Tuesday, July 19, 2016

O desejo dos cultos

O que fazer quando membros altamente escolarizados, doutores e doutoras, das elites sociais, políticas, culturais e econômicas, passam a defender que a tarefa do Estado é exterminar, é fazer a vingança contra quem eles e elas consideram indesejáveis? O que fazer quando a noção de direito, de lei, de justiça, é abandonada pela classe dominante a favor de um Estado de morte? O que fazer?

O crime do estado

O problema não é o Crime agindo contra o Estado. Isso é um mito do Estado, esse mito segundo o qual o Crime é algo fora do Estado. Não existe crime fora do Estado, é o Estado que produz o crime. O problema maior é agentes do Estado tocando o Crime, tocando o terror contra o Direito, a Lei, a Justiça e a Democracia. Isso sim é o problema. É importante lembrar que não existe crime organizado fora do Estado, por definição, crime organizado só se faz com Estado.

Fortaleza, cidade proibida.

A gente mora num faroeste. Fortaleza mergulhada no caos. Sertões do Ceará viraram terra de ninguém. Mortes matadas por todos os lados. Assassinatos em cada esquina da cidade. Guerra de rua entre policiais e bandidos. Torturas, espancamentos. Prisões quebradas, arrombadas. Fugas em massa. Situação fora do controle dos nossos sonhos. Muitos sonhos de angústia a se espalhar. E o Crime do Ceará já anunciou que vai fazer mais prefeitos e vereadores nas próximas eleições. Os estabelecidos nesse ramo, com carreira criminal mais longa e consolidada, estão se batendo de frente num encarniçada luta pelo poder contra a voracidade dos recém-chegados. Muito sangue, muita morte, muita corrupção. Salve-se quem puder. O barco está afundando. Acredite no que quiser. Não há âncora, nem luz no fim do túnel. Crime do alto e crime de baixo em momento de ajuste violento. E a gente no meio disso tudo, vivendo em situações de altíssimo risco. Vir trabalhar e voltar do trabalho é risco de morte. Faixa de Gaza. Iraque. África do Sul. Colômbia. Venezuela. Seja bem-vindo a Fortaleza.

Monday, July 18, 2016

Temas de estudo

Os temas centrais da minha aurora de estudos são a loucura, o crime, a doença e a morte. Sinto que passarei mais do que uma vida inteira a pesquisar sobre tais temas. Talvez seja um sinal de pós-compulsão quanto a eles.

Algum orgulho de si

Um grande desafio é sentir orgulho de si sem alimentar formas de autoindulgência.

Vetar autores é o fim da picada

Acho uma coisa inacreditável, quando alguém simplesmente veta a leitura de um autor. Diz que o autor tal não deve ou merece ser lido. Tenho descoberto tanto autor massa ao desobedecer a esse tipo de veto.

Aprendendo a lidar

E essa busca compulsiva por figuras imaginárias protetoras? Muita atenção é pouca. O desejo de dependência pode ser muito danoso à liberdade já tão frágil e combalida do próprio desejo desejante no seu trabalho de conquista de autonomia relativa. E esses indivíduos que fazem demandas amorosas excessivas aos outros, mas não se dispõem a nada oferecer, que são exigentes com seus próprios direitos de ser amado e para lá de relapsos com a condição desejante dos outros, negando amor ostensivamente a esses de quem tudo cobram?

Monday, July 11, 2016

A espera

A respiração parecia jamais querer voltar, a tosse era seca, sem fumaça, mas seca. Os dedos estavam trêmulos. O mais sacal era esperar à beira da piscina que cheirava fortemente a cloro. Nada para beber.

Passagem

Catava latas e tinha o cuidado de separá-las entre as de ferro e as de alumínio, pois assim corria o tempo. E havia, no ponto de ônibus, uma kombi velha, vendiam podrão a dois reais e cerva em lata a um real.

Pavor em ser invisível

As pessoas estavam apavoradas. Era o medo de desaparecer. O infinito pavor de serem esquecidas.

Arredio

Tinha adquirido o costume de boicotar todo e qualquer tipo de festa, era um tipo solitário e arredio. O que o esperava era própolis e um copo de água natural para ser tomada aos goles. Não depois do própolis.As unhas mal-feitas, roídas, cortavam partes da cartilagem quando as mãos se movimentavam entre as orelhas.

Detalhe biográfico da tese

Quando era um menino de 10 anos, a roda de meninos imbecis se reunia no pátio da escola para questionar quem ia ser Ney Matogrosso, reproduzindo falas de homens adultos escutadas nas famílias, usando Ney como ponto de referência para decidir quem ia continuar sendo um tremendo babaca. Ney sempre foi muito poderoso! 9 anos depois quando descobri Secos e Molhados, isso mudou minha vida. Mudou minha relação com as experiências de gênero. Sem Ney Matogrosso, não teria havido essa mudança; que não foi lá essas coisas, mas foi. Fiquei um pouco menos babaca. I guess.

Monday, June 13, 2016

Precariado

Tenho um dúvida. As chances objetivas de pessoas jovens oriundas das classes dominadas de ocupar posições sociais que não sejam precárias, incertas e instáveis diminuíram? O problema é que metodologicamente não há como checar isso sem levar em consideração a relação entre as expectativas e as chances objetivas de realização dessas expectativas. A crise, para ser sentida como crise, funciona como crise da crença, crise de confiança, como rebaixamento de expectativas elevadas, inflacionadas, em relação a suas condições reais. Ocorre que as expectativas fazem parte dessas condições reais, então, não há como investigar as condições objetivas, desconsiderando os processos de objetivação da objetividade.

Habitar

Moro numa casa onde os muros são parciais. Há um trecho imenso sem muros e alguns muros antigos e outros mais recentes construídos na tentativa de minimizar a situação porosa de uma habitação sem muros. Mas na minha casa há portas e janelas. E elas não ficam sempre abertas. São abertas e fechadas várias vezes ao dia, num jogo infinito de uma casa quase sem muros. Subo no telhado, espio os arredores da casa. A casa vazia é um perigo. As armas da casa são meus olhos. E posso até furá-los nos espinhos que abundam na mata que rodeia a minha casa. Mas pela mata passo como flecha; nem que fure meus olhos. E assim vamos passando desta para uma melhor, ou não. Onde eu moro se chama sertão, meu corpo. Corpo aberto, corpo fechado. Sujeito marcado no limite de sua impossibilidade.

Monday, May 23, 2016

Onde habito?

Moro numa casa onde os muros são parciais. Há um trecho imenso sem muros e alguns muros antigos e outros mais recentes construídos na tentativa de minimizar a situação porosa de uma habitação sem muros. Mas na minha casa há portas e janelas. E elas não ficam sempre abertas. São abertas e fechadas várias vezes ao dia, num jogo infinito de uma casa quase sem muros. Subo no telhado, espio os arredores da casa. A casa vazia é um perigo. As armas da casa são meus olhos. E posso até furá-los nos espinhos que abundam na mata que rodeia a minha casa. Mas pela mata passo como flecha; nem que fure meus olhos. E assim vamos passando desta para uma melhor, ou não. Onde eu moro se chama sertão, meu corpo. Corpo aberto, corpo fechado. Sujeito marcado no limite de sua impossibilidade.

Thursday, March 10, 2016

1950: a década que mudou o Brasil.

Meus pais passaram 20 anos (1960-1980) para ascender a posições de classe média urbana assalariada sem patrimônio, nem ativos financeiros. 20 anos de investimento em capital educacional. Meu pai vindo de uma família de pequenos agricultores. Minha mãe de uma família proletária urbana. Minha avó paterna era dona de casa e agricultora sem estudos. Minha avó materna foi empregada doméstica, era dona de casa e agricultora sem estudos. Meu avô paterno era capataz, trabalhando para grandes proprietários rurais e no tempo vago na própria roça. Meu avô materno era técnico de contabilidade, proletário urbano. Confesso que considero falacioso demais dizer que se pode virar classe média num passe de mágica pelo acesso direto e simples a bens de consumo descartáveis. Essa é a maior mentira contada pelos governos da Nova República, principalmente, da Dilma, que insistiu demais no marketing da "nova classe média". Não é à toa que a depressão está avançando no país em larga escala. Sonhos alimentados e despedaçados por todo os lados, infelizmente. Os governos vendem fantasias de grupo e agora colhem tempestades. Essa é a base sociológica da ascensão do que chamam de "nova direita". Desta, estou bem longe, contrariando as estatísticas. Apenas uma hipótese de leitura que compartilho com vocês.

Wednesday, January 13, 2016

Mentalidade no crime

Algo que me assombra e que estou tentando transformar em objeto de conhecimento: as mentalidades nos mundos do crime são incrivelmente conservadoras e convergentes com os quadros mentais dominantes, só que em negativo, uma negação que não nega, uma negação que afirma o dominante. Descoberta terrível. O Estado é o crime e ao produzir o crime, produz a mentalidade criminosa com seu corolário. Há uma oposição complementar entre a mentalidade dominante que possui eficácia em neutralizar-se como categoria do crime e a mentalidade dominada que se faz dominante pela projeção imaginária, à margem da lei neutralizadora, à margem da mediação que neutraliza o potencial ofensivo da ação criminosa desconhecida como tal, que, por estar à margem, ocupa o centro da engrenagem toda.

Tuesday, January 12, 2016

A realidade do trabalho

Para certos tipos de trabalho, trabalhar menos de 12 horas por dia é uma merda. Não dá certo. Limita. E também não dá para enquadrar com esquemas quadrados de bater ponto, faz é limitar a produtividade. Por exemplo, segunda e terça, ontem e hoje, trabalhei no campus de 8 da matina às 8 da noite. Quando estava de saída, agorinha, ainda não saí, chega pelo correio um livro fascinante que esperava há dois meses. Resultado? Estou saindo correndo daqui do trampo para chegar em casa e virar a noite lendo, né? É claro! Significa que vou dormir amanhã de manhã e só venho trabalhar à tarde e à noite. Aí alguém passa na minha sala amanhã de manhã e comenta: nem veio trabalhar! Estupidez, né? Cada trabalho possui seu estilo, seu modo de ser. O nosso é assim. Menos de 60 horas por semana é raro. Muito raro. Nos últimos 15 anos não lembro de ter trabalhado menos do que isso por semana.

Saturday, January 02, 2016

Já muito velho

E um dos narradores é um homem já muito velho. Corpo corrompido. Vida truncada, o que não o impede de adoçar com mel a ponta de uma chupeta que o mantém entretido. Mas é apenas um dos muitos narradores. No início, era o crime, a loucura e a morte. Tudo começava na prisão. Tudo terminava na profunda cova. Não sem antes atravessar o mar Cáspio do desejo. Não havia sequer podido estabelecer a distinção entre o sufocante e o refrescante. A prisão era o que lhe antecedia. Ela o fundava como se riscasse um piso de mármore depositado em estado quase bruto na profundeza de uma enseada. Ele podia entrar e sair dela sem pedir autorização a ninguém. Tudo começava nessa prisão. Havia baratas por todo lado. Algumas reputadas à morte. Outras, nem tanto. O comércio era farto. Sem limites morais, o mercado das megeras. Não se nasce livre, teria escrito o filósofo na sua agonia contra o próprio filósofo. Não estava destinado a escrever. Era-lhe vedado. Sobrava-lhe a atitude esnobe do bom leitor. Em seus primeiros dias, a duração da pequena pessoa resvalava de uma fratura óssea. Era a mão que apalpava o osso quebrado, a dor continuada de um parto infinito, transmudado numa dívida impagável. Apenas o sacrifício aplacava tamanho sofrimento.

Sunday, December 13, 2015

Escrever e escrever sempre

Não escrevo porque gosto de escrever. Escrevo pelo mesmo motivo que as pessoas vão à igreja, para fazer de conta que a morte não nos espreita. Não há novidade nisso, apenas reverberando a ideia segundo a qual a escrita é uma forma de relação com a morte, o crime e a loucura. O que não significa aderir à morte, ao crime e à loucura, mas, ao contrário, ganhar distância disso.

Monday, December 07, 2015

Sentimentos aos 42

Sinto que as linguagens que aprendi para lidar com as relações humanas não me servem mais, são insuficientes e até medíocres. Aliás, as próprias formas de experiência a que tais linguagens aprendidas se relacionavam também não me parecem mais me fornecer sentidos e valores orientadores do que está por vir. Preciso aprender novas sensibilidades, criar novas perspectivas, novas experimentações. Afinal, ainda estou vivo, e a vida é excessiva. Recuso depreciar a vida. Não sei mais onde estou. A sensação de que meu corpo está atravessado de ponta a ponta por traços que me aprisionam, tornando obsidiante a topologia de meu desejo, rateando-o, cristalizando-o no espaço fechado do Eu. Essa prisão da memória e da metafísica da dor, contra o que resta-me por vezes apenas o estupor da narcose, não pode vencer o fundamento do Ser do devir, o amor.

Tuesday, September 22, 2015

dificuldade em normatizar

Tenho um defeito horrível, costumo responder ao que não me foi perguntado. Cala-te boca! Que coisa mais descontrolada é o sujeito se por a falar algo para alguém quando não foi sequer interpelado. Preciso me emendar, espelho, espelho meu. Estou precisando de um estágio em algum monastério onde se faça votos de silêncio. Serve na universidade, será? Estou aqui sentado, bem comportadinho, desde 8 da manhã, é quase 8 da noite, finalizando um artigo para publicação. Se não pudesse falar nenhuma merdinha no FB, aí seria Regime Disciplinar Diferenciado, uma desumanidade, né? Mas vamos normatizar, vamos normatizar o texto acadêmico, pense que acho mais fácil escrever o artigo do que normatizá-lo. Cada doido com sua dificuldade.

Saturday, September 12, 2015

Lembranças do dia 11

No dia 11 de setembro de 2001, estava às 7 horas da matina, caminhando pela Voluntários da Pátria, no Rio, em direção ao metrô. Morava ali na rua da Passagem. E ao passar pelo boteco onde à noite, na volta do trabalho, costumava tomar uma gelada, vejo uma pequena multidão amontoada defronte ao aparelho de TV. Espichei o pescoço e depois do que vi, aquelas infinitas imagens dos aviões atingindo em cheio o WTC, perplexo, fui trabalhar assim mesmo, mas chegando lá, ninguém estava trabalhando, todo mundo estava paralisado e de boca aberta, olhando uns para os outros em busca de algum lampejo de compreensão, talvez, em busca do aval de que a percepção coletiva do delírio real era algo verossímil, algo digno de atenção. O mais esdrúxulo foi que em meio a tudo isso, um colega norte-americano, que trabalhava com a gente, teve um ataque de histeria e começou a pular e a gritar ao mesmo tempo, misturando inglês com palavrões em português, dizendo: "yankees, tomaram no cu, fuck the yankees!". Ele era um radical de esquerda, exilado, perseguido pela CIA. Comemorava o ataque contra seu próprio país. Foi tão estranho. Mas tornou o quadro geral de perplexidade e silêncio numa cena surrealista. Tomara que ele não fique com raiva de mim ao ler esta postagem. É só um relato. Enfim, o mundo nunca mais foi o mesmo. Mas, afinal, nunca tinha sido o mesmo mesmo, né? Tant pire!

Beber muito faz bem para a saúde.

Pessoal, não consigo parar de beber, bebo de 2 a 3 litros, todo santo dia. E foi minha mãe quem me colocou nesse caminho. Foi um dos melhores conselhos de mãe para eu levar uma vida saudável.

Sobre a ironia

Quando minha filha tinha de 7 para 10 anos, eu ficava fazendo, de surpresa, várias ironias. No início, ela ficava com uma cara atônita, de quem não tinha entendido nada ou tentando entender de modo literal algo que não foi feito para ser literal. Depois desses exercícios, eu lhe dizia: isso é uma ironia! Um dia ela me pregou uma peça, fez uma ironia muito fina e eu não entendi, então, ela me disse: pai, isso é uma ironia! Fiquei aliviado. Minha filha tinha aprendido a ironizar. Hoje ela ironiza muito melhor do que eu. Graças a Deus, se Ele existisse!

Friday, September 11, 2015

Um tema delicado

Quando eu era estudante de ciências sociais, meu orientador convidada a gente para ir atuar no trabalho de campo dele, como assistentes de pesquisa. Eu aceitava na hora, sem titubear. Foi assim que aprendi com alguém muito experiente como fazer uso, na prática, de técnicas de investigação, adquirindo habilidades e competências que garantiram as bases da minha formação profissional até hoje. Ele me ensinou a fazer grupos focais e grupos de discussão. Ao longo da minha trajetória profissional, já recebi vários convites para consultorias de pesquisa onde o uso dessas habilidades foi decisivo para ser convidado para um trabalho remunerado. Se meu orientador não estivesse numa universidade pública, ele teria que ter cobrado 2.500 de mim, no mínimo, para me ensinar com exclusividade e em tempo real de uso a técnica citada. Moral da história: você, estudante, quando convidado para participar de uma ação de pesquisa no ambiente de aprendizagem da universidade, poderia pensar menos como se fosse um "profissional já formado com alta cotação de mercado" e entender que há remuneração que não seja pelo uso do dinheiro, por favor. Quem não perceber que há remuneração na transmissão de capital humano nessas trocas, é melhor ir participar do Big Brother. Na universidade pública, somos remunerados para obter uma formação e isso demanda um alto investimento público. Nada é de graça. Bora parar com essa história de achar que acompanhar o professor numa atividade de pesquisa dele é ser explorado pelo professor. Nem sempre se trata de exploração, trata-se de formação, de transmissão de capital científico.

Thursday, September 10, 2015

Procrastinador

Rapaz, não existe um sujeito mais procrastinador do que eu, mas não existe é de jeito nenhum. Estou para encontrar. Estou aqui finalizando a revisão de um artigo que eu escrevi em 2001, há 14 anos, que esqueci de enviar para publicação à época. Felizmente, o artigo não envelheceu, é um ensaio teórico, usando referências que vão sempre ser úteis, tive apenas que revisar suplementando com literatura dos últimos anos. Tem doido pra tudo. O que uma greve não faz no juízo de alguém!

Pelas ruas, andanças.

Estava com fome, aqui no Bairro, e fiquei querendo ir lá no bar. Peguei o ônibus, desci na Escola, fui pela praça da Gentilândia e desci pela rua. Só que na hora que se desce, a gente começa a ser filmado. A galera vem atrás mesmo. Aí, é acelerar o passo pra chegar logo. Ao chegar no bar, o dono me diz que está fechando pois está tendo uma onda de assalto naquele momento, que está fora do controle, e que deram o toque pra fechar, peço para ele pedir um táxi para mim e volto. A resistência é a resistência.

Fazer sentido.

Sem TV, há dez anos, sem automóvel particular, há 5 anos, sem celular, há 1 ano, estarei em breve, sem internet. A vida começa a fazer sentido.

Entre estoicismo e hedonismo.

Existem duas alternativas. A estoica que diz: ao final do dia, lembre-se que poderia ser o último e então isso suscita a avaliação, o exame de consciência. A hedonista que diz: ao final do dia, lembre-se do que foi o mais intensivo e melhor para iluminar o dia seguinte. Façam suas escolhas!

A relação com a imprensa

Tem se tornado cada vez mais comum a produção de agências de notícias e comunicação telefonar, dizendo: Nas últimas duas semanas, já tentei falar com 6 profissionais antes de você, nenhum poderá vir no evento que começa daqui a 27 minutos, o senhor é nosso convidado especial, chega em quanto tempo? Legal, né? Fico me sentindo super valorizado como profissional. rsrs Pessoal, vcs precisam aprender a explorar economicamente nossa vaidade! Os vaidosos ficamos bestas e facinhos. Fica a dica, produção. (o fato é real, o texto é uma brincadeira).

Sunday, September 06, 2015

Da recusa

Acho engraçado notar que para muitas pessoas recusar a autoridade é algo que envolve um tremendo sentimento de culpa. Pois, de minha parte, eu me divirto na recusa da autoridade, é uma atividade de riso, a recusa. Do mesmo jeito que não sinto nenhuma culpa em recusar a autoridade, não sinto nenhuma necessidade de vida eterna, fico é feliz com a certeza de que a vida possui um final, que a morte é um alívio ao sofrimento de um corpo que envelhece. Não tenho necessidade de Deus. Apenas de arte, ciência e amor. Tudo entre mortais. O desejo de imortalidade, projetado em Deus, é uma arrogância humana. Adoro a finitude! É o que possibilita um desejo secular.

Devir-criança com as crianças

Quando vejo meus amigos e minhas amigas com suas crianças, no seu devir-criança com suas crianças, ao vivo e em fotografias por aqui, eu me ponho todo sentimental, de verdade, fico emocionado, pois sei que a mensagem invisível que nos liga é: se há crianças, há esperança, pois há transformação. Por isso, desejamos as crianças do mundo inteiro vivas, sorridentes, brincalhonas, sabidas, serelepes, para que o mundo se transforme para melhor, para ter sabor, saber e alegria. As crianças são a salvação. Esqueçam suas igrejas, seus cargos, seus partidos, seus estados, seus bens de capital, esqueçam tudo e escutem as crianças, vamos aprender com as crianças qual o caminho, nós, adultos, temos que voltar a ser crianças, se quisermos desfazer esse nó cego que demos no mundo.

Um dia de sábado!

Sábado de boas! Lendo, escrevendo, ouvindo Belchior, Ednardo e Fagner. Feliz com as conquistas dos amigos, alunos, orientandos, virando colegas, existe alegria maior que acompanhar um orientando seu se tornar um colega seu? É uma maravilha! Oxalá, meu pai. Essas novas gerações estão vindo com tudo, isso me deixa muito otimista. Todo educador é otimista, né? Seria uma contradição performativa ser um educador pessimista. Quem quiser ser pessimista, seja um bode velho, um professor, um hierarquizador, mas vai indo que eu não vou. O bom é surfar na transversalidade dos espaços, né, Pablo? Sigamos nos multiplicando, pois conhecer é multiplicar, como fala o prof. Eduardo.

Manias de sebo

Estou na livraria. Num sebo. O olho bate diretamente sobre a lombada de uma obra muito rara. Disfarço. Sem imediatismo. Mudo a atenção do olhar para outro livro e demonstro muito interesse no livro que não tenho nenhum interesse. Pergunto o preço. Fico decepcionado. É muito caro. Peço desconto no livro que não vou levar. Não fico satisfeito com o desconto. Faço um cara de frustração. Faço que vou embora. Como quem não quer nada, pego um livro bem baratinho e o outro que eu realmente desejo. Levo para o livreiro, como quem diz, vou levar esses aqui para não ficar tão frustrado por não poder comprar o outro. Isso apenas usando comunicação não verbal. Quando ele fala o preço do livro que eu realmente quero, falo: esse também é caro, assim? Estou sem sorte. Aí ele me dá um desconto super generoso, pois quer agradar o cliente para retornar e comprar o livro que olhei antes. Acabo levando o livro que eu muito desejava por um preço super camarada. Manias de sebo.

A morte e os corpos capitalizados

Os corpos estão adicionados ao cansaço desde muito tempo estertorando até mesmo frente à morte! As coisas estão transformando em capitalização até mesmo a morte!

Síria

Meu avô materno contava para minha mãe como o avô dele chegou da Síria para morar nos sertões do Ceará. Era comerciante de quinquilharias nos altos das serras e nos planaltos. Esse sangue sírio me faz tremer nas bases, um tremor que não sei explicar de onde vem e para onde vai. Me deu vontade de voltar para Damasco. Uma coisa estranha. Uma loucura.

Meia-noite

Quando dá meia-noite, eu fico eriçado! Penso muito com o corpo, tateio conexões com o amanhã. E depois de tudo, tomo uma cachaça para desopilar.

Minoritários e em fuga.

Somos poucos mas somos muitos. Uns poucos multiplicados na fragmentação, não dá em nada, mas é o que somos sem estados de ser, nesse devir-minoritário, cuja mensagem é impossível, tal qual o real, e não combina com esses lugares do amanhecer. A condição humana é a fuga, uma fuga insana, pois o insano é o fundamento do humano. E a gente vai seguindo, buscando o excesso de sentido, a negação da falta.

A genealogia do sertão

Meu avô paterno era pernambucano, dos sertões de Pernambuco, entre Floresta e Belém do São Francisco. Ele veio para Jardim, no sul do Ceará, na fronteira, depois desceu para Missão Velha e em Missão Nova, distrito de Missão Velha, nasceu meu pai. Meu avô se chamava Manoel Cassiano de Sá e meu pai se chama Filadelfo de Sá. Eu me chamo Leonardo de Sá. Com eles, eu aprendi: a selar uma montaria, a cortar cana no eito, a fazer uma queimada corretamente, a fazer a roça, limpar, plantar, cuidar, colher, armazenar, que a medida das coisas são em braças e alqueires e em léguas, a correr dentro do mato, a mijar na ferida quando não se tem solução melhor, a cuidar das próprias perebas, a tirar um bicho de pé com uma agulha, a subir em árvores, a passar da copa de um pé de laranjeira para outra copa sem cair, a correr na vaquejada, a dançar forró, a tomar cachaça, a usar corretamente uma peixeira para trabalhar ou se proteger, a usar armas de fogo, a atirar, a caçar, a tratar a caça, a dar bom dia para todo cidadão, a ser gentil com as pessoas amigas e com forasteiros também, a observar se há tocaia nas curvas, a perceber quando a montaria está avisando que há cobra ou algum perigo na estrada escura pelo comportamento do animal, a matar um bode e esfolá-lo, a negociar na feira, a ser honesto, trabalhador, honrar a família e não ser frouxo, não temer nenhum bicho vivente, pois, se é vivente, pode morrer também, pois cada qual tem sua hora e não é preciso temer a hora de morrer. Além de estudar muito, ler, escrever, gostar de poesia, chamar as pessoas amigas de poetas e filosofar. São algumas coisas que aprendi com meu avô Manoel Cassiano de Sá, que Deus o tenha, e meu pai, Filadelfo Sá, que continua me ensinando muitas outras coisas, graças a Deus. (Isto não é um texto ficcional, é um autorretrato etnográfico). Os tempos mudaram muito. Aos 12 anos de idade, lembro que ganhei um punhal com um cabo estilizado, punhal comprado no mercado de Juazeiro do Norte, eu andava com ele no cós da calça, morto de orgulhoso, tinha virado homem, e aí tinha que começar a beber, fumar e transar também, entende? E saber montar besta de vaquejada, pois correr numa besta de vaquejada não é para qualquer um. Desejar ganhar um mangalarga marchador era um sonho! Meu primo, que Deus o tenha, me emprestava o dele para eu cavalgar de vez em quando. É um cavalo altíssimo e forte, uma potência. Um galope incrível. Mas a besta de vaquejada é mais ágil, corre com o vento. A maior emoção de todas é singrar uma estrada vicinal a mais de mil, agarrado na crina do animal. É como voar baixo. Aos 13 ganhei uma espingarda, uma socadeira, super bem feita numa das centenas de fabriquetas de armeiros do sertão, e aos 14 ganhei outra espingarda, uma automática, de repetição. Aprendi a atirar de revólver, de pistola e também de doze. Era assim que os meninos eram socializados nos sertões do Ceará, até pouquíssimo tempo atrás, será que deixaram de sê-lo? Será? Ao mesmo tempo, ensinavam para a gente que tinha que ser doutor. Tinha que estudar muito para ser doutor. Era assim. Não estou julgando, apenas relatando como era, relatando as origens. A gente lia: Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Machado de Assis, José de Alencar, Antonio Bezerra, Oliveira Paiva, Jáder de Carvalho, Leonardo Mota, Capistrano de Abreu, além de Homero, Hesíodo, Platão, Aristóteles, Plutarco, Virgílio, Petrônio, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Dante, Petrarca e Cervantes, entre outros, era o que se lia nos sertões do Ceará, quando era rapazola. Era o que a gente tinha que ler para virar homem. Sobre cabarés, não vou falar nada! Para se fazer antropologia, é preciso fazer a reflexão sobre qual a concepção de pessoa na qual o antropólogo foi endoculturado. Não me tornei pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência à toa.

A cobra mais humana que a gente

Cobra é mais humana do que gente. A cobra, quando sente a presença da gente, sai fora, para deixar o caminho livre, cobra de boa, ela só dá o bote quando se assusta, quando é pega desprevenida, tipo a gente quase pisando na siesta dela. Cobra é um bicho muito humano. Humano não é que nem cobra, é pior, é muito pior.

Interno contra a internação

Fui interno de uma instituição que exigia que na entrada, a caminho das celas coletivas, a gente levantasse as pernas das calças para atestar que estávamos usando meias brancas, totalmente brancas, sem nenhum detalhe, nem marca. Quem estivesse sem as meias brancas regulamentares, era barrado e direcionado para uma sala de triagem para encaminhamento de uma punição. Na minha revolta solitária, eu ia com uma meia branca de listras, era barrado, mas tinha um par de meias brancas, de tipo regulamentar, na mochila, eu as pegava e as vestia pelo avesso. O bedel dizia: está pelo avesso. Eu respondia: não há nada no regulamento sobre isso. E entrava.

O robô

Muito frequentemente, muito recorrentemente, sou barrado nesses testes para identificar se somos nós mesmos ou um robô. É uma experiência angustiante que implode com minha identidade pessoal. Me deixa frenético, dando looping. De 10 vezes, em 8 tentativas a máquina me reprova, identificando-me como máquina virtual. Por que será?

Briga de faca

Nos bares onde ando, desde rapazote, bares atolados de homens tristonhos, uns mansos, outros de temperamento violento, para, de repente, morrer um, de morte matada, é bem facinho. Já vi muita briga de faca, tenho horror a brigas de faca, saio correndo sem nenhum receio de ser alcunhado de frouxo. Prefiro bala do que faca. Já levei alguns tiros, dei alguns outros, mas, que eu me lembre, ninguém morreu. Esse sertão impossível que me habita e não sai de mim, não sai. Nem sei mais o que fazer com meu desmantelo. A aflição é do vivente, afinal. Há tempos não ando aos galopes, depois que inventaram essas malditas duas rodas motorizadas.

Morrer de sertão

Se ainda fosse capaz de esticar pelo cão da memória, com a habilidade esquecida com que outrora manipulava o cão da arma, da arma que ganhei de meu pai, comprada no mercado de Juazeiro do Norte, parece um tempo não mais de gentes, parece ter virado sonho esse passado tão recente, mas, mesmo assim, se ainda fosse capaz de puxar pelo fio de um dedo de prosa, palavra molhada, no alpendre da casa da vovó, primos e tios batendo nos joelhos uns dos outros, rindo-se à toa da pouca valia dos títulos, falando de bicho vivente para bicho vivente, ainda poderia secar um pranto que não é mais meu, uma dor vazia desde que a enterrei na cova funda que cavamos para colocar uns sobre os outros os cadáveres de uma linhagem sertaneja, mas mataram as bichinhas tudo, as de arribação, pra mói de comer e também por tanta maldade contida no peito. Os desgraçados, nós, nós desgraçados. Hei de morrer de sertão.

Pegando parelha

Há muito tempo, quando a gente ainda andava em armas, um punhal na cinta e um revólver no coldre, caminhando pela cidade, estava numa parelha, meu primo num mangalarga marchador, um animal enorme, o homem sobre o cavalo, ficavam da altura das copas das árvores, era conversar, a partir do chão, olhando para riba, e eu numa égua pé-duro de vaquejada, chocalho na sela, precisava nem de esporas, a bichinha voava ao som do guizo, era o apito, e essa certa vez dessa parelha, a gente pegando parelha, ela desembestou comigo em riba, larguei as mãos dos cabrestos, a égua me chamou para me agarrar nas crinas dela, avisou com uma bufada de lado, com um olhão enorme de assombro, olho no olho, dizendo para eu me preparar, foi a corrida mais maravilhosa que fiz em toda a minha vida, a gente voava, a égua e eu, um corpo colado no outro, nas curvas, me pregava no pescoção dela, surfando, não vi nem sinal de mangalarga marchador por trás da poeira de piçarra; quando então passei com o vento na frente do alpendre da casa da vovó. Quando sonho com a boa morte, sonho nesse galope, fecho os olhos e abro os braços e desapareço nesse galope infinito, desfazendo-me da agonia do bicho vivente, nessa danação sem fim e sem sentido, nessa aporrinhação que é viver domesticado.

Entre armas e livros

Na minha casa, meu pai tinha um revólver para viajar, para pegar a estrada, era o costume, no tempo em que não se usava cinto de segurança, ninguém nem sabia para que servia o cinto, um tempo tosco, rude. Ocorre que minha mãe tinha cinco armas e era uma exímia atiradora. Gostava de ir com ela para o stand de tiro, até de escopeta, ela atirava. Ela não gosta nem de lembrar, vai ralhar comigo por estar escrevendo essa história, virou budista. Era tanta arma. Quanta ignorância era a vida nesse tempo, um tempo passado de tão ontem. Entre os livros e as armas, pois havia muitos livros na minha casa, fiquei com os livros. A vida pacífica é a vida do cidadão de bem. Na minha casa, não temos mais armas. Depusemos as armas, estamos numa nova era, aquilo tudo, aquela guerra toda, deixou de ser, virou faísca de memória, graças a Deus. A gente se desarmou, e a vida ficou mais pressurosa na alegria da conversa, do parlamento na civilidade, os sertões viraram palavras, nomes que não pespegam mais, apenas soletram, cultivam os sons nos corpos, o que há de espraiado no espaço imemorial, desfeito de orgulho besta, enredados na espiritualidade da vida serena, tranquila, sorridente.

Abismos, me abismo.

Uma profundidade infinita. Uma abissal num desfiladeiro de seis mil metros ao sem fim. Uma queda para o alto. Uma escuridão medonha. O corpo se faz abissopelágico no mais obscuro assombro. E mesmo assim, não morre. Contorna o paredão plutônico e escala desde o mais profundo sem ar, pedra e mão, mão e pedra, até atingir a superfície, onde os pulmões se abrem novamente pela primeira vez.

Saturday, September 05, 2015

Morte na Praça da Sé

Gostaria de lamentar, mas também elogiar o morador de rua sem nome, sem nada, que se atracou com o assaltante e morreu no lugar da vítima na Praça da Sé, salvando a menina que estava sob a mira do maluco. Cabra macho! Que descanse em paz. Morreu como homem. Se eu estiver dizendo alguma besteira muito grande, podem dizer, é que fui educado nos sertões. Mas tento não ser dogmático. Estou apenas expressando um sentimento íntimo, não estou defendendo nada. O nome dele era Francisco Erasmo Rodrigues de Lima e ele tinha 61 anos. O melhor é que nada disso tivesse acontecido. Só espero que ele não tenha sido morto por tiros da PM, mas parece que não foi, foi o próprio assaltante quem atirou.

Saturday, August 22, 2015

Estudando às cinco da matina

Cinco horas da matina. Acabei de acordar para estudar, um costume antigo. Lá pelas sete e trinta, volto a dormir um pouco, tipo meia hora, no máximo, o resultado é bom, não é Platão, mas é bom, dá para os gastos. E, enquanto isso, fico pensando nessa gente toda se movimentando para fazer a transformação social. Então, fico orgulhoso por demais! Pois, ninguém está ligado em dinheiro e sucesso e poder, apenas no amor.

Wednesday, August 19, 2015

O nascimento de anarca.

É preciso que um indivíduo esteja profundamente arruinado, destroçado, perturbado, aniquilado, mergulhado na balbúrdia de suas paixões e gozos mais contraditórios, prestes a partir-se, a se desintegrar, para que desenvolva um desejo de ordem, de uma ordem que se impõe de fora, um desejo de ordem sustentado pela dor de uma profunda culpa, de um terrível desejo inconsciente proibido de matar para amar e amar para matar. Deus é o suicídio adiado, o suicídio postergado, o suicídio suspenso, o suicídio na cruz, um desejo torturado, como de um perverso não domesticado, pior do que o mais perverso dos ladrões, esses agentes da ordem, que faz de Deus um falo, a fim de violar o útero da mãezinha. Anarca não obedece e não crê. Anarca é o cão, tem o cão nos couros e achando bom o cheiro de fumo e de cachaça.

Saturday, July 25, 2015

Estudar é transgredir

Estudar é uma forma de transgressão! Quando o supereu manda todo mundo gozar ilimitadamente no desejo de poder, no desejo de dinheiro e no desejo de sucesso, e no desejo de obter dinheiro, sucesso e poder de modo mágico, imediato, sem vocação, sem ethos sacrificial, apenas no gozo infinito sem mediações, sem esforço, sem trabalho, quando a maioria é incitada a tomar geral, estudar torna-se a maior das transgressões. Ficar nas férias, estudando, como forma de rebelião contra o sistema de dominação. Estudar é um prazer! Estudar é um trabalho! É um lugar entre o prazer e o trabalho. Faço apologia dos estudos sim. Se quiserem me prender, me processar, me xingar, vão em frente. Sei que é contra a lei do desejo da maioria, mas a lei do desejo da maioria não me interessa. Não confiem em ninguém que fale mal dos livros. Não confie em ninguém que diga que os livros são coisas da "elite", não são, os livros são nossas terras comuns, são signos delas.

A velha nova classe média

Gente, fiz uma descoberta sociológica. Uma descoberta de autoanálise. Faço parte da nova classe média da década de 1980 e meus pais fizeram parte da nova classe média de 1960. É muita nova classe média incompleta, só na fantasia, né?

Parabélum

Quem não leu ainda Parabélum, de Gilmar de Carvalho, não sabe o que está perdendo. A primeira vez que eu o li foi numa edição clandestina raríssima que circulava de mão em mão na universidade lá pelos idos de 1993.

Biologia humana

A plasticidade da biologia humana é surpreendente, uma capacidade que pode ser alargada, até certo ponto, a barreira é a morte.

Friday, June 12, 2015

Os sentidos do público, o senso do público.

Situação 1: O estudante envia email, solicitando um horário de atendimento com o professor, um estudante de outro curso da universidade que não é o curso onde o professor atua, o que é muito relevante para o professor, afinal, poder contribuir para a formação do educando é a missão. O professor então responde ao email, faz o agendamento, pactua dia, hora e lugar, prepara-se, levando as informações requeridas para oferecer ao aluno(a), comparece no dia e horário marcado, pontualmente, e o aluno(a) que solicitou o atendimento não aparece, o professor fica as duas horas que haviam sido reservadas para o atendimento, lendo, estudando, corrigindo provas, respondendo outros emails. Uma situação muito comum. Situação 2: Uma equipe de estudantes faz solicitação para o professor comparecer numa atividade acadêmica de formação, o professor aceita o convite, a equipe de pré-produção da atividade diz que irá entrar em contato para confirmar os detalhes da atividade, o professor fica aguardando o contato, não agenda nenhuma banca, nem um outro atendimento, deixa o dia e horário reservado, como lhe foi solicitado, a equipe de estudantes desaparece, não entra mais em contato com o professor, e a tarde inteira que o professor tinha reservado para colaborar com a atividade de formação é transformada em revisão de trabalhos, correção de provas, leituras de teses, dissertações e monografias. Situação 3: Um estudante solicita fazer uma entrevista com o professor para um produto acadêmico da instituição que faz parte do seu processo de formação, o professor faz o agendamento, combina lugar, horário e dia, e fica esperando uma hora e o estudante não comparece para realizar a atividade e nem entra mais em contato. O professor fica uma hora lendo, enquanto espera. Poderia relatar várias outras situações, e as situações relatadas acima são recorrentes, todavia, gostaria de chamar a atenção para uma questão. Os sentidos do público estão aí sendo confrontados. O público como terra de ninguém. Será que esquecem que a universidade pública é um investimento coletivo? Será que esquecem que a hora/atividade do professor varia entre 65 reais e 400 reais, a depender do nível de complexidade do atendimento? Será que as pessoas acham que o gratuito sai de graça? Que o gratuito não possui custos? Além de outras questões sobre as quais não irei me alongar.

Friday, May 15, 2015

O medo que dá

Existem os que sentem medo de não serem amados, os que sentem medo de amar, os que sentem medo de sofrer por causa do amor, os que sentem medo de perder a capacidade de amar, os que sentem medo da velhice sem amor, os que sentem medo de um amor sem velhice compartilhada, os que sentem medo da morte, os que sentem medo diante do vazio, os que sentem medo de modo habitual e atávico, os que sentem medo de ser livre, os que sentem medo das prisões, os que sentem medo da descoberta, os que sentem medo de que o amor seja um mero acaso, os que sentem medo da nudez, os que sentem medo da chuva, os que sentem medo da aridez, os que sentem medo do amanhã, do hoje e do ontem, os que sentem medo de tocar feridas próprias e alheias, os que sentem medo de agonizar estertorando numa cama de hospital, os que sentem medo de vacilar nas escolhas entre o certo e o errado, os que sentem medo de respirar micróbios, os que sentem medo de gozar, os que sentem medo de não parar jamais de gozar, os que sentem medo do desejo desejante dos outros, os que sentem medo de desejar o que odeiam, os que sentem medo de nunca mais sentir a presença de Deus, os que sentem medo do inferno, os que tem medo de ficar cego, os que tem medo de perder a razão, os que tem medo de dialogar com a loucura, os que tem medo de voar nos sentidos da paixão. O medo mata e salva a vida ao mesmo tempo sob aspectos diferentes. O medo me dá medo.

Thursday, May 14, 2015

Estratégia de poder

Se você deseja muito ocupar uma determinada posição, não vá direto ao ponto. O segredo é esse, não ir direto ao ponto é fundamental. Ademais, é importante demonstrar querer ocupar outra posição, que é disputada por outros, e essa interveniência vai deixar esses outros nervosos, de modo que, quando você se oferecer, como solução, para ocupar a posição que você realmente deseja, os indivíduos que ficaram com receio de mais um competidor disputando suas posições irão te apoiar para ocupar o lugar que você realmente quer. E, então, você atinge o objetivo, como se estivesse se voluntariando, se sacrificando em nome do coletivo. É a estratégia de poder mais certeira que há.

Wednesday, May 13, 2015

Alunos assustados

Recentemente, relatei para alguns de meus alunos como é a vida de filhos de classe média assalariada, que não são rentistas, ou seja, que não são de classe média alta, no que tange à trajetória escolar exigida para se tornarem "alguém na vida", "doutores". Alguns dos meus alunos ficaram assustadíssimos com o relato. Como os filhos da nação que têm a duras penas, sem nenhuma liquidez, "estudo, saúde, alimentação" (classe média assalariada) e nenhum patrimônio de apoio precisavam estudar 10 horas por dia durante longos anos, muitas décadas. Consegui involuntariamente assustar o pessoal. Nem todos, é claro.

Monday, May 11, 2015

Histeria

Somos movidos pela impotência, travando com a histeria em tempos supostamente pós-histéricos.

Brincar com fogo

O lugar de onde tento falar é o da fantasia. Não da fantasia como ilusão, mas da fantasia como imaginação criadora. É a desincorporação dos papeis que é a condição para qualquer mudança. Sair do papel. Desintegrar-se sem se fragmentar irremediavelmente. É brincar com fogo, é correr o risco, é se colocar em perigo, é levar a sério a ideia de que as imagens das palavras não são mera representação, não são apenas símbolos, são também modelações dos próprios eventos da vida. A fronteira entre acontecimento reais e imaginários é cortada pela força criadora de novos contextos que se libera no dizer novamente o que já foi dito.

Absurdo

E o sentimento do mais absurdo desamparo continua a fazer suas vítimas perpetradoras de uma crueldade que apenas se imputa aos outros. E o círculo infernal da adoração fatal do lugar absoluto continua a manter seus rebanhos em estado de inépcia para o pensamento. E os adoradores da morte continuam alimentando a paranoia do Estado e de seus grupos de perversos executivos.

Brutalidade de homens da elite

Eles não notam mais quando são estúpidos, grosseiros, brutais e intelectualmente embotados. São homens agressivos, com falas que parecem golpes desferidos no ar, e, também, são muito inseguros, no fundo, sentem-se humilhados, retraídos, sendo pisados, esmagados, ofendidos por outros homens agressivos que mandam neles. Desamparados, desesperados e agressores.

Rousseau apud Sennet

"As pessoas se encontram comigo cheias de amizade; mostram-me mil civilidades; prestam-me serviços de toda sorte. Mas é exatamente disso que me queixo. Como é que se fica imediatamente amigo de alguém que nunca se viu antes? O verdadeiro interesse humano, a sincera e nobre efusão de uma alma honesta - estes falam uma linguagem muito diferente das insinceras demonstrações de polidez (e as falsas aparências) que os costumes do grande mundo exigem" (Jean-Jacques Rousseau).

Fim à atividade meio!

Nada mais ridículo quando numa organização a atividade meio possui a pretensão de ser mais importante do que a atividade fim. Tipo: estou lendo uma tese para uma banca de doutorado, mas a atividade meio considera isso irrelevante, algo que pode ser interrompido sem problemas, pois o importante é ir lá dizer bom dia para o doutor e assinar os papeis para o doutor continuar sua carreira até Brasília. Vão pra merda!

O segredo da segunda-feira.

A cada 10 telefonemas, 9 partem da mais pura ansiedade ou da tentativa de transferir problemas e responsabilidades, jogar para o outro o que era de sua alçada. Não vale a pena atender telefonemas. E aquele pessoal que repete o email, reencaminha o mesmo email várias vezes, o importante é nunca mais responder. Pessoal com problemas emocionais. E aquele pessoal que usa redes sociais virtuais como Serviço de Atendimento ao Consumidor, também não responder, é claro. E quando alguém cobrar algo de você, tenha uma lista com tudo aquilo que a pessoa está devendo. A segunda-feira rende melhor. Quer manter as pessoas inconvenientes afastadas nos ambientes de trabalho, estudo e pesquisa? Basta exigir que trabalhem, estudem, pesquisem e assumam compromissos num padrão muito acima do que elas esperam, ou seja, do relax total que elas esperam, é só frustrar essa expectativa de relax total. Por exemplo, alguém pede para ser seu orientando, basta marcar um encontro para daqui a 15 dias para discutir uma obra importante, um livro de 250 páginas (que eu leio num dia), alguns artigos de peso, ou seja, que exigem dedicação, atenção e pensamento. De 10, 9 não aparecem no encontro e nem mais entram em contato, é uma alívio. Mostre que trabalha com quem trabalha em ritmo forte e você ficará na santa paz de Deus, ninguém chega perto. Segredo da segunda-feira.

A luta contra a intimidade

A comunicação entre os indivíduos quanto mais impessoal mais sincera é. A comunicação íntima entre os indivíduos é uma artificialidade hipócrita. Tempos em que a expressão da personalidade é odiosa e as convenções são desejáveis.

As perguntas da Anarca

É possível falar de vida interior para além do intestino grosso? É possível ser calvinista no candomblé ou candomblecista no calvinismo? É possível ser anarquista servidor do Estado? É possível ser crente pensador? É possível ser ganancioso solidário? É possível desejar dinheiro? É possível matar em nome do amor? É possível fazer da retórica intensiva da pessoalidade uma luta contra a intimidade na política? É possível praticar maldades, ser perverso, roubar e louvar a Deus? É possível amar todo mundo? É possível enlouquecer para ter razão? É possível viver sem desafetos? É possível acreditar na bondade humana? É possível organizar a confusão? É possível desejar a morte? É possível ouvir Chopin, comer pizza requentada e ler Hermann Broch domingo à noite? É possível desejar merda para amigos que não sejam de verdade? É possível parar de escrever e continuar simplesmente vivendo? É possível alegria sem amor? É possível fingir só de sacanagem?

Anarca acordou

Enquanto a gente fala de liberdade, as figuras sombrias, e são muitas, continuam falando de "meu marido", "minha sogra", "esta é minha futura esposa". Como alguém apresenta outrem como sendo "minha futura esposa"? Que merda é essa? É o fim da picada. Esse pessoal vive em que mundo, hein?! É decepcionante esse desejo de ordem, esse desejo de integração, essa histeria.

Brutalidade de elite

Um intelectual de classe média alta me confessou em tom de decepção que os membros individuais dos círculos sociais das camadas médias altas e altas com quem ele possui convívio sociocultural estão cada vez mais insensíveis e expressando sentimentos e pensamento de brutalidade contra os outros, principalmente, contra os pobres, os fracassados e os perdedores. Ele me contou que qualquer pensamento que ele expresse com valores de justiça social, democracia e igualdade, na versão mais moderada que existe, está sendo tratado como algo a ser completamente descartado do horizonte desses indivíduos que são empresários, médicos, advogados, executivos, dentre outros, com quem ele convive. Ele me disse também que foi hostilizado por jovens da burguesia por ter falado que era necessário pensar num país mais justo. Os jovens escarneceram dele. Chamaram-no de nomes desqualificadores. O intelectual está pessimista, pois as elites estão atualmente unidas na incivilidade, na mentalidade autoritária e no individualismo mais rasteiro que há, individualismo possessivo do mais dinheiro e do "eu controlo a minha família". Pequenos tiranos endinheirados, falando línguas estrangeiras, ávidos por poder, dinheiro e sucesso e que sentem ódio de fracassados, ou seja, da maioria de nós. Muita atenção é pouca. Estamos nos confrontando com ralés, hordas, bandos que viraram "elites".

O racismo é lá na África do Sul?

E os brancos egóticos, esparramados em suas vidas miseráveis, cercados de luxo, de fartura e nenhum sentido, apenas o tédio ou a adoração da morte, continuam se autoelogiando, expressando o lixo de suas personalidades tacanhas, truncadas, imbecilizantes, e os brancos de shopping center, e os brancos de alta escolaridade, e os brancos lívidos de tanta tristeza e falta e falta e falta, comemoram suas pequenas felicidades totalmente indiferentes à miséria que se abate contra a maioria, beneficiam-se da riqueza privada concentrada, comem nas mesas dos senhores, as migalhas, principalmente, se mantêm subservientes e fazendo da pornografia de vidas vazias a sua principal forma de expressão. Brancos senhoriais e racistas, travestidos de pessoas de bem, de pessoas legais. Não há pessoas de bem e legais em meio a um sistema de opressão tão brutal, não há.

Dia das mães

As mulheres negras, moradoras de favelas, com baixíssima escolaridade ou nenhuma, diaristas, catadoras de material reciclável e mães solteiras, cujos filhos são regularmente massacrados, engolidos pelo sistema de crueldades, continuam há séculos na mesma posição de subordinação, humilhação e exclusão. E enquanto for assim, Anarca considera uma imoralidade qualquer comemoração, qualquer manifestação pública de carinho e de amor no dia das mães. Só haverá comemoração, quando nenhuma mãe a menos. Pessoas brancas com mães brancas que vivem na fartura deveriam fazer jejum de palavra, imagem e comida no dia de hoje. Caso contrário, afirmam-se como a classe senhorial e racista que de modo brutal faz o sistema da opressão se perpetuar. E ainda depois acusam os brancos da África do Sul de serem os partidários do regime do apartheid. Dia das mães de racistas coniventes com a dominação brutal, estou fora.

Sofredor

Todo ser é sofredor. O sofrimento é o princípio universal do meramente existente. Não há sujeito sem sofrimento. A dor é a parteira da vida. As tentativas são muitas e escoam juntas para o vale das lágrimas onde a fé se torna inócua e dispensável, uma pálida figura sem substância no rumo ao nada.

Peremptório

A felicidade é pornográfica. O tédio é democrático. O desejo é ambivalente. O lar é perigoso, a rua é acolhedora. A morte é recente, a vida é futura. O inferno é renitente, o céu improvável. A armadura é móvel, o caráter corrompido. A fantasia é frágil, a realidade é cortante. O amor é finitude, o ódio é desejo. A paixão é senhora, a razão é serva. O fim do lazer é a decadência.

O circo humano

A companhia de outros seres é um fardo, a obrigação de reciprocar é um peso, mas, no mais profundo desamparo, o rebanho se aconchega; um focinho no rabo do outro e vice-versa: o circo humano.

Pessoas felizes

Pessoas felizes não são pessoas, são aparatos. Pessoas felizes já estão mortas. Apenas o tetricamente absurdo é capaz de reativar a criatividade dos humanos. Quando não há estados de alma, apenas fluxos indefinidos.

Mais fácil

Será que é mais fácil usar narcóticos como igreja, Lexotan e televisão? Será que é mais fácil ir ao shopping center e gritar com empregadas domésticas? Será que é mais fácil celebrar a falta de doçura, compensando-a com gordura saturada? Será que é mais fácil parar de pensar?

Doces canibais

E quando éramos doces canibais? Tempos idos, remotos, que não voltam mais, quando ninguém sorria antes de esquartejar o inimigo. E não somos mais doces canibais? São tantas as flores e as deferências e a comida sobre a mesa, esfriando.

Entre cuecas e calcinhas

São tantas cuecas para lavar. Algumas não mais em condições de uso. São tantas calcinhas para lavar. Algumas não mais em condições de uso. E o domingo à noite vai seguindo com intensos tiroteios, alguns corpos já estão sendo recolhidos, amanhã sai no jornal a depender do prestígio social ou criminal do morto.

Náuseas

É preciso ignorar as náuseas quando se tosse, uma tosse nervosa, compulsiva, uma tosse de ansiedade. Amanhã é apenas mais um dia vazio, numa história sem fim, sem sentido e sem meta. Não haverá sol talvez. Mas não haverá deus, certamente.

Corpos despachados

Os corpos já estão sendo despachados. Vão passar alguns dias, talvez semanas, antes de serem enviados em fragmentos para o cemitério como indigentes, não para qualquer cemitério, mas para o único fora do mapa, com cova rasa e presuntos misturados, fica sim na cidade, na cidade perdida.

Domingo à noite

As pessoas choram, na solidão, no desamparo que apunhala o peito, a boca resseca, as lágrimas secam, apenas a perplexidade em forma de falta de ar, e em busca de outro corpo abraçam a si mesmas, sentindo a pontada de cada osso, de cada cabeçada contra a parede, e não há sentido, o mundo está irremediavelmente perdido, apenas rostos inexpressivos, atônitos, de um lado para o outro, sem saber para onde vão e se poderão voltar. A semana inicia-se no terror do abandono, no sem norte do desespero e as pessoas choram e mordem os travesseiros e fazem chás e comem bolos e tomam remédios e despencam exaustas na vida sem sonho.

Narcos

O que fará as pessoas dormir? O que fará as pessoas acordar? Remédio para dormir, remédio para acordar? Ou não precisam de remédios pois vivem em estado de felicidade? Vão viver em nome do já morto? Da molécula partida?

Saturday, May 09, 2015

Em maio de 2013

Ontem a pessoa estava relatando que estava morrendo de dor, hoje a pessoa está relatando que está efusiva de alegria. Amanhã, será dor? E depois, será alegria? Prefiro ser sempre a dor permanente da individuação e a alegria absurda da errância. Essas oscilações entre satisfação e insatisfação são jogos de mercado que não me atraem. O mercado das almas e as almas do mercado se estatelam na falta. E da falta, eu quero é distância. Vivo na plenitude dos fluxos. Na plenitude da morte iminente.

Homofobia e fascismo andam de mãos juntas. 4 de dezembro de 2012.

Alguém pode apoiar publicamente que um indivíduo aborde uma pessoa na rua, dizendo: "Está olhando o que seu viado? Segue seu rumo sua bicha". E depois dessa abordagem, quando o outro não aceita que "não consigo me conformar de que minha obrigação quanto gay é ouvir ofensas e seguir meu caminho" e após cometer tentativa de homicídio, o agressor justifica o crime, dizendo: "Apanhou de besta porque se tivesse seguido o caminho dele, não teria apanhado." Enfim, quando isso se passa e quando há pessoas que em público defendem esse tipo de atitude e mentalidade, estimulando práticas de violência homofóbica, o que podemos dizer dos incitadores? Daqueles e daquelas que se excitam incitando a tais práticas de aniquilamento dos outros? Só há um nome: fascistas.

Carta de Antônio para Anarca

Anarca Da Silva, quase não tenho mais forças, meus dedos cortados, meus pulsos íntegros ainda riem de mim, as folhas de papel são traiçoeiras, não merecem nenhuma confiança, por isso o papel é facilmente queimado, e o cheiro de papel queimado, principalmente daquela bíblia cujas páginas de papel de seda foi por você volatizada, e foi duramente estropiada para satisfazer teu desejo de morte. E o odor da morte que sinto em meu peito quando me torturas com palavras vãs, irresponsáveis, machucando-me como se ainda fosse possível me derrotar. Continuo a escovar os poucos dentes que sobram com dentifrícios de formol, foi o legado que teus beijos deixaram em minha boca. Não me provoque mais. Não tenho mais alma. O espírito tornou-se uma quinquilharia numa bodega malcheirosa. Já sofro sem mais nada sentir. Apenas minha intermitente cegueira me faz ir sobrevivendo entre os livros que você não me roubou. Siga em paz na tua caricatura indecente e pornográfica de uma ordem que te alucina, pois de paz, não entendo mais nada. Saudações libertárias, Antônio.

Carta de Anarca para Antônio

Querido Antônio Elias, hoje acordei a pensar sobre como, depois de tantos anos, ainda tilintam ao sabor do vento as palavras que você jamais professa, e nesse vazio de palavras, de sua significação bloqueada, propositalmente implodida, quem sabe, esteja o futuro de mim mesma, um terrível fim, sem comiseração, sem atalhos, em direção à fogueira, onde hei de queimar, feito bruxa condenada à eterna falta de amor. Você me ensinou que a vida não é alegre. Roubou minha alegria, como quem chuta a canela de um adversário malquisto em meio à multidão. Nunca vou lhe perdoar por ter deixado de ser uma parte do que pude jamais ter. Mas não lhe quero mal. Seja feliz nessa tua desinfeliz vida de acrobata de biblioteca. E sempre mais uma vez, adeus. Com estupor, Anarca.

O segredo

Meu segredo aqui é que nunca falo de mim, jamais, nenhuma vírgula, nenhum ponto. Afinal, escrever numa merda que por unanimidade não é feita para escrever é se esquecer. No quadro das trocas comerciais, validar atos de consumo e comunicá-los é a maior pornografia, é a maior desonestidade. Sou recatada, uma vadia recatada. Tento não mostrar que curto tais e tais empresas e mercadorias, essa função das pessoa de bem.

Um mundo melhor

Se as pessoas parassem de acreditar em Deus, no Dinheiro, no Estado, na Família, o que seria do mundo? Resposta: um lugar muito melhor de se viver, mais livre, justo e humano. Think about it! (Momento proselitista da Anarca).

Anarca e o saber analítico.

Anarca é um sintoma da dissolução na crença no princípio do absoluto e no princípio da hierarquia. Mas o sintoma não aprisionanarca. O sintoma é também a esculhambação da cadeia de significantes, a explosão da ordem moral, em direção ao nada. Mas no nada também não aprisionanarca. O nada é o mergulho para cima. Para a vida sem interior, sem subjetividade, do discurso sem palavras de um saber analítico.

Friday, May 08, 2015

Sacrifício

O sacrifício humano. O sangue humano derramado em nome de Deus. Os humanos perderam a unidade na fé. Nenhuma hecatombe é capaz de restaurá-la. Nem infinitas libações. Irremediavelmente cortado, o mundo esvaiu todo seu sentido. Não há mais a inocência do sacrifício humano. Apenas a covardia, a traição e a fuga. Deus, tende piedade de nós.

Sunday, April 12, 2015

A atividade do pensamento gera desordem.

Quantos eventos sociais você deixou de ir na vida porque preferiu ficar o dia inteiro ou a noite inteira estudando? Aqui no meu FB, dos 101 amigos, tenho certeza de que uns 30 passaram a vida inteira fazendo isso de modo sistemático. É o pessoal da minha turma. Fonte de orgulho, pois estudar é uma das tarefas mais complexas. Exige abrir mão de muita festinha, baladinha, o que não quer dizer que não sejamos grandes festeiros e baladeiros. Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. A galera do estudo quando entra na boêmia, tem é Zé pra sair. Mas em geral o pessoal entra depois de ter cumprido alguma tarefa de estudo muito importante. Tipo: terminado de ler as obras completas de Machado de Assis. Essa farra, quando eu tinha 19 anos, foi uma das mais intensas. Uma farra machadiana. Passei uns três dias seguidos entre o Cais Bar, os botecos 24 horas do Centro e as barracas da Praia do Futuro. Lavei no mar as palavras que saltavam da minha cachola. Fiquei atônito apenas por ter aprendido a palavra atônito. Fiquei ensimesmado porque tinha aprendido o que era o si mesmo como figura subjetiva literária. A cada obras completas era um porre. As farras tinham nomes dos homenageados: Graciliano Ramos, José Lins do Rego, João Rosa. Há motivo para festinhas e baladinhas melhor do que esse? É assim que as coisas se tornam reais. Pelo uso da força inerente à imaginação literária. É o que torna o amor possível. É o tempero do tira-gosto. É o sabor de uma cerveja. E como hoje é domingo, não é dia de farra, continuemos nos estudos, longe das festinhas, baladinhas e demais eventos sociais que festejam a ordem. Meu interesse é na desordem. Naquilo que gera desordem: a atividade do pensamento.

Saturday, April 11, 2015

Produtividade na universidade.

Na UFC, temos 32.853 alunos matriculados em cursos de graduação e pós-graduação. Somos 1.984 docentes do quadro efetivo. 16,55 alunos por cada professor é a demanda média de atendimento e de geração de benefício educacional. Em média, precisamos ter capacidade de trabalho para realizar benefícios educacionais para quase 17 usuários por dia, seja o atendimento de modo individual (orientação, atendimento etc) ou coletivo (sala de aula, laboratórios de pesquisa, grupos de estudo etc). Neste semestre, a minha média individual é de 23,71 estudantes em atendimento por dia. A cada semana, estou em contato permanente com 166 estudantes. Ou seja, um atendimento que é uma complexa relação pedagógica com 166 pessoas ao longo de um semestre. As 40 horas, dedicação exclusiva, são presenciais na instituição. É o que determina o contrato de trabalho. Todavia, para produzir ciência, fazer pesquisa, publicar artigos, livros, e fazer extensão, preciso fazer mais 32 horas de trabalho. Ao todo, são 72 horas semanais de trabalho. Minha situação não é isolada. É típica. Quem não está nessa situação de sobretrabalho é exceção ou minoria numérica.

Oxente

Meu avô paterno e minha avó materna e as irmãs e os irmãos mais velhos do meu pai falavam preferencialmente "oxente". Meu pai, que é mais novo, fala "oxe". Para mim, oxente e oxe são interjeições de fundamento. São interjeições que fundam minhas relações de parentesco. Quando escuto eu mesmo falando (e como raramente falo em público, no trabalho), é como se houvesse uma multidão na minha fala.

Wednesday, April 08, 2015

Aprendizagens e construção da autonomia

Quando eu era bolsista de iniciação científica, eu colava no meu orientador, para onde ele ia eu ia junto. Meu orientador era o César Barreira. Foi assim que aprendi um monte de coisa. Ele não dava um passo sem minha sombra, eu o "perseguia". Ele ia fazer uma entrevista de campo, eu me voluntariava para ir junto. Também me voluntariava para fazer as transcrições e aprendi que o trabalho não era mecânico, havia questões epistemológicas e metodológicas numa transcrição. Recortava jornais e fiz a mesma descoberta. Havia uma crítica da fonte e um método no trato com os jornais, uma sociologia da imprensa que tornava possível recortar jornais. Ele ia atualizar o Lattes dele, eu me oferecia para ajudar, assim aprendi a usar a plataforma e hoje não preciso de nenhum bolsista para fazer Lattes para mim, e como ninguém pede para me ajudar para aprender as dicas, fico esperando que um dia isso aconteça. Ele ia dar uma palestra, eu ia junto. Foi assim que na primeira pesquisa do LEV, tornei-me coautor do livro que resultou da pesquisa. Descobri que em cada atividade que eu me engajava com ele, havia um problema de método, de técnica e de teoria inserido no contexto de encaminhamento e resolução da tarefa. Entendi que havia uma remuneração indireta, não-financeira, baseada em transferência de capital acadêmico nessa proximidade. Hoje sou colega dele na universidade. 21 anos de parceria. A construção da autonomia exige muita dedicação e humildade em aprender com quem é mais experiente. Quem acha que já nasceu com "autonomia", vai direto para o buraco do esquecimento. Existe bolsista de iniciação científica da graduação que se acredita já professor titular da universidade. Olhem, olhem. De salto alto, quem não aprendeu ainda a andar, vive torcendo o pé e levando tombo. A fantasia da autonomia como uma dádiva dos céus não corresponde à realidade dos fatos. Trabalhar coletivamente é preciso. Fica a dica. Excluindo a inevitável violência simbólica da dica, porque vinda do professor, não deixa de ser uma dica na amizade.

Sunday, March 29, 2015

Arrogância acadêmica

Colegas de outras áreas podem ser tão arrogantes quanto o possível. Depois que falei para um colega que na Sociologia tínhamos combinado cada professor de publicar um A1 para tentar elevar a nota de 5 para 6, entre outras ações, o colega da outra área me disse: "na nossa área num é tão fácil publicar A1, o nível é muito elevado". Fiquei olhando pra cara dele e ele nem se tocou que estava expressando um terrível preconceito, supondo ser de uma área mais "rigorosamente científica". É osso.

Wednesday, March 18, 2015

Práticas políticas

Nunca fui ao novo shopping da cidade. Há mais de um ano não vou no shopping mais antigo da cidade. Não tenho TV em casa, há uma década. Nunca mais comprei nenhum produto Barillia, que eu adorava, depois da declaração homofóbica do presidente italiano da empresa, levo a sério o boicote. Em regra, não compro mais cachaça ypioca, depois que processaram dois camaradas para intimidá-los. Não falo mais no dia a dia, não dou bom dia, nem boa tarde e nem boa noite para mais de uma centena de pessoas que conhecia e que passaram a trabalhar abertamente e desavergonhadamente para governos oligárquicos antipopulares elitistas, sem que estivessem pressionados por nenhuma privação material, miséria, que justificasse aceitar ser capacho de oligarca, pessoas em busca de sucesso, dinheiro e poder, pessoas com fantasias de poder, sucesso e dinheiro. Mais de cem relações rompidas por isso, rompidas mesmo, sem aquela mentira social de dar sorrisos e tapinhas nas costas quando se encontra por aí, viro a cara. Recusei propostas de colaborar com elites de filhos da puta, mesmo quando me ofereceram dinheiro bastante que todos nós precisamos sempre pra sair da buraqueira. Não possuo automóvel, há 7 anos, uso uma motocicleta super econômica e nunca pego congestionamento, caminhadas e o transporte público, às vezes, pego um táxi. Minha companheira possui um carro utilitário para trabalhar, por vezes, raramente, uso esse carro. Junto com minha companheira, fazemos serviços domésticos em casa (faxina, cozinha, banheiros etc.) Quando contratamos, pagando bem, um trabalhador diarista dia de sábado, uma vez ou outra, trabalhamos juntos com a pessoa contratada, de igual para igual, para o serviço ficar completo e com aproveitamento ótimo. Isso não são práticas? Sim, isso são práticas. Não estou dizendo que elas sejam boas ou ruins. Estou apenas lembrando que é no detalhe que se define o sentido de uma prática. Práticas cotidianas é que definem o sentido de nossos pertencimentos políticos. O resto é fachada.

Sunday, March 01, 2015

Pensamento de madrugada.

As entidades que nos chamam de querido com voz carinhosa de "é a mamãe venha cá", reforçando suas funções de poder, não aceitam em hipótese alguma que recusemos atuar em funções de subordinação de poder que reforcem suas identidades funcionais de autoridades funcionais, e excluem cabalmente, com apoio de outras funções de delírio na subordinação, quem se recusa a atuar segundo a funcionalidade de coisidade das funções do ser para o outro. E as entidades nos chamam de querido, veja bem. Nos chamam de querido, sorriem para nós, mentem e riem enquanto mentem sem que achem nisso nenhuma perversão cruel. São tão evidentes na tramoia que nem mesmo a rapacidade do que há de pior no ser lhes quer por perto.

Wednesday, February 04, 2015

Sobre as ideias

"A ficção por mais nobre que seja não passa de um fetiche; o mais sublime modo de pensar, se for fictício, é um vício" (Martin Buber).

Sunday, October 26, 2014

O que não se pode pensar

Você conhece uma criança, uma menina. Ela é inteligente, curiosa, com sensibilidade artística, científica e cultural aguçada, com talento para teatro, música e ciência. Depois de uns tempos sem vê-la, a menina aparece falando espontaneamente temas fundamentalistas cristãos, carregando uma bíblia infantil que ganhou dos adultos, falando coisas estapafúrdias do preconceito religioso, típicas de fanáticos religiosos, também falando temas ultraconservadores da política brasileira, enfim, uma menina completamente podada nas suas capacidades intelectuais, artísticas, científicas, culturais e intelectuais. Me deu vontade de chorar. Até o português que a menina falava antes era melhor articulado, tomando-se como referência a norma culta que é exigida pelo sistema de dominação para se ocupar posições de maior acúmulo de capital simbólico. Ou seja, até a fala do português da menina já está ficando diferenciada da fala que se exige do menino treinado para ser adulto competente e bem posicionado, enquanto a menina é treinada para ser doméstica, sem profissão, sem estudo, sem posição pública, sem liderança. Fico muito triste de ver adultos conservadores, machistas, fanáticos religiosos, podando o futuro de meninas, impedindo-as que se tornem cientistas, artistas, independentes, mulheres adultas livres, pensantes, reflexivas e que possam, se assim desejarem e decidirem, criar coletivamente novas meninas para serem livres, pensantes, reflexivas, cientistas, artistas, independentes como mulheres adultas. A família tradicional brasileira é um lugar de produção da desigualdade de gênero, de dominação masculina, de heteronormatividade, de exclusão das mulheres da vida pública e criativa. Fico muito triste quando presencio uma criança, principalmente, uma menina, sendo massacrada pela burrice e perversidade conservadora sem que a menina possa ter consciência disso, é uma covardia muito grande. Por isso, a política no Brasil é uma disputa que passa sim pelo modelo de família. O modelo de família conservador, tradicional, é uma armadilha onde a beleza e a liberdade do humano e a vida igualitária são cassadas. Não permitamos que nossas crianças sejam oprimidas e massacradas, isso é de nossa inteira responsabilidade.