Tuesday, January 01, 2013
Uma observação direta
A família num confortável automóvel importado de 335 mil reais. Pai, mãe e filhos. Brancos, bem arrumados e endinheirados. Enquanto estacionam para ir ao supermercado, provavelmente para comprar alguma sobremesa para as crianças, depois de ter almoçado em restaurantes cujas contas variam entre 500 e 1.500 reais, a variação dependendo se o casal vai tomar ou não a garrafa preferida de champanha, a fim de comemorar mais um ano de sucesso e novas aquisições de poder e de patrimônio, enquanto portanto o homem bem vestido, cordão de ouro e Rolex de pulso no braço esquerdo, manobra com contentamento expresso na face o seu imponente carro, o policial militar "moreno", fazendo bico como batedor, protegendo a família, arriscando a própria vida, para compensar salários baixos, deixa a qualquer olhar entrever na cintura o grosso volume de uma pistola, enquanto cuidadoso olha para todos os lados, ao mesmo tempo agora, e se comunica pelo olhar com o colega que está também fazendo bico para o supermercado, cuidando da segurança do estacionamento. Ambos estão distantes de suas respectivas famílias. Ambos estão correndo sério risco de morte. Os profissionais de segurança sabem que um homem sozinho não é capaz de barrar uma equipe profissional e bem armada de sequestradores. A função daquele policial batedor é ser a primeira vítima, caso ocorra uma séria tentativa de sequestro. É uma vítima sacrificial, exposto à morte em caso de ataque, de modo a dificultar em algum grau o serviço dos possíveis sequestradores. Os endinheirados possuem seguranças assim para tombarem em seu lugar nos casos de ataques efetivos, sérios e graves. No dia a dia, ele, o segurança, consegue manter afastado pequenos assaltantes e amadores e principalmente os descuidistas, mas jamais conseguiria sair vivos de um ataque de uma quadrilha de profissionais. O policial sabe disso. E está lá, a cabeça derretendo dentro do capacete, o sol do Ceará a pino, acelerando seu processo de envelhecimento precoce, a família almoçando diante da cadeira vazia do pai.
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