Tuesday, December 25, 2012

Urgências! (reescritas).

Tinha pavor de quem rotulava as coisas de urgente, mas naqueles tempos, obsessivo, ele precisava de uma mulher urgente. Mas a urgência na mulher não fazia nenhum sentido. Não era uma atributo provável. A urgência dele não era de tipo sexual, não estava a fim de descarregar seus infortúnios no corpo copo de alguém. Um pouco de honestidade ainda havia no deserto por que passava há anos, desde tempos perdidos na memória, não havia nem imagem da origem nem da natureza da desgraça em que se metera, ou que se tornara ele próprio, um filho da puta desgraçado. A precisão era da ordem da fantasia. Uma fantasia de alienado. Remetia ao mundo do desmundo, onde essa dor da desrealização quase total não era mais capaz de inquietá-lo como quando se tornou uma figura soturna, mas ainda com alguma alegria pré-estimulantes. Imaginar uma mulher urgente era a maior precisão. Fazia-o com afinco, uma atitude de doidivanas, desenhando perfis nos guardanapos de papel, enquanto se afogava no décimo segundo uísque da noite. Sentava sempre nos balcões. Quando entrava em qualquer bar sentia que o corpo dele já estava grudado desde sempre na ponta de um balcão, o drinque já servido e a noite em aberto com mais uma conta impossível de pagar. Os colegas de balcão por vezes querendo puxar assunto, uma tremenda chateação ter de se livrar dos caras. Quando os insistentes, já para lá de Bagdá, se viravam um segundo para pedir algo ao barman, ele voava para o banheiro e voltava depois de uns minutos fazendo expressão de nove horas como se tivesse acabado de chegar, não tivesse reconhecendo o ex-colega de balcão de agorinha a pouco, se fazendo de desentendido e surpreso na maior cara de madeira. Isso gerava uma brutal desconfiança do colega de copo. Dava para medir a descarga da adrenalina aliviando o efeito do álcool e, nesse momento, alguma consciência fazia-se presente, o que tornava possível uma comunicação rápida, do tipo: "vá para casa, camarada!". Quase sempre dava certo. Houve uma vez que ele resolveu virar as costas, no tempo em que o companheiro de balcão foi e voltou do banheiro. Mirou uma mesa com dois belos par de pernas e se fez de rogado. O sujeito não gostou da traição. Agiu de modo explosivo, aplicando-lhe um soco de punho fechado nas costas, na altura do rim direito. Uma dor aguda fez-lhe o corpo retesar e depois se curvar sobre si. O sujeito saiu rapidamente do bar, trôpego, batendo aqui e acolá nas quinas das mesas, os garçons e os fregueses atônitos. Ele seguiu o sujeito e numa rua escura travaram uma luta corporal que não parecia mais ter fim. Por isso ele tinha certo receio em sentar no balcão quando os sujeitos já estavam truviscados. Era arriscado. A peia podia comer em algum momento. Ele pensava nisso, sobre esses casos de outrora, enquanto conseguia se livrar de mais um colega indesejado, atrapalhando seu exercício de escrita no guardanapo, o que fez obtendo sucesso e assim pode retornar ao profundo devaneio sobre o perfil da mulher urgente. Dedicação de mausoléu de mármore para vencer a hora avançada e fria, ele foi se segurando no uísque e na pouca imaginação bêbada que lhe restava. Ferramenta do contexto em punho, a caneta que fora afiada nas melhores escolas (as mais fajutas), a escrita era o único hábito que o salvava em meio ao torpor e ao barulho que atordoava a mente naquele local e àquela hora confusa de noite-claro, mesmo nos mais dedicados regimes de exceção, em bares para lá de sujos, musicalmente sujos e humanamente podres, essa escrita ainda o salvava, escrita em papéis de guardanapo, ele os colecionava aos montes desde décadas. Ou seriam guardanapos de papéis? Para pensá-la, não mais na própria escrita, mas na mulher urgente dos sonhos, ele havia madrugado anos a fio, era algo que requeria um caráter persistente, invariavelmente duro. Para querê-la, o intervalo bastava, mas os intervalos infindos eram tão numerosos quanto as baganas transbordando cinzeiros em situação de penúria. Essa mulher urgente, ele a concebera mil vezes no desenho do guardanapo e no redesenho do redemoinho em que se encontrava sua vida. No afogueamento da água de briga, as possibilidades iam ficando cada vez mais limitadas. Imaginava-a linda e recorrendo a contornos generosos. Quereria-a sempre e jamais, estava ficando confuso de novo. Nem murmúrio de um cio lhe faria desistir e se desapegar da tarefa imaginativa. Aliás, as gatas de balcão há muito tinham abandonado qualquer cio no sentido carnal, entupiam os narizes de mármore, enquanto iam retocar (borrar) a maquiagem, mulher pó de rato, era como ele as chamava, as queridas companheiras de balcão, e depois afundavam mais ainda no uísque e na depressão feminina que é um poço profundo duro de encarar. Mulher de balcão de bar, mulher bomba relógio. Em geral, é claro, ele não era um sujeito preconceituoso. Há prazerosas exceções nos caminhos da vida. O dia já estava a amanhecer, ele estava mais sério que o habitual. Exausto. Era ele mesmo que via caminhando trôpego pela calçada, ele se projetava e se antevia na imagem móvel do último colega de balcão que se antecipara e saíra, ele ainda restava imóvel, grudado na ponta do balcão. Lá pelas tantas, quando despregou, dirigia o carro em chamas, sem rumo certo. Carro explosivo. Direção muito menos perigosa do que o estado em que a mente dele turvada se encontrava. À beira-mar, caminhavam rostos convidativos de impecáveis mulheres, lindas nos saltos para o alvorecer, mas muito pouco precisas e absolutamente disponíveis, mediante a prata, mas sem nenhuma urgência, salvo o dinheiro do táxi ou uma carona para fechar o caixa com uma margem ligeiramente melhor do que a habitual. Elas não o interessavam. Ele teimava em desejar a mulher urgente do guardanapo de papel.

Qual puta velha! (reescrita)

Houve tempo em que me considerava alguém sem compaixão. Detestava, nas minhas primeiras e frágeis leituras de Nietzsche, qualquer sensibilidade que se dispusesse nesse termo. Eu fazia um joguinho de cena em torno disso, um charme. Girava nos próprios calcanhares e lançava um olha de esguelha, um teatro, uma péssima encenação, coisa de bêbado, era uma afetação só, e o único e besta intuito dessa manobra era mostrar-me incapaz de aderir ao fácil e falso sentido humano da comiseração. A quem ousasse abrir um pouquinho que fosse de seu espaço desconhecido, e carente, baixasse a guarda, clamando por piedade, era este o momento triunfal do ato de sacrifício e perda do outro. Não havia vez para os fracos. Éramos todos boçais. Eu me sentia quase implacável, distribuía moralidade pérfida de um modo tão exemplar que os amigos titubeavam em me pedir para ficar ou sair da mesa de bar onde estávamos abancados a fios de horas sem contas nos banhando desbragadamente de todo tipo de bebericagem. Alguém pedir minha conta era um motivo de quase ruptura da amizade, virava um trovão. "Quer ir embora, poeta? Vá em boa hora, desgraçado! Vai perturbar o cão! Faça o favor!", eu defendia minha cerveja gelada até a alvorada sem nenhuma peia de aflição, era todo interjeições. Quem se interpusesse entre mim e o mar, no Cais Bar, no Gets da Sandra Gentil, no Estoril, na G2 ou na Cabumba, na Cafua, corria sério risco de morte, de perder pelo menos um dedo ou a ponta de uma orelha mordida. Afinal, uma traição só poderia ser punida com a morte ou desterro. A pena capital era a invisibilidade. Ostracismo para os chatos. Eu queria ser cruel, quando tinha 19 anos. Como eu era tolo! Hoje, depois de ter me esmerado no ato de cuidar de quem precisa de tudo, cuidar de quem vive nas zonas do abandono, eu próprio, faltam-me forças para manter-me indiscernível nessas intermediárias da vida onde as garças dançam. Prefiro passar a bola e assumir um sentido mais senil da existência, mais derrotado, mais alheio, acompanhando um ou outro passarinho pousar na janela do escritório onde escrevo o dia inteiro, tomando sucos especialmente preparados para adocicar sem açúcar artificial os meus dias, apenas o açúcar das frutas (destilado). Expectativas tenho muitas, é claro, venho a ser pós-estrutural após tamanha desfaçatez e embriaguez juvenil, procuro ainda uma casa, procuro ainda uma família, procuro ainda um amor, afinal, quem para de procurar se torna desinteressante para a casa, a família e o amor que lhe sustém os vícios de caráter e lhe traz algum pejo de superar a desesperança. Adoro aquele livrinho do Steinbeck, chamado O inverno da nossa desesperança, e, como preconizava Heinrich Heine, citado numa magnífica nota de rodapé por Freud, a nota de número 17 de Mal-estar na civilização: "Tenho a mais pacífica disposição. Meus desejos são: uma modesta cabana com teto de palha, mas uma boa cama, boa comida, leite e manteiga bem frescos, flores diante da janela, em frente à porta algumas belas árvores e, se o bom Deus quiser me tornar inteiramente feliz, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos serem enforcados nessas árvores. De coração tocado eu lhes perdoarei, em sua morte, todo o mal que na vida me fizeram — pois devemos perdoar nossos inimigos, mas não antes de serem executados". Quem são meus inimigos? Ninguém mais do que eu mesmo, o destruidor de meus próprios sonhos, pisando na própria capacidade de sonhar como se estivesse pisando na cabeça de uma barata que não tenha morrido da primeira lapada. Sequer me importo que me atrapalhem a cerveja gelada, como fazem muitas vezes me enviando para o pijama. Estou que nem puta velha. Vendo cafezinho para os antigos clientes, talvez em troca de uma palavra amiga, de uma saudação calorosa, um aceno, talvez, mesmo que distante. Acreditem! Como é bom sentir o peso da idade e não sentir saudade nenhuma de quem se foi. A proximidade com a morte faz bem aos sentidos, deixa-nos mais alertas e atentos. E quem precisa de outra coisa na vida, como dizia Goethe, do que estar alerta e atento contra os hábitos? Os móveis cruéis de outrora não me alegram mais. A vitalidade é um péssimo princípio de existência. Existir é um péssimo negócio, aliás.

Iminências (reescritas).

Era quase redondo o peso do sentimento. Uma coluna extraída do campo das coisas graves parecia ter sido recortada exclusivamente para mim, meu talhe encurtado. O ato de nomeá-la como exclusiva, como sendo a coluna talhada para o meu corpo, sob medida, deixava-a mais pesada do que de costume, uma vez que eu intui naquele instante que lá ela sempre esteve, invisível. A dispersividade das forças em vez de me ameaçar operava a meu favor, era esse o meu credo. Essa coluna era o fim do início de algo que eu não saberia precisar nem com mil palavras. Uma espécie de sofrimento avizinhava-se de mim, rodeando-me, salteando em torno de mim com um sorriso de canto de boca acintosamente maldoso, mirando o meu íntimo, imiscuindo-se no meu mais íntimo que era o pouco de alegria que o meu corpo de pilha de rádio estourada não deixava entrever. Irônica coluna, pensei e não tive força para amaldiçoá-la. Das uma às duas da tarde, quedei-me enquanto minha querida e antiga dispersividade esvaía-se de mim, jorrava como um jato involuntário de uma substância vital que é expulsa do lugar onde, por nascimento, tivera seu pouso certo e funcional e correto. Nem cansativo, nem apelativo. A vida àquela altura me parecia uma mixórdia escarlate de percepções distorcidas, e minhas distorções pareciam não mais quererem ser minhas companheiras, havia um ar de revolta contra mim mesmo, uma revolta de si que não levava em consideração minha alteza e dignidade reais como centro do poder e da sedução que dantes eu buscava com convicção descrever para quem estivesse no meu entorno, com palavras e gestos soberanos, arrogantes. Eu ia e voltava naquele redondo da coluna como se volteasse com as mexicanas, minhas inimigas que eram as únicas a romper o invólucro e me atingir, picantes, a pele do rosto, entrando furiosas pelos buracos da minha cabeça, uma delas deixou-me surdo para sempre do ouvido do lado esquerdo. Senti-me como Prometeu acorrentado. Um Prometeu distante, fajuto, do terceiro mundo, colonizado, um abestado. Deixei-me abater pelo sono, acho que fui picado pelas mexicanas, e esqueci-me da ressonância odiosa daquela ociosa vida, vida que me fazia abandonar involuntariamente o campo de minhas mais queridas possibilidades, até aquele momento, pelo menos. A coluna se apoderou de mim em plena quinta-feira! Tornei-me um estúpido e bem-comportado trabalhador. Acreditei que havia algo do amor universal naquilo tudo, um trapézio sem rede embaixo tinha sido para mim preparado, eu embelezava com crenças idiotas a minha própria queda no vazio, os ossos chocando-se contra o mais duro mármore, som de osso batendo no chão foi a única memória que meu corpo guardou antes de ser esmagado, destroçado e feito em picadinhos que foram lançados como pérolas aos porcos.

Monday, December 24, 2012

A morte dos inocentes.

A morte dos inocentes. Meninos e meninas do povo morrendo, sendo mortos, e algumas vezes matando por já estarem mortos, fugindo da morte. E aqueles e aquelas que, por vezes, se dizem cristãos e cristãs, simplesmente por frequentarem templos, clamam por mais morte de inocentes, dizendo com ódio no coração que os meninos e as meninas não são inocentes. Que não há inocentes! Mentira! Digo enfaticamente que é mentira. Não são as crianças e os adolescentes os culpados. Somos nós os adultos. Acusam os inocentes de não os serem para ocultar os próprios pecados, maldades e incompetências, enquanto cidadãos, pois sobre a culpa dos poderosos, esses que destilam ódio contra crianças e adolescentes do povo, nada falam, pois aos poderosos são subservientes, capachos. E esses destruidores da fé, soldados de Herodes, tentam dizimar a menina Jesuana e o menino Jesus. Tentaram impedir que ele e ela nascessem e tentam impedir que ele e ela cresçam fortes, felizes, bem nutridos, criativos e livres. Tentam dizimá-los por serem do povo de Deus, por nascerem sem teto, na manjedoura, sem educação, sem saúde, sem direito a ser feliz, por viverem em condições deploráveis e desumanas que foram impostas pelo reino mundano dos poderosos, poderosos de quem esses falsos cristãos adoradores de tempos, como fariseus bajuladores, lambem as botas. Porque sobrevivem do reino mundano que os que nutre de ódio pelos seus, pelos irmãozinhos e pelas irmãzinhas que eles e elas são, pois nascem na mesma condição de abandono, suprema covardia desses que se viram como leões contra os pequenos e limpam o chão dos grandes, encobrindo-lhes os crimes, principalmente, pela omissão, pois jamais pedem penas rigorosas e jamais dirigem ódio aos grandes corruptos da vida social, sempre buscando punir mais e mais os mais fracos, a ponta mais vulnerável. Esses lobos vestidos em pele de cordeiro que ainda ousam se autonomearem cidadão de bem, detratando assim a categoria silente de quem assim age, odeiam no coração os inocentes e amam os donos do poder, esses hipócritas que também frequentam igrejas de ricos, enquanto os capachos frequentam igrejas que querem se parecer com as dos ricos, querendo se confundir com os bons e os justos, que estão entre aqueles e aquelas que Jesus e Jesuana lavaram os pés, ajoelhados e humildes, pois esses fariseus do ódio que querem prender e matar as crianças de Deus amam o Poder, os Senhores, os Grandes, o Dinheiro, a Dominação e seu ódio, acima de tudo, e desprezam os pequenos e as pequenas, são falsos cristãos esses matadores de cristãos que semeiam o ódio e a indiferença, e que pedem mais morte e mais punição para os meninos e as meninas do povo. Que Paulo, o ex-soldado furioso, matador de cristãos, lhes toque a cabeça. São falsos e irão queimar no inferno de seus próprios pecados e omissões aqueles que permanecerem nas igrejas, disfarçados de filhos de Deus, mas adoradores do Diabo, do Dinheiro e do Poder, e defendendo a morte dos inocentes e fazendo sucesso na comunidade por estarem sendo ridículos, mas sabemos que ridículos são quando diante dos poderosos apenas se calam, apenas dizem sim, submissos, subalternos e covardes. "Então, Herodes, vendo que tinha sido enganado pelos magos, irou-se em extremo, e mandou matar todos os meninos, que havia em Belém e em todos os seus arredores, da idade de dois anos para baixo, segundo a data que tinha averiguado dos magos." O pranto e a lamentação pela morte dos meninos e das meninas fazem o dia de hoje e é a todo e a cada dia dos meninos e das meninas vivos que restam ainda a quem devemos nos remeter com a força de nossa fé. Esse pranto brota do coração e da boca de quem? Os que destilam ódio contra meninos e meninas do povo, e que exigem que eles e elas sejam presos, punidos, torturados, aniquilados e mortos - por que querem esconder que nós, enquanto coletividade não garantimos o nosso dever, a nossa obrigação, que é oferecer as condições para que os direitos desses meninos e dessas meninas sejam realizados de modo integral e pleno -, esses que agem com a língua ferina e cortada do demônio, pregando morte e não nascimentos para a vida, esses são os que mais merecem nosso acolhimento e nossas preces para que, por Deus, sejam perdoados de suas próprias maldições. Para eles e elas, os pecadores que se dizem cristãos e defendem a morte de meninos e meninas do povo, nós dedicamos nossa oração. Perdoai-lhes, Senhora, Senhor, eles e elas não sabem o que fazem.

Nota de estudo sobre o campo do poder.

Existe uma distância enorme entre conhecer algo como algo, ver algo como algo e reconhecer algo em que se acredita. Conhecer algo como algo é da ordem do incognoscível (Kant). Ver algo como algo é da ordem do inominável (Wittgenstein). Reconhecer algo em que se acredita é da ordem do poder (Weber). Neste último caso, a imagem mutável das figuras da autoridade que alimentam a crença nelas próprias, como se elas se formassem com imagens imutáveis (o efeito propriamente da autoridade), faz do delírio do referente a condição mesma das figuras de autoridade, de modo que não há como se decidir entre ver e acreditar ver (Kafka).

Devir-mulher e busca pela liberdade.

"Quem só conhece as mulheres através do homem as conhece mal" (Henry Adams). Por conseguinte, sugiro às pessoas interessadas em serem interessantes que desejam conhecer as mulheres a partir do tornar-se mulher que se afastem dos padres, dos pastores, dos sacerdotes em geral, dos professores, dos pais, dos tios, dos amigos e de todo e qualquer círculo de homens seja ele qual for (existe algo mais boboca, imbecil e desinteligente do que um círculo de homens?), principalmente, daqueles círculos de homens que se esmeram em celebrar a dominação masculina de homens sobre as mulheres, apressem-se em se distanciar destes e dos demais trogloditas que com suas ignorâncias machistas e astúcias de poder querem reduzir as relações humanas a relações de dominância em torno de machos gorilas dominantes. "Écrasez l'infâme" (Voltaire) e tenhamos cuidado com as mulheres que trabalham para os homens desses círculos fazendo crer que machos dominantes são necessários, enfim, a libertação é uma tarefa do múltiplo. Sejamos todos e todas feministas pois sem devir-mulher não há busca pela liberdade.

Natais surrealistas.

"Ai, meu Deus!", ela suspirou resignada. Queria de algum modo constrangê-lo, pois ela achava um absurdo que ele falasse tanto de Deus, mal ou bem, "você não tem outra coisa na vida para atentar, não, cara?", fez uma última tentativa, quase chorosa, em desespero. Ele e ela estavam tentando evitar o sinal vermelho, cruzamento perigoso, lugar de assaltos, o caminhão lento enorme tomava toda a pista, na traseira dele, esses caminhões de caçamba usados na construção civil, havia escrito: "Sem Deus, nem tente". Foi o sinal derradeiro para desencadear uma crise nervosa nela, um disrupção completa. Quando ele parou o carro no meio da rua, do lado de fora do prédio onde moravam, pois não havia estacionamento possível, a gorda louca da vizinha tinha posto o carro novo dela no meio do pilotis, atrapalhando todo mundo, sinal de que estava dopada, enfim, eles foram subindo, cansados, sem energia para estarem sequer irritados, mas ela estava com uma faca de cozinha na mão, ele se surpreendeu, essas de serrinha de mesa de cortar pão, ele não a havia notado, foi apenas na subida das escadas, quando ele e ela subindo, ao se depararem com um vizinho, descendo as escadas, que se assustou com a cena da mulher com a faca na mão o que o obrigou a um esclarecimento educado, diante da face horrorizada do vizinho, lívido, fitando com indecisão a faquinha na mão dela, e ele dizia que ele, o vizinho, não se preocupasse, porque estava tudo sob controle e desejou feliz natal, ele pensou consigo mesmo depois que o vizinho desceu as escadas pressuroso que ela havia, afinal, tomado o remédio do dia, mas isso ele não disse para ela, podia desencadear o corte do efeito do remédio, a raiva e o ódio são danados para tornarem as coisas um simples placebo, então, ele apenas sinalizou, tomando-lhe a faquinha da mão, enquanto ela, trôpega, avançando passo a passo pelos degraus, subindo como se houvesse sido empurrada por alguém ia tropeçando em si mesma. E o pior era que ela continuava a imprecar contra o jeito dele que foi desde sempre o tipo do esconjurado de durante o natal ficar falando mal de Deus. Ocorre que ele também não estava num dos melhores dias. Natais sempre despertavam nele sentimentos agonísticos. Era uma luta permanente contra si mesmo. Ficava lembrando da primeira comunhão, da decepção que fora encontrar um padre burocrático que não quisera escutar as angústias existenciais de um garoto de 11 anos. Ele havia se tornado ateu naquele dia, diante da indiferença, da recusa e da incompetência do padre. Chegaram ao corredor do apartamento onde moravam, e ela, a boca mole, dopada de tanta tarja preta que a irmã da amiga que é médica tinha passado para toda a turma, continuava murmurando, a língua enrolada, "se você escrever mal sobre Deus nesse Natal, você vai ver...". Era uma ameaça. Ele não a levou muito a sério. Não era a primeira vez que ela o ameaçava e de outras vezes os motivos tinham sido muito piores. A confusão girava em torno da lista que ele tinha prometido publicar no Facebook, publicizar seria melhor dizer. Um lista que dizia mais ou menos assim: 1. O Absoluto é uma moela. Deus é uma moela. 2. O papa é um tremendo papacu. O papacu não é uma lenda pedófila. 3. A rapsódia não é de agosto. O sertão vai virar mar. 4. O executivo da sadia tinha uma linha torta no fundo da calça. Era empreendedor. 5. A Penélope Charmosa não é a Wanderléa. 6. Ele é o instrumento do meu Saber e da minha Paz. Ele, o inominável. 7. A fortuna é o acaso. Não há dialética possível. Enfim, era esse tipo de coisa que ele vociferava quando estava desconfigurado, transtornado, e era esse tipo de coisa que ela detestava. Ele prometeu que nada iria dizer, que iria respeitar a família, a tradição e os bons costumes das pessoas de bem. Ela não conseguia acreditar nisso. Sentia que ele estava prestes a embolar o meio de campo e fazer um novo escândalo, semelhante ao que tinha feito no outro Natal, quando, assolado pela melancolia e pela desrazão, tivera dois dentes quebrados numa briga com um morador de rua que entoava cânticos religiosos enquanto fazia discursos condenatórios de todo e qualquer cristão que não se compadecesse de tanto sofrimento. A comiseração lhe afetou de tal modo que resolveu peitar o morador de rua, pura compaixão, os dois embolaram-se no asfalto aos tapas e aos gritos, cada qual mais esbaforido do que o outro. Quebravam garrafas bêbadas um contra o outro depois que se apartaram. Alguém da janela, gritou em alto e bom som: "Seus merdas, vão brigar na casa do caralho!". E as rolhas, e os assados de peru, e a farofa, e as árvores decepadas, imprecisas, de plástico, com luzinhas ambivalentes, iam se fechando e se abrindo, gerando paz e harmonia para todos e assim nasceu o menino Jesus, ele sentiu no profundo do seu ser. Sujo, no meio da rua, compartilhando com a comunidade o conhecimento sobre as pedras, sobre o caminho das pedras, o caminho da sabedoria, o menino Jesus estava bem ali, jogado na penumbra da calçada, assustado, faminto, esperando os porteiros dos prédios descerem com as sobras dos banquetes. Ele passou pelo menino e disse "Amém". O menino sorriu.

Tuesday, December 18, 2012

Solidariedade à luta dos profissionais da segurança pública no Ceará.

PRESTO MINHA SOLIDARIEDADE AO CAPITÃO WAGNER SOUSA E REPUDIO ESSAS AFIRMAÇÕES DIFAMATÓRIAS QUE BUSCAM DESQUALIFICAR A PESSOA DELE. EXISTE UMA DISTÂNCIA ENORME ENTRE QUEM É LIDERANÇA E CONQUISTA O EXERCÍCIO DA AUTORIDADE PELO RESPEITO E QUEM, COMO CHEFE, AMPLIFICA A CRISE DA AUTORIDADE PELA FALTA DE EXERCÍCIO DE LIDERANÇA. Secretário de Segurança Pública do Ceará afirma que liderança política das tropas da PM, Capitão Wagner Sousa, "nunca trabalhou na Corporação e, muitas vezes, convidado para ocupar uma função, sempre pedia licença". Dizer que um oficial da PM "nunca trabalhou na Corporação" é dizer que é possível ser da PM e não trabalhar? Num caso hipotético, seria possível, por exemplo, ser oficial da PM e trabalhar como segurança particular de uma família durante anos, prestando serviço particular para poderosos sendo servidor público? Isso é possível? Creio que não, né? Nunca ouvi falar de nenhum caso desse tipo. Penso que todos que estão na PM são valorosos trabalhadores. Seria possível admitir que há membros da PM que não trabalham de fato na Corporação? E dizer que o capitão pedia licença para não assumir funções é dizer que o capitão estava agindo de modo ilícito. Ou seja, trocando em miúdos, fiquei me perguntando se o coronel da PM, secretário de segurança do Estado, chamou quase que explicitamente o líder inconteste dos movimentos reivindicatórios das polícias e vereador eleito de Fortaleza com maior votação do pleito de "vagabundo" (quem foge do trabalho e de suas funções) e "marginal" (que usa recursos ilícitos para driblar a lei e as regras, fugindo de suas funções). Será que chamou de covarde, também? Muito arriscado da parte do governo, durante uma negociação onde o governo finge que não está entendendo a pauta de reivindicação, e diz para a sociedade que a pauta está sendo cumprida, e diz também na reunião com lideranças que não tem possibilidade de cumprir a pauta, e tenta jogar a população contra as bases que compõem a segurança pública, e começa a promover uma espécie de ação de guerra em plena vigência da democracia no país. A sociedade está muito atenta a essa orquestração. Não estamos dispostos a sustentar incompetências do campo governamental, apesar delas se repetirem em ritmo cada vez mais frenético. Sabemos que os talentos, as competências e a vontade de mudar a realidade da segurança pública no Ceará não estão tendo vez de atuar e isso nos decepciona a todos, cada vez mais. Saudações ao Wagner Sousa e ao conjunto de "guerreiros" da sociedade cearense. Qualidade de vida, cidadania e condições de trabalho dignas é tudo aquilo que nós que somos muito críticos da atuação tradicional das polícias, como eu, podemos desejar coletivamente para não compactuarmos com a hipocrisia que exige dos policiais atitudes de polícia democrática e cidadã e os trata como escravos na chibata. Queremos policiais e professores bem pagos, de bem com a vida, e buscando juntos a democracia real para o país. Saudações libertárias!

Sunday, December 16, 2012

Inauguração do Centro de Eventos do Ceará (postagem do FB em 16 de agosto de 2012).

Cidadãos e cidadãs cearenses, caríssimos contribuintes, após o show de Plácido Domingos para a "sociedade cearense", também foi servido um belo jantar com direito a peixes e frutos do mar, espumante rosé, vinho tinto, uísque 12 anos, sucos variados, refrigerantes, foram oito bufês fartamente montados para todos e todas comemorarmos os avanços do progresso sob a batuta do governador Cid Gomes e de seu candidato à prefeitura de Fortaleza, o Sr. Roberto Cláudio. Sinceramente, ironias à parte, estou me sentindo muito mal. Para um educador como eu que acompanha a vida cotidiana de algumas das 900 mil pessoas que habitam em favelas na cidade de Fortaleza, ficar sabendo de tamanha fartura de comida, oferecida para evento fechado, para convidados poderosos, financiado com dinheiro público. Isso me deixa com vontade de ficar em silêncio, tamanha é a vergonha que sinto de nós mesmos, os cearenses. Estou com muita vergonha mesmo! Perdão, mas vou dar um tempo para me recuperar. Isso é demais. É uma humilhação coletiva intolerável essa que estamos sofrendo.

Saturday, December 15, 2012

Enquanto o governo se refestela, o povo se estatela.

Os discursos do governo do Ceará, nos últimos anos, têm girado em torno da afirmação cega de que o "progresso" dos empreendimentos econômicos é capaz de gerar "felicidade", "melhoria de vida", etc. Gerar empregos precários, instáveis, temporários com um dos salários médios mais baixos do Brasil só pode ser comemorado pelo governo, quando há ou má-fé ou inanição de pensamento político (ou as duas coisas juntas). Servidores públicos estaduais civis e militares à beira de uma greve, pois o governo de cunho tecnocrata e autoritário não admite negociar, ou seja, exercer a própria finalidade precípua do governo que é ser instância de negociação. Há segmentos populares que comemoram festas de arromba com o governador do Ceará? Sim, com certeza, os há, e se revertem em votos. Mas não devemos jamais esquecer que baixíssimas expectativas acabam gerando inflacionamento da avaliação positiva do governo. As condições de vida no Ceará vão de mal a pior. A desigualdade é uma das mais graves do mundo todo. As melhorias? As melhorias deixemos para os retóricos profissionais do governo transformarem em publicidade massivamente fantasiosa. A pior seca do Ceará é a seca de lideranças políticas compromissadas com a democracia real. Festança para os ricos e festanças para os de baixo, elas vão fazer do atual governo algo que oscila entre Nero e a Babilônia. O desmantelo está no poder.

Tuesday, December 11, 2012

Turn on, Tune in, Drop out

As instâncias de controle pretendem mediar na totalidade as experiências das pessoas na relação com o fora, com o exterior, com os mundos possíveis que se atualizam nos mundos dos outros. O exercício livre da inteligência e do pensamento crítico e reflexivo exige das pessoas uma atitude de recusa ativa dessas instâncias mediadoras absorventes, totalizantes e anestesiantes, pois tais agências de poder (o Partido, a Igreja, a Família, a Universidade, a Escola, a Mídia, a Droga etc.) são agências de controle da dispersão, ou seja, das ações livres das pessoas enquanto criadora de relações relativamente autônomas com os outros sem a mediação de uma política da identidade. É na recusa ativa do Estado onde reside a base histórica concreta e local de constituição da liberdade. E o modus operandi das agências reguladoras estatais é sempre incitar as pessoas a se expressarem "livremente" no interior delas, a fim de produzir contexto de observação controlada do que há de livre nas pessoas, tendo em vista a imposição de um padrão de comportamento que restringe o potencial criativo real e põe sob tutela o exercício das capacidades agentivas dos sujeitos, por isso é sempre bom lembrar que expressar a liberdade sob a demanda das ditas agências reguladoras estatais é favorecer o próprio processo de destituição e captura que estas pretendem realizar, não necessariamente anulando a liberdade das pessoas, mas fazendo dessa liberdade apenas um sentimento fugidio da liberdade potencial, uma dose de veneno para mortificar o corpo e fustigá-lo de tal maneira que o abandono das supostas veleidades daquelas pessoas que agem livremente será promovido ao cargo de censor de si mesmo e estabelecerá as condições do assujeitamento de seu próprio descenso pelo flagelo de si, de uma adesão feliz às razões do Estado e das agências de poder que lhes são concorrentes e convergentes, portanto, solidárias no crime que inaugura sua pretensão ao monopólio, viabilizado pelas linguagens heterônomas que impõem a todos os adeptos da morte.

Monday, December 10, 2012

Ela e Ele

Ela na sonolência da manhã de descanso, distendida, uma alegoria de si mesma, o friozinho do ar e o calorzinho do colchão, incrementando a sensação de abandono de si, levanta a cabeça, levemente e num ângulo quase colado ao do travesseiro e pergunta: "Amor, como está o mundo?". Ao passo que o marido dela, desde horas com a xícara de café na mão, lendo os sete jornais de continentes espalhados, retruca: "Medíocre!". Então, ela volta a dormir, tranquila e apaziguada com os próprios sonhos.

Saturday, December 08, 2012

Drogas? De quem?

A mãe e o pai ficaram horrorizados quando descobriram que o filho estava usando drogas. O psiquiatra, conversando com os três, descobre que o pai é acoolista, fazendo uso diário de uísque ao voltar do trabalho até a hora de dormir, e que a mãe usa remédios tarja preta, psicotrópicos, para dormir, fazendo automedicação, com receitas que conseguiu com um amigo médico. O pai e a mãe ficaram horrorizados em descobrir o filho usando drogas. Ele e ela não se viam como usuários de drogas. A família toda em terapia. (Já ouviram falar numa história assim?) Eu inventei uma geral a partir da escuta de muitas parecidas. Uso abusivo de drogas não é uma questão de polícia, é uma questão de saúde mental.

A Grécia virou a cara do mundo.

A Grécia virou a cara do mundo. Sistema de dominação está sendo mantido pela força bruta. Governos abdicaram de governar e entregaram tudo nas mãos da polícia. Polícia versus população nas ruas e governantes encastelados em posições de conforto, poder e segurança cerrada.

Um toque para amigos e amigas.

Aqui em casa faz um ano que a gente começou a se preparar para a crise que se avizinha. Não há possibilidade do Brasil passar imune. Modelo do desenvolvimento pelo consumo está se exaurindo. Não há receita de bolo, cada família, cada pessoa, percebe de seu jeito. As medidas relativas são. Vamos entregar o apartamento alugado e vamos morar num terreno perdido lá dentro dos matos. Sistema fossa, sistema cacimba. Muitas fruteiras para fazer suco diário. Comprar arroz de saca lá de Maranguape, direto da mão do produtor e feijão de corda, mulatinho ou verde direto do produtor. Juntar com outra família ou outras famílias para fazer as compras. Descartar produtos industrializados das compras. Fazer uma reserva de dinheiro para emergências médicas. Os planos já estão todos quebrados. Os hospitais dos planos já não funcionam mais, viraram lugares de morte. Se for usar automóvel, fazer isso como um utilitário. Abrir mão de expressar poder com posse de automóvel. No nosso caso, só vamos ficar como estamos com um utilitário com caçamba para transportar material de trabalho. Vamos montar uma escola comunitária no bairro distante onde vamos morar. Abandonar totalmente qualquer veleidade ligada à noção de classe média. Fazer estoque de livros, bibliotecas atualizadas de livros, músicas, filmes, conexão em rede, sem TV (isso a gente já faz). Andar de ônibus para ir e voltar do trabalho (isso já faço). Comer arroz integral, feijão e jerimum, com saladas plantadas na nossa própria roça orgânica. Cortar a carne vermelha do cardápio. Como sou doente por carne vermelha (só pode ser uma doença), uma vez ou outro faço uma filé au poivre para matar a saudade desse absurdo. Comer peixe comprado da mão do pescador (isso a gente já faz com economia de mais de 100%). Zerar dívidas. Usar cartões de crédito sem parcelar despesas do dia a dia. Parcelar somente compras de maior valor para facilitar aquisição de algum produto importante. Preparem-se também. Podem achar que estamos loucos. Mas será por pouco tempo que alguns de vocês acharão isso. A crise está chegando e é braba. Se tiverem dicas para compartilhar, estamos aceitando. saudações libertárias!

Onde há seres humanos há violência e submissão?

Onde há processos de submissão e de violência há produção social de violência e submissão. A violência e a submissão não são atributos de uma suposta natureza humana que promove violência e submissão. Dizer isso seria uma metafísica da violência e da submissão. Uma coisa é falar de natureza humana, outra muito diferente de condições humanas ou condições do humano. Por outro lado, a constatação empírica de que há violência e submissão onde há humanos só se torna possível se há uma positividade da violência e da submissão, se há a produção, pelas práticas de violência e de submissão, de entidades, que são efeitos de processos de objetivação histórica, de modo que são reificações, são substancializações e essencializações que mascaram o caráter histórico e, portanto, constituinte das relações de violência e de submissão, e que gera um efeito de teoria, que passa a também reificar o que já está reificado, a constatar o que já está naturalizado pelo processo de dominação histórico. Ou seja: onde há devires-humanos há práticas de sentido que escapam a qualquer possibilidade de se instaurar invariantes estruturais de uma suposta natureza humana.

A ironia das desigualdades efetivas (26 de novembro pelo FB).

Ontem, domingo, surgiu um pequeno vazamento de água, emergindo a partir do asfalto na esquina da Av. Virgílio Távora com R. Ana Bilhar, no Meireles. Hoje, bem cedo, uma aparato de três carros e mais de dez trabalhadores da CAGECE começou a trabalhar com determinação para resolver o problema. Já foi resolvido. O vazamento foi corrigido antes que provocasse o afundamento do asfalto. Os moradores e as moradoras do Meireles dão um show de mobilização e organização comunitária do bairro. Pressionam o poder público com uma eficiência política impressionante. O bairro, além de possuir o IDH-Municipal mais elevado da cidade, padrão primeiro mundo, e de ocorrer muito raramente, mas muito raramente mesmo, algum homicídio no bairro, ele possui o melhor Posto de Saúde da cidade, mantido pela Prefeitura de Fortaleza, e o pronto atendimento da CAGECE que ocorre de um domingo para uma segunda com velocidade, eficiência e pontualidade, o que demonstra a alta atenção do poder público estadual para com o bairro. Ademais, os aparatos de segurança pública estão bem articulados, com policiamento constante e ininterrupto, e a coleta de lixo é feita regularmente, de modo pontual e eficiente. Sem falar nos equipamentos culturais, de lazer, que abundam. Eu tinha pensado em fundar a Associação de Moradores e Moradoras do Meireles para lutar por políticas públicas e garantia de direitos para cá, mas os poderes públicos municipais e estaduais já são tão eficientes em nos atender prontamente que vou desistir da ideia. Esse lembrete é só para a gente não começar a segunda-feira, achando que o poder público não pode trabalhar bem e com eficiência, se não trabalha para todos, aí é que a porca torce o rabo. Será que nos estão faltando governos "socialistas" no Ceará? Deve ser isso! Se tivesse havido uma aliança política dos socialistas para governar Fortaleza e o Ceará juntos e unidos, não seria apenas o Meireles que estaria se banhando nas ondas da qualidade de vida social-democrata. De qualquer modo, que os "socialistas" perdurem no poder, vibram grande parte dos moradores do Meireles, pois eles fazem um bem danado para os bem nascidos. P.S.: Para os desinformados, não faço parte dos segmentos bem nascidos e endinheirados, moro numa das várias favelinhas que ainda há nos interstícios. Mas já estarei me retirando em breve. Boa semana e saudações libertárias!

O Theatro, o circo e a morte da cultura.

Mas o teatro, o circo e o palhaço sobrevivem se houver investimento coletivo no desejo de alegria. Lamentável o falecimento de Seu Trepinha, principalmente, num momento de desinvestimento governamental no desejo de cultura. Tempos sombrios no Ceará. Até mesmo a imagem eurocêntrica de elites cultas que segmentos poderosos quiseram passar no passado, encontra-se desgastada e obsoleta. As novas elites governantes e empresariais do Ceará não têm mais nenhuma timidez, nenhuma vergonha, em serem incultas, em celebrarem sucesso, dinheiro e poder de modo grotescamente explícito, sem mediações e vernizes "civilizatórios", quando a mesma e talvez pior em muitos aspectos, elites ainda iam ao Theatro. Entre a civilização e a barbárie, as elites cearenses se tornaram "socialistas" e adotaram a barbárie como idioma básico, algo em torno de 2.500 palavras, no máximo. Seu Trepinha sabia, certamente, desse descalabro. Deve estar fazendo piadas conosco, os que ficamos, em algum lugar. Os palhaços, afinal, são lutadores e lutadoras da cultura contra a "civilização" dos coronéis ou a barbárie dos "socialistas". Saudações libertárias! E aos amigos, familiares e companheiros próximos do Seu Trepinha, meus pêsames. Desculpem-me por transformar um momento de dor em oportunidade de reflexão. Mas Seu Trepinha foi inspirador nesse ponto, até onde conheço de suas histórias e conheço muito pouco. Nós conhecemos muito pouco!

Não se pode mudar nada, sendo governo?

Nós que somos todos e todas uns governados e umas governadas consideramos intolerável e inaceitável que diante de quadros negativos que expressam resultados negativos de gestões públicas os governantes que lutaram pelo poder para se tornarem governantes culpem a nós ou a Deus ou à natureza das coisas. Se se tornou governo, e governo é para investir na transformação das realidades negativas e não produzi-las, não tem o direito de usar argumentos pessimistas e fatalistas. É melhor deixar de ser governo. PARA QUE GOVERNO SE FOR PARA NÃO MUDAR NADA E AINDA PRODUZIR RESULTADOS SOCIALMENTE NEGATIVOS?

O bairro nobre aos cacos.

Um senhor de uns 50 anos. Cabeça branca. Negro. Vestido de farda azul. De chinela japonesa. Usando as mãos sem nenhuma proteção, nem proteção para os olhos. Funcionário de condomínio de luxo do Meireles. Jogando pedaços enormes de vidro, folhas de vidro quebradas, pontiagudas, que escapam da mão dele, quebrando-se na calçada, machucando-o nos pés, cortando-o também nas mãos e deixando cacos de vidro espalhados pelo asfalto e pela calçada do prédio onde ele trabalha, de onde saem automóveis importados super sofisticados com seus donos nem tão sofisticados, exceto pela Apple, mas bem arrumados, ou melhor, enfeitados de desejos por poder, sucesso e dinheiro, com roupas e adereços caros, endinheirados, indiferentes aos cacos de vidro que produziram como lixo de luxo do condomínio cortando o senhor que os serve, e onde dão buzinaços diários para os funcionários abrirem e fecharem os portões de entrada das garagens. De vez em quando, um dos "decentes cidadãos de bem", incomodado com a demora, depois de buzinar de modo ininterrupto de modo estridente, com buzinas ensurdecedoras de carros importados, lança, de quando em vez, repito, o carro por cima do portão. Um de quando em vez que me deixa perplexo. Já presenciei algumas vezes o portão quase sendo posto abaixo. Ninguém chama a polícia. O condomínio cobra a fatura do senhor nervosinho, ele paga, quando paga, e fica por isso, a vida social no Meireles, onde o poder público se adianta e não deixa os moradores fazerem reclamações, executando tudo como deve ser, está aos cacos.

Dilemas éticos e a pesquisa de campo sobre violência.

Amigos e amigas, vocês sabem que nós das ciências sociais estamos sempre fazendo trabalho de campo, não é? É a nossa forma de pesquisar e produzir conhecimento, sempre a partir do campo. Antropologia e sociologia são ciências de campo. Pelo menos como eu as entendo. Pois, vou relatar para vocês duas conversas e uma conversa observada: 1. Peguei um táxi na rua. Conversa vai, conversa vem, em determinado momento da conversa, o taxista me pergunta: o Sr. tem interesse em comprar uma arma? Tenho uma nova em folha, na caixa, etc. (Lembrem-se, não vamos generalizar e sair dizendo agora que os taxistas são traficantes de armas, ok?). 2. Conversando com um policial militar, ele me disse que ele teria medo de ligar para a polícia para denunciar um traficante de drogas. Vai que ele liga para algum policial que "trabalha" junto com o traficante, ou que algum policial bandido entregue a informação mediante alguma troca de vantagens com o traficante. Como policial militar, ele não recomenda a população a denunciar, pois é muito perigoso. (Lembre-se, não vamos generalizar e sair dizendo agora que os policiais são bandidos, ok?). 3. Os moradores de um prédio prenderam um ladrão dentro do condomínio. Fizeram a prisão, o ladrão estava com um outro, e este que estava com a arma de fogo conseguiu fugir, pela ameaça da arma, o outro que foi preso estava acompanhando e foi preso pelos moradores pois estava sem arma. Os moradores chamaram a PM. O carro da PM estacionou do lado de fora do condomínio, o PM disse para o morador que estava liderando a prisão: Matem o vagabundo aí dentro e joguem o corpo dele na rua, que a gente passa recolhendo depois, vira acerto de contas entre eles. Façam o serviço certo da próxima vez. E eu escutando tudo. Vida de pesquisador é assim. (Detalhe, não denuncio ninguém, se eu fosse fazer isso, tinha que deixar de ser pesquisador e virar promotor de justiça ou outra coisa parecida). Não guardo nomes, nem placas, etc. justamente para não saber de nada. Pois não é "investigação policial" que fazemos, é pesquisa sociocultural. Esse é o dilema ético que vivemos! Algo a ser discutido em algum momento. Compartilho com vocês.

Não vai trabalhar, não, meu filho?

Quando eu ainda era estudante de mestrado, a minha querida avó Josefa me fez uma visita, dessas visitas que iluminam a nossa casa pela presença de quem criou a gente que aparece de repente. Ela ficou olhando para mim e depois de um tempo me perguntou: meu filho, você vai passar o dia nessa biblioteca aí lendo livros, escrevendo nesse computador e sentado aí no birô? Num vai trabalhar hoje não? (para ela trabalhar era eu ir dar aulas). Ao que lhe respondi: vovó, eu estou trabalhando!

Homofobia e fascismo andam de mãos dadas

Alguém pode apoiar publicamente que um indivíduo aborde uma pessoa na rua, dizendo: "Está olhando o que seu viado? Segue seu rumo sua bicha". E depois dessa abordagem, quando o outro não aceita que "não consigo me conformar de que minha obrigação quanto gay é ouvir ofensas e seguir meu caminho" e após cometer tentativa de homicídio, o agressor justifica o crime, dizendo: "Apanhou de besta porque se tivesse seguido o caminho dele, não teria apanhado." Enfim, quando isso se passa e quando há pessoas que em público defendem esse tipo de atitude e mentalidade, estimulando práticas de violência homofóbica, o que podemos dizer dos incitadores? Daqueles e daquelas que se excitam incitando a tais práticas de aniquilamento dos outros? Só há um nome: fascistas.

Volta da Jurema: banho de mar de madrugada.

Vou ali tomar um banho de mar na Volta da Jurema, depois eu volto. Pessoal doido acha que eu não vou né? Mas é isso aí, a gente concebe e vai sendo concebido, é um ciclo, como dizem nossas avós, enquanto tomo banho de mar no pico de surfe da galera da Varjota, onde me banho nas ondas de janaína desde os 11 anos, fiquem aí, contentes e anestesiados, rapaces e disruptivos, membros da família, com Blue Train. Inté. Sejam felizes!

Comentário ao artigo de Plínio Bortolotti do O Povo do dia 6 de dezembro.

Eu estava esperando demais por este artigo do Plínio Bortolotti. A alienação da realidade das autoridades da segurança pública teve um ápice na informação que o comandante da PM deu para o secretário e que esse repassou para o governador que estava tudo sob controle na passagem do ano de 2011 para 2012. E não estava. Ambos passaram informação errada e continuaram no poder. O dia do medo, no dia 3 de janeiro, foi produzido pela alienação da realidade das autoridades e o governador Cid Gomes não fez nenhuma alteração na pasta. Nenhuma. Passou a mão na cabeça e acatou os erros de seus subordinados. Ou seja, assumiu perante todos que o erro é do governador. Depois disso, logo depois do dia do medo, a secretaria de segurança divulgou um mapa de estatística de baixíssima confiabilidade, ou seja, com informações estatísticas incorretas, distorcidas e com várias evidências de erro, sem falar em omissões graves, como dados de latrocínio. Fui juntamente com colegas à TV, programa Grande Debate, com Ruy Lima, fizemos ao vivo a checagem dos dados, mostramos documento oficial do governo que evidenciava a distorção dos dados apresentados e tudo o mais. Resultado: a secretaria de segurança pública, por meio de sua assessoria de comunicação, ligou para o programa, afirmando que não iria discutir com minha presença e fui qualificado de "pessoa irresponsável". Ninguém desmentiu o governo. O governo mentiu para a sociedade, apresentando dados irreais. Dois pesquisadores professores de duas universidades públicas (Glaucíria e eu) e um doutorando da UFC que é também um dos mais competentes jornalistas dessa área de apuração de dados da segurança pública, o Ricardo Moura, fomos todos desqualificados pelo governo, pela secretaria de segurança pública, e o silêncio da sociedade diante disso foi total. Segmentos dirigentes da Universidade Federal do Ceará, por exemplo, deram um show de cidismo e ficaram calados, sem nada dizer, diante de um professor da casa, sendo chamado de "pessoa irresponsável" por estar apresentando provas de que o governo Cid estava mentindo para a sociedade. O que foi que mudou na segurança pública? Nada. Sem falar na exoneração do César Barreira que estava fazendo um esforço hercúleo de superação de velhos e atrasados paradigmas que prevalecem na mentalidade de certos segmentos do oficialato da PM. Ademais, a presença de um coronel da PM, como secretário, fez da segurança pública um grande quartel. Reduziu o que era para ser complexo. Os homicídios explodiram. Foi exatamente o que eu disse lá no programa do Ruy Lima. Falei que em vez da redução que o governo Cid estava anunciando, tínhamos que falar de aumento. A imprensa local não repercutiu. Depois de semanas um jornalista me envia uma mensagem pedindo para eu enviar dados. Depois de semanas que a imprensa veio querer pautar. A essa altura eu já havia sido completamente limado e desqualificado pelo silêncio geral diante da denúncia. Ficamos totalmente isolados. Ações pelos bastidores do poder queriam até mesmo promover ingerência na instituição federal onde trabalho. Foi grave. Muito grave. Agora que os homicídios explodiram, que a tendência que tínhamos apontado lá em janeiro de 2012, depois do fim da aliança política da Luizianne com Cid é que o "consenso" geral que se exercia como, no mínimo, omissão (deixa ele falar sozinho contra o governo), pois não havia interesse de quase ninguém que críticas bem fundamentadas em dados fossem feitas ao cidismo-petismo no poder. A Ceará vive um retrocesso sem precedentes na pasta da segurança pública. A base de profissionais formada por policiais civis e militares está insatisfeita, sendo destratada, humilhada e sofrendo as mais diversas agressões morais e perseguições pela greve que realizaram, que fez do Capitão Wagner um líder político da cidade. Há indícios de que nesse final de ano as coisas vão piorar, que a violência difusa vai aumentar e há risco de paralisação de policiais pois o governo Cid não vem cumprindo os acordos. Diz que está cumprindo, mas colocou tudo no banho-maria. Uma manobra que faz a sociedade perder. E o que mudou nos quadros dirigentes, nas cúpulas da segurança pública, na pasta da Segurança Pública no Ceará? Nada mudou. Aliás, mudou para pior, pois a alienação da realidade, somada à sujeição política dos comandantes às estruturas de governo fez o Ceará voltar no tempo. Voltar aos tempos da polícia palaciana dos coronéis. E o bem comum da sociedade que tem direito à segurança pública de qualidade, governador Cid Gomes? É isso que se chama de competência e eficiência em seu governo? Os tempos exigem mudanças, começando pelo fim da alienação dos dirigentes.

O amor, o desejo e a liberdade entre moças e rapazes.

O rapaz pode gostar da moça. A moça pode gostar do rapaz. A moça pode gostar da moça. O rapaz pode gostar do rapaz. A moça pode gostar do rapaz e da moça. O rapaz pode gostar do rapaz e do rapaz. Os rapazes podem gostar da moça. As moças podem gostar do rapaz. O rapaz pode gostar de se tornar moça para gostar da moça ou do rapaz. A moça pode gostar de se tornar rapaz ou se tornar moça por gostar da moça do rapaz. O rapaz pode gostar tanto da moça que faz em si o corpo da moça por gostar de si, das moças e dos rapazes. A moça pode gostar tanto do rapaz que faz em si o corpo do rapaz por gostar de si, das moças e dos rapazes. A moça pode gostar de deixar de ser moça e de ser rapaz. O rapaz igualmente pode gostar de não ser dividido entre moças e rapazes. O rapaz e a moça podem habitar o rapaz ou a moça. A moça do rapaz pode gostar do rapaz da moça e vice-versa. O rapaz pode gostar do rapaz de outra espécie. A moça pode gostar da moça de outra espécie. O rapaz pode gostar do ex-rapaz ou da ex-moça. A moça pode gostar da pós-humanidade no rapaz ou na moça ou na pós-moça e no pós-rapaz. A moça ou o rapaz podem gostar de ser trans-moças ou trans-rapazes ou trans-trans. A moça e o rapaz podem não gostarem de estarem entre ser moça ou ser rapaz, a moça e o rapaz podem gostar de serem estranhos. A moça pode gostar do estranho que não gosta de ser moça ou rapaz. O rapaz igualmente. O rapaz pode gostar da moça. A moça pode gostar do rapaz. O que o rapaz e a moçam não podem deixar de cultivar é a força desejante de se imaginar Outrem. Somos todos e todas estranhos e estranhas. Da estranheza nasce a experimentação como a arte de viver morais possíveis que habitam matrizes de práticas múltiplas dos sentidos que fazem da imagem do feminino e da imagem do masculino os elementos sedutores de uma brincadeira de colar e montar. Somos todos colados e montados, coladas e montadas, descolados e descoladas, desmontáveis, alegorias de desejos. Experimente você também. A imaginação é poderosamente transformadora. Imaginação com senso de possibilidade. As virtualidades no devir-outro são o fogo das paixões. Saudações libertárias! Leonardo Sá

"ALTO CLERO" versus "BAIXO CLERO": uma questão de poder irresolvida (e a UFC sangra por dentro).

Só lamento muito que professores associados e titulares ligados ao PROIFES e à ADUFC tenham rachado a categoria ao meio, abandonando os colegas classificados como "baixo clero" a uma posição de absurda subalternização, enquanto o auto-denominado "alto clero" festeja amizades com o campo do poder, tendo fechado acordo que nos excluiu, a nós, da base. Será que trabalhamos menos? A Universidade Federal do Ceará está sangrando internamente. Crise de confiança generalizada entre professores/as. O pós-greve é um grande cemitério. Quem se arvora em alto clero tem que produzir o dobro da gente, no mínimo, se não a brincadeira fica muito desigual. Trabalhar com carga de trabalho equivalente ao de associado, ganhando a metade, não é legal, né? Claro que uma caça às bruxas, mapeando membros do alto clero que produzem menos do que adjuntos seria completamente contra-producentes, seria uma loucura, mas que dá vontade, dá! Claro que não podemos generalizar, pois entre associados e titulares temos uma maioria de colegas super produtivos, muito mais do nós, os de baixo. A crítica é endereçada ao fato de terem nos jogado na arena dos leões e dos gladiadores. Ou fomos nós que nos jogamos juntos? Saudações acadêmicas! Para os de baixo (os subalternizados) e para o andar de cima (os amigos da Dilma). Espírito natalino super presente na Universidade. Feliz natal!

Eu não sou feliz entre vocês no Facebook! Sinto muito!

Já que o Facebook tornou-se uma ferramenta terapêutica de extravasamento do vazio que nos assola, gostaria de fazer desse vazio o quinhão para a expressão do meu mal-estar profundo diante do que se chama felicidade. A felicidade não pode ser jamais um estado de coisas. E, enquanto meta, entre nós, amigos e amigas, a felicidade é uma meta que não existe, pois, no processo cultural, ou essa meta é esmagada pela força da unidade ou relegada a um segundo plano, a uma quase existência residual, na perspectiva do desenvolvimento do indivíduo (cf. Freud). Portanto, como vaticinaram os filósofos brasileiros Nelson Antônio da Silva e Guilherme de Brito "Tire o seu sorriso do caminho Que eu quero passar com a minha dor". A individuação é o caminho de sofrimento e daí extraio toda a fonte da alegria do meu viver. A cada suspiro, a respiração me faz voltar ao nascimento da tragédia. E la nave va... Ninguém pode ser feliz na comunidade humana. Livremo-nos do verbo ser e abracemos as miríades de devires-felizes do viver em perigo. Alegria, alegria! Leonardo Sá

A Copa do Mundo é nossa? Revista Radis, julho de 2011.

A Copa do Mundo é nossa? Na cidade de Fortaleza, os segmentos endinheirados já se comportam como seus pares de Bogotá, na Colômbia, pois também dirigem carros blindados importados, caríssimos, sob escolta de batedores armados em motocicletas possantes. Os seguranças são policiais militares, fora de serviço, fazendo bicos, a fim de ganhar um extra diante de salários baixíssimos. Aliás, o Ceará dispõe do pior salário médio do país e possui mais do que o dobro da média nacional de população em situação de pobreza extrema. Os poucos que vivem de modo suntuoso e exercem em restaurantes e lojas um padrão de consumo perdulário típico de camadas médias altas e altas globalizadas surpreendem até seus pares do Sudeste. As famílias ricas moram em bairros que se autonomeiam nobres, estão rodeadas por um terço da população que vive em favelas, onde o IDH-M não passa de 0,4 — quando muito —, em oposição ao de 0,97 da minoria nobre. Há décadas, a produção social do espaço urbano é conduzida pela lógica da segregação socioespacial, da higienização com segregação racial, que gera hierarquizações entre os segmentos populares, afro-ameríndios descendentes, e os segmentos brancos e morenos dominantes. O lugar de moradia é decisivo para a experiência social de um indivíduo, principalmente, no que tange ao acesso aos equipamentos urbanos de arte, cultura, lazer e àqueles que respondem pelos direitos básicos do cidadão, como escolas, hospitais, postos de saúde etc. O termo nativo dos ricos para classificar as distinções entre esses lugares, os nobres e os pobres, é revelador. Atribuir ao lugar o qualificativo de misturado, na perspectiva do discurso dominante, isso atualiza um simbolismo segundo o qual o lugar misturado é algo que deve ser evitado pelos membros da elite, como se autonomeiam os ricos e os poderosos cearenses, como forma de agrado a sua autoimagem, baseados em sentimentos de grandeza e práticas cotidianas autoritárias, com baixíssimo grau de civilidade burguesa. A burguesia cearense é composta por machos e suas mulheres em situação de subalternidade intensiva. Bons modos da civilidade burguesa típica ideal são rejeitados como coisa de baitola (termo homofóbico corrente). Nesse contexto cultural, evitar a mistura, não se misturar, não andar em ambientes misturados, desprezar e tornar invisível quem mora em periferia, favela, bairro pobre, lugares de mundiça (corruptela de imundície cujo uso nativo produz uma referenciação ao povão), são recomendações que as redes familiares da elite fazem aos seus rebentos para que aprendam a navegar na cidade como senhores, doutores, empresários, donos da situação, entre outros signos de distinção e poder agenciados nesse processo de subjetivação dos ricos em busca de mais sucesso, poder e dinheiro. Não é então que segmentos das camadas populares recebem de supetão o aviso, em tom de ameaça, de que serão removidos mais uma vez, entre as tantas remoções que marcam a memória social e histórica de suas redes familiares, a fim de que a feiura de suas vidas de pobres não prejudique a maquiagem da cidade para a Copa do Mundo? Estarrecidos, os segmentos populares tentam mobilizar suas bases de resistência e luta políticas. As vinhas da ira sem as vinhas movimentam os sentimentos de milhares. Mas os governos socialistas de Fortaleza e do Ceará reproduzem uma das mais lancinantes ironias da história do capitalismo contemporâneo. Conduzem, como um balcão de negócios, um processo que deveria estar pautado pelo direito democrático à cidade, para dizer o mínimo. Isto lhes valeu até uma repreensão da ONU, recentemente. Todavia, a ironia sem graça, já mundializada, está se repetindo no Ceará, governos autonomeados socialistas são os agentes de realização do caráter excludente da Copa do Mundo, como na África do Sul e alhures. Os discursos requentados, do século 19, sobre progresso a qualquer custo com o devido verniz ideológico da geração de empregos e renda, sempre para o bem da população, tornaram-se apanágios das “preparações” para que a Fortaleza “nobre” e “bela” possa se preparar para receber, com hospitalidade decantada, os representantes comerciais das firmas estrangeiras e nacionais, antes dos turistas, enquanto os segmentos hegemônicos destilam um velho ódio de classe àqueles que resistem contra as remoções cosméticas que reforçam injustiças e desigualdades há quase três séculos praticadas em nossa cidade. A articulação política de socialistas no poder em conluio com os megaempresários que os financiam para garantir a paz sem voz e o medo que quebra a resistência das camadas populares para os investidores dessa grande empresa chamada Copa do Mundo, qual gerentes corporativos, funciona como um sintoma de como a política está sendo esvaziada pelas bandas do Nordeste, como no restante do país, nesses tempos de salve-se quem puder e de dinheiro a qualquer preço. A Copa do Mundo é nossa? Nossa, de quem? Autor: Leonardo Sá* * Sociólogo, pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência e professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará.

Drogas levam ao crime?

Um amigo, para me provar que havia ligação causal direta entre uso de drogas e cometimento de crimes (o que não concordo) quis me provar dizendo que estava numa roda de colegas (empresários, médicos, advogados, contabilistas, executivos, publicitários, professores universitários, etc, todos eleitores de partidos "socialistas" no Ceará) e enquanto bebiam fartamente uísque de primeira qualidade (700 reais a garrafa), ele perguntou quem sonegava impostos, todos levantaram a mão ao mesmo tempo. Realmente, as drogas levam aos crimes, quis ele me convencer com essa evidência empírica. Tenho cada amigo, viu! Desse jeito, os programas policiais vão começar a botar os criminosos de colarinho branco na TV, dizendo: filhos diletos da burguesia e da pequena burguesia, por causa das drogas, viraram vagabundos perigosos e irrecuperáveis? Cadeia neles!!!???

Uso de drogas e ações criminosas

Se até para alguém ser punido por um crime hediondo foi preciso de autorização (pois somos todos consignatários da carta magna e é isso que nos torna possíveis alvos da imputabilidade penal), imagine para fazer coisas que não são crime, como uso recreativo de drogas. Quem praticar crimes, envolvendo ou não uso abusivo de drogas, terá que responder pelos crimes perpetrados perante a justiça. Simples. Essa associação necessária que se faz entre droga e crime numa relação causal é um grande engodo. Não há relação necessária. Há casos empíricos onde a relação é observável, o que mesmo assim passa longe de permitir afirmar alguma relação causal. De modo que pressupor uma relação causal universal (obrigatória e necessária) entre uso de drogas e crimes é uma grande fantasia coletiva, uma crença. Tudo, menos ciência. Viva David Hume! P.S: Antes de comentar: mas todo dia a gente está vendo crimes sendo cometido por causa da drogas! Por favor, antes de comentar isso, leia de novo o que escrevi. Leia com calma. Não aja com o impulso das emoções, mas com a faculdade da razão.

Empresas e trabalhadores, matéria de O Povo (comentário).

Empresas privadas consideram investimento público dos governos "socialistas" para o Pecém insuficiente. A sociedade cearense, de sua parte, considera os investimentos públicos dos governos "socialistas" para a melhoria da qualidade de vida das 900 mil pessoas que vivem em favelas apenas em Fortaleza insuficientes. A prioridade serão a empresa ou a favela? Governo tem pronta resposta e sociedade vem concordando: a empresa, ora, pois gera empregos. Ah tá! Ah tá! Exímios e espertos economistas nos tornamos, não é? Que saudade do bom pensamento econômico crítico! A miopia social do economicismo "socialista" não é apenas neoliberal, é também imoral. Discurso do "progresso" pela geração de empregos é considerado, na Europa e nos EUA, uma piada de mau gosto do século XIX.

Por que hoje é sábado

Aproveite que hoje é sábado e faça amor com quem você deseja. E como há um pouco de domingo nos dias, viva ao sábado e às feiras de desejo.

Charles Bukowski

Não sei por que eu gosto desse loucão do Charles Bukowski. Talvez por que tenhamos uma coisa em comum. Gostamos de Misto-quente.

Allen Ginsberg

Não sei por que eu gosto desse loucão do Allen Ginsberg. Acho que por que temos algo em comum. Gostamos de cumprir religiosamente o ritual da aula ou da leitura pública da palavra escrita.

Freddie Freeloader

Essa música é o bicho! Plena de sentido por todos os lados. Para quem ainda não a escutou, recomendo muitíssimo e para quem já estou duas centenas de vezes, como eu, nos últimos 20 anos, quando fui apresentado a Kind of Blue, também recomendo escutar de novo. Profunda, forte e elevada.

8 de dezembro de 2012.

8 de dezembro de 1980, há 32 anos, eu, criança de 7 anos, chorei horrores, assistindo ao Fantástico, noticiando o assassinato dele. Eu ouvia John Lennon desde o berço. Todos nós ouvíamos. O mundo inteiro. Ainda causa dor essa perda. Já passei o legado de pensamento dele e os repertórios musicais para minha filha. Ela já sabe quem foi John Lennon e poderá passar para novas gerações. Nós temos lado!

A guerra é aqui

Alguém me explica por que, de um lado, o bairro Meireles em Fortaleza tem um IDH de 0,916 (melhor do que o IDH de Holanda, Canadá, Alemanha, Suécia, Suíca, Japão, EUA, Dinamarca, Bélgica, França, etc) e, de outro lado, bem pertinho Serviluz tem um IDH de 0,386 (pior do que o IDH de Afeganistão, Ruanda, Haiti, Timor-Leste, Bangladesh, Iraque, Síria e Palestina, entre outros). Alguém me explica por que depois de 8 anos de governos "socialistas" aliados, da Luizianne com o Cid, os respectivos IDH-M permanecem no mesmo patamar de desigualdade. Ou estou delirando novamente?

Internação compulsória é direito ou é direita?

Sou a favor da internação compulsória por uso de drogas só se for a minha e com minha autorização. Nos outros casos, sou totalmente contra.

Uso de drogas e violência.

Sobre a relação entre uso de drogas e práticas de violência proponho uma leitura diferente da usual ou pelo menos me esforço para fugir da interpretação usual segunda a qual as drogas levam à violência e ao crime. O uso recreativo de substâncias psicoativas potencializam várias coisas. Por exemplo, na esfera social do erotismo, quando as pessoas buscam umas às outras para namorar, elas podem usar vários componentes para potencializar a atração e a mútua sedução. Ler poemas, usar perfumes, ver filmes no cinema, jantar num restaurante pratos com especiarias que causam sensações diferentes na experiência do paladar, ou seja, as atitudes amorosas podem recorrer a vários elementos de potencialização da experiência amorosa e erótica. Ouvir música e também, para algumas pessoas, usar substâncias psicoativas que alteram o estado de consciência podem ser formas, práticas de potencialização do prazer a dois. O "pico" de uma droga (vinho, maconha, etc.) cujo uso é recreativo e para fins eróticos pode convergir com o "pico" de um outro tipo de atividade orgástica, fazendo a potencialização de tudo isso e gerando experiências inesquecíveis para seus praticantes (os amantes). A mesma coisa acontece com as atitudes agressivas que foram socializadas segundo padrões de violência física e simbólica contra os outros. O uso não apenas recreativo, mas abusivo de drogas já é algo que é estimulado pelo padrão masculino em geral de socialização violenta. A droga ilícita ou lícita (álcool e crack, por exemplo) pode se tornar um importante elemento de potencialização da prática de violência induzida pelos padrões de comportamento social inculcados para a violência. O uso abusivo da droga numa experiência sexual, erótica, pode resultar numa overdose e numa tragédia. E o uso abusivo da droga numa experiência agressiva, violenta, pode resultar numa explosão de violência contra si e contra os outros. O problema é o tipo e a natureza da experiência sociocultural que está na base do uso social. O experimentalismo cria mecanismos de auto-controle também. Ou seja, não há nada comprovado que álcool e drogas ilícitas favorecem ações violentas de modo abstrato e em qualquer contexto e condição de socialização. Só há comprovação desse favorecimento em condições sociais específicas bem circunscritas onde padrões de socialização para o uso da violência física e simbólica se fazem presentes como condições de inteligibilidade da relação existente em cada caso concreto. Os países que são os maiores consumidores de drogas ilícitas do mundo não são necessariamente os mais violentos se os padrões de sociabilidade e o grau de intensidade de conflitualidades ocultas não-mediadas por mecanismos sociológicos não-violentos não acompanharem os padrões de consumo tendencialmente abusivo devido a potencialização que o padrão social realiza sobre a droga, sobre o uso da droga, e não o inverso.

Tuesday, November 20, 2012

Estado de Suicídio (variação livre a partir de ideia de Virilio): primeira parte.

Existe um tipo de conforto, de prosperidade e de segurança que se faz às expensas do Outro, uma segurança que funciona como mecanismo de neutralização das capacidades agentivas do Outro. Os novos processos de normalização da vida social despontam como um modo de produção social do inimigo, é à administração do medo em relação ao inimigo interno a que se dirige tal processo, medo que se erige a partir de práticas policiais comezinhas, como aquelas desenvolvidas no cotidiano do espaço urbano em torno das abordagens policiais de suspeitos. Trata-se de meter o terror. A polícia como forma de ação sobre os corpos dos suspeitos que é classificada pelos suspeitos como um ato de meter o terror e pelos policiais como uma forma de amaciar o vagabundo, essa figura genérica de destituição do Outro e de sua neutralização como suspeito. As situações de exceção precipitam o exercício permanente de um poder policial que provoca um efeito mais geral de insegurança, pois faz do suspeito, do vagabundo, um dado, algo dado na vida social da cidade, o que, por sua vez, naturaliza a presença da polícia. A neutralização é um modo de desrealização do Outro, nadificar o Outro, fazê-lo um ex-habitante de um espaço, e para que esse espaço possa produzir esse efeito de aniquilamento, o espaço aniquilado precisou antes funcionar como o espaço do medo que é corolário do medo do espaço. Trata-se de fazer brotar um anti-mundo. Um sistema arruinado, apenas onde angústia, obsessão e, principalmente, paranoia possam subjugar pela sujeição o espírito do evento. Perseguir noções dinâmicas do espaço social, como as formas nômades de socialidade, e realizar a repressão policial às práticas etiquetadas de selvagens são os atos daquilo que torna possível a neutralização do Outro indesejado no espaço urbano. Estruturas de repressão, como cordões sanitários policiados produzindo fronteiras de "violência" e a concentração para fora dessas fronteiras de outras estruturas de serviço que não sejam as policiais, tornam-se abundantes, enquanto a economia do medo catapulta o Outro para fora das fronteiras do humano, fazendo de diversas categorias de pessoas, representantes de ex-humanos. É própria ideia de Estado, como Estado de serviço, que dá lugar a um outro tipo de mecanismo de poder que é o Estado como Estado de assistência, que conduz o tratamento terapêutico da exclusão relacional produzida pelas estruturas de repressão policial que lhe são correlatas e co-extensivas. A geografia administrativa estatal torna-se uma administração do medo. As zonas bombardeadas pelo ataques de desrealização dos outros, tornando-os ex-humanos, funcionam do ponto de vista da assistência, como zonas de abandono e de desprezo.

Wednesday, November 14, 2012

Sobre dependência digital: uma tragédia.

Um amigo me chamou para uma conversa. "Leonardo, preciso falar muito a sério com você, é sobre esse tal de Facebook". Eu já fiquei puto. Toda vez que alguém vem falar da minha cachaça, do meu defeito, do meu Facebook, fico logo armado, não é? Mas como o sujeito é muito amigo, deixei-o continuar com seu proselitismo. "Você está viciado, isto é uma dependência digital, Leonardo!" e etc. Ele interrompeu a conversa quatro vezes para atender o telefone celular, levantando para perto da gigantesca TV que ele mantém na sala de casa, enquanto eu o escutava com todo o respeito e silêncio. Ao final do papo, ele me perguntou se eu não queria uma carona. Eu aceitei. Em determinado momento, ele me perguntou se eu não ia dizer nada, se eu ia ficar calado, ao que lhe retorqui. "Não uso celular, nem TV, nem automóvel e você quer me tirar o Facebook? Nunca ouviu falar em alegria de pobre? Antes era sexo, agora é Facebook, meu caro!"

Tuesday, November 13, 2012

Entre as brutalidades dos embrutecidos.

UMA SOCIEDADE SE TORNA REFÉM DO MEDO, DO ÓDIO E DAS ATROCIDADES. De um lado, policiais embrutecidos pela negação sistemática de seus direitos, embrutecidos pelo sistema do militarismo, incitados por parte do oficialato que ainda alimenta mentalidade autoritária de que a "polícia" é a que mata em nome do Estado, revoltados com assassinatos em serviço ou fora de serviço de colegas de farda, sentindo-se acuados por todos os lados, muitos com problemas de saúde, muitos alcoolistas, com problemas de dependência química que são tratados pelos superiores não como assunto de saúde, mas que são punidos e cada vez mais punidos. Policiais com convívio familiar abaixo de zero. Famílias sendo desfeitas por falta de convívio. Baixos salários, convívio com práticas desumanas por parte de todo tipo de crime, o que agrava visões negativas e pessimistas da natureza humana, há policiais que se apercebem cercados de "monstros" por todos os lados, e muitas vezes o "monstro" é um colega de farda, é um superior fora de si, humilhando todo mundo, é a perseguição sofrida pelas cúpulas, direcionada àqueles que ousam denunciar péssimas condições de vida e de trabalho ou questionar o que quer que seja. O policial brasileiro vive em condições laborais e de vida que são embrutecedoras. E parece que o Estado e seus governantes provocam isso, querem produzir policiais suicidas, policiais homicidas, policiais violentos. A "guerra" como missão da polícia está sendo fomentada por superiores e acompanhada pela omissão dos governantes e da sociedade civil. De outro, criminosos que também foram produzidos por condições embrutecedoras, prisões infernais, tortura, mortes, assassinatos, e que também compartilham visões negativas e pessimistas da natureza humana. Além de compartilharem tragédias familiares e perdas semelhantes às dos policiais. A vida embrutecedora "do crime", o risco de morte, a luta pela supremacia, a ameaça constante da guerra entre ladrões, as lutas faccionais e a guerra contra a polícia. Os policiais somos nós e os criminosos também somos nós, não adiante a gente tapar o sol com a peneira, a guerra é nossa, o que não quer dizer que seja inevitável e desejável. Ela é socialmente a nossa guerra. O tentativa de apresentar essa "guerra" como algo isolado, como se os governantes e a sociedade não tivessem nada a ver com ela é o principal efeito que se quer obter. Efeito de dominação, afinal, quando as "elites" não possuem mais modelo societário a propor, para não deixar que a população perceba essa crise de modelo, nada melhor do que o sentimento de guerra de todos contra todos para justificar o Estado autoritário que impõe uma ordem de coisas que se expressa como puro desejo de morte. E o desejo do Estado matador tornou-se o desejo de morte da morte. Ceder aos apelos de ódio, medo e morte contra a morte é a iniquidade que os segmentos inescrupulosos que nos governam querem para se perpetuarem na condição de governantes. Governantes embrutecidos agem para nos embrutecer e assim justificar que o embrutecimento é a condição "natural" da vida. Atenção máxima é pouca. Reflexão mínima já é alguma coisa.

Monday, November 12, 2012

É tempo de reflexão, também!

Por denunciarem crimes contra a população, promotores de justiça podem ser considerados progressistas defensores de direitos civis do povo? O processo de civilização e consolidação do direito, do qual a paz social é um elemento basilar, faz parte da missão do Ministério Público? A democracia é uma missão do MP? Defender direitos civis e o progresso da moral, da razão e da civilização é missão do MP? Então, me digam, por favor, o que quer dizer quando um promotor de justiça escreve que "no quesito segurança temos uma polícia acuada e vigiada por setores que se intitulam progressistas e defensores de direitos civis" (Sr. Walter Filho, promotor de justiça do Estado do Ceará, no jornal O Povo de hoje)? Pelo que eu saiba, nossos colegas policiais são por lei defensores dos direitos civis, não? Ou a polícia pode ser polícia, segundo nossa constituição, sem respeitar direitos civis? Ou se pode promover a paz social, como base da civilização e do império da Lei, sem buscar de modo progressista a superação das sociedades do Antigo Regime, baseadas na opressão e no desrespeito às liberdades individuais? Não tenho nada contra a pessoa do Sr. Walter Filho, mas o artigo de hoje É tempo de violência!, no jornal, está muito apressado em encontrar culpados. Dizer que segmentos progressistas e defensores de direitos civis estão acuando a polícia é afirmar que a polícia deve ser anti-progressista e contra direitos civis, isso é inconstitucional, não? Que ele não me leve a mal pela crítica. Mas sem crítica não há democracia, não é? E Ministério Público é a instituição basilar da democracia, não é isso?

Friday, November 02, 2012

Sobre memória e esquecimento na política fortalezense.

Será que o PT cearense esqueceu completamente a quem foi que o partido confiou a central e decisiva posição de Coordenador Geral da campanha da Dilma no Ceará? Será que o PT cearense esqueceu completamente que foi um deputado do PT, do grupo da prefeita, quem fez a defesa mais calorosa e incisiva do escândalo dos consignados no governo do Estado, abafando completamente as denúncias de Heitor Ferrer, fazendo uma operação de neutralização da apuração das denúncias graves e bem documentadas, protegendo assim o governador e, principalmente, o ex-Coordenador Geral da campanha da Dilma no Ceará? Será que o PT esqueceu que a prefeita e seu grupo tentaram até o último momento e com todas as forças evitar a ruptura da aliança? Afinal, quem rompeu foi o PSB, o PT não queria a ruptura. Se não queria a ruptura, era por que considerava a aliança politicamente fundamental, então, não há nenhum sentido em fazer oposição ao Roberto Cláudio. Oposição apenas por birra? Por não saber perder e reconhecer uma derrota política? Oposição por ter perdido a máquina? Oposição por ocasião? Elmano foi conversar com Ivo Gomes e companhia para pedir que a aliança não fosse rompida, que ele fosse apoiado pelo Cid, por que então o candidato do Cid, o Roberto Cláudio, não tem legitimidade diante do grupo da prefeita? Ele representa o projeto político com o qual o PT queria com unhas e dentes se agarrar, com o qual não queria em hipótese nenhuma romper. Roberto Cláudio é o candidato do PT. Perguntem ao Arthur Bruno, ao Guimarães, ao Nelson Martins, ao Prof. Pinheiro, ao Camilo Santana, etc. se Roberto Cláudio é ou não é o candidato do PT no Ceará e em Fortaleza. Recentemente, no após derrota do Elmano, conversando com uma importante liderança petista, um papo informal, esta liderança, que não é do grupo da prefeita, disse que tudo tinha ficado muito difícil. Confidenciou-me que a rejeição ideológica do grupo da prefeita a manter relações com segmentos intelectuais das classes médias tinha sido um dos fatores da perda. O anti-intelectualismo ferrenho do grupo da prefeita que nomeia de "burguês" ou "pequeno burguês" qualquer um que cheire a "intelectual" afastou segmentos importantes do campo de diálogo. O preconceito de classe de baixo para cima também cria embaraços políticos. Os próprios intelectuais do PT ficam acuados diante do anti-intelectualismo do "pela força do povo". Será que um dia conseguiremos ouvir uma auto-crítica da prefeita, um só que seja, uma, ao menos uma? De qualquer modo, estou escrevendo essa nota para dizer que nós não esquecemos quem consolidou os Ferreira Gomes em Fortaleza. A vitória de Roberto Cláudio foi na exata medida da derrota política daqueles que realizaram essa consolidação, excluindo para isso os compromissos anteriormente assumidos com as bandeiras históricas dos movimentos sociais. O Orçamento Participativo que, por princípio, é algo que nos implica a todos e a todas, teve como principal efeito o esfacelamento da força dos movimentos populares. E o desejo politicamente investido pelo PT de que o bom é ser classe média, alimentou na classe média já estabelecida o sentimento de que o Partido dos Trabalhadores havia se tornado um competidor no mercado das oportunidades das camadas médias, portanto, competidor deve ser tratado como tal, e ser derrotado com as armas daquilo que apregoam como sendo o objetivo: tornar-se classe média. Ocorre que se tornar classe média é se tornar intelectual. É consumir aquilo que os segmentos intelectuais consomem. Ou seja, querer derrotar a classe média estabelecida sem formar alianças com segmentos intelectuais (médicos, advogados, etc.) de classe média não explica tudo, mas pode ser tratado como um indício de que o anti-intelectualismo pró-classe média sem intelectuais do grupo da prefeita terá de ser repensado, ou seja, terá de ser refletido pelos intelectuais orgânicos da "revolução socialista". A derrota foi de todos e de todas que não abriram mão do compromisso histórico com a democracia real. Saudações libertárias! E um tranquilo dia de finados para todos e todas (estou me referindo aos mortos, às almas dos mortos, que descansem em paz).

Thursday, November 01, 2012

O imbróglio da compra de votos nas eleições em Fortaleza: uma reflexão antropológica.

Não concordo muito com as análises segundo as quais os votos de uma eleição foram comprados, pois não há ato humano que não seja expressão de uma convicção, nem que esta seja a de uma crença no esvaziamento do próprio sentido de qualquer convicção. Atos de compra engajam atos de consumo que, por sua vez, expressam sentidos. Um tipo de convicção negativa sobre o sentido total da experiência humana que é uma marca forte das formas conservantistas de pensar funciona desse modo. Portanto, o pessimismo é uma forma de convicção, do mesmo jeito que a valorização da moeda também o é. Inclusive, há perspectivas que veem no uso do dinheiro um fator de liberdade humana, apesar de eu não concordar com isso, do ponto de vista pessoal, mas é digno de nota, do ponto de vista analítico. Não se trata de defender uma relativismo moral, nem um relativismo niilista, minha ponderação vai no sentido de questionar que o significado das práticas do que chamamos de "compra de votos" não é exato, mas sim polissêmico, circunstancial e contingencial. O significado do voto não é anulado, suprimido, por que houve alguma transação monetária de tipo ilegal dando suporte à adesão pelo voto a um projeto de poder político. Por exemplo, o ato de "compra de votos" quando praticado com convicção pela militância A, causando horror na militância B, não é visto por A como compra de votos, mas quando a militância B pratica algo semelhante com a mesma convicção e, em vez de se aliar com as forças de A, faz oposição a elas, como adversário, a militância A passa a nomear de compra de votos aquilo que ela própria realizou sob essa imprecação por parte de C ou D, quando A e B estavam aliados fazendo o que estão fazendo separados num momento posterior. Isso quer dizer que é tudo igual e indiferente? Claro que não, mas, certamente, podemos observar que práticas de uso de moedas para remunerar eleitores são classificadas como compra de voto quando são as práticas ilegais dos Outros. As "nossas" práticas ilegais de remuneração de eleitores, realizadas com moedas diversas, não são classificadas assim, pois isso geraria uma auto-depreciação de nós mesmos. Nas eleições em Fortaleza, houve abuso do poder econômico e práticas ilegais de compra de votos? Sim, parece que sim, há muitas evidências sendo alardeadas. Mas, nas duas últimas eleições, quando PT e PSB estavam aliados, as eleições foram marcadas pela ausência disso? Não, parece que não, há muitas evidências que já foram alardeadas. Todo ato humano por mais sórdido e avacalhado que possa aparecer aos olhos de adversários é um ato humano de convicção, nem que seja a força de uma convicção que afirma o humano como algo essencialmente sórdido e avacalhado.

Saturday, October 20, 2012

Uma carta aberta aos servidores públicos de segurança.

Emoções são portadoras de julgamentos movidos por ódio, raiva, medo...Quando forças policiais se tornam emocionais diante da absurda violência dos criminosos, corre-se o risco de elas agirem de modo criminoso. Legalidade democrática, autocontrole e consciência da missão de paz, e não de guerra, precisam sobressair, mesmo nos momentos difíceis de perda, dor e sofrimento. Se policiais se sentirem impotentes, desassistidos e desprezados pela sociedade e pelo Estado, diante da guerra suja que se instaurou entre o crime e a polícia no Brasil, este evento poderá ser catalisador da pior desrealização do Estado Democrático de Direito no nosso país. A expressão de raiva, de ódio, a vontade de vingança, de extravasar o lugar humilhante que a sociedade e o Estado vem reservando para o policial, negando-lhe direitos de cidadania plena, isso tudo é um barril de pólvora que pode resultar numa tragédia ainda mais grave do que já está a ocorrer. Nossa solidariedade diante do assassinato de policiais é decisiva, mas também é decisiva nossa adesão à concepção da missão cidadã da polícia, como um dos instrumentos de controle democrático do crime. Ocorre que sem política de segurança pública, a polícia fica isolada, agindo sob demanda, "enxugando gelo", como já me confidenciaram alguns policiais a respeito de seu sentimento diante do atual quadro de violência. A violência armada criminal de grupos criminosos contra a sociedade e contra forças policiais é inadmissível e intolerável, mas, o autocontrole precisa ser mantido em nome da Lei, pois o desencadeamento da violência policial extralegal de cunho punitivo e vingativo, alimentando por práticas de tortura e de extermínio, contra criminosos violentos fará da polícia um grupo de criminosos violentos ainda mais perigoso pois detentor da função pública legal de promover a paz social, a missão não é a guerra de todos contra todos, a missão é a paz democrática. Com solidariedade aos policiais que tombaram no cumprimento legal, profissional e democrático da missão de policiamento de uma sociedade absurdamente injusta, desigual e individualista, lançamos o apelo para que policiais parem de nas redes sociais, e entre si, incitar população à violência extra-jurídica, extra-legal, portanto criminosa, de tipo vingativo contra os "inimigos". Não será a lógica da guerra "suja" contra o "inimigo interno" que irá trazer a dignidade esperada por todos nós para a condição de vida dos policiais e das policiais que arriscam suas vidas no dia a dia da sociedade brasileira. Com respeito e apreço, De servidor público para servidor público, Leonardo Sá Laboratório de Estudos da Violência. Departamento de Ciências Sociais Universidade Federal do Ceará INCT Violência, Democracia e Segurança Cidadã.

Paixão por Monsieur Le Fouchs.

Ontem pela manhã, no curso de Ciências Sociais, iniciamos um debate instigante com o nome de Foucault. No ano passado, comemorei em silêncio os 50 anos de Folie et déraison. Um silêncio preparatório, propiciatório, para a retomada incansável de uma obra que funciona como uma granada de mão que por descuido, inépcia mesmo, deixamos o pino cair, pois não tínhamos a menor intenção de lança-la. Na disciplina Tópico Especial em Sociologia IV, Introdução ao pensamento de Michel Foucault, pusemos Foucault novamente deitado, de peito cortado a navalhadas, no centro da sala de aula. E amamos Foucault, nos deliciamos com seu corpo bruto, agressivo, impertinente, clandestino envergonhado e genial. De 8h às 12h, Foucault emergiu não como fantasma de grupo, mas como um santo, tal qual Saint Genet, de Sartre, e nos pusemos a burilar o pensamento dessa transgressão reversa que fez nascer a História da loucura. Estamos ainda tateando. Esperando as cicatrizes do corpo de fuchs sararem. De 14h às 18h, agora em Teoria Sociológica II, depois da exposição maravilhosa da Andréa Leão sobre Norbert Elias, retomamos em nossas mãos as chagas abertas do santo Foucault, vamos reler História da loucura, fazendo a arqueologia de um texto que é um corpo, que não cabe no próprio texto, um anti-Derrida, certamente. Impregnado das aulas de ontem, escrevi uma notinha rápida aí para alimentar o debate com a galera massa da graduação e da pós-graduação que está ligada no início dessas aulas que são mais queridas pelo bem querer caloroso desses pequenos bandos de anormais que somos nós. A experiência é palavra solta no vento. A linha tensa, retesada, que suporta o objeto da experiência é um elemento cortante. Não basta sentir a possibilidade de uma quebra, a chance de que o objeto da experiência despenque do alto onde a firmeza é quase um evento incrível. Um certo peso recobre a mão. Uma certa leveza dirigível parece preconizar que tudo não passa de uma brincadeira. As lufadas se lançam contra tudo isso, indiferentes à existência do objeto, movendo-se por si mesmas, cumprindo suas próprias rotações, mas é como se tudo fosse cosmológica e intencionalmente posto para nossa experiência do objeto flutuante. O que esvoaça em nós nesse objeto frágil que paira, por vezes inerte, outrora deitado no abraço, como ferramenta de trabalho, depois de tudo, como ação livre, desprendido das mãos que o manipularam como mãos de artesão, e que, por vezes, da inércia absoluta, com seu peso e sua tensão, explode, joga-se no abismo e mergulha de testa, precipitando a frágil estrutura do objeto da experiência na mais dura dinâmica da coisa em si, na pedra, no asfalto, no chão duro, na terra batida ou simplesmente nas areias das dunas que de tão móveis semelham cortar a estrutura ao meio. E nesse ir e vir do objeto lançado ao vento, tal qual palavra de profecia, quem é ponta e quem é linha? O limite deixa de ser a ligação entre dois pontos. Nem o sujeito da experiência, nem o objeto que teima em lhe negar a precedência podem nos dizer algo sobre a tensão, quase musical, e sempre cortante, da experiência enquanto gesto de auto-posição do próprio limite. E o que desponta no limite, portando em si mesmo, causando a própria potência desse limite? Ou não haveria nada a causar, a causer, talvez, mas sem princípio, sem axioma, o único a priori, portanto, sendo o próprio limite cortante, e o acontecer do limite que se elabora pelo seu gesto. Seja o gesto do limite que explode nossa consciência, ou do gesto do limite que jamais consegue preceder a Lei, mas foge dela, acossado, em desespero de língua, de fuga de código, ou o gesto dos limites da nossa inescapável linguagem. O que faz do riso um elemento do sacrifício do eu, ou do êxtase um elemento de dispersão do sujeito, ou da comunicação um modo de aparência que nada manifesta, que não esconde, que não oculta nenhum conteúdo, mas apenas os mecanismos de ocultamento, enfim, o que seria desse riso quando se nos dirige, como um grito, como uma voz de recusa, um apelo de morte contra o absoluto, contra aquilo que nos precederia desde o sempre? Apenas contestação, sem escândalo, nem subversão? "La transgression est un geste qui concerne la limite; c'est là, en cette minceur de la ligne, que se manifeste l'éclair de son passage, mais peut-être aussi sa trajectoire en sa totalité, son origine même. Le trai qu'elle croise pourrait bien être tout son espace" (Michel Foucault).

Nem escândalo, nem subversão.

A experiência é palavra solta no vento. A linha tensa, retesada, que suporta o objeto da experiência é um elemento cortante. Não basta sentir a possibilidade de uma quebra, a chance de que o objeto da experiência despenque do alto onde a firmeza é quase um evento incrível. Um certo peso recobre a mão. Uma certa leveza dirigível parece preconizar que tudo não passa de uma brincadeira. As lufadas se lançam contra tudo isso, indiferentes à existência do objeto, movendo-se por si mesmas, cumprindo suas próprias rotações, mas é como se tudo fosse cosmológica e intencionalmente posto para nossa experiência do objeto flutuante. O que esvoaça em nós nesse objeto frágil que paira, por vezes inerte, outrora deitado no abraço, como ferramenta de trabalho, depois de tudo, como ação livre, desprendido das mãos que o manipularam como mãos de artesão, e que, por vezes, da inércia absoluta, com seu peso e sua tensão, explode, joga-se no abismo e mergulha de testa, precipitando a frágil estrutura do objeto da experiência na mais dura dinâmica da coisa em si, na pedra, no asfalto, no chão duro, na terra batida ou simplesmente nas areias das dunas que de tão móveis semelham cortar a estrutura ao meio. E nesse ir e vir do objeto lançado ao vento, tal qual palavra de profecia, quem é ponta e quem é linha? O limite deixa de ser a ligação entre dois pontos. Nem o sujeito da experiência, nem o objeto que teima em lhe negar a precedência podem nos dizer algo sobre a tensão, quase musical, e sempre cortante, da experiência enquanto gesto de auto-posição do próprio limite. E o que desponta no limite, portando em si mesmo, causando a própria potência desse limite? Ou não haveria nada a causar, a causer, talvez, mas sem princípio, sem axioma, o único a priori, portanto, sendo o próprio limite cortante, e o acontecer do limite que se elabora pelo seu gesto. Seja o gesto do limite que explode nossa consciência, ou do gesto do limite que jamais consegue preceder a Lei, mas foge dela, acossado, em desespero de língua, de fuga de código, ou o gesto dos limites da nossa inescapável linguagem. O que faz do riso um elemento do sacrifício do eu, ou do êxtase um elemento de dispersão do sujeito, ou da comunicação um modo de aparência que nada manifesta, que não esconde, que não oculta nenhum conteúdo, mas apenas os mecanismos de ocultamento, enfim, o que seria desse riso quando se nos dirige, como um grito, como uma voz de recusa, um apelo de morte contra o absoluto, contra aquilo que nos precederia desde o sempre? Apenas contestação, sem escândalo, nem subversão? "La transgression est un geste qui concerne la limite; c'est là, en cette minceur de la ligne, que se manifeste l'éclair de son passage, mais peut-être aussi sa trajectoire en sa totalité, son origine même. Le trai qu'elle croise pourrait bien être tout son espace" (Michel Foucault).

Thursday, October 18, 2012

Quando é oportuna a denúncia e quando é oportuna a cumplicidade com os desmandos dos poderosos?

É tão interessante acompanhar a militância petista, fazendo denúncias contra o governo Cid, pois ficam requentando denúncias que as oposições fizeram, exatamente, nos mesmos termos, quando o PT estava aliado com Cid e defendendo com todas as forças, blindando de todas as maneiras, armado até os dentes, para impedir que qualquer crítica atingisse a imagem de "progresso" representada pela aliança PT-PSB. A lealdade de alguns líderes petistas ao Cid foi canina, foi lealdade cega mesmo, foi o PT quem blindou o Arialdo Pinho na Assembléia Legislativa, impedindo a apuração do escândalo dos consignados, aliás, protegendo o ex-Coordenador Geral da Campanha da Dilma no Ceará. Foi o PT quem isolou Heitor Férrer, quando este apresentou diversas críticas e denúncias contra o governador. Foi o PT quem fez a campanha do Cid em Fortaleza, sendo decisiva esta ação para a consolidação da concentração de poder da nova oligarquia. O que Camilo Santana, José Nobre Guimarães, Nelson Martins, e muitos outros tem a dizer sobre a onda de denúncias gravíssimas que a militância petista, antes silenciosa e auto-silenciada, está agora fazendo contra os Ferreira Gomes? Tanto Elmano, quanto Roberto Cláudio são representantes de um mesmo projeto. A briga foi circunstancial e política. Não digo que eles são iguais, que eles sejam farinha do mesmo saco, mas são profundamente aliados pelas ideias, pelos propósitos, pelas ações, pelas concepções de desenvolvimento e tudo o mais. O que muda é a história política, a história de poder, que são muito diversas, diferentes. Elmano e o PT são das bases, apesar de terem alianças com segmentos poderosos, mas são das bases gerenciais dos estratos populares e médios baixos. Roberto Cláudio é pelo topo, decididamente, pelo topo. Olha para os pobres de cima para baixo. Elmano olha no olho, como diz seu lema de campanha. Fortaleza Insurgente vota nulo para afirmar o desejo por uma nova política. É um voto nulo do sim, um voto nulo para o sim. É um voto 50. 50 vezes três. É um voto 150 mil. E, além do voto, Fortaleza Insurgente, como fórum permanente de coletivos plurais, está refazendo sua própria capilaridade, sua própria heterogeneidade espalhada, que requer fazer a nova política para além das eleições. Essa é a maior vitória que se possa ter, e estamos a comemorá-la. Não somos a favor do quanto pior, melhor. Mas também não somos a favor do menos pior em vez do pior. Essa mediocrização que desqualifica o fazer político é o que combatemos com unhas, dentes e festas, pois agora temos é que festejar, festejar ações de nova política. Saudações libertárias!

Wednesday, October 17, 2012

Conversa imaginária entre Elmano e Roberto Cláudio.

Elmano: E aí, companheiro, chegamos lá, né? Roberto Cláudio: Sim, senhor. E agora? Elmano: Você sabe que eu sou pelo poder popular, né? Roberto Cláudio: E você sabe que eu sou pelo poder do povo, né? Elmano: O ideal então seria tu cuidar do "povo" do Clube Ideal até as Dunas. Tu serias o prefeito por ali, na Regional II e eu o prefeito do Minha Casa, Minha Vida. Que achas? Roberto Cláudio: Seria um sonho, né? Pois aí o poder popular ia ser empurrado para longe das áreas livres de Zeis que as construtoras acordaram com a gente. Se a gente livra de ocupações populares os vazios que estão reservados para os condomínios de luxo que ainda serão construídos, a gente mata dois coelhos com uma cajadada só. Vocês criam um super mercado político com o Minha Casa, Minha Vida, funcionando como um cordão sanitário da segregação socioespacial, para deixar as camadas populares se aglomerando na verticalização das favelas para as bandas da Regional I e II, fechado? Elmano: Mais ou menos fechado. Com a Regional I ninguém mexe, pois o Minha Casa, Minha Vida no Grande Pirambu, com o Vila do Mar, está sendo um sucesso eleitoral e político para a gente. Depois que as construtoras começaram a ajudar a gente, remunerando lideranças comunitárias, ficou melhor. O limite de remuneração que a gente tinha com cargos comissionados e terceirizados já está no céu. O Renato está pegando no pé. Então, se a remuneração para projetos sociais vem direto da construtora, todo mundo ganha, né? A liderança fica "participativa" que é uma beleza. Então, fica lá com a Regional I, que só tem burguesia lá que não nos interessa, queremos mesmo é isolar uns dos outros. O apartheid pode ser uma conquista do campo democrático popular, sabia? Roberto Cláudio: Eu não entendo disso que tu estás falando, não, mas para a gente o que importa é que os bairros dos ricos se livres daquela cambada de pobres que atrapalham a vida da gente no Meireles, Aldeota, Dunas e adjacências. Por nós, a gente mandava era plantar batata lá depois do cemitério do Bom Jardim, que a terra está bem fértil, pois como explicou o Capitão Wagner por esses dias os grupos de extermínio da PM do Cid estão botando pra quebrar em cima dos vagabundos, vai faltar é terra para enterrar, mas de arranjar terra e ocupar novas terras, isso aí é com você que é do MST. De qualquer modo, é melhor mesmo que vocês cuidem das pessoas como Lula ensinou, botando lá pros cafundós, vamos remover essas favelas tudo, né, Elmano, essas favelas atrapalhando a vida da gente na Regional I? Combinado? Elmano: Combinado em parte. A gente remove esse povo todo mas não é para fazer essa política nojenta e fascista de vocês da burguesia não, Robertinho. Nós cuidamos das pessoas, a gente precisa de dôtorado pra isso não, basta o apoio de vocês que tem dôtorado aí a gente vai levar o poder popular para bem longe da Regional II, pode deixar, mas vamos fazer isso por que com o Minha Casa, Minha vida, o PT vai ficar imbatível nas periferias e vocês ficam seguros por aqui, mas precisam continuar a financiar nossas políticas, caso contrário a gente bota o povão pra ocupar geral aí já viu, né? Tá ligado? Roberto Cláudio: Sim, sim, me liguei. Então vamos lá falar com os chefes, as empresas estão pedindo para a gente resolver logo isso para não atrapalhar demais o andamento dos empreendimentos imobiliários. Eu te amo, Elmano. Só vocês mesmos para conter esse poder popular perigoso e botar o ze povinho pra bem longe da Beira-Mar. Vamos para a vitória!

Tuesday, October 09, 2012

Meu amor proibido pelo PT

Ou, se preferirem, sobre minha vontade de ser mais reformista do que já sou. Eu tenho tanto amor pelo PT, sem jamais ter sido do PT, é impressionante como os sentimentos são duradouros, não é? Não consigo passar um dia sequer da minha existência sem criticar o PT, não é amor grande não? Desde de 1988 que a gente faz oposição ao PT, não é Liduina Rocha? Oposição calorosa e estridente. Fiz todas as eleições do Lula, voto crítico. A eleição de 1989 foi uma maravilha. Fomos para a construção civil e chegando lá todo mundo já era Lula desde criancinha, não precisamos nem panfletar no dia anterior à votação. Encontrei com o Lula várias vezes. Na UFC, no Cais Bar, nos comícios, chorava de emoção, como todo mundo. A meu ver, o PT nunca se traiu. Continua com a mesma proposta desde 1988. A ruptura foi lá atrás. Nesse ponto concordo com os dirigentes do PSTU que fazem muito bem essa análise. Dizer que o PT mudou com a eleição do Lula, não creio que tenha mudado, já era o PT atual. Agora, a partir do momento, que as militâncias do PT (não todas) começam a confundir avanços do campo democrático popular (que não é propriedade do PT, apesar do PT ter liderado o processo historicamente falando), então, como ia dizendo, quando as militâncias petistas (algumas e que são poderosas dentro do partido) começam a confundir a integração marginal de indivíduos, a integração subalterna de indivíduos, fazendo o elogio das terapêuticas sociais da exclusão, adotando um pensamento economicamente neoliberal e em muitos casos anti-liberalismo político e essa crença absurda no "progresso" a qualquer custo como superação da exclusão e, finalmente, quando começaram a despejar ressentimentos contra tudo ou todos que cheirassem a "intelectual" metido a "revolucionário", desqualificando trajetos de militâncias com a palavra fácil da desqualificação desse tipo: coisa de intelectual...Ora, era no PT onde estavam historicamente as coisas de intelectual, e era uma maravilha que assim fosse. Ir para o Estoril conversar com os artistas e os intelectuais do PT era um prazer e uma aprendizagem enorme. Por que criou-se raiva de artista e intelectual por parte de alumas militâncias petistas (as hegemônicas no partido)? Enfim, já que estou falando desse amor proibido, venho dizer para vocês que vou superar o embate histórico de oposição que tínhamos com a Democracia Socialista e vou me filiar ao PSOL. Já que é um partido tão parecido com o PT, como todos dizem e reconhecem, vamos então começar a bater forte no PSOL, bater forte em nós mesmos, pois no plano nacional as coisas não estão tão legais quanto poderiam ser, quem sabe a gente possa fazer do Ceará uma campo de experimentação mais ousado do que já está sendo nesse novo cenário onde a tendência ao peleguismo é quase atávica. Como reativar as forças anti-capitalistas e anti-fascistas de modo a não cedermos nós mesmos ao caminho fácil das eleições, da democracia representativa liberal, das políticas públicas para as periferias como forma de terapia para os pobres, de inclusão marginal em mercados assalariados precários e subalternos na dinâmica do capital contemporâneo, enfim, como fazer novas revoltas que possam dar continuidade às lutas de um outro mundo possível já que nada é impossível de mudar. Saudações libertárias! E perdoem as sinceridades e brincadeiras. Sem humor e auto-ironia, a gente vai brigar é feio, né? Mas mais feio do que já está, só dois feios juntos, o roto e o mal-falado.