Saturday, January 02, 2016
Já muito velho
E um dos narradores é um homem já muito velho. Corpo corrompido. Vida truncada, o que não o impede de adoçar com mel a ponta de uma chupeta que o mantém entretido. Mas é apenas um dos muitos narradores.
No início, era o crime, a loucura e a morte. Tudo começava na prisão. Tudo terminava na profunda cova. Não sem antes atravessar o mar Cáspio do desejo. Não havia sequer podido estabelecer a distinção entre o sufocante e o refrescante. A prisão era o que lhe antecedia. Ela o fundava como se riscasse um piso de mármore depositado em estado quase bruto na profundeza de uma enseada. Ele podia entrar e sair dela sem pedir autorização a ninguém. Tudo começava nessa prisão. Havia baratas por todo lado. Algumas reputadas à morte. Outras, nem tanto. O comércio era farto. Sem limites morais, o mercado das megeras. Não se nasce livre, teria escrito o filósofo na sua agonia contra o próprio filósofo. Não estava destinado a escrever. Era-lhe vedado. Sobrava-lhe a atitude esnobe do bom leitor.
Em seus primeiros dias, a duração da pequena pessoa resvalava de uma fratura óssea. Era a mão que apalpava o osso quebrado, a dor continuada de um parto infinito, transmudado numa dívida impagável. Apenas o sacrifício aplacava tamanho sofrimento.
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