Tuesday, December 25, 2012

Qual puta velha! (reescrita)

Houve tempo em que me considerava alguém sem compaixão. Detestava, nas minhas primeiras e frágeis leituras de Nietzsche, qualquer sensibilidade que se dispusesse nesse termo. Eu fazia um joguinho de cena em torno disso, um charme. Girava nos próprios calcanhares e lançava um olha de esguelha, um teatro, uma péssima encenação, coisa de bêbado, era uma afetação só, e o único e besta intuito dessa manobra era mostrar-me incapaz de aderir ao fácil e falso sentido humano da comiseração. A quem ousasse abrir um pouquinho que fosse de seu espaço desconhecido, e carente, baixasse a guarda, clamando por piedade, era este o momento triunfal do ato de sacrifício e perda do outro. Não havia vez para os fracos. Éramos todos boçais. Eu me sentia quase implacável, distribuía moralidade pérfida de um modo tão exemplar que os amigos titubeavam em me pedir para ficar ou sair da mesa de bar onde estávamos abancados a fios de horas sem contas nos banhando desbragadamente de todo tipo de bebericagem. Alguém pedir minha conta era um motivo de quase ruptura da amizade, virava um trovão. "Quer ir embora, poeta? Vá em boa hora, desgraçado! Vai perturbar o cão! Faça o favor!", eu defendia minha cerveja gelada até a alvorada sem nenhuma peia de aflição, era todo interjeições. Quem se interpusesse entre mim e o mar, no Cais Bar, no Gets da Sandra Gentil, no Estoril, na G2 ou na Cabumba, na Cafua, corria sério risco de morte, de perder pelo menos um dedo ou a ponta de uma orelha mordida. Afinal, uma traição só poderia ser punida com a morte ou desterro. A pena capital era a invisibilidade. Ostracismo para os chatos. Eu queria ser cruel, quando tinha 19 anos. Como eu era tolo! Hoje, depois de ter me esmerado no ato de cuidar de quem precisa de tudo, cuidar de quem vive nas zonas do abandono, eu próprio, faltam-me forças para manter-me indiscernível nessas intermediárias da vida onde as garças dançam. Prefiro passar a bola e assumir um sentido mais senil da existência, mais derrotado, mais alheio, acompanhando um ou outro passarinho pousar na janela do escritório onde escrevo o dia inteiro, tomando sucos especialmente preparados para adocicar sem açúcar artificial os meus dias, apenas o açúcar das frutas (destilado). Expectativas tenho muitas, é claro, venho a ser pós-estrutural após tamanha desfaçatez e embriaguez juvenil, procuro ainda uma casa, procuro ainda uma família, procuro ainda um amor, afinal, quem para de procurar se torna desinteressante para a casa, a família e o amor que lhe sustém os vícios de caráter e lhe traz algum pejo de superar a desesperança. Adoro aquele livrinho do Steinbeck, chamado O inverno da nossa desesperança, e, como preconizava Heinrich Heine, citado numa magnífica nota de rodapé por Freud, a nota de número 17 de Mal-estar na civilização: "Tenho a mais pacífica disposição. Meus desejos são: uma modesta cabana com teto de palha, mas uma boa cama, boa comida, leite e manteiga bem frescos, flores diante da janela, em frente à porta algumas belas árvores e, se o bom Deus quiser me tornar inteiramente feliz, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos serem enforcados nessas árvores. De coração tocado eu lhes perdoarei, em sua morte, todo o mal que na vida me fizeram — pois devemos perdoar nossos inimigos, mas não antes de serem executados". Quem são meus inimigos? Ninguém mais do que eu mesmo, o destruidor de meus próprios sonhos, pisando na própria capacidade de sonhar como se estivesse pisando na cabeça de uma barata que não tenha morrido da primeira lapada. Sequer me importo que me atrapalhem a cerveja gelada, como fazem muitas vezes me enviando para o pijama. Estou que nem puta velha. Vendo cafezinho para os antigos clientes, talvez em troca de uma palavra amiga, de uma saudação calorosa, um aceno, talvez, mesmo que distante. Acreditem! Como é bom sentir o peso da idade e não sentir saudade nenhuma de quem se foi. A proximidade com a morte faz bem aos sentidos, deixa-nos mais alertas e atentos. E quem precisa de outra coisa na vida, como dizia Goethe, do que estar alerta e atento contra os hábitos? Os móveis cruéis de outrora não me alegram mais. A vitalidade é um péssimo princípio de existência. Existir é um péssimo negócio, aliás.

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