem essas certezas, seja no mercado ou na própria universidade que capitula à lógica empobrecedora e anti-científica dos mercados.

REBOLAR O IPHONE (uma ficção sentimental).

Minha filha esteve em São Paulo e foi para um parque verde onde várias crianças tinham ido para brincar ao ar livre. Quando pais e mães se sentaram para usufruir o ar puro da natureza, as crianças gritaram ao mesmo tempo: vamos brincar! Cada uma delas então correu e tomou de assalto o Iphone dos responsáveis, sentaram-se e começaram a jogar no Iphone. Minha filha ficou intrigada. Aproximou-se das crianças e disse para elas de modo bastante e incisivamente propositivo: vocês querem brincar de rebolar o Iphone? Foi um destroço. Causou altos prejuízos. Tenho que domesticar essa menina para ir para São Paulo. Sair do Ceará para São Paulo em estado ainda selvagem é um perigo.

Conceito de hábito

CONCEITO MÓVEL DE HÁBITOS IMPERFEITOS (Deixa Bourdieu a ver navios). "As leis da memória estão sujeitas às leis mais abrangentes do hábito. O hábito é o acordo efetuado entre o indivíduo e seu meio, ou entre o indivíduo e suas próprias excentricidades orgânicas, a garantia de uma fosca inviolabilidade, o pára-raios de sua existência. O hábito é o lastro que acorrenta o cão a seu vômito. Respirar é um hábito. A vida é um hábito. Ou melhor, a vida é uma sucessão de hábitos, posto que o indivíduo é uma sucessão de indivíduos (uma objetivação da vontade do indivíduo, diria Schopenhauer), o pacto deve ser continuamente renovado, a carta de salvo-conduto atualizada. A criação do mundo não foi um evento único e primordial, é um acontecimento que se repete a cada dia. O hábito, então, é um tormento genérico para os incontáveis compromissos travados entre os incontáveis sujeitos que constituem o indivíduo e seus incontáveis objetos correspondentes". (Samuel Beckett).

12 de dezembro pelo FB.

A SOCIAL-DEMOCRACIA NO BRASIL E A CRISE POLÍTICA ATUAL. Há uma continuidade profunda entre os governos FHC e os governos Lula. Continuidade da desigualdade e diminuição da pobreza, sendo que Lula foi mais eficiente em obter isso em escala ampliada. A Ditadura Militar era mais corrupta do que os dois, pois não havia liberdade de imprensa nenhuma. A estagnação econômica com hiper inflação do governo Sarney foi rescaldo negativo do famigerado Milagre brasileiro. Entre FHC e Lula, há continuidade e convergência de propósitos. Ambos são militantes da social democracia que enquanto governos se tornaram arautos do neoliberalismo, como aconteceu no mundo todo, não apenas aqui. FHC assumiu que apenas políticas compensatórias eram possíveis, Lula não mudou a assertiva, apenas mostrou que os gerentes do sistema, por estarem mais próximos da realidade do povo, tinham como explorar melhor a margem de manobra para tais políticas. PSDB e PT entraram numa luta que, se levarmos em consideração o que uma militância diz da outra, parecem duas quadrilhas muito perigosas praticando assaltos pelo poder a qualquer custo. Uma cegueira tomou conta dos dois partidos nessa luta. O PT é muito coerente. Desde 1989 que o projeto atual foi estabelecido. As esquerdas em sua maioria nunca gostaram da "democracia", pois a democracia seria supostamente um elemento burguês. Desde do governo Franco Montoro, de quem FHC foi aliado, que esquerdas fizeram desvio de recursos públicos em nome da revolução. Desde 1980 que sabemos que militantes petistas desviam dinheiro de entidades estudantis e de outras entidades, alegando estarem fazendo o desvio a serviço da revolução, isso não é novidade nenhuma. Houve ampliação de escala. Desvios do PSDB sempre foram o cadinho que fez a classe média e a classe alta se aproximar do partido. A transferência de renda dos cofres públicos para segmentos privados foi a tônica do PSDB. O Lula peitou a classe média. Foi muito corajoso politicamente falando, pois lembro como se fosse hoje, ele dizendo em público que não queria disputar o voto da classe média do PSDB. Nesse ponto, apesar das militâncias petistas atuais estarem muito delirantes, o Lula manteve alguma coerência. Aliás, ele sempre foi muito coerente. Não há nada que ele faça hoje que já não tenha feito sempre. As militâncias petistas atuais estão em sua maioria muito, mas muito aquém do que as militâncias petistas já foram, e olhem que antes não eram lá essas coisas (com todo o respeito a camaradas que mesmo equivocados estavam no PT). Eu pessoalmente faço oposição de esquerda ao PT, inserido com muitos outros coletivos, desde 1988. As críticas que o PSOL começou a fazer ao PT um dia desses, outros segmentos das frentes de esquerda fazem desde a década de 1980, por isso o PSOL é tão atrelado ao PT, basta lembrar do Ivan Valente na presidência. PSB se tornou um novo nicho do PSDB, com traições e fissuras, é certo, mas um lugar de reorganização de segmentos que visualizaram que o PSDB tinha se tornado inviável. As militâncias atuais, se continuarem recalcitrantes em escutar outras versões, irão ficar tão delirantes quanto a Veja que tanto criticam. De versão em versão, ninguém está discutindo que o modelo se esgotou e que se não houver transformações, podemos nos tornar uma nova república de Weimar. A chapa está quente.

Onde estou agora?

Onde estou agora, uma vez que o Eu não passa de uma frágil membrana que serve apenas à comunicação do que há de mais trivial e descartável?

Devaneio no dia 31 de dezembro de 2012.

Estou com saudade de um lugar onde jamais pus os pés: Biblioteca Pública de Nova York. Como é possível sentir saudades assim de um lugar desconhecido? Será algum presságio de que se tornará cada vez menos respirável o ar, em 2013, sem a proximidade com os 20.402.004 livros do acervo público do lugar? Neste 31 de dezembro de 2012, fico a pensar no que está escrito no site da biblioteca: "Education and literacy keep America's democracy strong" (Vered M.). Os governantes "socialistas" do Ceará e de Fortaleza estão se inspirando nisso para realizar um dos mais importantes e relevantes investimentos na vida cultural de Fortaleza, como os eventos de arte e cultura que estão sendo realizados neste Réveillon? A Biblioteca Pública de Fortaleza em 2013 será a prioridade máxima dos socialistas? 20 milhões, quatrocentos e dois mil e quatro livros! Que maravilha! Vou passar uns tempos de homeless em New York!

As leituras do novo ano.

Hoje, estou terminando de ler dois livros. Sunset Park, do Paul Auster e fechando uma instigante segunda leitura de O Castelo, de Franz Kafka, duas décadas após a primeira leitura, quando eu tinha 19 anos. Até meia-noite, consigo finalizá-los, faltam poucas páginas de cada. Por esses dias também finalizei uma releitura depois de exatas duas décadas, o volume II das obras escolhidas de Walter Benjamin. Também reli Capitalismo e esquizofrenia (volume 1 - Anti-édipo e volume 2 - Mil platôs), livros que eu havia lido pela primeira vez em 2001. Todos os anos gosto de escolher um livro especial para bater o centro e começar com uma leitura de primeira. Em janeiro de 2012, o primeiro livro que li foi Le maître ignorant, de Jacques Rancière (uma sugestão do querido colega Gabriel Feltran), amei, me serviu como norte ao longo do ano inteiro. Amanhã, às 8h da manhã, como de hábito, irei dedicar as minhas 6 horas de leitura diária solitária a um escritor maravilhoso que muito me emociona. Quando li De amor e trevas, fiquei exultante. Por isso, desejando que em 2013 a guerra cesse, vou começar o ano com a leitura de Uma certa paz, de Amós Oz. Espero que dê sorte e que o conflito por lá se resolva da melhor maneira, pois do jeito que está não pode ficar.

31 de dezembro de 2012 às 19h30

SÃO SETE E TRINTA E FALTAM QUATRO HORAS E MEIA PARA COMEÇAR OUTRO ANO... "São sete e meia, faltam quatro horas e meia para começar outro ano, o desgastado ritual de fogos de artifício e buzinas, a explosão de vozes embriagadas que vai ecoar por toda a região à meia-noite, sempre a mesma erupção nessa meia-noite em particular, mas ele agora está bem longe de tudo aquilo, sozinho com seu uísque e seus pensamentos, e se puder penetrar bem fundo naqueles pensamentos, não vai nem ouvir as vozes e o clamor quando chegar a hora" (Paul Auster, Sunset Park).

Feliz 2013

A solidão é condição da liberdade, escreveu Hannah, a filósofa, não tem nada a ver com ser solitário, solidão é diferente de ser solitário, os mais solitários estão inseridos no ruído dos rebanhos, a solidão é sair do rebanho, é se desgarrar para ser capaz de pensar. Isolation não é desolation. Isolation is not desolation. Que haja algo de lindo no novo!