Sunday, March 03, 2013
Ascetismo secular.
Foi uma dupla constatação que me levou a escrever uma carta de despedida temporária aos amigos. Dei-me conta de uma brutal insuficiência de recursos intelectuais para dar conta da complexidade das coisas que se somou a uma curiosa debilidade em me manter na normalidade requerida para o trato com os humanos e, ainda mais e por cima, que a combinação das duas, da brutalidade e da debilidade, assolavam-me ferindo de morte os meus dias e os trabalhos. E assim me decidi pelo retiro. Resta-me, para os próximos 15 anos, se o indivíduo biológico que habito me permitir, um mergulho total e irrestrito e inexorável no mais brutal e rigoroso isolamento. Uma fuga dos adjetivos. Dirão alguns que passo de uma loucura a outra. Outros, os mais maldosos, propagarão minha perfeita morte. Mas dos primeiros, resguardo-me adotando a loucura como meu princípio de dor, sem nela mergulhar de ponta cabeça como se a pedra que me acolheria, partindo-me o crânia, subjazesse na eternidade submersa. E dos últimos, os maldosos, para com estes, de quem nada espero, enterneço-me, confraternizando-me na mais astuta fuga de si. Afinal, nem só de pão vive o homem, mas da palavra infinita de uma página em branco. E da página em branco, farei o aguilhão de um ascetismo secular. Sem morbidez, mas também sem frutas e verduras orgânicas, pois aos céus apenas os bons e os justos terão recursos para aceder, comprando-lhes o acesso.
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